A medida fundamental em epidemiologia desportiva é a taxa de ocorrência de lesão que permite fazer o relacionamento entre o número de lesões ocorridas e as exposições ao risco durante um determinado intervalo de tempo. No cálculo de taxas de lesão, diversos valores podem ser usados o que necessariamente afecta o resultado e pode comprometer a comparação entre estudos pois conduz a diversas interpretações (Phillips, 2000). Os denominadores mais comummente usados têm sido o número de atletas da população
expostos ao risco, o tempo de treino ou jogo (horas), o número de jogos ou treinos efectuado. Podemos assim falar de lesões por atleta, por tempo de treino ou jogo ou por número de treino ou jogos efectuados pelo atleta.
Importa referir que a taxa de ocorrência engloba a taxa de prevalência, número total de lesões ocorridas nos atletas em risco durante um determinado período de tempo e da taxa de incidência, número de novas lesões ocorridas nos atletas em risco durante um determinado período de tempo. A taxa de incidência de lesão desportiva, é a expressão mais básica do risco. Epidemiologicamente, o conceito de exposição implica que esta taxa deverá ser multiplicada número de atletas participantes, sob risco de, no caso de a exposição não ser contemplada, comprometer os valores encontrados. Pode ainda comprometer a comparação com outros estudos de incidência de lesões, já que, por exemplo 10 lesões num universo de 1000 participantes têm necessariamente um peso diferente se esse universo for de 100. Do mesmo modo, o tempo de exposição ao risco poderá influenciar a interpretação dos resultados pois terá maior importância um mesmo número de lesões em atletas que têm menor tempo de contacto com a actividade desportiva. É por esse motivo que ultimamente, se tem optado por apresentar as taxas de incidência expressas por mil horas o que permite a comparação de níveis de risco nos diferentes desportos.
Para se obterem resultados que possam efectivamente ser comparados e que reflictam o retrato fiel de todas as lesões ocorridas, mesmo as de menor gravidade/implicação torna-se fundamental fazer o registo de todas as lesões, as que ocorrem em treino ou competição, implicam ou não tempo de paragem na actividade desportiva e as que requerem ou não cuidados de um profissional.
Os instrumentos mais usados nestas inquirições são os questionários que reportam a ocorrência e mecanismos de lesões ocorridas. Para Wallace (1988) uma contribuição major no controlo de lesões é a criação de sistemas de detecção da sua ocorrência, especialmente as que detectam lesões de menor gravidade e as suas consequências adversas a longo prazo na saúde dos atletas. Os questionários apresentam como vantagens o baixo custo, a acessibilidade a uma amostra lata, a garantia do anonimato e a possibilidade de uma resposta no momento mais conveniente (Pardal e Correia, 1995). Porém, são frequentemente alvo de atrasos na devolução e podem ser facilitadores da resposta em grupo perturbando desse modo a informação.
Este tipo de instrumento tem sido amplamente usado em epidemiologia de lesões desportivas nas mais diversas áreas (Matz e Nibbelink, 2004; Carson, 2004; Burns e col., 2003; Conn e col., 2003; Hootman e col., 2002; Waller e col., 2000; Pfeiffer e Kronisch, 1995; DeHaven e Lintner, 1986). Wallace (1988) define como fundamental encontrar mecanismos que permitam detectar e conhecer as consequências dos traumatismos, especialmente os de menor gravidade já que, de forma geral são os menos visíveis apesar de perturbadores da normal performance dos atletas. Ainda para este autor a criação de sistemas
de detecção da ocorrência de lesões, especialmente os que detectam lesões de menor gravidade e as suas consequências adversas a longo prazo na saúde dos atletas é de importância vital no controlo de lesões desportivas. O incremento da qualidade dos dados recolhidos permite a melhor caracterização de lesões, identificação de grupos em risco de lesão e possíveis sequelas daí resultantes. Esta informação permite ainda, definir as prioridades dos programas preventivos e avaliar a sua eficácia.
Parece ser consensual que estes instrumentos deverão albergar informações que possam ser tratadas transversalmente para permitir comparações e a definição de estratégias preventivas eficazes. Ora só conhecendo profundamente as situações que conduzem a lesões e os mecanismos ou associação de mecanismos que as produzem, será possível a toda a equipa (treinador, atleta, dirigente, fisioterapeuta, médico) tomar as necessárias precauções e encetar os procedimentos conducentes à diminuição dessas situações ou à diminuição do seu impacto sobre o atleta e/ou equipa. Cada modalidade desportiva, ao combinar o seu gesto mecânico específico com factores ambientais tais como, a posição ocupada pelo atleta em campo, a actividade no momento da lesão, a superfície em que se realiza a prática desportiva e a utilização de equipamento de protecção, produz um padrão de lesão específico (Powell e Barber-Foss, 1999) que deverá ser possível diferenciar através da análise epidemiológica.
Em resumo, podemos dizer que a epidemiologia descritiva e analítica tem assumido um papel preponderante no problema de saúde pública que são as lesões desportivas, pela forma como permite conhecer e relacionar as lesões, as suas causas e os seus mecanismos de ocorrência. Todavia, parece ser fundamental não descurar as metodologias usadas na análise epidemiológica de forma a poder encontrar resultados representativos, consistentes e comparáveis entre si. Daí a importância de que as análises epidemiológicas:
o sejam efectuadas directamente junto do atleta, de forma a incluir as lesões menos graves, que possam não requerer cuidados de saúde imediatos mas que estão na origem de fracas condições de morbilidade;
o sejam efectuadas preferencialmente durante um período de tempo razoável que possa reflectir a realidade da prática desportiva em todos os factores que a constituem ao longo de toda uma época;
o envolvam tanto a competição como o treino para que seja possível distinguir eventuais riscos e exposições diferenciados;
o incluam taxas que possam dar origem a comparações fidedignas tanto entre as diversas modalidades como dentro de uma mesma modalidade nos vários escalões etários, níveis competitivos, sexo e posição do atleta em campo.