A Casa Robalo Cordeiro em Coimbra, resulta de um projeto de requalificação e ampliação realizado entre 2003 e 2009 pelo arquiteto-cenógrafo João Mendes Ribeiro. Este projeto consiste num exemplo extraordinário de uma habitação unifamiliar onde o diálogo entre a arquitetura e a cenografia é perfeitamente identificável assim como a aplicação dos conceitos de flexibilidade e de transformabilidade.
Localizado nos pisos superiores, onde se encontram os espaços íntimos da casa, surge um dos novos volumes da habitação, que saliente na fachada norte e revestido exteriormente a aço corten, apresenta um interior dominado por uma perspetiva cénica.
O interior deste volume, agora totalmente revestido em contraplacado de bétula, emerge como um surpreendente dispositivo cénico fixo, onde as portadas das janelas são utilizadas simultaneamente como mobiliário, adquirindo um
papel fundamental na transformação do espaço interior e permitindo diversas formas de apropriação e usos por parte dos utilizadores que deste modo assumem o papel de “intérpretes”.
“Aquilo pode ser uma caixa totalmente fechada, ou pode ser uma caixa que tem alguma relação com o exterior e com a luz, a partir da descoberta do próprio mobiliário. São temas que tenho tratado em cenografia, é verdade, aí há claramente uma transposição de algumas ideias de cenografia, mas a ideia era que de alguma forma a relação com o exterior e a captação da luz desse lugar à criação do próprio mobiliário. Isto é, as portadas são as próprias peças de mobiliário que
caracterizam o espaço. A história conta-se assim”. (Ribeiro, 2013)
Imagem 177 | Esquisso do Arquiteto-Cenógrafo João Mendes Ribeiro Fonte: (Pedro, 2011, p. 10)
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Imagem 178 | Casa Robalo Cordeiro de João Mendes Ribeiro FG+SG: Fotografia de Arquitectura in www.últimasreportagens.com
| Imagem 179 | Desenhos Técnicos da Casa Robalo Cordeiro
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MÉTODOS DE FABRICAÇÃO
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Presentes em arquitetura e em cenografia, os processos de experimentação através da conceção de desenhos, protótipos e maquetes e o rigor construtivo do produto final, são elementos constantes e essenciais.
No contexto desta investigação, as ferramentas computacionais de parametrização e de fabricação digital são interpretadas como instrumentos auxiliares, cujo uso pode verificar-se como algo importante a utilizar em todas as fases do projeto quer de arquitetura como de cenografia, representando meios extremamente eficazes desde o desenho das peças até ao próprio produto final.
Deste modo, assumindo o papel ativo das tecnologias na época digital em que vivemos, tanto a parametrização como a fabricação digital, serão analisados e entendidos enquanto ferramentas digitais auxiliares que complementam o processo de projeto e cujos benefícios do seu uso nas disciplinas de arquitetura e cenografia serão avaliados. Com esta análise procura-se ainda, apresentar as bases teóricas utilizadas tanto no caso de estudo referente a este tema, como no caso prático que integra a presente dissertação.
As investigações em volta da parametrização, da customização, da prototipagem, da fabricação, etc, revelam que hoje o digital atravessa de modo abrangente o campo da arquitectura, compreendendo a geração de novas morfologias, o cálculo de estruturas complexas, a definição de programas e fluxos, a organização do processo de projecto e obra, (...) a especulação de cenários urbanos futuros, a exploração de ambientes
virtuais, etc. Num certo sentido, o digital está a entrar nas práticas arquitectónicas contemporâneas, de forma
transversal, reflectindo, precisamente, as
transformações do mundo digital em todas as esferas
da nossa vida quotidiana.(BAPTISTA, 2013, p. 23)
Cada vez mais frequentes nos projetos de arquitetura, o recurso às tecnologias digitais, tem marcado e modificado particularmente a perceção dos espaços e a própria construção. Ou seja, os avanços tecnológicos evidentes que se têm verificado das últimas décadas, instigaram não só alterações nas técnicas e materiais construtivos como vieram também estimular alterações notórias nas técnicas de criação e conceção arquitetónica.
