A utilização desta tipologia de dispositivos cénicos, que se prende “essencialmente com uma opção de encenação e refere-se ao questionamento das convenções relativas ao espaço de representação” (RIBEIRO, 2007, p. 87) remete automaticamente para uma redefinição da área de palco. Quando estes dispositivos são utilizados em espaços teatrais como os teatros à italiana “ onde a presença do arco de proscénio altera a percepção dos limites reais do palco, delimita-se um novo palco/espaço de acção visível em toda a sua extensão” (RIBEIRO, 2007, p. 85)
A cenografia realizada por João Mendes Ribeiro para a peça Vermelhos, Negros e Ignorantes (Imagem 148) de Edward Bond apresentado no Teatro Nacional S.João, no Porto em 1998, representa uma “transposição de imagens de arquitetura para o cenário, nomeadamente do Museu Judaico em Berlim (1992-1999), do arquitecto Daniel Liebeskind” (RIBEIRO, 2008, p. 129). Resultando na criação de um espaço, que através da sua forma arquitetónica (Imagem 150/149), ilustra uma cidade destruída, “recriando um mundo pós-catástrofe, um cenário
cinzento e abrupto, acompanhando o tom da peça” (RIBEIRO, 2008, p. 129), esta peça, autónoma face à estrutura do palco, ocupa parcialmente a área de palco, porém, estabelecendo claramente, novos limites da área de palco.
Imagem 148 | Esquissos da cenografia Vermelhos, Negros e Ignorantes de João Mendes Ribeiro | 1998
| Imagem 150 | Cenografia Vermelhos, Negros e
Ignorantes de João Mendes Ribeiro | 1998 Fonte: (RIBEIRO, 2008, p. 130)
Imagem 149 | Cenografia Vermelhos, Negros e Ignorantes de João Mendes Ribeiro | 1998 Fonte: (RIBEIRO, 2008, p. 219)
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Ainda inserido no mesmo contexto a cenografia de Shakespeare's Sonnets (Imagem 151) realizada por Bob Wilson em 2009 em Berlim, apresenta-se como um exemplo semelhante onde os limites da ação teatral são totalmente redefinidos.
Nestas circunstâncias, segundo Ribeiro (2007) é comum em incontáveis projetos cénicos, a reinterpretação dos limites do espaço cénico através da construção de uma nova estrutura ou elementos que redefinem o espaço da ação teatral, quer sejam estas ao nível do pavimento, teto ou do fundo e laterais da área de palco.
Apesar de se apresentarem como dispositivos fixos dispostos estrategicamente numa determinada área do palco, estes também ostentam os conceitos de flexibilidade e de transformabilidade particularmente adaptados a cada cenografia, transformando-se progressivamente durante o ato teatral e consequentemente interagindo com os intérpretes e ilustrando a ação dramática ou a coreografia.
Redefinindo a área de palco com recurso a uma nova estrutura ao nível do pavimento, o projeto cénico de Convidados Mortos e Vivos realizado por João Mendes Ribeiro com encenação de Ricardo Pais e Nuno M. Cardoso é apresentado no Teatro Nacional S.João no Porto em 2006. Marcado pela existência de uma plataforma flexível e transformável, que serve de palco para as peças teatrais D.João de Molière e Frei Luís de Sousa, encenadas por Ricardo Pais e para a peça Fiore Nudo – D.Giovanni encenada por Nuno M.Cardodo, os novos limites do espaço cénico e da ação encontram-se perfeitamente delineados pelas dimensões da plataforma.
Imagem 151 | Shakespeare's Sonnets by Bob Wilson | 2009 Fotografias de Lesley Leslie-Spinks|
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Nestas circunstâncias, segundo Ribeiro (2007) é comum em incontáveis projetos cénicos, a reinterpretação dos limites do espaço cénico através da construção de uma nova estrutura ou elementos que redefinem o espaço da ação teatral, quer sejam estas ao nível do pavimento, teto ou do fundo e laterais da área de palco.
