2.2 Syntactic parsing
2.2.2 Deep grammar parsing
Como mencionam Vieira e Resende (2016), as pesquisas de natureza etnográfica, que utilizam diferentes métodos de coleta de dados, geralmente, resultam em expressivo volume de dados. Neste estudo, as transcrições de entrevistas, as anotações em caderno de campo e os arquivos e textos da pesquisa documental avolumaram centenas de páginas, o que dificultou que fossem “analisadas integralmente seguindo-se os métodos próprios da ADC” (Resende, 2008, p. 138). Tal fato permitiu o desenvolvimento de um método específico para o tratamento do material coletado. Nesse sentido, o corpus das entrevistas com profissionais especialistas, que atuam junto à saúde mental na PMDF, não foi utilizado como material para ADC, ficando apenas para descrição de aspectos organizacionais e históricos da instituição.
Seguindo os pressupostos metodológicos da pesquisa de Resende (2008), após a transcrição das entrevistas e a organização dos documentos oficiais coletados, o primeiro procedimento do pesquisador consistiu em uma leitura cuidadosa do material. O objetivo maior dessa etapa consistia em rememorar as entrevistas e revisar os conteúdos dos discursos, um processo de familiarização com um conteúdo que seria esmiuçado a ponto de revelar aspectos tão profundos da prática social da PMDF.
Na sequência, o segundo procedimento correspondeu a uma segunda leitura do material, dessa vez mais orientada aos objetivos da pesquisa, em que fora realizada uma seleção prévia de recortes potenciais para análise. Nessa etapa, o pesquisador ocupou-se de grifar e tomar nota a respeito dos trechos de textos selecionados, bem como contrapô-los a algumas observações do caderno de campo. Esse primeiro recorte, mais amplo e abrangente, serviu de base para a criação de um novo arquivo de texto, denominado de recorte final de texto para análise.
Resende (2008) define esses procedimentos como uma “abordagem mais flexível” e “menos estruturada”, pois a codificação não foi definida a priori e sim após a leitura dos dados, considerando os temas e as categorias, que se decide explorar. Todavia, essa abertura na codificação é relativa, pois, ao proceder a primeira leitura dos documentos, o pesquisador não está isento de pressuposições a respeito do seu material. Ao iniciar as leituras, ele já tem construídas algumas perspectivas a respeito do que vai buscar, tanto porque já conhece as interações de que são resultado como pela experiência etnográfica advinda da observação.
para a redução do volume de material gerado em dados especificamente relacionados às questões de pesquisa (Resende, 2008). Tal fato vai ao encontro do pensamento de Fairclough (2003) ao considerar que um trabalho intensivo pode ser produtivamente aplicado a recortes de material de pesquisa mais do que a textos longos.
Apesar do não aproveitamento de partes significativas dos dados levantados, a seleção de recortes traz a vantagem de manter o foco nos problemas específicos. Para tanto, Resende (2008) adverte quanto à necessidade de que os “recortes selecionados para análise não sejam constituídos de enunciados isolados, mas de trechos significativos em seu conjunto” (p. 139).
De posse do arquivo de recorte final, foi realizado o procedimento de codificação em cores, uma estratégia que permite a identificação das categorias relevantes para a análise discursiva do documento, tornando-as mais “legíveis” ou “analisáveis”. Diferente de Resende (2008), que realizou essa etapa utilizando-se de documentos impressos e canetas coloridas, neste trabalho, essa seleção foi realizada em arquivos digitalizados, utilizando-se dos recursos “realce” e “comentários” do Microsoft Word.
De acordo com Vieira e Resende (2016), embora a codificação em cores seja um procedimento muito simples, ela pode ser usada tanto para destacar recorrências de categorias quanto para separá-las, o que facilita a redação das análises.
Embora a riqueza das verbalizações selecionadas, o resultado da codificação do recorte final de texto foi analisado com base nas categorias linguístico-discursivas relacionadas principalmente aos significados representacional e identificacional dos discursos. A escolha desses significados deu-se em função da resposta aos objetivos propostos, bem como à frequência e às recorrências das categorias que os evidenciam no texto, contudo, aspectos interacionais característicos do gênero entrevista estão relacionalmente presentes e possibibilitando e restringindo significados.
