6. Evaluation of Departments and Research Groups
6.2 University of Bergen
6.2.2 Department of Information Science and Media Studies 43
117 BERNARDO, João. Democracia Totalitária: teoria e prática da empresa soberana. São Paulo: Cortez, 2004, p. 107.
118 SILVA, Leonardo Mello. Trabalho em grupo e sociabilidade privada. São Paulo: USP, Curso de Pós- graduação em Sociologia: Ed. 34, 2004, p. 25.
119 Infelizmente essa afirmação hoje é levada às últimas conseqüências, a ponto de um site alemão oferecer como serviço o leilão de postos de trabalho: jobdumping.net. Fica com o posto o trabalhador que aceitar receber menos pelo serviço. A atividade desse site foi contestada pelo Boeckler Stiftung, instituto de investigação da confederação sindical DGB, que indica em seu site o valor mínimo do salário de cada setor.
(Disponível em
<http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/cadernos/internet/2005/04/03/jorinf20050403006.html>. Acesso em 30.04.2005.)
Merece destaque especificamente a análise dos discursos motivacionais dirigidos a todo o conjunto da fábrica ou empresa, em que se fomenta a competição pela reprodução do quadro psicológico adverso encontrado, principalmente, no mercado e na guerra.
Em relação à figura do mercado, as organizações forjam a sua representação internamente, fazendo com que cada trabalhador e cada equipe de trabalho se apresente e se comporte como um cliente interno em relação aos bens e instrumentos da produção recebidos dos colegas e de outras equipes: os fornecedores. Todos avaliam o trabalho realizado por si e pelos outros, disseminando a autoridade, antes hierárquica, em todo o grupo. O fornecedor fica subordinado ao cliente e se estabelece um contrato de cooperação entre as partes, visando sobretudo a qualidade: o fornecedor se compromete a controlar sistematicamente certas operações e o cliente a informar sobre os defeitos que constata no setor do fornecedor.
[...] o discurso e a prática gerencial contemporânea têm sido dominados pelas seguintes noções: soberania do cliente externo; funcionários como clientes internos; relações interfirmas com clientes organizacionais. Tais noções, aliás, são centrais nos programas de gestão mais difundidos nas organizações contemporâneas, com qualidade total, reengenharia, sistemas de just-in-time, programas de mudança cultural e SAP, entre outros.120
O mercado é apresentado como um agente externo “impessoal e ameaçador, facilitando e dissimulando um cultura da eficiência, da qualidade e da urgência.”121 Esse discurso facilita a aceitação inquestionável da certos princípios e relações pessoais. Os laços afetivos e solidários entre os trabalhadores são substituídos por
120 COLBARI, Antônia. DAVEL, Eduardo. SANTOS, Glícia. O Mercado Como Princípio de Autoridade nas Organizações Contemporâneas: padrões de gestão, formação profissional e identidade em duas empresas capixabas. In: Revista de Administração Pública, v.35, n.2, mar./abr. 2001, p. 12.
121 COLBARI, Antônia. DAVEL, Eduardo. SANTOS, Glícia. O Mercado Como Princípio de Autoridade nas Organizações Contemporâneas: padrões de gestão, formação profissional e identidade em duas empresas capixabas. In: Revista de Administração Pública, v.35, n.2, mar./abr. 2001, p. 10.
relações entre clientes, as quais são fundadas exclusivamente em interesses e contrapartidas mútuas. Ressalta-se a ética individualista de valorização da eficiência, ambição, flexibilidade, autocontrole e autoconfiança, qualidades abrangidas pela idéia de empregabilidade 122 e competência123, em um mercado com um ritmo acelerado de mudanças. “Ser competitivo é ter qualidade melhor e ser mais ágil do que seus concorrentes”.124
O professor Michael Porter, da Harvard Business School, sustenta a competição para além dos concorrentes da empresa, ou seja, ela deve se estender também a clientes, empregados, fornecedores e reguladores ("estrutura das cinco forças"). Michael Jensen, proeminente professor da mesma academia, defende o ensinamento aos alunos das escolas de administração de que o gerente não pode ser confiável para fazer o seu trabalho. Esses posicionamentos têm levado os centros educacionais de MBA nos Estados Unidos a serem severamente criticados pelo comportamento anti-ético de administradores pós- graduados, envolvidos em escândalos como o da Enron. Jeffrey Pfeffer, da Stanford University's Graduate School of Business, se reporta a um estudo realizado em 2000 que
122 A empregabilidade se caracteriza pelas condições do trabalhador de manter ou obter emprego, sendo de responsabilidade do trabalhador e da empresa.( DRUCK, Graça. Qualificações, empregabilidade e competência: mitos “versus” realidade. In: O trabalho no século XX: considerações para o futuro do
trabalho. São Paulo: A . Garibaldi; Bahia: Sindicato dos Bancários da Bahia, 2001, p. 86). O conceito de
empregabilidade é impreciso. Os trabalhadores buscam incessantemente a atualização do conhecimento pertinente à sua atividade produtiva, mas também fatores em princípio desconectados da formação profissional. O jornal Folha de São Paulo, na edição do dia 29.11.2005, noticia o trabalho de uma profissional formada comunicação social e cursos de neurolingüistica, Eliane Mesquita, no treinamento de profissionais paulistas. Basicamente seu trabalho está focado na imagem do empregado. Ela destaca que observa nos profissionais conhecimento, habilidade e atitude. Porém, “se um profissional tem talento, mas não consegue mostrá-lo, para o mundo corporativo ele não tem nada.” (PEROZIM, Lívia. Oráculo moderno. In: Folha
sinapse, nº 41, 29 de novembro de 2005).
