6. Empirical Results
6.1 Descriptive Results
O já mencionado (SILVA, 2003, p. 261) Basta observar os mapas da época para perceber que a Rua dos Judeus era de fato a entrada por terra do Recife, no final da qual ficava a Porta da Terra260. Era uma situação única no mundo sob esfera européia: uma sinagoga numa rua principal da cidade. Alguém, dirigindo-se ao istmo, a Olinda e além, ou daí chegando, poderia deparar-se, como uma primeira cena na Praça do Recife, com um grupo de judeus “fazendo seus ritos e cerimônias,
ajuntando-se três vezes no dia” (SILVA, 2003, p. 261). 261
O prédio da sinagoga atraía uma pequena multidão que se destacava esteticamente pelas roupas exclusivas para culto. Desta forma, ela emanava uma projeção espacial que englobava corpos engajados no aspecto sagrado da vivência
257
ATAS DAS CLASSES, 1993, p. 243
258
ATAS DAS CLASSES, 1993, p. 208.
259
DNJH 18/01/1641.
260
Ver Anexo 7, nº 8.1 e nº 8.2; e Anexo 10
261
O já citado Diogo Coelho de Albuquerque lembrou da cena de judeus “à porta das ditas sinagogas com seu livro nas mãos, e com a cabeça encoberta como os judeus costumam cobrir, quando entram a fazer as cerimônias da sua lei”. (SILVA, 2003, p. 263)
comunitária. Certamente esta projeção ia de encontro à repreensão do governo, em 1638, para que realizassem seus cultos “tão secretamente que não fossem ouvidos, e não dessem escândalo”. 262 Todavia, em outubro de 1641, a assembléia dos predicantes assinalava o fato de “os Judeus terem construído aqui no Recife uma Sinagoga”263. Tudo indica, portanto, que o prédio da sinagoga tenha sido concluído entre janeiro – data da queixa de que eles se preparavam para fazer uma sinagoga, citada na página anterior – e outubro 1641, e, até então, certamente havia continuado a congregação Zur Israel funcionando numa das casas de Duarte Saraiva. Assim, a proibição, em 1639, da construção de novas sinagogas deve ser interpretada como o estabelecimento de novas congregações (BARLEUS, 1974, p. 327). Mas agora se tratava de um prédio comunitário, e não mais uma congregação em casa particular, indo contra as determinações da WIC. Sub-repticiamente os judeus haviam chegado à organização comunitária necessária para a construção de um edifício com função exclusiva de sinagoga – um prédio ‘público’, portanto. Este fato demonstra não só a coesão interna da comunidade, como sua estabilidade diante do governo da Companhia. Tal como ocorrera em Amsterdam no princípio do século XVII, a saída dos serviços religiosos do âmbito privado para um edifício comunitário foi apaticamente tolerado.264
Não obstante, os judeus precisavam preocupar-se com a interferência deste espaço religioso no espaço público, concomitantes ao respeito à sacralidade do edifício. Os regulamentos da comunidade mencionam multa para os correligionários que se ofendessem ou se agredissem, mencionando em específico que “pelejando à porta de esnoga, pagará de pena fl[orins] 30”. 265 Por outro lado, os próprios diretores da comunidade judaica (o Mahamad) mudaram algumas prescrições dos ritos de uma celebração judaica, por causa da interferência de passantes cristãos na rua. Nas festividades de Simkhat Torah 266, é costume manter as portas da sinagoga abertas e os rolos da Torah fora dos armários, em procissão pelo salão de 262 FHBH1, p. 100-101 263 Idem, p. 218. 264
O governo local da WIC deixou em suspenso queixas sobre a intrusão dos judeus no espaço público, até segunda ordem dos diretores da WIC, o Conselho dos XIX. No registro da queixa de janeiro de 1641, registraram os Altos Conselheiros que “Nós mandamos uma carta muito séria para o Conselho dos 19, por que nós neste caso só podemos intervir e punir de acordo com as ordens da pátria.” (DNJH 15/01/1641). Daí a pouca repercussão das reclamações dos cristãos, devida à distância do conselho deliberador e a influência sobre este da comunidade judaica de Amsterdam, que já possuía, então, três congregações e sinagogas na cidade.
265
HASKAMOT, 1953, p. 222.
