2.3 Migrasjonsforskning som historie
2.3.2 Den interne flyttinga
A história informa que em 1382 John Wycliff traduziu a bíblia sagrada do latim para o inglês conforme o exemplo abaixo do livro Efésios. O manuscrito do Wycliff inclui a oração da sua fonte original: a bíblia traduzida por São Jerônimo em 375 D.C., chamado de
Vulgate em inglês.
EXEMPLO 24: c. 1382 I...ceesse not doynge thankyngis [Vulg. non cesso gratias agens] for you. Ephes. i. 16, Wyclife (dbHB 599).
Modernizado: I cease not doing thanksgiving for you. Tradução: Eu não cesso de dar graças a Deus por você.
Com a enorme influência da bíblia, proponho que o gerúndio como complemento passou a ser usado num curto período de tempo por outros autores e com outros verbos principais, além de ‘cease’ e ‘continue’ usados por Wycliffe. Repent, practise, prefer e
imagine estão entre os primeiros verbos usados com gerúndio a partir do século XV e em
diante. Percebe-se que estes verbos não formam uma classe semântica.
Após sua introdução na língua inglesa, o leitor deve imaginar que o uso do gerúndio como complemento cresceu de forma regular e continua. Não foi o caso. Os registros de uso que compõem o banco de dados analisados no presente trabalho indicam que o gerúndio não foi usado em grande escala até o final do período de Early Modern English (1500-1650). O próprio Shakespeare, que emprega um leque de opções sintáticas impressionante na sua obra
completa (1590-1613) não se goza da opção de complementação por gerúndio.156 A situação de hoje na língua inglesa, de muita complementação por verbos indefinidos, representa uma mudança linguística em andamento, certamente não terminada. Isto é, o uso do gerúndio ainda está crescendo atualmente. Diante estes fatos históricos, resolvi descobrir porque os gerúndios não foram usados em larga escala pelo falante de inglês comum durante o período de Inglês Medieval. De fato, toda conclusão a respeito terá que ser caracterizada como especulação, pois infelizmente não haverá falantes vivos que podem ser entrevistados. Minha opinião se resume na especulação que as traduções de latim não representam muito bem a fala normal do povo inglês, conforme a discussão apresentada a seguir.
O livro Macaronic Sermons: Bilinguilism and Preaching in Late-Medieval England, objetiva demonstrar a mistura complexa de latim e inglês nos sermões dos séculos XIV e XV. No capítulo 5 especificamente, o autor procura motivos para a mistura das duas línguas nos sermões escritos entre o final do século XIV e início do século XV. Sobre os primeiros exemplos do capítulo dedicado à questão da mistura aparentemente aleatória, Wenzel concluiu: “Do latim vem a matriz em que os elementos ingleses são sempre plenamente integrados, uma matriz que obedece aos padrões da morfologia e sintaxe do Latim clássico indubitavelmente.” 157 (WENZEL, 1994, p. 82).
No entanto, essa afirmação é seguida por exemplos categoricamente opostos aos anteriores, com sintaxe puramente inglesa, preenchida por elementos menores de Latim. Sobre esses últimos, Wenzel comenta:
Esses exemplos contam apenas uma parte de toda a história, porque as fronteiras entre o inglês e o latim raramente coincidem com as fronteiras das unidades sintáticas, sejam sintagmas, orações ou períodos inteiros. Ao contrário, a troca [entre inglês e latim] muitas vezes acontece dentro de uma estrutura sintática, e por outro lado, estruturas sintáticas em inglês às vezes são justapostas sem descontinuidade.158 (WENZEL, 1994, p. 85).
Na conclusão desse capítulo, Wenzel (1994) se confessa incapaz de explicar a razão e os motivos específicos nos casos estudados da complexa mistura das duas línguas. Ele conclui que:
156
Na obra completa de Shakespeare (1590-1613) há 56 exemplos de complementação indefinida dos 44 verbos estudados. Há 19 verbos usados com complementos infinitivos, um verbo apenas com complemento gerúndio, e 3 verbos com complementos na forma gerundiva após material interposto.
157
“Latin forms the syntactic matrix into which the English elements are always fully integrated, a matrix that follows the patterns of classical Latin morphology and syntax without question.” (WENZEL, 1994, p. 82).
158
“These examples tell only part of the whole story, because the boundaries between English and Latin by no means always coincide with the boundaries of syntactic units, be they phrases, clauses or entire sentences. On the contrary, the switch often occurs in the middle of a syntactic structure, and conversely syntactic structures in English are occasionally juxtaposed without a break.” (WENZEL, 1994, p. 85).
As trocas [macarônicas] nos sermões então penetram o próprio coração do léxico inglês e acontece ainda mais frequentemente em áreas em que o vocabulário é menos idiomático ou técnico. Portanto, se torna mais difícil encontrar um motivo linguístico ou psicológico para as trocas de línguas. 159 (WENZEL, 1994, p. 101).