123 [...]competência é definida como “estoque de conhecimentos/habilidades”, mas sobretudo como capacidade de agir, intervir, decidir em situações nem sempre previstas ou previsíveis. (MANFREDINI, S. M. apud DRUCK, Graça. Qualificações, empregabilidade e competência: mitos “versus” realidade. In: O
trabalho no século XX: considerações para o futuro do trabalho. São Paulo: A . Garibaldi; Bahia:
Sindicato dos Bancários da Bahia, 2001, p.87). A figura da competência é mais perversa porque atribuída de forma exclusiva ao trabalhador, sendo unicamente sua a responsabilidade.
124 Apostila de empresa capixaba (COLBARI, Antônia. DAVEL, Eduardo. SANTOS, Glícia. O Mercado Como Princípio de Autoridade nas Organizações Contemporâneas: padrões de gestão, formação profissional e identidade em duas empresas capixabas. In: Revista de Administração Pública, v.35, n.2, mar./abr. 2001, p.27).
estabelece a relação direta entre um maior número de violações de normas de segurança e medicina do trabalho nas grandes corporações e o maior número de gerentes graduados com MBA na direção.125
O outro discurso freqüentemente encontrado na prática competitiva da empresa é o da da guerra. A sociedade panótica desde o início tomou por base o modelo da disciplina militar, o qual se estendeu à fábrica. O discurso belicista (business-as-war126) leva esse paralelo às últimas conseqüências e reproduz uma agressividade ímpar, tornando o local de trabalho “um lugar propício ao sofrimento, à violência física e psicológica, ao estresse em todas as instâncias”.127 Os ramos mais competitivos de atividade, como por exemplo o mercado de refrigerantes, indústria alimentícia e setor de informática adotam essa ideologia e são conhecidos no mercado por seu comportamento agressivo. Alguns métodos organizacionais são diretamente inspirados nas forças armadas (marines) e se apresentam sob títulos bastante sugestivos, como: “ataques de guerrilha”, “abordagem da força bruta” e “campanhas de retaliação”. O objetivo é destruir os inimigos, capturando seus espaços no mercado, e conquistar os consumidores, opondo-se às suas estratégias de defesa. Porém, mais do que isso, o discurso belicista serve ao propósito de criar a identidade no corpo social da empresa. Serão eles (capital e trabalho da empresa) contra a toda a sociedade: concorrentes e consumidores.
A analogia da guerra supre a carência empresarial de um aparato gerencial capaz de transcender o discurso e construir uma base de pensamento que sustente a estrutura do sistema organizacional, provendo disciplina, motivação, solidariedade, resistência e otimismo às tropas de empregados, observa Desmond (1997). A metáfora bélica fornece,
125 Matéria “Bad for business?” encontrada no site da revista The Economist. (Disponível em <http://www.economist.com/business/displaystory.cfm?story_id=3672752> . Acesso em 22.02.2005). 126 O presente tópico obteve os dados principalmente junto ao estudo realizado por José Luis Felício dos Santos de Carvalho e Sergio Proença Leitão, sob o título “Violência e mudança nas organizações: uma crítica à metáfora business-as-war, publicado na Revista de Administração Pública, v.35, n.2, mar./abr. 2001. 127 CARVALHO, José Luis Felício dos Santos de. LEITÃO, Sergio Proença. Violência e mudança nas organizações: uma crítica à metáfora business-as-war. In: Revista de Administração Pública, v.35, n.2, mar./abr. 2001, p. 46.
segundo esse autor, um senso de identidade e significação que ajuda os gestores a sentirem-se seguros em um mundo incerto e constantemente ameaçado.128
A identidade serve igualmente ao público interno, pois quaisquer opositores às orientações e normas da empresa serão vistos como “traidores” ou “inimigos”. A solidariedade no grupo é tênue, uma vez que o trabalhador é visto como uma peça a mais na engrenagem, certamente passível de sofrer os “necessários sacrifícios”.
Esse discurso reproduz a denominada por Michel Foucault “guerra das raças” travadas no Estado. A guerra das raças não se assenta propriamente no racismo étnico, mas no “racismode tipo evolucionista”, no “racismo biológico”, no racismo de classes ou político. Como ele esclarece: “Com efeito, que é o racismo? É, primeiro, o meio de introduzir afinal, nesse domínio da vida de que o poder se incumbiu, um corte: o corte entre o que deve viver e o que deve morrer.” 129 O racismo autoriza então o Estado a fragmentar e estabelecer distinções internas para o exercício do biopoder, do poder voltado à população para “fazer viver” e “deixar morrer”, de maneira que a guerra assentada no racismo justifica não apenas a “morte” dos adversários, como expor à morte os próprios colaboradores, já que não é possível um guerra apenas contra os adversários.
A guerra [segundo ele] vai se mostrar , no final do século XIX, como uma maneira não simplesmente de fortalecer a própria raça eliminando a raça adversa (conforme os temas da seleção e da luta pela vida), mas igualmente de regenerar a própria raça. Quanto mais numerosos forem os que morrerem entre nós, mais pura será a raça a que pertencemos.130
128 CARVALHO, José Luis Felício dos Santos de. LEITÃO, Sergio Proença. Violência e mudança nas organizações: uma crítica à metáfora business-as-war. In: Revista de Administração Pública, v.35, n.2, mar./abr. 2001, p. 43.
129 FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). GALVÃO, Maria Ermantina (trad). São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 304.
130 FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). GALVÃO, Maria Ermantina (trad). São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 308.