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2.3 Reading Strategies

2.3.1 Deep reading and the deep reading processes

A mediação cultural é definida como “pessoas que funcionam como elementos de

ligação entre dois diferentes sistemas culturais. Os mediadores culturais estão preocupados com as relações entre o sistema local e o sistema global” 85.

Numa perspectiva intercultural a compreensão das diferenças assume um carácter relevante. Não são as características biológicas, as tradições ou os costumes que estão em análise para a compreensão, são os significados construídos sobre a diferença. Isto é, compreender a diferença enquanto diferença, sem estabelecer hierarquias, sem a lógica do egocentrismo, sem a pretensão de absorver a própria diferença (Backes 2003). A Cultural awareness é central quando interagimos com outras culturas. Projectar semelhanças, em culturas distintas, conduzem a interpretações erradas. A consciência

cross-cultural conduz-nos a interpretações mais fidedignas. Aumentar a consciência cultural significa ver os aspectos positivos e negativos das diferenças culturais. A diversidade cultural pode ser fonte de problemas quando há tendência para igualizar. Contrariamente, a diversidade cultural é vantajosa quando há disponibilidade para criar novas capacidades e comportamentos (Quappe e Cantatore, 2005).

O processo de intercâmbio que a diversidade cultural pré-dispõe é um processo permanente de negociação86 (Backes, 2003). Há, por conseguinte, que conceber que os

85 Segundo Pereiro (2004) citando Eric Wolf In Willigen, (1993) p. 127.

86 Brett (2005) citado por Cunha (2005, p. 411). Entende-se por negociação o confronto directo, seja face

factores culturais podem tanto obstaculizar como impulsionar a própria negociação em cultura, e desta forma em saúde/doença87. Segundo Cunha (2005) a mediação cultural88, enquanto via de negociação, constitui uma alternativa credível à resolução de litígios que ocorrem em cenários de intervenção social. Para Seixas (2009) fomentando a tradução cultural, possibilita-se mais adequadamente a mediação cultural, (sobretudo em situações de crise) pois “uma vez compreendido e esquematizado o mapa das

alteridades (othering) e os seus fluxos de sentido, as mediações podem ser planeadas e os conflitos prevenidos os no mínimo controlados”.

5.3.1. O cooperante enquanto mediador cultural?

O cooperante, segundo plataforma portuguesa de ONGD (2004), é o técnico de um país doador que exerce funções no país receptor, no âmbito de uma intervenção de desenvolvimento. Possui conhecimentos técnicos específicos, colaborando no desenvolvimento social, económico cultural do país receptor. Segundo Seixas89, o cooperante actua, o cooperante esclarecido questiona, investiga, dialoga, volta a questionar se for necessário e, porventura, procura pontes entre as diferenças para verdadeiramente cooperar.

O mediador cultural, segundo Pereiro (2005), facilita e/ou incrementa as relações entre as diferenças culturais. Tal implica, por parte do mediador, um elevado conhecimento das culturas que pretende mediar. O mediador estabelece ligações entre o tradicional e o moderno, o global e o local. Assim também no caso do cooperante. Ambos têm que lidar com os conflitos que resultam da colisão de interesses contraditórios, facilitando a harmonia e a equidade entre diferentes sistemas culturais.

A consciência cultural e o nível de entendimento da diversidade cultural do mediador interferem na forma de actuar. Segundo Cunha (2005) também existem outros condicionantes dos mediadores culturais e, por conseguinte, dos cooperantes, sendo: partes, as quais podem actuar como agentes ou mediadores. A negociação aborda qualquer tipo de incompatibilidade. Tanto pode ocorrer a nível intra como a nível inter cultural.

87 Pedro Cunha (2005, p. 410).

88 Segundo John Van Willigen (1993, p.127), Hazel Weidman foi o primeiro antropólogo em aplicar o

conceito de “cultural broker” (mediador cultural) no nível dos cuidados de saúde. Tendo como base a sua experiência mexicana e a relação entre as comunidades camponesas e os vários sistemas nacionais.

- Os valores culturais que possuem podem influir na prioridade dada a determinadas questões em detrimento de outras, bem como afectar as estratégias;

- As diferenças, em relação aos interesses e prioridades que poderão constituir fonte potencial integrativa e de (in)compatibilidades;

- O trabalho num campo de tensões e numa esfera de relações de poder;

Torna-se imperioso reconhecer que a área de gestão construtiva de conflitos constitui uma mais valia assinalável no próprio perfil de competências de todos aqueles que executam a medicação cultural.