Para os propósitos do presente trabalho, a seguinte análise de um exemplo é a mais pertinente, uma vez que ela trata das construções de sintagma verbal:
Em contraste aos elementos em inglês que estendem além das fronteiras de unidades sintáticas, também encontramos muitos casos de troca de língua dentro de uma estrutura sintática menor. Tais trocas acontecem, talvez mais dramaticamente, dentro de uma forma verbal composta ou dentro de um sintagma verbal, como por exemplo ‘fuit capella bild in honore omnium
sanctorum’. 160 (WENZEL, 1994, p. 85).
O exemplo acima citado e sua análise por Wenzel (1994) têm importância para o presente trabalho porque os autores que foram escritores plenamente bilíngues em latim e inglês (inclusive John Wycliffe) também foram os primeiros a usar complementos gerundivos. Diante dos fatos históricos seria imprudente afirmar que houve empréstimo sintático da estrutura que utiliza o gerúndio em posição de complemento de um verbo. Portanto, de acordo com a análise de Wenzel (1994), não se deve dizer que eles utilizaram a sintaxe do latim e nem a do inglês exclusivamente, mesmo ao traduzir de uma língua para a outra. De fato, a situação é demasiadamente complexa para se dizer com alguma certeza se o gerúndio foi comumente usado na fala em outras construções e emprestado para uso singular como complemento ou se uma outra razão explicaria o seu uso no inglês medieval. Pode-se dizer com segurança apenas que o complemento gerundivo era raro nesse período, entre os anos de 1100 e 1500.
Vale perguntar se o ciclo de realimentação proposto se aplica apenas à história do complemento gerúndio, pois a história do uso do infinitivo como complemento é paralela à do gerúndio. Destaque-se que três fatos sobre o infinitivo: o uso do infinitivo como complemento é mais antigo do que o mesmo uso do gerúndio, existe de forma similar em todas as línguas indo-europeus e continua crescente em inglês atualmente. Em sua obra mais extensiva, David Lightfoot (1979) traça o nascimento do infinitivo como uma entidade que se refere a um
159
“Macaronic switching thus penetrates to the very heart of the English lexicon, and it occurs even more frequently in areas where the vocabulary is less idiomatic or technical. Hence it becomes all the more difficult to find a good linguistic or psychological reason for the switches.” (WENZEL, 1994, p. 101).
160
“In contrast to English elements that extend beyond the boundaries of syntactic units, we also find many cases in which the language changes within the boundary of a smaller syntactic structure. Such switches occur perhaps most dramatically within compound verb forms or verb phrases, such as ‘fuit capella bild in honore omnium sanctorum’.” (WENZEL, 1994, p. 85).
tempo indefinido. Começando como uma frase preposicional, como por exemplo, ‘they
prepared for to away’, ela exercia uma função adverbial de definir o ponto do destino,
significando ‘em direção ao [lugar]’. Neste caso, a tradução seria ‘eles prepararam-se a [ir] embora’. 161 O infinitivo rapidamente passou a ser usado com o verbo não conjugado, como por exemplo ‘he prepared for to go’. Em seguida, houve uma simplificação de ‘for to go’ para a forma atual ‘to go’, que passou a significar não apenas um lugar de meta, mas também, objetivos mais abstratos.
Construções com complementos infinitivos cresceram rapidamente após a sua introdução na língua, sendo responsável por 87% de todas as ocorrências de complementos indefinidos durante o período de Inglês Medieval, pelos dados da amostra no bdHB. Retornarei a questão do surgimento do complemento infinitivo mais a diante, após a discussão do gerúndio como novidade. Confere a explicação da diacronista que mais publicou pesquisas sobre o gerúndio, Fanego (1996):
Em outras palavras, o que estou sugerindo é que a grande expansão do uso de preposições ao longo do período do Inglês Medieval, permitiu uma consequência do declínio do sistema de flexões no Inglês Arcaico, isso deve à situação em que, muitas vezes, era necessária uma forma verbal que podia ser regida por uma preposição; o gerúndio pode ter passado a preencher essa lacuna. 162 (FANEGO, 1996b, p. 125).
O que a autora quer dizer com a situação descrita é que o infinitivo não podia (e ainda não pode) ser objeto de uma preposição, como no seu exemplo: “(57) c1375 William of
Palerne 1024 [Visser 1120]: For drede of descuueryng of that was do there.” (FANEGO,
1996b, p. 125). Modernizado: For dread of discovering what was done there. Tradução: Por medo de descobrir o que foi feito lá.
No exemplo 57 de Fanego: a forma infinitiva ‘to discover’ não podia ser regida pela preposição ‘of’, a qual frequentemente acompanhava o substantivo ‘dread’. Isto é, pela seleção do nome ‘dread’, o ‘of’ foi obrigatório ou estilisticamente preferido; a partir do ‘of’ o verbo ‘discover’ obrigatoriamente teria uma forma que pudesse ser regida pela preposição
‘of’, o que efetivamente exclui a forma infinitiva ‘to discover’. (Presume-se que um simples
nome ‘discovery’ não era disponível a esse escritor naquela exata época, ou foi rejeitado por motivos estilísticos). Enfim, o uso do gerúndio foi escolhido nessa oração e em um número
161
Além dos exemplos de uso real do corpus diacrônico, David Lightfoot (1979) oferece por motivos de comparação frases simplificadas da invenção própria, que são citadas aqui da mesma forma.
