5. SKRIFT, SKRIVING OG DANNING
5.1 Foran lovens lov
Este eixo mostra um forte indicador de resistência. Ele apareceu de diferentes maneiras ao longo do curso e o espaço restrito da dissertação impossibilita uma exploração mais longa e detalhada deste fenômeno. Assim, ele entra aqui como forte indicador a ser mais aprofundado em outros estudos e pesquisas futuras. Morin (2008a) mostra as vias que a complexidade apresenta como desafios e elas encaixam-se na linha de raciocínio explorada ao longo desse eixo.
Para ilustrar o que foi dito acima são apresentados os discursos a seguir: Contexto: Fórum Comunicados da Tutoria – Módulo 1
Tópico: Um esclarecimento
Tutor 02, em 08/04/2008.
“Venho notando nas entrelinhas do nosso curso, vinda de várias direções, uma vontade muito prática de aprender a correlação entre os dentes, as emoções, os órgãos, etc. É importante que saibam que isso não é o mais importante da BCB. (...) Bio Cibernética Bucal não é isso. Vai muito além disso. E para compreender BCB precisamos de sensibilização e também amplitude de informações. Nossa metodologia passa por aí. Essas correlações que expus acima são o resultado de uma observação muito ampla do ser humano. E essa observação “muito ampla”é o programa do nosso curso. Aguardem e verão.”
Nesse texto da tutoria aparece a proposta para a aprendizagem de um pensamento complexo. Essa correlação direta de que um dente está ligado a um órgão interno é a necessidade de um pensamento linear e de uma âncora ou de um porto seguro. Mas a tutoria indica seu cuidado ao demonstrar que no curso o trabalho será feito de outra forma e não com linhas retas.
Resposta do participante 01 a este comentário, em 10/04/2008.
“Concordo plenamente com tua posição, e o direcionamento deste curso, Tutora. Realmente é preciso entender o todo para arriscar uma visão sobre o particular, ou melhor, penso que no momento em que contemplarmos e compreendermos a rede o ponto vai saltar aos nossos olhos. Vamos em frente.
Um outro momento onde esta questão aparece novamente: Contexto: Módulo 1 – Fórum de apoio das semanas cinco e seis. Tópico: Teoria Geral dos Sistemas
Participante 11, em 30/03/2008.
“Todos estes microsistemas estão trazendo informações sobre o corpo todo! O difícil é relacionar cada sintoma da boca com o restante do corpo, penso que seja isso que vamos construir como aprendizado. Sabemos das características convencionais da cavidade bucal, estamos acostumados a planejar tratamentos baseados em sintomas, mas as buscas por relações sistêmicas é o atual objetivo.”
Mais uma vez, um discurso que mostra que o interesse do aprendiz é a correlação direta e linear entre um dente que apresenta um sintoma e um sistema interno que possa estar também comprometido. Isso é um indicativo da necessidade de um pensamento linear e da dificuldade de lidar com aspectos mais surpreendentes e particulares de cada indivíduo que chega ao consultório. Ele espera que o resultado do curso seja essa informação da ordem linear: dente X comprometido por causa do órgão Y ou do sistema social Z.
Contexto Módulo 2 – Agenda Pessoal (Bloco de notas privado) Participante 09, em 31/07/2008.
“Não consigo ver a BCB de forma tão simples ... faltam muitas peças no meu quebra- cabeças, algumas peças se encaixam no conjunto e outras não. Entendo que para desenvolver uma idéia é preciso estar aberto a novos paradigmas. E questionar os paradigmas existentes pode ser um caminho para criar novos. Estou tentando conhecer a BCB, mas acabo sempre voltando a linha de pensamento linear, Ação e efeito, não causalidade. (...) Não consigo parir idéias, elas são construídas através do meu conhecimento, através da minha vivência. Por isso usar a intuição e a criação me parece uma forma de criar caos, de criar inverdades ou verdades temporárias. (...) Quem sabe ouvir o que meu paciente tem a dizer, uso minha intuição e dou/crio um diagnóstico e tratamento. Caso tenha outro paciente com sintomas semelhantes, vou criar um novo diagnóstico baseado na minha intuição refletindo o que o paciente quer/deve ouvir? Não sei amigo Tutor, talvez falte-me experiência e mais ajuste nas minhas lentes, mas esta sendo um tanto difícil enchergar desta forma. Preciso entender melhor essa idéia.”
Esse relato mostra nitidamente o movimento desse indicador segundo o qual o que o participante necessita mesmo é de uma maneira linear de entendimento, de procedimento clínico, de compreensão da realidade. O convite é para abrir-se e ouvir cada paciente como sendo único, cada caso como sendo um em particular. O difícil é permitir-se isso. Mais fácil trabalhar com modelos pré-moldados, com receitas estabelecidas a priori. O desafio é considerar o observador, seja ele o paciente, seja ele o profissional de saúde. Aqui, o participante reconhece o quanto é difícil abrir mão
da zona de conforto e do modelo já incorporado das ciências clássicas e hegemônicas. O mais difícil é transitar por um modelo que supõe muitas verdades.
Essa questão seria da ordem do duvidar da própria intuição, pois ela pode gerar inverdades. Melhor ter um sistema de causas universais e procedimentos universais, ou seja, se os pacientes trazem sintomas iguais porque os procedimentos deveriam ser diferentes?
E, para finalizar o debate deste eixo, um assunto bastante controvertido e já discutido na fundamentação teórica deste trabalho (GOMES e DA ROS, 2008): a cárie. O seguinte diálogo traz à tona essa questão:
Contexto: Módulo 1 – Fórum Dúvidas e Sugestões Tópico: Bate-papo de segunda passada.