5.3.2. Como mediar a diversidade cultural?

Em 2001 foi aprovada a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural pela UNESCO. A diversidade cultural é uma herança da humanidade que deve ser preservada. “Sentar-se à mesma mesa não significa estar em condições de igualdade”90. Mediar a diversidade cultural não é apenas beber dos mesmos padrões e praticas culturais, nem aceitar as diferenças.

Promover, facilitar e compreender o processo de mediação em diversidade cultural constitui um aspecto central para o desenvolvimento de soluções de novas alternativas. O desenvolvimento da mediação pode depender de uma maior exploração das diferenças, sendo necessário o difícil processo de permitir mudança bidireccional. Os valores que suportam a mediação devem ser: respeito pelos direitos humanos, a igualdade, a diversidade e a resolução pacífica de conflitos. O diálogo é um instrumento fulcral neste processo (PNUD, 2008).

Para Quappe e Cantatore (2005), o primeiro passo para a mediação em diversidade cultural passa por ter consciência da diversidade, reconhecendo-a e não temendo-a. Segundo os mesmos autores existem vários níveis de consciência cultural que reflectem como as pessoas entendem as diferenças culturais:

1. My Way is the only way (a minha maneira é a única). O primeiro nível. As pessoas estão conscientes da maneira de agir, assim como essa é a única maneira de actuar. Nesta fase ignora-se o impacto das diferenças culturais.

2. I know their way, but my way is better (eu conheço a maneira deles, mas a minha maneira é a melhor). Segundo nível. Neste nível as pessoas estão consciente de outras formas de agir/pensar mas consideram a sua forma como a melhor. Nesta fase as diferenças culturais são percepcionadas como fonte de problemas; contudo as pessoas tendem a ignorá-los ou reduzir a sua importância.

3. My way and their way (a minha maneira e a deles). Terceiro nível. As pessoas estão conscientes da sua própria maneira de actuar e pensar, assim como de outras maneiras, e escolhem a que melhor se adapta a situação. Nesta fase, as pessoas percebem que as diferenças culturais tanto podem ser benéficas como criadoras de conflitos, contudo, estão disponíveis para usar a diversidade cultural para criar novas alternativas.

4. Our Way (A nossa maneira). Quarto nível. Este último nível permite às pessoas de diferentes culturas criarem uma cultura de significados compartilhados. Pessoas em diálogo criam novos significados, novas regras, para atender à necessidade de uma situação particular. Esta fase é considerada como Participatory third cultura stage. Aumentar a consciência cultural, chegando ao quarto nível, é tão importante como ter certas atitudes que podem ajudar a criar pontes. Referidas pelas mesmas autores, essas atitudes passam por: admitir que não se sabe tudo, suspender julgamentos, recolher o máximo de informação de forma a descrever com precisão a situação antes de fazer uma avaliação, desenvolver empatia, rever os nossos (pre)conceitos constantemente e, por último, acolher a diversidade.

Segundo Pereiro (2005), os pressupostos metodológicos para a mediação cultural centram-se na preservação dos valores culturais das comunidades envolvidas e na mudança no sentido de melhorar as condições de vida, de saúde, entre outros.

Mediação

Constatação Diálogo

Este processo pode ser desenvolvido em fases:

Diálogo

Recolha e análise de informação sobre as diversas características culturas e linguísticas presentes da comunidade em causa (recolha de historias, perspectivas; escuta profunda com respeito; construção de conhecimentos)

Mediação

Envolvimento com a comunidade no sentido de reunir mais informação, apoiar as dificuldades enunciadas e estabelecer projectos em conjunto; argumentação detalhada com vantagens e desvantagens; analise das possíveis soluções;

Constatação

Agir conjuntamente para atingir o determinado fim identificado, provocando as mudanças exigidas (ex: consenso, voto, a autoridade local decide o bem comum). Decisão e avaliação das mudanças provocadas nos diversos sistemas culturais.

Podem existir várias maneiras de atingir o mesmo objectivo na mediação cultural, porém, cada situação deve ser considerada única e não deverá ser visto como alguma vez terminada. Segundo Seixas (2009) o desafio de compreender processos culturais é crucial para todos os envolvidos terem uma consciência cultural (cultural awarereness), assim como para criar competências e capacidades no quadro da cooperação internacional.