O paradigma etnosimbólico já é aceito por uma parcela de estudiosos do nacionalismo. Entretanto, como em qualquer outro paradigma, existem críticas sobre as mais diversas características deste paradigma. Apresentaremos a seguir algumas destas críticas, sem a intenção de apresentar todos os pontos já criticados ou apresentar respostas para tais críticas. Concordamos, em alguma medida, com parte das críticas feitas, e é através destas, bem como tentativas de responder ou sanar as críticas que o etnosimbolismo tem avançado nos últimos anos.
A primeira crítica diz respeito a uma imagem excessivamente positiva do nacionalismo trazida pelo etnosimbolismo. Há estudiosos que considerem o nacionalismo algo eminentemente negativo, muitas vezes relacionado a regimes totalitários, como o Nazismo, ou ainda com racismo.
Umut Özkirimli (2003) considera que etnosimbolistas são irresponsáveis e inocentes, não demonstram o que sentem, pois, a partir de uma posição de neutralidade política e objetividade científica, adotam uma nostalgia romântica do
passado, e sua análise pode servir de fomento para legitimar a discriminação e a opressão. Para ele o etnosimbolismo é mais uma forma de ressuscitar o passado que explicá-lo. A ‘inocência’ dos etnosimbolistas é caracterizada por não reconhecer a existência de fortes laços étnicos nos países do Ocidente, considerados cívicos.
Neste mesmo sentido, Andreas Wimmer (2008) também vê esse caráter romântico do etnosimbolismo, uma vez que os etnosimbolistas são incapazes de perceber a real importância da política e dos conflitos de interesse que permeiam os debates sobre inclusão e exclusão nacional.
Anthony Smith entende que muitas destas críticas partem da visão hostil ao nacionalismo do trabalho de Kedourie, que considerava o nacionalismo uma ideologia subversiva, um mecanismo que sujeitava a vontade de muitos à vontade de poucos que representavam a nação. Para Smith,
Etnosimbolistas não anseiam por um retorno ao passado ou recomendam isso, mesmo se fosse possível. Pelo contrário, é uma questão de oferecer uma estratégia de pesquisa e programa para entender o apelo generalizado popular de nacionalismo, deixando de lado, na medida do possível, as preferências de valor em favor de uma análise rigorosa (SMITH, 2009, p. 106, tradução nossa).
Outro ponto que geram críticas é acerca das diferenças e entre estado e nação. O nacionalismo é mais que apenas uma ideologia política, e para muitos representa também um tipo particular de cultura. Como já vimos, Connor é um grande crítico que qualquer confusão existente entre os termos estado e nação, nacionalismo representa a lealdade às nações, enquanto que o patriotismo refere-se à lealdade ao estado.
Aceitar a dicotomia de Connor significa a exclusão da possibilidade de se adotar o conceito de Smith de nação. Além disso, a crítica de Guibernau (2004, 2007) trata da mesma questão, pois a autora alega que o conceito falha ao não
conseguir apresentar uma distinção clara entre estado e nação e, também por não englobar a ideia de nações sem estados. Anthony Smith demonstra-se convencido da impossibilidade de se excluir do conceito de nações os elementos políticos existentes na cultura pública, como símbolos públicos, rituais, códigos e valores (SMITH, 2009, p. 110). Da mesma forma, é possível falar na existência de nações sem estados, pois seus membros continuam a ter costumes comuns e compartilham uma cultura pública distinta
A proximidade dos termos estado e nação, entretanto, não significa que os termos sejam sinônimos, ou que a proximidade e confusão entre nação e estado ocorra em todos os elementos característicos da nação. A proximidade dos conceitos ocorre, a partir do conceito de Smith, principalmente no que tange aspectos de cultura pública. Evidentemente que em outros elementos do conceito de nação de Smith há alguma proximidade entre nação e estado, ainda que menor. Já na cultura pública é onde se torna possível perceber essa confusão entre estado e nação. Estender demasiadamente os conceitos de nação e estado é se aproximar demasiadamente do paradigma modernista, notadamente de aspectos de construção da nação.
A relação entre etnicidade e nacionalismo, especialmente etnias e nação, é o núcleo central do etnosimbolismo. Neste âmbito duas críticas são comuns: a insistência no papel central da etnicidade e a diferenciação entre etnia e nação. De fato os laços étnicos têm papel crucial na formação das nações e, em vários casos, nações foram formadas a partir de etnias, mas não necessariamente todos os casos são assim: não há uma correspondência vis-à-vis entre nações e etnias precedentes. Ademais, mesmo que a formação de nações se originasse puramente de aspectos étnicos, como sugere Connor, ainda assim sua formação poderia ser explicada como um resultado de fatores não étnicos. Os etnosimbolistas, notadamente John Armstrong, são perseverantes em dizer que outros elementos, notadamente políticos, impactam a formação da nação (SMITH, 2009, p. 111).
Para se entender a diferenças e fronteiras entre etnia e nação devemos nos remeter uma vez mais aos conceitos. Apesar da dificuldade de se apresentar conceitos precisos nesta seara complexa, uma parcela da ambiguidade existente pode ser atenuada pela distinção entre as duas formas mais comuns do significado de étnico e etnicidade: devemos adotar um termo mais amplo para o étnico e entende-lo como etnocultural, ao invés de restringir o termo apenas a descendência. O que realmente importa para os etnosimbolistas é o mito de descendência ou ancestralidade presumida, e não os laços biológicos existentes (SMITH, 2009, p. 113).
O mito de origem e de descendência é apenas uma parte, embora crucial, do conjunto de mitos, símbolos, memórias, valores e tradições que formam a herança das nações. É crucial porque o patrimônio cultural distintivo da nação é muitas vezes pensado e sentido pelos membros por provir de origens comuns - de tempo, lugar e de parentesco. Por outro lado, na medida em que a população da nação se torna mais variada e culturalmente diferenciada, essa crença e esse sentimento começa a diminuir, e o mito das origens comuns torna-se apenas uma parte do conjunto simbólico, e como ele não pode ser descartado, cede lugar a outros mitos e memórias, como no caso dos Estados Unidos (SMITH, 2009, p. 113, tradução nossa).
Além disso, o próprio conceito de nação e a delimitação dos fenômenos nacionais não esclarecem muito a respeito da diferenciação entre etnia e nação. Na prática, “uma divisão clara e delimitada não pode ser estabelecida entre tais fenômenos cognatos, como é evidente entre as muitas etnias que entraram em dissidência e formaram seus próprio estados nacionais” (SMITH, 2009, p. 113).
Tendemos a concordar com as respostas às críticas. O conceito de nação e estado, bem como as distinções entre nação e etnia muitas vezes estão sobrepostos, mas não acreditamos que sejam falhas da concepção etnosimbólica. A separação entre tais conceitos nos parece ser um exercício teórico muito profícuo, mas que peca por não compreender plenamente as realidades nacionais. A
completa separação entre estado e nação parece impraticável, pois mesmo que a nação não tenha seu próprio estado, alguns elementos deste, como seus símbolos estarão presentes. Quanto a separação entre etnia e nação, entendemos que os elementos culturais de uma etnia também estão numa nação, não é possível a separação entre estes.
Na perspectiva etnosimbólica há traços claros da influência de Walker Connor, responsável por cunhar o termo etnonacionalismo e assumir papel protagonista na análise de aspectos étnicos e culturais, emocionais, na nação. Por esta razão, apresentamos uma breve descrição de seu pensamento acerca do nacionalismo.