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O gesto desportivo e a solicitação específica da modalidade condicionam o tipo de lesões ocorridas (Powell e Barber-Foss, 1999; Requa e col., 1993; Lysens e col., 1991; Meeuwisse, 1991; Lysens e col., 1986). Do mesmo modo, as regras regionalmente definidas, podem influenciar a ocorrência de lesões, na medida em que possam ou não permitir situações de maior risco para os atletas (Ekstrand e Gillquist, 1983). Aparentemente, e em especial nos escalões etários mais jovens as lesões são mais frequentes em rapazes (Damore e col., 2003). Há que ter em atenção que nem todas as modalidades desportivas têm a mesma popularidade entre rapazes e raparigas pelo que as populações podem ser diversas e essa ser a razão para se detectar maior ocorrência de lesão num dos géneros. Tem-se registado um progressivo aumento da morbilidade e incapacidade provocada pela lesão desportiva, o que tem despertado a atenção das autoridades de saúde. É aliás por esta razão, que desde 1998, a união europeia criou um sistema de controlo de lesões devidas a acidentes em actividades recreativas e de lazer, activo em 12 países membros. Segundo Belechri e col. (2001) em relação aos dados do ano de 1998, as modalidades que têm provocado maiores taxas de lesão

no espaço europeu são o futebol e o basquetebol, sendo o escalão etário dos 18 aos 24 anos, o mais afectado.

O Futebol quer seja realizado ao ar livre ou em pavilhão, é caracterizado por movimentos que envolvem alterações rápidas de velocidade, rotações, deslocações laterais e para trás, ao mesmo tempo que se usam os membros inferiores e a cabeça para conduzir a bola. Para Nielsen e Yde (1989) que estudou prospectivamente 123 atletas de clubes holandeses participantes em diferentes níveis competitivos, no futebol o membro inferior é a região anatómica mais afectada representando 80% das lesões ocorridas. Neste segmento o tornozelo corresponde à localização anatómica de maior ocorrência de lesões. O joelho representa também uma parte considerável das lesões ocorridas e contribui para os tempos de paragem elevados que se verificam nesta modalidade (35% das lesões com tempo de paragem superior a 30 dias). Apesar das taxas de incidência de lesão se mostrarem idênticas para as várias posições em campo, as lesões dos membros superiores e cabeça são mais frequentes nos guarda-redes. Nesta modalidade, as lesões ocorrem sobretudo durante a competição e resultam do contacto entre atletas (45%) sendo portanto, predominantemente traumáticas. A severidade das lesões aumenta com a diminuição da sua ocorrência pelo que a maioria é de severidade ligeira (60%) ou moderada (30%).

Estes dados coincidem com os encontrados por Pedro e Castro (2004) no estudo realizado durante duas épocas competitivas em 101 futebolistas juvenis portugueses (14-16 anos), do sexo masculino, pertencentes a clubes federados. Nesta amostra a entorse do tornozelo foi a lesão mais frequente (29% da totalidade de lesões ocorrida), provocada pelo impacto directo/colisão com pessoa e causada pelo próprio jogador. A maioria das lesões ocorreu com o piso do campo no estado normal, e apenas um número mínimo de lesões foi provocada pelo equipamento desportivo. O joelho representou neste estudo 21% de todas as lesões ocorridas, o que ilustra a forma como o membro inferior é afectado nesta modalidade. No voleibol a maior parte das lesões ocorre durante o bloco, evento em que são efectuados saltos verticais. As entorses do tornozelo e dos dedos representam as lesões agudas mais frequentes. As lesões de sobrecarga que predominam nesta modalidade correspondem às tendinites patelares, às tendinites do ombro, à neuropatia supra-escapular e às lesões lombares (Briner e Benjamin, 1999). O gesto desportivo do voleibol implica o lançamento da bola na posição de pé ou em salto e a mesma deverá ser recebida com os membros superiores em posição que permita a sua desaceleração e o direccionamento. Estes movimentos colocam os dedos das mãos em situação de risco e as jogadas na proximidade da rede têm o mesmo efeito sobre os tornozelos. Bahr e Bahr (1997) encontraram 89 lesões em 51588 horas de prática de voleibol (treino e jogo) em 272 atletas das duas divisões de maior nível competitivo, correspondendo a uma taxa de lesão em jogo de 1,7/1000 horas e 3,5/1000 no treino. O tornozelo foi a região anatómica mais afectada com 54% da totalidade das lesões ocorridas, seguido da região lombar (11%), do joelho (8%) e do ombro (8%). As