Ainda neste contexto, a “integração de meios digitais de visualização, comunicação e prototipagem no processo de desenho e construção têm enriquecido diversas perceções, compreensões e conceções estéticas, espaciais e formais”. (PAIO & SILVA, 2013, p. 24)
O aparecimento dos primeiros software CAD (Computer Aided Design, ou em português Desenho Assistido por Computador) em inícios dos anos sessenta do século XX com SKETCHPAD (Imagem 180) desenvolvido por Ivan Sutherland, no MIT em 1963, veio revolucionar os processos e metodologias associadas ao desenho arquitetónico.
Porém, enquanto os primeiros software CAD correspondiam a sistemas de representação digital, posteriormente com os avanços tecnológicos, novas ferramentas digitais como os software BIM (Building
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Information Modeling) associados à modelação tridimensional, impulsionaram uma nova forma de projetar. Com estes software 3D derruba-se o limite da representação e possibilita-se a realização de modelos tridimensionais “com o objetivo de gerar renders foto-realísticos para vender a imagem final dos projetos. De facto, a modelação tridimensional dos edifícios era feita essencialmente para ilustrar o projeto e não como método de validação e exploração de soluções propostas quer ao nível funcional quer ao nível construtivo.” (Eloy & Cruz, 2012, p. 46)
Imagem 180 | Software CAD | SKETCHPAD desenvolvido por Ivan Sutherland, no MIT | Fonte: www.cadazz.com
PARAMETRIZAÇÃO
Inserido no contexto dos software BIM, a parametrização consiste em “práticas ou procedimentos que, colocados em movimento, adquirem autonomia e geram diferentes resultados pertencentes a uma família ou linguagem” (Eloy & Cruz, 2012, p. 47), frequentemente utilizada pelos arquitetos através do software de modelagem tridimensional denominado como Rhinoceros que tem como base a tecnologia NURBS 1 e que, com o plug-in Grasshopper (um editor gráfico de algoritmos) permite a determinação de todas as regras subjacentes ao desenho paramétrico.
A conceção de projetos utilizando a parametrização, consiste sumariamente em projetar a partir da definição de um conjunto de princípios paramétricos, ou seja, regras lógicas ou algoritmos. Segundo Kostas Terdizis, o algoritmo é definido como
“a process of addressing a problem in a finite number of steps. It is an articulation of either a strategic plan for solving a known problem or a stochastic search towards possible solutions to a partially known problem. In doing so, it serves as a codification of the problem through a series of finite, consistent, and rational steps“
(Terdizis, 2006, p. 15)
A partir da definição destes princípios, o “modelo paramétrico atua como um conjunto que tem a capacidade de reagir às alterações específicas que ocorrem em suas partes. Durante a geração da forma, a manipulação dos parâmetros incorporados a este sistema oferece a possibilidade de obter vários ajustes do modelo seguindo a mesma orientação
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básica de intenção do projeto.” (Natividade, 2010, p. 4) Neste sentido, a parametrização surge como um processo interativo, onde todo o sistema de algoritmos ou regras definidas se encontram interligadas e funcionam como um todo, permitindo que a manipulação e alteração de um valor num determinado parâmetro, seja instantaneamente visualizado no modelo tridimensional em causa podendo-se assim gerar famílias de soluções sem alterar os seu conceito base.
Definindo os seus parâmetros e não a sua forma, a parametrização, constituída por um determinado número de variáveis interligadas entre si, vai permitir umas das maiores vantagens associadas ao desenho paramétrico que é exatamente, a alteração do projeto sem que para isso implique redesenhar o projeto desde o início, e permitindo também um elevado nível de experimentação através da combinação de diversos valores entre parâmetros num curto espaço de tempo num sistema totalmente interativo. Esta ideia é salientada por Alexandra Paio e Brimet Silva, quando afirmam que o processo paramétrico “trata-se de um novo método, (design thinking) onde o desenho torna-se mais colaborativo, experimental, interativo e dinâmico, de acordo com as opções formais/estéticas ou constrangimentos de otimização (estrutural, acústico, térmico) da solução final.” (PAIO & SILVA, 2013, p. 25)