5. Das Schloß – Analyse
5.1 Plott
Singularidade: princípio que pretende valorizar o singular como instância de produção científica, favorecendo dessa maneira, o desenvolvimento de modelos teóricos próprios pelo pesquisador durante a pesquisa. As informações oriundas dos casos singulares afirmam-se como legítimos construtos de desenvolvimento teórico, esse
entendido pelo autor em questão como uma “construção permanente de modelos de inteligibilidade que dêem consistência a um campo ou problema na construção do conhecimento” (GONZÁLEZ REY, 2005, p. 11).
O teórico não se reduz a teorias que constituem fontes de saber preexistentes em relação ao processo de pesquisa, mas concerne, muito particularmente, aos processos de construção intelectual que acompanham a pesquisa (p. 11).
Construção-interpretação: princípio que implica na compreensão do “conhecimento como produção e não como apropriação linear” da realidade - esta aqui compreendida como um “domínio de campos inter-relacionados” (p. 5). A produção de conhecimento é uma obra interpretativa de um objeto em movimento, dotado de complexidade; sendo seu estudo impassível a resultados previstos, esperados, medidos, enquadrados.
Dialogicidade é a compreensão da pesquisa como uma atividade comunicativa, centrada em problemáticas humanas, sociais e em cuja produção científica inclui-se a comunicação entre pesquisador e pesquisado.
Os atributos acima descritos possibilitam um resultado de pesquisa compromissada com uma produção legítima e contemporânea de novos conhecimentos. Surpreende sobremaneira o caráter “construtivo interpretativo” deste modelo de investigação (GONZÁLEZ REY, 2005b, p. 6), por invocar tantas quantas forem as possibilidades de construção teórica como se essas fossem variações de vários temas, quase que musicalmente falando.
A Epistemologia Qualitativa implanta-se em pesquisas que rogam uma exploração epistemológica na profundidade do singular, ampliando-se ainda mais como pesquisa qualitativa.
O referido autor (2005b) prossegue em sua proposta estabelecendo categorias que hão de sustentar a concretização do trabalho de pesquisa. Segue abaixo uma sistematização a qual acredito permitirá o planejamento cabível das ações metodológicas desejadas.
3. Categorias
Diz González Rey (2005b) que “as categorias são formas de concretização e organização do processo construtivo-interpretativo” (p. 138). Como formas de
concretização e organização, e ainda, delimitadas em um processo de construção e interpretação, as categorias possuem a função de anunciar as primeiras ideias temáticas advindas das exposições dos pesquisados. Isso quer dizer que no momento em que as informações são liberadas pelos pesquisados, segue-se um agrupamento das ideias temáticas pelo pesquisador que as reúne em forma de categorias correspondentes aos objetivos perquiridos.
Para o autor, o processo de construção-interpretação tem início desde o primeiro momento da pesquisa em si, desde que as primeiras tarefas de coletar informações, junto aos pesquisados, sejam realizadas. Nesse momento primário investigativo, já se admite que as categorias concentrem-se como espaço teórico que então vai se expandindo e simultaneamente gerando outros focos interpretativos.
Para se compreender a formação das categorias, dentro da Epistemologia Qualitativa, os dois grandes conceitos já abordados no capítulo anterior são pontuados como imprescindíveis. Estes estão interconectados de forma sistêmica, não permitindo sua compreensão isolada: sentido e subjetividade. Após a compreensão dos mesmos é que se torna possível estabelecer e articular as demais categorias: núcleo de sentido e configuração subjetiva.
3.1. Sentido
O sentido situa-se no presente capítulo como a categoria nuclear de todo procedimento de observação e interpretação. A definição é a mesma que foi discorrida no capítulo Bases Conceituais, qual seja o produto psíquico, emocional, intelectual, fisiológico, resultante dos processos vivenciais emocionais do sujeito. A importância dessa categoria é compreendida tendo em vista a constatação teórica de que todas as categorias são elementos de sentido uma vez que o sentido é a unidade básica, partícula fundamental que constitui todas as outras categorias.
