O conhecimento geológico da plataforma continental portuguesa despertou desde cedo o interesse de investigadores, quer nacionais quer estrangeiros. Este interesse científico repercutiu-se na publicação de numerosos trabalhos de investigação versando sobre alguns dos aspetos particulares da plataforma continental portuguesa, e que fazem com que, a nível regional, esta se possa considerar minimamente caraterizada e cartografada.
Segundo Dias (1987) e Dias & Pereira (1993), o estudo da plataforma continental portuguesa divide-se em quatro fases principais, a saber:
i. A primeira iniciou-se na primeira década do século XX, através de missões hidrográficas do Ministério da Marinha, tendo como objetivos primordiais a caraterização sedimentológica e morfológica.
ii. A segunda decorreu nas décadas de 50 e 60 do mesmo século. Com o surgimento de novas tecnologias, diversos estudos foram desenvolvidos quase exclusivamente por investigadores estrangeiros.
iii. A terceira desenvolveu-se durante as décadas seguintes, de 70 e 80, caraterizando-se pelos estudos da cartografia, da estrutura geológica e da geomorfologia da plataforma realizados por investigadores estrangeiros, nomeadamente franceses, em parceria com geólogos portugueses. Destacam-se, pela informação que veiculam, os desenvolvidos por Boillot & Musellec (1972), Musellec (1974), Baldy (1977), Mougenot (1976; 1989), Boillot et al. (1979), Vanney & Mougenot (1981).
iv. A última iniciou-se no ano de 1987, com o despoletar de diversos projetos de investigação na área da Geologia Marinha, financiados pelo Estado português, realizados pelo grupo informal “Dinâmica Sedimentar da Plataforma” (DISEPLA) cujas equipas, oriundas de diferentes instituições e abarcando diferentes áreas de investigação, eram integralmente portuguesas.
Este período foi profícuo em produção científica sendo de salientar as muitas dissertações de mestrado e de doutoramento, realizadas por jovens investigadores, totalmente financiados por entidades nacionais ligadas à investigação científica. São de assinalar os seguintes trabalhos:
• Dias (1987), sobre o reconhecimento da cobertura sedimentar da plataforma continental setentrional portuguesa;
• Ferreira (1998), referente à morfodinâmica de praias expostas no sector costeiro Aveiro- Cabo Mondego;
• Taborda (1999), sobre a modelação da dinâmica sedimentar na plataforma continental portuguesa;
• Cascalho (2000), relativo à mineralogia dos sedimentos arenosos da margem continental setentrional portuguesa;
• Oliveira (2001), referente à dinâmica da matéria particulada em suspensão na plataforma continental minhota e sua relação com a cobertura sedimentar;
• Rodrigues (2002), sobre a tectono-estratigrafia da plataforma continental setentrional portuguesa e Badagola (2008) sobre a evolução morfo-tectónica do Esporão da Estremadura;
• Abrantes (1994), Magalhães (1993, 2001), Pombo (2004) e Balsinha (2008) relativos à cobertura sedimentar da plataforma e vertente em vários sectores da plataforma continental portuguesa.
A generalidade dos trabalhos que, hoje em dia, se publicam sobre o ambiente marinho de Portugal assentam sobre o conjunto de estudos pioneiros acima citados. No entanto, e apesar do nível de conhecimento alcançado sobre os ambientes sedimentares marinhos ao largo de Portugal, conhece-se ainda pouco sobre as caraterísticas mecânicas destes sedimentos. Os trabalhos de cariz geotécnico do ambiente marinho português encontram-se geralmente associados a obras costeiras de proteção ou a obras portuárias, nomeadamente os trabalhos de Oliveira et al. (1978) relativos aos estudos geológicos e geotécnico para o porto de Sines, não obstante os diversos projetos desenvolvidos desde 2005, para instalação de dispositivos para aproveitamento da energia renovável ao largo da costa portuguesa.
