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Em desporto, factores de risco são quaisquer agentes que possam aumentar o potencial para a ocorrência de lesão (Meeuwisse, 1991). Estes factores são normalmente agrupados em

extrínsecos e intrínsecos. Os factores de risco extrínsecos, de causas externas ao corpo dos atletas, correspondem aos erros de treino muitas vezes relacionados com uma solicitação excessiva ao atleta que pode ter origem em intensidade excessiva de treino/competição, em alterações súbitas nas actividades desportivas, em acumulação excessiva de fadiga, em recuperações da actividade desportiva inadequadas ou insuficientes e em má técnica. De igual forma, a superfície de treino pode ser desadequada seja por ser demasiado dura ou demasiado mole para as actividades desportivas em questão. Os factores de risco intrínsecos, directamente relacionados com as características corporais do atleta, correspondem a alterações morfológicas no alinhamento dos segmentos do corpo que dão origem a mal alinhamentos e a diferenças de comprimento de membros. Englobam-se ainda nas causas intrínsecas os desequilíbrios musculares que podem corresponder a fraqueza muscular ou a falta de flexibilidade, a rigidez muscular generalizada e localizada e ainda a restrição de amplitude de movimento articular, todas elas provocando alterações significativas no movimento. Também o sexo, a estatura e a composição corporal são considerados factores de risco intrínsecos de lesão, bem como a pré-existência de lesão (Richards e col., 2000b; Brukner e Khan, 1993).

De uma maneira geral, alguns factores de risco de lesão têm tido bastante consenso enquanto que outros apresentam divergências nos resultados, frequentemente relacionadas com o desenho do estudo. A pré-existência de lesão, tem surgido como um dos factores de risco com mais consenso e considerado da maior importância. Para alguns autores (Burns e col., 2003; Emery e Meeuwisse, 2001; Quarrie e col., 2001; Van Mechelen e col., 1996; Gerrard e col., 1994; Requa e col., 1993; Smith e col., 1993; van Mechelen, 1992b) a lesão prévia é considerada como o maior factor de risco de lesão.

Claramente convergente, é também, pelo menos a nível da competição profissional, o facto da ocorrência de lesões ser mais elevada durante a competição que durante o treino (Backx e col., 1991b; Henry e col., 1982), o que leva a crer que a maior intensidade do jogo, conduz a um maior risco de lesão (Zvijac e Thompson, 1996). Apesar de nem sempre ser evidente nos estudos efectuados, tal fica sobretudo a dever-se ao facto de não se efectuarem as comparações em função do tempo de exposição. A menor exposição à competição que ao treino é responsável pelo maior risco (Murphy e col., 2003), uma vez que ocorrem mais lesões durante o treino apesar deste representar muitas vezes 80% de todo o tempo dedicado à prática da modalidade enquanto que a competição apenas representa cerca de 20%.

O impacto das forças transmitidas ao corpo do atleta durante as várias fases de maturação física, varia não só pelas diferenças de tamanho e força do indivíduo mas também pelas alterações verificadas no desporto que, aumenta a exigência e grau de competitividade com o avanço da idade (Gerrard, 1993). Por esta razão, é de esperar que o tipo de lesões ocorridas varie consoante a idade do atleta. Para Gabbett (2004) os atletas mais velhos estão mais sujeitos a lesões musculares enquanto que os mais jovens a fracturas. Apesar da idade

do atleta não ser um factor de risco consensual para Emery (2003) os atletas mais jovens estão mais sujeitos a lesões o que é também reiterado por Ergen (2004) especialmente se se tratarem de atletas participando em desportos de contacto ou de combate. Contudo, para vários autores (Knapik e col., 2001; Ostenberg e Roos, 2000; Lindenfeld e col., 1994) o aumento de risco de lesão dá-se com o aumento da idade e para (Peterson e col., 2000) a idade não é considerada factor de risco.

