Part II: Lessons from institutional collaborations
5. Dealing with capacity constraints
Seguindo o exemplo de Piaget (1994) e Biaggio et. al. (1999) foi aplicado um dilema moral hipotético, no qual os adolescentes analisaram o déficit habitacional em Manaus
e a ocupação irregular de áreas verdes. Buscou-se, com esse dilema, identificar quais valores são preponderantes na relação pessoa-ambiente, se a manutenção de fragmento de floresta com sua biodiversidade, entendendo que os animais, a floresta e o solo (como elemento orgânico) são detentores de direitos, ou, de outro modo, somente a busca por suprir a carência de moradia em favor dos humanos deveria ser considerada.
Tabela 1 – Avaliação dos adolescentes sobre a ocupação de áreas verdes na Amazônia Avaliação da ocupação de áreas verdes urbanas Quant. Reprovaram a ocupação de áreas verdes para construção de
moradias
33 Aprovaram a ocupação de áreas verdes para construção de
moradias
6 Consideram a ocupação, ao mesmo tempo, certa e errada 6
Total de adolescentes 45
Fonte: elaborada pelas autoras
A maioria dos 45 adolescentes, cerca de 33 (73%), avaliou negativamente e reprovou a ocupação de terras verdes pelas pessoas que não possuíam moradia. Houve quem fosse enfático e dissesse “as pessoas não deviam pensar assim”, esses escolares atribuíram maior valor à vida não humana e aos elementos abióticos das áreas verdes que à necessidade social dos cidadãos da cidade. Esse dado poderia refletir um raciocínio eminentemente ecocêntrico, isto é, favorável à sustentabilidade e às diversas formas de vida, porém as justificativas que deram suporte a essa avaliação são preponderantemente antropocêntrica, ou seja, as áreas verdes devem ser preservadas para o bem-estar do homem, não porque os animais e as outras formas de vida tenham importância. A urgência em construir casa foi citada por 11 estudantes que avaliaram ser prioritária a construção de moradia para as pessoas. A categoria que representa um raciocínio pró-ambiente foi dita por 11 adolescentes que afirmaram enfaticamente que os animais também querem viver.
Tabela 2 – Justificativas para a avaliação da ocupação de áreas verdes na Amazônia
Justificativas para a avaliação apresentada Quant.
As pessoas precisam de moradia 11
Os animais também querem viver 11
A ocupação traz problemas para as próprias pessoas 10
Estão desmatando a floresta e pode acabar 4
Podem fazer moradia, mas não podem derrubar todas as árvores 4
Não deveriam pensar em desmatar a floresta 2
Deus fez a floresta, a gente não pode desmatar 1
A ocupação de áreas verdes aumenta o aquecimento global 1 A ocupação de áreas verdes deixa a cidade mais poluída 1
Total 45
ores
De modo oposto, 6 adolescentes (13,5%) avaliaram positivamente e aprovaram a conduta de ocupação de áreas verdes alegando que “eles precisavam de moradia” ou argumentando “onde eles iam botar os filhos deles?”. Esses adolescentes foram mais diretos e entenderam que ficar sem moradia no momento é bem pior que ter o ar poluído ou perda de biodiversidade. Nesse caso, a ética baseada no cuidado, na responsabilidade e na ecosofia foi nula, o ideal do cuidado da permissividade de Boff (2003) foi ignorado. Prevaleceu a ética tradicional, imediatista que visa o aqui e o agora em detrimento das consequências futuras.
Destacam-se 6 estudantes (13,5%) que consideram certa a ocupação irregular de áreas verdes por pessoas que não tinha onde morar, ao mesmo tempo em que consideraram errada. Por se tratar de um dilema, ambas as situações são importantes, o atendimento da demanda social e a preservação/conservação da biodiversidade e do ecossistema. Porém, a aporia apontada por Bauman foi a tônica na incerteza quanto ao bem maior, por isso esses adolescentes resolveram não escolher o vilão da situação já que consideraram os sujeitos envolvidos no dilema vítimas do processo. Jonas (2014) diria que nesses casos aplica-se a heurística do medo, pois se houver a possibilidade de que algum mal possa ser decorrente de uma ação, essa ação deve ser evitada e outras soluções buscadas.
Desse modo, foi perguntado aos juvenis que solução eles apresentariam para equacionar a problemática da falta de moradia sem ocasionar impactos ambientais, ao que eles responderam, em 27% das citações (15), que conviveriam harmonicamente com a natureza, desmatando-a parcialmente. Alguns estudantes, em 24% das citações (13), afirmaram que buscariam soluções em outros locais, nos quais esse dilema não tivesse presente. 15% das citações (8) remete a responsabilidade aos gestores públicos, o que pode ser considerado pertinente, porém não se pode atribuir a responsabilidade apenas ao governo, pois a problemática ambiental precisa ser pensada conjuntamente, já que as ações que a desencadeia são coletivas. De qualquer modo, esse dado salienta o que Vázquez afirma em sua obra Ética (2014), não se pode responsabilizar alguém que não teve liberdade de escolha para desenvolver uma ação. Se os sujeitos desse dilema não têm moradia e nenhuma alternativa foi possível, a ação de derrubar árvores e expulsar animais do fragmento de floresta, mesmo que moralmente incorreta, quando analisada em contexto, isenta seus autores. Por isso a problemática ambiental é tão complexa em sua resolução. Em 11% das citações (6) os adolescentes não hesitaram em anular qualquer possibilidade de condenação moral dos moradores que ocuparam irregularmente a área verde. Para estes, os moradores supriram a sua carência e consideraram os demais seres irrelevantes diante da necessidade humana. Essa conduta não ponderou sequer os malefícios provenientes dessa escolha para o próprio homem, a longo prazo. Prevaleceu o que Jonas (2014) enfaticamente condenou – a imediaticidade do agir ético, o pensar somente no aqui e agora, sem considerar as gerações futuras. Em 20% das citações (11), diversas alternativas foram apresentadas para que a área verde não fosse ocupada irregularmente. Nesse caso, os adolescentes apresentaram um raciocínio moral mais autônomo, pois foram capazes de identificar alternativas externas ao dilema, de modo que o cuidado de Boff, o princípio responsabilidade de Jonas e a ecosofia de Guatarri puderam ser identificadas, mesmo que incipientemente.