São de destacar os estudos de caraterização geológica realizados pelo Instituto Hidrográfico, que a seguir se descrevem:
do local para fundeamento do dispositivo Pelamis, na Aguçadoura, Póvoa de Varzim, promovido pela empresa ENERSIS e que decorreu em duas fases (Bizarro et al. 2005/2007), tendo posteriormente sido instalada nesse local o dispositivo Windfloat, desmobilizado no verão de 2016;
do local, ao largo da Figueira da Foz, para fundeamento de um dispositivo para aproveitamento das ondas, promovido pela empresa MARTIFER, tendo o projeto sido abandonado pelo promotor (Bizarro et al. 2008);
do local, junto à Praia do Almagreiro em Peniche, para instalação do dispositivo Waveroller, no âmbito de um projeto europeu coordenado pela empresa finlandesa AWEnergy;
da Zona Piloto para a empresa ENONDAS onde, e sob coordenação e responsabilidade do autor, que aplicou parte da metodologia proposta e lançada em 2010 (Pombo, 2010), na proposta desta investigação, se efetuou a caraterização geotécnica dos solos marinhos em dois pontos de amostragem (Bizarro et al. 2012).
Pese embora os trabalhos mencionados e desenvolvidos pelo IH, única entidade portuguesa, com capacidade no reconhecimento geológico e morfológico do fundo marinho, na caraterização das correntes, ondas e marés, importantes nos projetos geotécnicos em offshore, não existem no país estudos relacionados com a caraterização geotécnica sistemática dos solos marinhos, nem existe uma metodologia definida para o efeito.
Este facto prende-se muito com a inexistência de uma indústria nacional relacionada com as explorações, em ambiente marinho, de petróleo e gás natural. De facto, reconhece-se que, e até ao presente, não existe em Portugal capacidade para responder, de uma forma célere, a solicitações na área da geotecnia marinha.
2.6. Estudos geológicos e geotécnicos a nível internacional
Na Europa do norte, nomeadamente, na Dinamarca, Alemanha, Noruega, e Reino Unido (UK), este tipo de estudos são já uma realidade, existindo diversos trabalhos sobre a caraterização dos solos do Mar do Norte para instalação de fundações para plataformas petrolíferas (Bjerrum, 1973; Andersen et al., 1979; Jardine et al., 1998; Long & Donohue, 2010; Randolph et al. 2010). Existem também outros projetos, em águas menos profundas, associados às energias renováveis, nomeadamente à energia eólica offshore (Houlsby et al., 2001; Byrne & Houlsby, 2006; Hamre et al., 2010; Firouzianbandpey et al., 2012) que, no entanto, apresentam a caraterização geotécnica dos solos marinhos, como informações meramente auxiliares. O trabalho apresentado por Hue Le et al. (2014) tem como principal foco as caraterísticas geológicas e geotécnicas do subsolo marinho para instalação de explorações eólicas ao largo do UK, enquanto que o trabalho de Young et al. (2009) realça a importância da integração dos dados das diferentes disciplinas das ciências da terra para mitigação dos riscos associados ao fundeamento de dispositivos em águas profundas.
Enquanto que os estudos de Le Bot et al. (2005) apresentam uma síntese dos vários trabalhos realizados na plataforma continental belga, nomeadamente com a descrição geológica e geotécnica dos depósitos Eocénicos e Quaternários, tendo a finalidade de recomendar os melhores locais para implantação de turbinas eólicas fixas através de estacas.
No entanto, todos estes trabalhos foram realizados em solos marinhos com caraterísticas sedimentológicas e geotécnicas diferentes das existentes nas plataformas continentais dos países da Europa do Sul, nomeadamente em Portugal, onde a plataforma continental é maioritariamente arenosa e siliciclástica e está sujeita a condições meteorológicas de diferente magnitude e variabilidade temporal significativa.
Existe ainda um manancial normativo publicado pela Det Norske Veritas (DNV) que regulamenta a caraterização geotécnica, o dimensionamento dos sistemas de fixação ao subsolo marinho, a certificação e a segurança da implantação destes projetos; no entanto, e tal como nas publicações científicas, estes documentos estão direcionados para solos marinhos argilosos (DNVRP 98-3034:1998; DNVRP-E303:2005; DNVRP-E301:2000; NSG-CR001:1996).
2.7. Estudos geotécnicos para fixação de âncoras de arraste no subsolo marinho