Participante 08, em 26/03/2008.
“Gostaria que o Tutor fala-se mais sobre a cárie aprofundando o assunto, pois ainda acho que o consumo do açúcar tem uma grande influência no aparecimento da cárie.” Tutor 01, em 27/03/2008.
“Claro 08, entretanto gostaria que voce desenvolvesse o seu raciocinio sobre o mecanismo da cárie para que eu posso entender como vem raciocinando sobre o tema, pode ser? Depois que voce colocar sua experiencia, vamos checar qual a experiência do grupo e daí vamos discutir a visão sistêmica da necrose da dentina, ok? Então fico esperando seu raciocinio. Bom dia...”
Tutor 02, em 27/03/2008.
“O que Tutor falou é coerente, 08. Essas coisas serão passadas todas a vocês ao longo do ano. Mas não queremos só dar pronto. É importante que vocês façam os seus raciocínios. É importante o entendimento sistêmico do ser para compreender o assunto cárie. E todos os outros. Pense no micro-cosmos que é uma boca. Pense por que cariou um e não o outro. Pense por que um filho come mais açucar, mas o outro tem mais cáries e fragilidades sistêmicas. E por aí vai ... São tantos fatores envolvidos numa cárie ... dá um tese.”
Participante 08, em 06/04/2008.
“Na minha visão o açúcar branco compromete todo o sistema organico e é uma das principais causas da cárie dentária. O açúcar branco acidifica o sangue e o meio bucal. sacarose principal alimento da bactéria causadora da cárie. O açúcar branco facilita a ação dos outros fatores, emoções(medo, Raiva, inveja, ódio) que alteram a salivação. O açúcar branco prejudica todo o organismo, tanto local (boca) como sistêmico . A humanidade viveria com mais saúde sem esse veneno químico. Entendo que outros
fatores como a necrose da dentina, que pretendo entender melhor, tem como acréscimo no desenvolvimento da cárie o consumo frequente do açúcar branco (droga que causa dependência física e psíquica)”
Tutor 01, em 07/04/2008.
“Comentando as colocações do 08 sobre a cárie: Qdo.avançamos um degrau no entendimento dos fatos que presenciamos ou padecemos, precisamos fazer com cautela uma aproximação ao tema.É uma questão de estrategia pedagógica. Isso é assim por estarmos transitando numa fronteira paradigmática. É um território inóspito, novo, ainda selvagem, pouco conhecido. A chamada "aproximação" nos faz entre outros, ir acostumando com a nova terra, onde se fala uma nova linguagem, com uma nova realidade própria. Nossos instrumentos de avaliação, geralmente os 5 sentidos, não são seguros, mtas. vezes poucos apropriados a essa nova realidade. De forma que precisamos ir devagar. Eu levei mto. tempo para entender esse processo. Geralmente qdo. ele é relatado pela 1ª vez, ficamos meio atonitos; de forma que vamos precisar de um tempinho maior para ir acostumando com a lingua-gem, ok, 08? Não temos dúvidas de que o açucar não é o alimento mais adequado e qdo. usado de forma incoerente, traz grandes danos a saúde. Entretanto gostaria de passo a passo ir trazendo ao longo do curso novos dados sobre a questão, ok?”
Esse tema da cárie é bastante significativo neste eixo temático e é forte indicador das resistências à mudança na forma de pensar, pois é um dos assuntos mais delicados e de difícil compreensão por parte do dentista que fez formação em academias que primam pelo paradigma positivista de ciência. Trocar a percepção de que o açúcar não é o principal responsável pelo surgimento da cárie demanda uma grande mudança de entendimento da saúde e do humano (PAUL, 2005; SEGRE e FERRAZ, 1997). O participante tem um pensamento linear de que o açúcar, entre outros fatores, é veneno para a saúde. Esse tipo de raciocínio não considera de nenhuma forma o sujeito e seu modo de vida e, principalmente, sua responsabilidade sobre seus estados de saúde e doença. O tutor faz um trabalho interessante ao convidar os participantes a dar um passo além. Não significa rejeitar a ideia de que o açúcar faz mal e sim incluir outros pensamentos mais amplos e inusitados. O difícil seria abandonar o entendimento linear da causa e efeito. O difícil seria construir uma percepção de que algo interno (e não externo, como o caso do açúcar) seja o motivador e mobilizador dos processos de saúde e doença. Ao considerar o elemento externo como causa, perde-se de vista o papel do sujeito e valoriza-se o ser
assujeitado e passível de construções inerentes à sua responsabilidade própria. Não
só é difícil abandonar o pensamento linear como é também difícil lançar mão do pensamento complexo.
A resistência desvelada neste eixo se configura como uma grande dificuldade em sair de um tipo de pensamento aprendido. Algo já foi mencionado anteriormente sobre a facilidade de assumir uma postura que faz parte de uma configuração subjetiva existente. Mudar não é tarefa fácil, pois os vícios do habitual tendem sempre a assumir o comando subjetivo.
O desafio colocado pela complexidade (MORIN, 2008a) aparece ilustrado neste eixo, ou seja, romper o pensamento reducionista, romper com a universalidade que generaliza as causas dos sintomas, romper com a lógica clássica da verdade geral e absoluta. Daí compreende-se que a complexidade não é uma receita e sim uma motivação ao pensamento.
Após esse debate que aprofundou o entendimento sobre os processos subjetivos de aprendizagem envolvendo um pensamento complexo, passa-se agora à construção de um eixo que abarca a metodologia online de ensino/aprendizagem empregada no curso.