Dos 45 adolescentes, 2 citaram que não saberiam apontar nenhuma alternativa para resolução do problema da falta de moradia, isso reforça a necessidade da Educação Ambiental nas escolas de modo mais sistemático e efetivo.
Tabela 3 – Soluções para a ocupação de áreas verdes urbanas na Amazônia
Soluções apresentadas Quant.
Compartilharia a área verde sem derrubá-la totalmente 15 Ocupariam áreas apropriadas em outros locais 13
O governo daria alternativa viável 8
Ocuparia a área verde sem nenhum problema 6
Faria casas ecológicas na floresta mesmo 3
Fariam construções verticais nas áreas possíveis 3
Moraria com parentes ou amigos 2
Alugaria casas na cidade 1
Morariam na rua 1
Compraria o espaço e faria a moradia 1
Não souberam responder 2
Total de citações 55
Fonte: elaborada pelas autoras
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Essa pesquisa partiu do pressuposto de que na raiz da problemática ambiental está a ação antrópica de civis ou de representantes dos órgãos públicos. Foi constatado que a ética favorável às formas de vida não humana são, em última análise, favorável ao homem, apesar dos 74% de reprovação da ocupação irregular das áreas verdes. A ética preponderante na relação pessoa-ambiente nos estudantes amazônidas pesquisados desconsiderou o cuidado com a vegetação, com os animais e com os elementos abióticos. A responsabilidade quando citada foi para justificar o bem-estar humano e a ecosofia - o pensar social, ambiental e subjetivamente as questões ambientais – aparenta não fazer parte das discussões dos pesquisados.
Ressalta-se, entretanto, que esses adolescentes estão em processo de maturação e que se há culpados no ato de desconsiderar os elementos não humanos como dignos de preocupação não são eles. O Estado através de seus agentes e instituições pode desenvolver políticas públicas que promovam o desenvolvimento da sociedade como um todo, dado que aos menos favorecidos não se pode atribuir responsabilidades sem que alternativas sejam previamente discutidas. Se houvesse moradia suficiente as áreas verdes continuariam preservadas, visto que o direito à moradia, quando efetivado, contribui diretamente para minimizar os impactos ambientais.
O desafio está evidente, a geração presente tem dificuldade e limitação para pensar em si e essa ausência de amplitude se estende às gerações futuras. Eis o compromisso que os educadores precisam perceber a fim de estabelecer metodologias que favoreçam o pensar no ambiente de forma sistêmica, para que haja compromisso na promoção de uma sociedade sustentável que viva e permita viver.
15 13
55
Bardin, L. (1977). Análise de conteúdo. Edições 70, Lisboa, Portugal.
Bauman, Z (1997). Ética pós-moderna. Trad. João Rezende Costa. Paulus, São Paulo, Brasil.
Bauman, Z.; Donskis. L. (2014). Cegueira moral: a perda da sensibilidade na
modernidade líquida. Trad. Carlos Alberto Medeiros. 1ª ed. Zahar, Rio de Janeiro,
Brasil.
Boff, L. (2003). Ética e Moral: a busca dos fundamentos. 2ª ed. Editora Vozes, Petrópolis, Brasil.
Carvalho, I. C. M. (2012). Educação ambiental e formação do sujeito ecológico. Cortez, São Paulo, Brasil.
Guattari, F. (2001). As três ecologias. 11ª ed. Trad. Maria Cristina F. Bittencourt. Papirus, Campinas, Brasil.
Higuchi, M. I.; Azevedo, G. C. (2004). Educação como processo na construção da cidadania ambiental. In: Revista de educação ambiental. Vol. 0, pp. 63-70. Brasília, Brasil.
Jonas, H. (2014). O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização
tecnológica. Trad. Marijane Lisboa, Luiz Barros Montez. Contraponto, Rio de Janeiro,
Brasil.
Leff, E. (2004). Racionalidad Ambiental: la reapropriación social de la naturaleza. Siglo XXI Editores, San Angelo, México.
Piaget, J. (1994). O juízo moral na criança. Summus, São Paulo, Brasil.
Rolston, H. (2007). Ética ambiental. In.: Compêndio de Filosofia, 2ª ed. Edições Loyola, São Paulo, Brasil.
Saraiva, D. P.; Paz, D.T.; Weigel, P. (2014). Problematização da emissão antrópica de gases de efeito estufa e suas implicações na mudança climática. In. Higuchi, M. I. Azevedo, G. C. Ecoethos da Amazônia: problemáticas socioambientais para um
pensar e agir responsável. Editora do INPA, Manaus, Brasil.
Sauvé, L. (2005). Uma cartografia das correntes em educação ambiental. In.: Sato, M.; Carvalho, I. C. M. (org.) Educação ambiental. Artmed, Porto Alegre, Brasil.