266
cerimônias. Mas, no final de 1650, a comunidade decidiu por celebrar Simkhat Torah de portas fechadas. Anotou-se no livro de atas da congregação que isto se devia ao fato de ao se “abrir a esnoga depois de arvit267 [...] ser isto causa de se cometerem descomposturas tanto de Goim268 como dos nossos”, ou seja, a exposição da sinagoga provocou situações de tensão religiosa, levando a comunidade a modificar a tradição, acreditando que com isso “se evita[ria] toda inquietação e escândalo” 269. Apropriações que o espaço faz dos hábitos dos homens.
O espaço interno da sinagoga pode ser parcialmente reconstituído. Nas
Haskamot, o livro de atas da congregação, aparecem alguns detalhes: da bimah
(púlpito) da sinagoga se faziam pronunciamentos de cunho político ou comunitário, como o resultado das eleições do Mahamad270. A sinagoga encarnava, assim, o espaço público da comunidade, dado o contexto do espaço urbano reduzido e híbrido, a ausência de um bairro exclusivamente judaico, e a proibição local de expressão pública do judaísmo. A palavra sinagoga é de origem grega e significa “assembléia” e fora incorporada pelas comunidades judaicas do mundo europeu; as
Haskamot fazem referência a esnoga, corruptela comum aos judeus portugueses.
Mas, em hebraico, a sinagoga chama-se bet ha-tefilah, bet ha-knesset, ou ainda, bet
ha-midrash, traduzidos respectivamente por casa da oração, de reunião e de estudo,
explicitando toda sua funcionalidade como centro comunitário: a kahal tinha significado comunitário e religioso, congregacional; e a sinagoga, por sua vez, era espaço de culto religioso, sociabilidades e educação.
A sinagoga era um espaço com rigorosas regras internas e diversos rituais associados, sob a provável influência do rigoroso rabino Isaac Aboab da Fonseca, futuro excomungador de Baruch Espinoza. Dentro do salão de cerimônias encontravam-se os membros da comunidade para sua comunhão religiosa. O Artigo nº. 23 do regulamento da comunidade sublinhava o tradicional costume judaico de não mudar os assentos dos membros no salão de cerimônias: “nenhuma pessoa se pode mudar do seu assento” sob pena de seis florins ou mais (deliberada pelo
Mahamad) em caso de reincidência. No caso da chegada de novatos na
267
Arvit ou maariv, (do hebraico erev, “anoitecer”). Serviço religioso realizado depois do crepúsculo.
268
Referência a não-judeus. Traduzido comumente por “gentio”.
269
HASKAMOT, 1953, p. 233. A data referida no calendário judaico é 5 de Hesvan (Chesvan) de 5411, em torno de Novembro de 1650. Interessante notar a incorporação do vocábulo “escândalo” para esta regulamentação do espaço público da comunidade.
270
congregação271, “lhe poderá dar assentos seu parente a primeira vez ate se lhe dar
lugar”, e os lugares poderiam ser alterados por ocasião de acréscimo de bancos,
ficando determinada sua disposição pelos ocupantes vizinhos. 272 As Haskamot legislam ainda sobre o comportamento durante as cerimônias, o que indica a fragilidade da formação canônica dos membros da Zur Israel. Assim, proíbem-se “comedias”, “danças” e “explicações de enigmas indecentes”273 e que se levante a voz. Em caso de distúrbio, autorizava-se o Hazam a bater na Tevah (púlpito) para chamar a atenção da congregação. 274
O prédio da sinagoga era de um sobrado, ficando o salão de cerimônias no primeiro andar. No térreo o prédio era dividido no meio, em seu comprimento, por uma parede, possuindo duas alas, ou “lojas”. Cada loja era dividia, também ao comprido, em três cômodos, e tinha uma ante-sala de entrada. Na ala norte esta ante-sala levava aos dois cômodos seguintes. Os três cômodos eram provavelmente usados para reuniões do Mahamad e, talvez, para as aulas de educação religiosa providas pelo Ruby, embora não se tenha um registro documental da localização da escola para crianças, se na sinagoga – bastante provável, segundo o modelo de Amsterdam – ou em algum aposento de um prédio particular. O local foi escavado entre 1999 e 2000 pela equipe do Laboratório de Arqueologia da UFPE, e nestes três cômodos foi encontrada uma tijoleira praticamente intacta, do século XVII, além de vestígios das divisões internas entre os cômodos e das soleiras destas divisões. 275
O piso da sinagoga era feito de tijolos importados dos Países Baixos, dos quais há menção em vários documentos neerlandeses. Estes chegavam como lastro de navios – que voltavam carregados de açúcar – e eram bem vendidos no Recife. 276
Entretanto, na ante-sala da parte sul do prédio, não havia porta para o segundo cômodo da mesma ala, mas somente para a ala norte do edifício. Para chegar neste segundo cômodo da loja sul, dever-se-ia atravessar toda a loja norte e, da terceira sala desta, passar-se ao terceiro cômodo da ala sul e então para o segundo da mesma. Este segundo cômodo da parte sul tinha uma função
271
Os novatos também recebiam a honra de pronunciar orações e ler a Torah no público sem que esperassem por sua vez, dentro do “rodízio” feito entre os congregantes.