Apesar de se apresentarem como dispositivos fixos dispostos estrategicamente numa determinada área do palco, estes também ostentam os conceitos de flexibilidade e de transformabilidade particularmente adaptados a cada cenografia, transformando-se progressivamente durante o ato teatral e consequentemente interagindo com os intérpretes e ilustrando a ação dramática ou a coreografia.
Redefinindo a área de palco com recurso a uma nova estrutura ao nível do pavimento, o projeto cénico de Convidados Mortos e Vivos (Imagem 152) realizado por João Mendes Ribeiro com encenação de Ricardo Pais e Nuno M. Cardoso é apresentado no Teatro Nacional S.João no Porto em 2006. Marcado pela existência de uma plataforma flexível e transformável, que serve de palco para as peças teatrais D.João de Molière e Frei Luís de Sousa, encenadas por Ricardo Pais e para a peça Fiore Nudo – D.Giovanni encenada por Nuno M.Cardoso, os novos limites do espaço cénico e da ação encontram-se perfeitamente delineados pelas dimensões da plataforma.
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Imagem 152 | Cenografia Convidados Mortos e Vivos de João Mendes Ribeiro Fonte: www.archdaily.com.br
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Seguindo o mesmo enquadramento, a cenografia L'Anatomie de la Sensation (Imagem 153) do arquiteto e cenógrafo John Pawson, cria a definição dos novos limites da ação mas agora recorrendo a dois painéis no fundo do palco perfeitamente associados à luz e a sistemas giratórios. Através da sua rotação e das várias incidências da luz, estes painéis vão proporcionar a criação de vários ambientes essenciais à coreografia.
Imagem 153 | Cenografia L'Anatomie de la sensation de John Pawson In www.johnpawson.com
| (a) O GRANDE TEATRO DO MUNDO | CASO DE ESTUDO
Ficha Técnica
Localização: Teatro Nacional de S.João, Porto | 1996 Título: O Grande Teatro do Mundo
Autor: Calderon de la Barca Tradução: José Bento Encenação: Nuno Carinhas Cenografia: Nuno Lacerda Lopes Figurinos: Vin Burnham
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A cenografia de O Grande Teatro do Mundo realizada pelo arquiteto e cenógrafo Nuno Lacerda Lopes consiste num excelente exemplo de um dispositivo cénico fixo e transformável, em que para além de transportar lógicas puramente arquitetónicas, - como a geometria, a materialidade e a escala, assim como a proporção e a relação da cenografia com o intérprete - redesenha os limites do espaços da ação apropriando-se do fundo do palco.
“(…) procurei desenvolver uma outra visão mais livre mas simultaneamente mais “institucional” e nessa medida a possibilidade de construir a arquitetura em palco e de transportar as minhas folhas brancas para a caixa negra do Teatro Nacional S. João no Porto. Foi
tentação a que procurei não resistir.” (Lopes, 2012, p.
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Este grande dispositivo cénico, que interpretado como um fundo bidimensional, vai passar por diversas transformações desde o movimento estratégico dos painéis que compõem a frente da cenografia, até à própria quebra a meio da mesma enquadrando perfeitamente uma escada em caracol iluminada.
Tal como explica o arquiteto e cenógrafo Nuno Lacerda Lopes:
“Desta grande maquinação, a ideia de máquina escondida numa parede que simplesmente se impõe a um público e aos atores, iguala-os (pois é de nós que nos fala a peça!). Esta foi-se revelando como a solução a desenvolver e a estudar. Uma parede gigante com nove metros de altura ocuparia todo o proscénio e contra ela se representaria. (…)
Seria um fundo arquitetónico a três dimensões mas planificado e sempre presente. (…) No fim, quando tudo parecia estar compreendido, a imutável e fixa parede, que definia o espaço, abria-se e a sala estremecia! (…) O espaço constrói-nos e a arquitetura ainda é capaz de nos emocionar e de surpreender…Tal como um grande
| Imagem 154 | Fotografias da Cenografia O Grande
Teatro do Mundo de Nuno Lacerda Lopes | 1996 Fonte: http://www.cnll.pt/blog/index.php/scenes/o- grande-teatro-do-mundo/?lang=pt