O significado representacional no texto está relacionado ao modo como os aspectos físicos e sociais do mundo estão representados nos discursos dos policiais militares participantes da pesquisa, como afirma Fairclough (2003, p. 124):
Eu vejo os discursos como formas de representar os aspectos do mundo - os processos, relações e estruturas do mundo material, o "mundo mental" de pensamentos, sentimentos, crenças e assim por diante, e o mundo social. Aspectos particulares do mundo podem ser representados de forma diferente, por isso estamos geralmente na posição de ter de considerar a relação entre diferentes discursos. Diferentes discursos são diferentes perspectivas sobre o mundo, e estão associados com as diferentes relações que as pessoas têm para com o mundo, que por sua vez depende de suas posições no mundo, suas identidades sociais e pessoais, e as relações sociais que travam com pessoas.
Nesse sentido, por meio do discurso, foi possível identificar que aspectos particulares do mundo são representados de maneiras diferentes pelos atores sociais protagonistas da pesquisa, envolvendo, de algum modo, aspectos ideológicos e hegemonicamente instituídos. Isso significa que diferentes discursos são diferentes perspectivas do mundo, que estão associadas a diferentes relações que as pessoas estabelecem com o mundo e com as outras pessoas.
A análise do significado representacional dos discursos dos policiais militares da PMDF neste texto identificou que as categorias analíticas da transitividade (Halliday & Matthiessen, 2004; Fuzer & Cabral, 2014); representação de atores sociais (Van Leeuwen, 1997, 2008), interdiscursividade e seleção lexical (Fairclough, 2001a, 2003), explicadas posteriormente, soaram como aquelas que mais conseguem expressar os aspectos que permeiam as práticas sociais da organização do trabalho militar, do adoecimento mental e do retorno ao trabalho após afastamento por transtorno mental.
Quanto ao significado identificacional, além da força de ocorrência no corpus selecionado, a opção por sua análise justifica-se pelo fato de que o discurso também constrói identidades. Por meio dos estilos discursivos, as formas de ser do sujeito se revelam. Sendo assim, identidade é uma construção discursiva, pois “quem você é é em parte de uma questão de como você fala, como escreve, assim como também uma questão de incorporação – como você olha, a forma de parar, como se move, e assim por diante” (Fairclough, 2003, p. 157). Os estilos dos discursos enfatizam o processo de identificação, como as pessoas se identificam e são identificadas pelas outras. Todavia, a construção das identidades por meio do discurso não é uma questão estática, mas estabelece uma relação dialética entre discurso e outros elementos da prática social, que também sofrem transformações ao serem incorporados a esse processo. (Magalhães, 2005).
Para fins de análise do significado identificacional dos discursos dos policiais militares da PMDF, selecionou-se as categorias avaliação, metáfora e modalidade, explicadas na seção seguinte. Essas categorias se apresentaram mais produtivas no texto para responder aos objetivos da pesquisa e, como afirmam Vieira e Resende (2012), permitindo ao pesquisador mapear a materialização do problema social nos textos. O modo como o ator social modaliza, avalia, relaciona ou metaforiza os textos configura o modo como se identifica e gera identificações, modos de ser. Contudo, adverte Fairclough (2003, p. 160):
“a identificação não consiste em um processo puramente textual”, pois as pessoas também são agentes sociais que fazem, criam e mudam coisas. Além disso, existe o engajamento prático do indivíduo com o mundo, que perpetua em contínuo processo de identificação,
especialmente na formação da “consciência de si”, [o que é] “uma pré-condição para os processos de identificação no discurso e em textos”.
Apesar da opção pelos significados representacional e identificacional para análise do texto em questão, vale ressaltar que, embora os aspectos dos significados – acional, representacional e identificacional – sejam distinguidos para o propósito analítico, eles não são distintos ou totalmente separados, mas assumem uma relação dialética. Essa relação dialética é explicada por Fairclough (2003) ao pontuar que os significados do discurso, assim como as categorias analíticas relacionadas a cada um deles, não possuem fronteiras explícitas. Para o autor, “uma consequência dessa visão dialética é que significados identificacionais em textos podem ser vistos como pressupondo significados representacionais, as presunções por meio das quais as pessoas se identificam” (Fairclough, 2003, p. 160).