Não existe, igualmente, consenso em relação ao facto do género se constituir como factor de risco de lesão e se, para alguns autores a diferente incidência de lesão nos dois sexos é notória (Ergen, 2004; de Loes e col., 2000; Uitenbroek, 1996; Tenvergert e col., 1992; Hardy e Riehl, 1988) para outros ela é inexistente (Dane e col., 2004; Sallis e col., 2001; Messina e col., 1999; Collins e col., 1989; Clarke e Buckley, 1980). Neste aspecto, como já anteriormente referido para a idade, há que ter em consideração que o tipo de lesão pode diferir consoante o género do atleta e por essa razão os estudos que consideram as lesões na globalidade não encontrarem diferenças enquanto que outros que analisam determinado tipo de lesões as possam encontrar. São disso exemplo as lesões do joelho, especialmente do ligamento cruzado anterior, em que os autores parecem concordar na sua maior incidência entre atletas do sexo feminino (Murphy e col., 2003; de Loes e col., 2000).

Apesar da divergência atrás referida, parece haver uma tendência, mesmo entre os autores que encontram diferenças na ocorrência de lesões em função do sexo, em considerar que a modalidade praticada se constitui como um factor de risco mais importante que o sexo (Dane e col., 2004). Os estudos que diferenciam a ocorrência de lesões em várias modalidades (Abernethy e MacAuley, 2003; Strowbridge e Burgess, 2002; Powell e Barber- Foss, 1999; Tenvergert e col., 1992; Martin e col., 1987), apesar de dificilmente comparáveis pelas diferentes metodologias usadas, indicam que são os desportos motorizados aqueles que mais causam lesões de maior gravidade. Nas modalidades colectivas o futebol americano aparece como aquele que mais contribui para a ocorrência de lesões de maior gravidade, seguida do futebol e do basquetebol. O voleibol surge como uma modalidade com baixa incidência de lesões quando comparada com as anteriores e em que a sua ocorrência predomina durante o treino e não durante o jogo contrariando a tendência geral da maior ocorrência de lesão durante a competição (Powell e Barber-Foss, 1999).

As características físicas do atleta têm sido analisadas no sentido de verificar a sua correlação com as lesões ocorridas em desporto, apesar de na maior parte destas não existir consenso entre os autores. Hart (2005) na revisão e análise de literatura efectuada em relação à flexibilidade como factor de risco de lesão, conclui que o treino de flexibilidade não tem efeito na redução de lesões apesar da evidência ser limitada. Também para Murphy e col. (2003) esta característica não tem sido consensual na literatura, apesar destes incluirem na análise vários factores como sejam a laxidão ligamentar geral e específica, a rigidez muscular e a amplitude de movimento. Em relação à força e desequilíbrios musculares já

parece haver, ainda segundo estes autores, maior consenso sobre o seu contributo para um maior risco de lesão. Também Watson, (2001) encontrou como factores de risco de lesão em desportos de contacto, a capacidade de aceleração em 10m, a postura, as alterações músculo-esqueléticas como sejam o desequilíbrio muscular entre agonistas e antagonistas, a fraqueza muscular e as alterações da função articular.

Controverso igualmente, é a maior ocorrência de lesões no membro dominante, desde logo pela diferente definição de dominância do segmento (Beynnon e col., 2002). Se para o membro superior a dominância não apresenta grandes dúvidas, já para o membro inferior a dominância divide-se entre o segmento que preferencialmente pontapeia uma bola (Matava e col., 2002) e o que suporta a carga para que o movimento possa ser efectuado (Sadeghi e col., 2000; Herring, 1993).

O peso, altura e a sua relação através do índice de massa corporal (IMC), são analogamente, considerados factores de risco já que quanto mais elevado o seu valor maiores são as forças a que as estruturas articulares, ligamentares e musculares têm que resistir, provocando a sua maior exposição ao risco (Murphy e col., 2003). Alguns autores (Orchard, 2001) consideram o IMC como um factor de risco de lesão enquanto que outros (Knapik e col., 2001) não encontraram associações entre ocorrência de lesão e IMC.

Outros factores como o alinhamento dos segmentos corporais e a estabilidade postural especialmente no membro inferior, carecem de maior análise por serem ainda em número reduzido, os estudos que abordam estes factores (Murphy e col., 2003).