COMO APRENDEU A REALIZAR ESTAS ATIVIDADES? (ANEXO E)
Na análise observamos que os cuidadores na sua maioria aprenderam cuidar no dia a dia. Vejamos algumas falas que nos chamaram a atenção, pelo apelo “invisível” que continham.
1- “aprendeu de acordo com a necessidade” 2- “... fazendo, lendo apostilas de como cuidar”. 9-“... aprendeu nas reuniões do HRGU”.
4-“... aprendeu lendo sobre a doença, descobrindo o que dava certo, sempre tem uma fase diferente na doença”;
7-“... a necessidade fez com que apreendesse. As reuniões do grupo ajudaram pela troca de experiência”.
8-“... colocou-se no lugar da mãe” 11-...Estou apreendendo agora.”
Avaliando-se a situação do cuidador, vem a certeza de que deve ter sido sofrida a maneira como aprendeu a cuidar. São situações geradoras de angústia, medo, ou estresse. A fala que melhor sintetiza tudo o que foi referido está assim resumida:
6-“... é difícil, nunca tratei ninguém.”
Néri (2002) escreve que os cuidadores não possuem informações suficientes, que dêem suporte para exercer o cuidado, pois há parcos recursos sociais de apoio, poucas pessoas capacitadas que possam lhes dar respaldo e onde buscar apoio emocional. Izal,Losada e Andrés (2002) admitem que cuidar pode ser uma das experiências mais solitárias e ingratas. Em muitos casos o cuidado é, ao mesmo tempo, solitário, ingrato, comovedor e satisfatório. O certo é que cuidar de um familiar é uma das experiências mais dignas e merecedoras de reconhecimento por parte da sociedade.
Na identificação do cuidador quanto á necessidade de mais conhecimentos (Tabela 13) nota-se a grande necessidade de mais conhecimento dos cuidadores; 85%. Os três cuidadores que disseram não necessitar de mais conhecimentos são pela ordem: uma cuida há 15 anos, freqüenta as reuniões no Ambulatório de Atenção ao Idoso do HRGU e aprende muito(sic);a que cuida há 7 anos, diz não precisar aprender mais, a terceira é agente administrativa no hospital, disse ter aprendido muito observando. Os três somam um total de 15%. O resultado desta mostra é positivo porque se percebe que os cuidadores não se acomodaram; para melhorar o cuidado prestado querem aprender mais, saber como cuidar o idoso familiar que está sob sua responsabilidade.
Tabela 13. Identificação do cuidador quanto a necessidade de mais conhecimentos NECES. CONHECIMENTOS FREQÜÊNCIA % SIM 16 80 NÃO 04 20 TOTAL 20 100 Fonte:Dados coletados pela pesquisadora: abril /dezembro 2004. Guará-DF.
SEGUNDA PERGUNTA NORTEDORA
EM QUE ÁREA NECESSITA DE MAIS CONHECIMENTO (ANEXO F)
A expressão conhecimento indica a facilidade para a realização de um cuidado, pressupõe-se conhecimento anterior, teórico e prático, desenvolvimento de habilidades específicas e instrumentais. A maior parte das cuidadoras deste estudo não foram preparadas para prestar o cuidado. Tornaram-se cuidadores por questão de gênero, parentesco, afinidades entre outros motivos. Diferentemente de experiências internacionais no cuidado ao idoso que é prestado pelo Estado, em nosso país o cuidado ao idoso é transferido para a família, sem nenhum apoio, e a família não está preparada suficientemente para prestá-lo.
Nesse sentido visualiza-se nos discursos que os depoentes buscam através da compreensão um entendimento da sua situação.
Suas falas:
4- “... em todos os aspectos do cuidado, sempre tem uma fase diferente da doença que não se está preparado”.
6- “... em como prestar os cuidados, não tenho nenhum conhecimento”. Nestes dois depoimentos sintetizamos o grande conflito de cuidar e não saber, e a grande necessidade que os cuidadores têm na área do cuidado e conhecimento em geral sobre o envelhecimento. Uma cuidadora referiu que a mãe tem diabete e tem grande dificuldade em preparar as refeições, já poderia estar orientada se freqüentasse o grupo de apoio. A cuidadora que referiu apoio emocional, psicológico, saber sobre o envelhecimento, cuida da mãe e do pai,e e um irmão que é militar e que está com
quadro de esquizofrenia, são 10 irmãos, mas o cuidado recai sobre ela, embora tenha ajudante podemos perceber o apelo veemente por apoio.
Izal; Losada e Andrés (2002) destacam que, quando alguém assume o cuidado de um familiar, quase sempre pensa que vai ser uma situação temporária, mas em muitos casos, acaba sendo uma situação que se prolonga por anos e anos, com uma crescente demanda de cuidados.
Na análise desta mostra sentimos quanto os cuidadores necessitam de orientação e como estão sós. Karsch (1998), comenta que em estudo realizado na cidade de São Paulo, sobre suporte domiciliar, resulta que mais de 90% das famílias não receberam ajuda de serviços organizados ou grupos voluntários e /ou agência particulares, mas cerca de 30% delas confirmaram que se recebessem estes tipos de apoio ficariam satisfeitos.