272
HASKAMOT, 1953, p. 224-225.
273
Idem, p. 226
274
Idem, p. 227. O Hazam é o cantor litúrgico, condutor de partes das cerimônias judaicas.
275
Ver Anexo 19
276
Pelos números recolhidos dos documentos, a quantidade importada excedeu a cifra de 1.700.000, mas certamente foi bem maior, dado que outros documentos mencionam remessas, mas não as quantidades (MELLO, 1978, p. 79).
fundamental na vida religiosa judaica: abrigava a mikvah, uma piscina para banhos rituais de purificação (uma ablução chamada tevilah), que devem ser feitos pelas mulheres judias após cada período menstrual, e pelos homens, em ocasião da expiação de seus pecados (normalmente anualmente). A mikvah é mencionada indiretamente no artigo 32 das Haskamot277, onde se declara que “Não poderá nenhuma pessoa [...] admitir a tevilah mulher estranha sob pena de ser apartado da nação e pena de florins consoante”. A pena para violação deste espaço sagrado era, portanto, a excomunhão da comunidade.
A mikvah foi também o aparato cultural que permitiu a confirmação da localização do prédio da sinagoga, quando das escavações ali realizadas. O poço interno da casa, que alimentava com a água do rio a piscina ritual, foi encontrado intacto, enquanto que da piscina foram encontrados registros estratigráficos cujas medidas foram confirmadas por um tribunal rabínico, em 2001, como sendo aquelas prescritas pela ortodoxia judaica. 278 Marcos Albuquerque opina que a mikvah tenha sido destruída pelos padres da Congregação do Oratório que ocuparam o prédio na década seguinte à expulsão dos neerlandeses (ALBUQUERQUE, 2003, p. 75).
Em um canto do aposento da mikvah, na borda da mesma, achou-se uma “pedra regularmente cortada” (ALBUQUERQUE, 2003, p. 74). Isto faz crer que o aposento tinha um piso todo de pedra, contrastando com as outras salas do térreo da sinagoga, cujo piso era de tijolos. Isto sem dúvida contribuía para uma atmosfera ainda mais idiossincrática deste aposento sagrado.
Sobre o salão de cerimônias da sinagoga, ocupando o andar superior, só podemos fazer elucubrações sobre sua aparência. Provavelmente seguiria o modelo sefaradi, ficando na parede ocidental a tevah (púlpito), de onde a cerimônia era dirigida, e onde se fazia a leitura da Torah, além de orações e outros pronunciamentos. O armário destinado a guardar os rolos da Torah, chamado, na tradição sefaradi, de Eikhal, ficaria na parede oriental, de forma a indicar a direção da Terra Santa e Jerusalém. 279 Desconhece-se, entretanto, quais seriam os motivos
277 Haskamot,1953, p. 226. 278 Ver Anexo 19 279
As Haskamot (1953, p. 227) referem-se duas vezes ao Heikhal: grafa-se “Ehali” e “Chal”, nos artigos 37 e 38, respectivamente. O artigo 37, regulamentando o serviço religioso, determinava três sorteios entre os participantes: um para carregar os rolos da Torah “e abrir as portas do Ehali”, outro para levantar os rolos (procedimento litúrgico) e o terceiro para outros procedimentos.
arquitetônicos e decorativos, uma vez que não se sabe de nenhum desenho que tenha retratado o interior – ou mesmo o exterior – da Kahal Zur Israel. 280