Este eixo reforça algumas reflexões que apareceram nos eixos anteriores e ele é colocado para ilustrar um indicador de recursividade (MORIN, 2008a) onde um conteúdo diferenciado implica também em indivíduos diferenciados. Segue alguns discursos que conduzem a esta linha de raciocínio.
Contexto Fórum Encontrando amigos15– Módulo 1
Tópico Participante 02
Participante 04, em seu tópico pessoal, no dia 20/02/2008
“(...) Gosto de trabalhar, amo interagir com meus pacientes, ouvi-los, ajudá-los a se conhecerem e se transformarem de um padrão de doença (disfunção), para saúde (bem estar\ bem ser).”
Destaca-se esse discurso pelo fato de ele partir de um profissional de odontologia, classe que trata a parte (o dente) muitas vezes sem considerar o todo orgânico e psicossocial. Abaixo segue um complemento de relato neste mesmo tópico, que reforça esse indicador, seguido pelo reforço de uma colega.
Participante 04, em 28/02/2008
15 Este fórum serviu de abertura ao curso e tinha o objetivo de integrar os participantes. Será melhor
explicitado no Eixo 9, pois muitos dos escritos retirados daqui serviram de base ao desenvolvimento deste eixo.
“Oi, 11, Tive um trauma com dentista em minha infância e, desde então, decidi que queria ser dentista. Queria provar que era possível ser uma dentista diferente, e esta tem sido a minha missão. Na graduação, quase abandonei o curso ao ter contato com a disciplina de Dentística (não suportava aqueles preparos cavitários com extensão preventiva, não tinha cristo que me convencia a realizá-los), me sentia um operário, que produzia buracos para depois fechá-los, remendos, e a boca, a face, a cabeça, o todo? Eu era a primeira a chegar na faculdade e a última a sair, minhas anamneses eram intermináveis ... Meus colegas diziam: por que não vai fazer psicologia, se gosta tanto de conversar com os pacientes? Eu dizia não, quero ser dentista!
Comecei a participar de um projeto de extensão (...) onde aprendi a ter uma visão holística da saúde, a ser promotora de saúde, em seu conceito amplo (estado de bem estar físico, mental, emocional, espiritual e social) (...)
O que quero dizer é que vejo no SUS a oportunidade de provar para mim mesma que minha missão é possível!!! Mesmo que tenha que nadar contra a corrente. Já estou neste nado, há 5 anos, tem valido a pena. Os pacientes me agradecem.”
Participante 06, em 28/02/2008
“Olá 04, Concordo com você que é possível fazer uma odontologia diferente. Sou como você dentista e psicóloga dos meus pacientes ao mesmo tempo, isso eles é que dizem. ‘Já gosto de vir aqui porque eu faço terapia’. (...) Quando fiz faculdade todos os departamentos faziam piadas sobre o departamento social que por ironia era onde eu sempre estagiava. Muito dessa minha busca começou por lá. Não desista por mais obstáculos que encontrar.”
Esses relatos colocados acima mostram também um outro indicador que seria a possibilidade de ser um dentista diferente. No senso comum, o profissional que conversa é o psicólogo. Outros profissionais da saúde, principalmente os dentistas, não conversam com seus pacientes. Existe até um chiste no senso comum de que o dentista só faz perguntas quando o paciente já está sentado na cadeira, com a boca aberta e já não pode mais conversar.
Entretanto, o modelo mais humano de prática em áreas de saúde prevê a abertura do profissional frente ao diálogo. O estudo apresentado na fundamentação teórica de Souza, Sartor e Prado (2005) destaca de alguma forma esse cuidado, assim como Minayo (2008), que afirma acontecer uma abertura das ciências biológicas, que se adaptaram ao conceito naturalizado de saúde e se conformaram com os modelos técnicos de ação. Essas ciências estariam ampliando o entendimento do humano ao acolher perspectivas mais antropológicas que trazem mais empatia aos procedimentos exclusivamente técnicos.
Nesse sentido, os discursos dos participantes listados acima mostram que existe uma predisposição nesse indivíduo diferenciado em adotar estas medidas humanas, dialógicas e empáticas, medidas essas que dão um lugar de destaque à anamnese no sentido de que o paciente possa se colocar inteiramente e, então, parir nesse encontro clínico o próprio sujeito da saúde. Existe a predisposição para abrir-se à noção de que, ainda que a formação seja para atuar na boca, o profissional de odontologia deve ter plena consciência de que trata um sujeito inteiro e não exclusivamente uma boca. Essa seria a principal diferença conceitual entre o ser dentista (técnico dos dentes) e o ser odontólogo (foca a lógica mais ampla do sistema oral).
Outro discurso de outro participante auxilia a ilustrar esse eixo: Contexto: Módulo 1 – Bloco de Notas pessoais
Participante 14, em 26/02/2008
“(...) Esta coisa de não estar satisfeita com a odontologia que me ensinaram na faculdade, eu sempre senti, quando via meus colegas apaixonados por odonto ao longo da faculdade, eu esperava ter essa paixão, e a graduação acabou e nada aconteceu!! Toda minha turma pensava igual, menos eu, cheguei a pensar ter escolhido a profissão errada!! (...) e agora encontro tantas pessoas pensando como eu, incrível!! Sei que este curso vai me surpreender mais ainda .... “
De uma forma ou de outra os participantes que chegaram ao curso trouxeram a marca de uma decepção com a odontologia hegemônica e buscavam uma maneira diferente e mais humana de trabalhar. Isso também aparece no relato a seguir:
Contexto: Módulo 1 – Bloco de Notas pessoais Participante 09, em 22/04/2008
“(...) Fiz o curso técnico em Informática, (...) É uma profissão introspectiva, vc não fala com ninguém alem de uma tela de computador. Com o tempo me cansei da profissão. Comecei a trabalhar com papai para ver como era o ofício de dentista. (...) Fiquei encantado, depois de 4 anos tomando cha de “tela de computador”, estava me comunicando, me divertindo. Era isso que eu gostaria de fazer a vida toda! Por isso logo depois comecei a faculdade de odontologia. Lá dentro da faculdade foi pura desilusão, me sentia um macaco fazendo buraco e tapando com massa. (...) Diversas vezes pensei em desistir, mas não sabia o que fazer. (...) Odontologia era ruim, mas ia levando ... sei la por que. (...) Quando me percebi estava de novo: fechado numa sala, com computadores, com procedimentos mecânicos (assim como a programação), quieto (...) E estava decidido a largar a odonto e fazer qualquer, repito: qualquer outra coisa. Só não larguei a profissão por que encontrei a BCB. Estou de corpo e alma nela.
Estou me sentindo muito feliz. Quero saber mais e mudar de uma vez o rumo de minha vida, já que a vida de clínico geral eu não agüento mais. (...)”
Considerando que estes eixos são construídos pela qualidade dos discursos e não pela quantidade de vezes que aparece uma ideia entende-se que os discursos listados acima são suficientes para ilustrar esse eixo 3, que por sua vez está vinculado ao eixo 2, que trata da Bio Cibernética Bucal como um conhecimento diferenciado. Convém lembrar que esse caráter de ser diferenciado refere-se, principalmente, a uma abordagem clínica mais humana e menos tecnicista. O diferencial está em poder dialogar empaticamente com seus pacientes e não somente escolher o melhor procedimento técnico. Seria um conjunto de ações e de entendimentos que moldariam esse diferencial. Seria uma maneira de ver e entender o mundo.
Com vistas ao exposto acima, apresenta-se brevemente um outro eixo que emergiu das análises do discurso relativo à prática clínica diferenciada.