Ramos et al. (1991) em pesquisa realizada, das 84 pessoas que responderam ao questionário, 45 (54%) gostariam de receber orientação sobre como lidar com os problemas apresentados pelo idoso cuidado. Os termos apontados como de interesse além dos gerais relacionados ao envelhecimento, que alcançou 40%, foram: relacionamentos (27%) aspectos ligados à saúde e à doença(20%), atividade para o idoso (7%) e aspectos psicológicos do envelhecimento (4%). Em nossa mostra o grande interesse é como saber cuidar e especificamente como cuidar o idoso com DA e outras demências, os aspectos do envelhecimento veio em seguida, aspectos psicológicos, geriatria e saúde.
TERCEIRA PERGUNTA NORTEADORA O QUE É SER IDOSO? (ANEXO G)
Trata-se de questão colocada, porque se sentiu a necessidade de saber qual o conceito ou como o cuidador conceituaria o idoso subjetivamente. Esta avaliação é importante, pois vai “medir” conhecimento do cuidador e do cuidado prestado. E esta falta de conhecimento pode afetar a qualidade do cuidado prestado ao idoso.Néri .(2002).
Na análise desta mostra, advém a dificuldade dos cuidadores de emitir um conceito sobre o que é ser idoso. Quando questionado para dar sua opinião, geralmente depois de um grande silêncio eles a emitiam. Nota-se que pela maioria das respostas o cuidador conceituou o idoso pelo que era projetado na pessoa que estava sob seus cuidados. É interessante o que uma cuidadora, ao não saber conceituar, num vislumbre falou: 12- “acredito que ser idoso não é só doença.” Na análise da mostra descobre-se que a maioria não sabe o que é envelhecimento. Segundo o ponto de vista da pesquisadora, as respostas estão coerentes com o desconhecimento do que é ser velho-envelhecimento. Sugere um profundo desencontro de sentimentos, de desencantamento com o cuidado, de cansaço talvez junto com o desconhecimento. A opinião que resume tudo isto: 19-“ É um saco.Não aceito o envelhecimento”. Mas ao mesmo tempo coloca-se a falta do Estado, toda ajuda, apoio, suporte que o Estado deveria oferecer à família: 19- “Nosso país deixa muito a desejar na questão do idoso”. Apesar de a maioria das respostas retratarem o envelhecimento de forma negativa como, por exemplo: 17- “envelhecer é ter doenças causadas pela velhice”. A análise da mostra, nota-se que há conceitos positivos sobre o envelhecimento: 1- “idoso é uma fonte de sabedoria”.4-“ é completar um ciclo de vida. “ Nestas definições observou-se a aceitação do envelhecimento e do cuidar e suas conseqüências. Diogo, Néri e Cachione (2004) ensinam que, apesar de todas as transformações por que passa a família, ela ainda é o refúgio seguro para garantir a sobrevivência e crescimento dos membros que a compõem e entre eles o idoso, independente do tipo de arranjo familiar que exista entre eles ou de como se estruturem.
CAPÍTULO V
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Levando-se em conta os dados obtidos, o estudo indica uma tendência de que o prestador de cuidados domiciliares a idosos na Região Administrativa do Guará- Distrito Federal é o familiar e na família o principal cuidador é a filha, seguida do cuidador profissional, cônjuge e filho. Os resultados estão de acordo com autores nacionais e internacionais que, em seus trabalhos, observam que na maioria dos países, quem desempenha a tarefa de cuidar em família, geralmente é a mulher.(Karsch-1998; Néri- 2002; Baum e Page-1991).
Baum e Page-1991, em seus trabalhos confirmam esta realidade, nos Estados Unidos, 80% dos cuidados provêm da família e nesta a principal cuidadora é a esposa ou a filha. Trata-se de resultados semelhantes ao deste estudo em que se detectou como principal cuidadora a filha.
Os cuidados prestados estão de acordo com o perfil do idoso deste estudo, todos com mais de 70 anos, na sua maioria dependentes, portadores de doença crônica degenerativa, comprometimento cognitivo e funcional, exigindo atenção integral. Em estudo realizado por Ramos e Saad (1990) na cidade de São Paulo, entre outros resultados verificou-se uma elevada prevalência de doenças crônicas e de distúrbios mentais, sendo que mais da metade dos entrevistados necessitava de ajuda parcial ou total para executar as atividades da vida diária, dados também semelhantes aos deste estudo. Baum e Page (1991) referem que nos Estados Unidos, mais da metade dos cuidados prestados(51%) são com atendimento das AVDs, como banhar, vestir, levar ao banheiro, alimentação etc e 29% dos cuidados são com ao menos três atividades da vida diária. Estes dados são parecidos aos apresentados no presente estudo.
Observou-se nesta pesquisa que os cuidadores familiares não foram preparados para prestar os cuidados e têm necessidade de mais conhecimentos sobre os aspectos gerais do envelhecimento como: saúde, doença, especificidade de cuidar do idoso com DA e Parkinson.