Conforme já foi apresentado, o sentido está associado fortemente à carga emocional daquele que o produz e, portanto está presente desde os primeiros contatos entre pesquisador e pesquisado. As emoções são as definidoras do “estado do sujeito ante toda ação”, ações insurgidas no interagir do ser humano (p. 242).
Dentro da Teoria histórico-cultural da subjetividade, as emoções são componentes da experiência humana constituindo expressões humanas em primeiro plano e as quais movem a historicidade dos sentidos subjetivos.
A emoção impulsiona o ser humano em suas atividades íntimas (motivações, criações, decisões e outros) sendo acionada por registros somáticos, fisiológicos, os quais se comunicam. “Toda atividade ou relação implica o surgimento de um conjunto de necessidades para ter sentido para o sujeito” (GONZÁLEZ REY, 2005a, p. 245, 246).
As emoções representam um momento essencial na definição do sentido subjetivo dos processos e relações do sujeito. “Uma experiência ou ação só tem sentido quando é portadora de uma carga emocional” (GONZÁLEZ REY, 2005a, p. 249).
Importa ressaltar que sentido não é sinônimo de emoção. O sentido sintetiza movimentos íntimos do sujeito acionados por uma determinada emocionalidade.
A composição de sentidos baseia-se na “compreensão da psique como produção cultural‟ (GONZÁLEZ REY, 2005a, p. 127)”. Por meio da produção de sentidos o sujeito realiza suas opções de ação, de linguagem, de concepções e dessa forma caminha e constrói sua história.
3.2. Zona, eixo ou núcleo de sentido16
A “zona de sentido”, também denominada por González Rey (2005b) de eixo ou núcleo de sentido, é conceituada pelo autor como um “espaço de inteligibilidade” (p. 6), este demarcado por um agrupamento de conteúdos subjetivos (não somente de palavras) percebidos pelo pesquisador. Já de modo inicial, o agrupamento aponta para um delineamento subjetivo e particular do sujeito pesquisado, o que torna possível o avanço do pesquisador em seu processo de descobertas. Devido ao porte dessa informação, o pesquisador pode expandir ou formular suas hipóteses teóricas.
Ao compreender o espaço de inteligibilidade, apresentado na Epistemologia Qualitativa, como uma delimitação de compreensão do pesquisador durante suas análises
dos textos (falado ou escrito) dos pesquisados, deduzo que ao pesquisador não cabe a expectativa de uma resposta informada de modo direto pelo pesquisado. Sua missão de busca inclui procurar por entre os níveis de complexidade o que está fomentando a subjetividade do pesquisado e isso não se reduz a uma resposta, mas a uma conjuntura que abrange muitas e tantas respostas e sinais. Ao pesquisador cabe observar em minúcias e interagir guiando-se pelas próprias impressões, detectando o espaço que lhe é inteligível.
Ao escolher a denominação zona para a pesquisa em voga intento reforçar que apesar dos sentidos subjetivos se concentrarem em núcleos, a ideia de zona corresponde a uma dimensão ampliada e não centralizadora de uma concentração de conteúdos subjetivos. O conhecimento produzido nessa etapa se valida pela sua capacidade conceitual de suscitar, ampla e crescente, novos campos de inteligibilidade teórica.
3.3. Configuração Subjetiva
A configuração subjetiva é uma delimitação que abarca zonas de sentidos. É de natureza psicológica e caracteriza “formas estáveis de organização individual dos sentidos subjetivos” (GONZÁLEZ REY, 2005b, p. 21).
Na medida em que as zonas de sentido representam uma unidade básica de interpretação para o pesquisador, a configuração subjetiva comporta uma conformação de sentidos muito maior que as zonas as quais foram gerados. A configuração subjetiva envolve os entrelaces e as tramas de sentidos, processos e contextos, o que resulta, dessa maneira, na forma como o indivíduo sustenta e organiza seus sentidos subjetivos. A configuração subjetiva é uma configuração de sentidos.