5. Results and discussions
5.3 Deflation strategies
Ceticismo. Desconfiança. Descrença. Eis os sentimentos dominantes dos cidadãos em relação à mídia.
INACIO RAMONET
Desde o advento do rádio e da televisão, conforme aponta Romais (2001, p. 46), os governos já agiam “no sentido de preservar o poder daquilo que potencialmente podia determinar a direção da opinião pública e da vida da nação”. O autor afirma que os primeiros cinquenta anos de emissões (1915- 1965) foram a era do controle das nações sobre suas estruturas de rádio e televisão. O contexto da Primeira Guerra Mundial estimulou o desejo dos governos em utilizar a comunicação de massa para fortalecer as identidades nacionais. A chegada do satélite e os primórdios da televisão a cabo transformaram essa realidade, levando ao intercâmbio de programações entre os países e minando seu caráter essencialmente nacionalista (ROMAIS, 2001).
Aos poucos, identifica-se uma "revolução das comunicações”, que segundo Romais (2001, p. 47), cria um “deus todo-poderoso, que constitui e aproxima o mundo por meio do encantamento, sobretudo, das imagens”. O autor acredita que esta “revolução” possibilitou uma posição de destaque da comunicação no campo social por meio de institucionalização específica, em que ela apropriou-se da ação social de tornar público. Assim, a comunicação passa a ser elemento essencial “na
construção da dimensão pública da sociedade contemporânea. Cada vez mais a atividade política transita e é exercida na dimensão pública da sociedade por meio do trabalho mediador da moderna comunicação” (ROMAIS, 2001, p. 48).
Essa realidade torna-se tão evidente, que alguns estudiosos da área passam a utilizar o termo espaço público midiático. Wolton (2003) acredita que é viável falar em um espaço público midiático, na medida em que ele é funcional e normativamente indissociável do papel da mídia na contemporaneidade. Para este autor, o espaço público midiático vem exercendo uma função reestruturadora no que se refere às possibilidades de visibilidade das instituições, dando margem ao campo da recepção, da interpretação e das inter-relações entre comunicação e cultura. Porque a simples “globalização da informação”, pondera Wolton, “é mais frequentemente um acelerador das divergências de interpretação, simplesmente porque se havia esquecido a heterogeneidade dos receptores” (WOLTON, 2003, p. 22).
Coiro, Dellazzana e Kroth (2010) destacam que essa prometida autonomia dos sujeitos, conjecturada nos avanços tecnológicos que mundializaram o conhecimento, esbarra nas exclusões visíveis nas periferias do mundo. O que efetivamente se concretizou, segundo os autores, foi a globalização de pautas de informação e comportamento, sob o comando do mercado. Sobre este aspecto, os referidos autores afirmam que:
a ênfase na formação de uma opinião pública mundial, além do risco totalizante que contém em si, concretiza-se conceitualmente tão somente em torno de uma pulsão ou fetiche planetário pelos mesmos bens de consumo, normalmente simbolizados por marcas de identificação universal: as grifes (COIRO, DELLAZZANA e KROTH, 2010, p. 7-8).
Os autores acreditam que, nesse contexto, os meios de comunicação operam como dispositivos propagadores de uma simbologia própria, que se pode definir como a tendência a ‘midiatizar’ a visibilidade social. Assim, a mídia oferece aos sujeitos a experiência de relações sociais organizadas de acordo com os meios de comunicação.
Na nova ordem midiática, o conflito se dá num campo onde todos buscam legitimidade para seus discursos e o papel central exercido pela mídia inclui ainda uma intencionalidade: estabelecer relações de interação com o campo da recepção
(COIRO, DELLAZZANA e KROTH, 2010). Nessas condições, segundo os autores, são engendradas as nuances da interação entre os meios de comunicação e os sujeitos e é dessa forma que se constrói no imaginário popular a ideia da mídia como um Quarto Poder, que se soma aos poderes constituídos (Executivo, Legislativo e Judiciário) e, mais do que isso, que lhes fiscaliza o funcionamento, levando ao conceito de accountability desenvolvido anteriormente.
McQuail (1997) defende que a relação entre a sociedade e a mídia é estreita e que o mau desempenho desta reflete as imperfeições daquela. Para este autor, culpar a mídia pelas mazelas da sociedade é lugar comum, contudo, a constatação de que a mídia geralmente segue os gostos e interesses da sua audiência é inevitável. Entre esta audiência, salienta, encontram-se as fontes e anunciantes da mídia, incluindo os políticos e governos que deveriam cuidar do interesse público.
Romais (2001) considera que o papel desempenhando pelos meios de comunicação de massa no relacionamente entre os “leigos” e o poder estabelecido é instigante. Para este autor, diversas questões nesse campo ainda são foco de preocupação de autores da área da comunicação:
Há um debate que se arrasta há longo tempo na teoria da comunicação, sintetizado na seguinte indagação: a mídia, afinal, apenas dissemina opiniões e pontos de vista do grupo hegemônico ou também influencia na formação, expressão e consumo da opinião pública? Pergunta-se também até que ponto os meios de comunicação de massa estabelecem uma esfera pública na qual os cidadãos podem debater, num fórum amplo e democrático, assuntos de seu interesse. Servem, afinal, os meios apenas aos interesses do mercado ou podem constituir-se um instrumento para o bem público? (ROMAIS, 2001, p. 44).
O autor ressalta que a mídia, dominada por instituições privadas com fins lucrativos e cada vez mais capaz de se aproximar pessoalmente de cada cidadão em seu cotidiano, apresenta-se como esfera pública. Ela constitui o maior fórum de comunicação política onde se concretizam as relações entre o poder estabelecido e a coletividade, mas cujo acesso é privilégio de poucos.
Habermas (1984) critica essa conjuntura, pois acredita que tal esfera pública está descaracterizada de suas funções originais, para dar lugar a outras funções como a propaganda política. As consequências dessa desconfiguração da esfera pública trazem prejuízos à democracia: “os agitadores partidários e os propagandistas ao velho estilo dão lugar a especialistas em publicidade, neutros em
matéria de política partidária e que são contratados para vender política apoliticamente” (HABERMAS, 1984, p. 252).
Romais (2001) concorda com Habermas e cita o termo refeudalização da esfera pública criado por este para identificar uma pseudoesfera pública midiática, que acaba por distrair a atenção do cidadão da ação política, criando um ambiente passivo apenas de contemplação, ao invés de estimular e promover o debate público essencial para a caracterização da democracia.
Para Habermas (1984), o destinatário ideal de tal esfera pública é um consumidor político que não contribui para a formação da opinião pública, mas apenas aclama o que lhe é apresentado pronto. Romais (2001) explica este fenômeno:
a refeudalização orquestrada pela mídia estaria transformando a esfera pública num teatro e fazendo da política um show dirigido em que os líderes e partidos rotineiramente estariam em busca da aclamação de uma população despolitizada (ROMAIS, 2001, p. 54).
Habermas (1984) apresenta como contraponto a esta refeudalização a extensão do princípio de “publicidade”, através da força da genuína esfera pública, a todas as organizações que ajam relacionadas intimamente com o Estado, tendo como alvo um público de pessoas privadas organizadas. O papel ativo do público neste processo é, evidentemente, determinante para a caracterização desta esfera pública, e é o debate que se desenvolve a seguir.