lesões nos dedos corresponderam neste estudo a 7% da totalidade das lesões ocorridas. Knobloch e col. (Knobloch e col., 2004) encontraram incidências um pouco diferentes no estudo que realizaram em 2234 lesões reportadas pela escola em crianças e adolescentes durante um ano lectivo na Alemanha. As lesões devidas ao voleibol corresponderam a 17,4% da totalidade das lesões nas diversas modalidades e o membro superior foi o mais afectado (71.3 %) com especial relevância para os dedos (53%), seguidos pelo membro inferior (21,5%) e pela cabeça (4,3%).

O Andebol surge igualmente, como uma modalidade onde predominam as lesões do membro superior (Biener, 1982), apesar de ter também uma afectação bastante elevada do membro inferior, especialmente o joelho (de Loes e col., 2000). Num estudo efectuado durante uma época competitiva em 186 atletas seniores masculinos (Seil e col., 1998), a incidência de lesão foi de 2,5/1000 horas de prática desportiva tendo sido verificada uma maior incidência de lesão no jogo (14,3/1000h) que no treino (0,6/1000h), com o predomínio de lesões devidas maioritariamente a manobras ofensivas no contra-ataque.

As modalidades individuais têm características distintas das modalidades de equipas e apesar de nem sempre terem um padrão de lesão diferente, até porque também nas modalidades colectivas uma parte razoável das lesões não é devida ao contacto, a divergência é constatada. É o caso do Ballet onde são encontradas maiores incidências de lesão nos atletas mais jovens e maior predominância de lesões de sobrecarga, afectando o membro inferior. São ainda referenciadas nesta modalidade diferenças no padrão de ocorrência de lesão entre atletas femininos e masculinos (Nilsson e col., 2001).

Em relação à ginástica acrobática em Portugal, modalidade que implica a realização de saltos com grandes impactos no solo, Ângelo e Castro (2001) no estudo realizado durante duas épocas desportivas em 273 ginastas que participaram nas competições nacionais, de idades entre os 12 e 28 anos, encontraram o complexo articular do tornozelo como a zona mais afectada. Também nesta modalidade, o sexo feminino aparece com maior número de lesões, apesar da localização e tipo de lesão ser idêntica em ambos os sexos. O intervalo etário dos 13 aos 19 anos é o mais afectado. Resultados idênticos foram ainda encontrados por Meeusen e Borms (Meeusen e Borms, 1992) e por Pettrone e Ricciardelli (Pettrone e Ricciardelli, 1987).

Na Ginástica aeróbica, Martinho e Castro (2004) em 102 atletas avaliados durante uma época desportiva, encontraram uma baixa ocorrência de lesões. Estas, foram consideradas de menor gravidade e atingindo sobretudo a faixa etária entre os 21 e os 29 anos. A fadiga constituiu a maior causa para a ocorrência de lesão, enquanto que o mecanismo mais frequentemente encontrado foi o impacto directo/colisão, afectando a articulação do joelho, especialmente no início e final da época desportiva.

No basquetebol, a literatura internacional refere alguns factores que se relacionam ou contribuem para a variação na incidência das lesões, como sejam o sexo (Kelm e col., 2004; Boyce e Quigley, 2003; Burt e Overpeck, 2001; McKay e col., 2001c; Messina e col., 1999), a idade (Belechri e col., 2001), a posição ocupada no jogo (Arendt, 2004), o equipamento usado, as condições de treino (Cohen e Metzl, 2000), a flexibilidade, a força, a potência e a resistência (Ferretti, 1986), o equilíbrio, a coordenação, a estabilidade e a propriocepção, a fadiga, o nível competitivo e a preexistência de doença ou lesão (Richards DW e col., 2000). Esta modalidade será abordada de seguida de forma particular em relação às características das lesões ocorridas na sua prática.