162
“In other words, what I am suggesting is that the great expansion in the use of prepositions in the course of the Middle English period, as a consequence of the decay of the Old English inflectional system (cf. Mustanoja 1960:348ff), must have given rise to a situation in which a form of the verb capable of being used prepositionally was often called for; the gerund may have come to fill this gap.” (FANEGO, 1996b, p. 125).
crescente de construções semelhantes ao longo dos anos de 1100 a 1500. Entretanto, resta ainda um problema com o propósito de Fanego quanto a esse caso. Não procede a presunção que o notável crescimento das construções ‘preposição + gerúndio’ no Inglês Medieval afetou necessariamente o aumento do uso dos complementos com gerúndios e sem preposições. Portanto, a meu ver, seria imprudente aceitar a explicação de Fanego como um motivo para a principal mudança no presente estudo: o crescimento no uso do gerúndio como complemento. Em um artigo publicado 11 anos depois do acima citado, Fanego repete a explicação de uso com preposição como fonte do uso sem preposições: “[...] o gerúndio verbal surgiu no Inglês Medieval provavelmente como resultado da pressão pelo sistema a evoluir um padrão de claúsula capaz de combinar com uma preposição introdutória, porque o infinitivo foi proibido naquela posição.” 163 (FANEGO, 2007, p. 219-220).
Esse argumento é imediatamente seguido por uma que a contradiz:
Desde que o gerúndio continuava a ser restrito a objetos das preposições, sua função permanecia diferente do que a do infinitivo, mas essa distribuição foi instável porque o gerúndio verbal, em si fortemente associado com preposições, também se encontrava em outras posições sintáticas. 164 (FANEGO, 2007, p. 220).
Percebe-se que a explicação está com um conflito interno: se o gerúndio já estava em uso em outras posições sintáticas, a fonte do seu ‘surgimento’ em concorrência com o infinitivo não necessariamente foi pelo seu uso como objeto de preposição. A explicação que proponho é que o uso do gerúndio sem a preposição é motivado pelas poucas construções em que ele já estava em uso como complemento de um verbo principal. Originalmente, conforme a discussão acima das obras bem influentes de John Wycliffe e outros religiosos, seu uso em inglês provavelmente deve ao uso como tradução do latim, uma que mantém a mesma forma morfológica do original. Do mesmo artigo de Fanego (2007) uma outra afirmação referente ao crescimento do gerúndio carece de provas históricas:
Desde o século XVI, o gerundivo gradativamente tomou o lugar do infinitivo em ambas posições de objeto e sujeito. Na posição de objeto gerúndios logo invadiram o domínio do infinitivo nos complementos [dos verbos] implicativos negativos (‘I avoided meeting her’) e muitos verbos de aspecto, entre outras classes de verbos. 165 (FANEGO, 2007, p. 219).
163
“[...]the verbal gerund arose in Middle English probably as a result of systemic pressure to develop a clausal pattern capable of following prepositions, as the infinitive was disallowed in that environment.” (FANEGO, 2007, p. 219-220).
164
“As long as the gerundive continued to be restricted to prepositional contexts, it remained functionally different from the infinitive, but this distribution was unstable because the nominal gerund, though itself closely associated with prepositional use, could also occur in other clausal slots.” (FANEGO, 2007, p. 220).
165
“From around the sixteenth century, therefore, the gerundive gradually gained ground at the expense of the infinitive in both object and subject position. In object position gerundives soon invaded the domain of the
Embora Fanego (2007, p. 219) afirma que o gerúndio ‘invadiu o domínio’ infinitivo gradualmente, uma explicação mais evidenciada pelos dados do presente estudo é que o próprio crescimento do infinitivo apoiou o do gerúndio. No caso próprio em que Fanego cita do verbo ‘avoid,’ os dados do bdHB indicam que ele foi usado apenas com objetos com a forma de sintagma nominal desde seu primeiro registro na língua inglesa (c. 1300) até 1599. Nos 37 usos da palavra na obra completa de Shakespeare, o verbo ‘avoid’ nunca foi usado com um complemento frasal, nem definido nem indefinido. O primeiro uso de ‘avoid’ com o gerúndio pelas fontes do bdHB foi em ano 1722. Além disso, a história da palavra ‘avoid’ é representativa de todos os 44 verbos estudados sendo suas datas relevantes na média comparadas com as dos outros verbos. A partir da minha sugestão que os dois tipos de complementos indefinidos estão em crescimento paralelo, vale perguntar o porquê. Suponho que o gerúndio não ‘tomou o lugar’ do infinitivo, como afirma Fanego (2007). Ao responder à pergunta, começo com uma caracterização dos dois tipos aparentemente concorrentes.