1 INNLEDNING
1.2 Steroider
1.2.2 De ulike stoffene i studien
Esta forma de vinculação à profissão é o que permite a muitos motoboys se ligarem ao mesmo tipo de organização do trabalho que se dá no vínculo precário (organização primária), mas, conforme os motoboys autônomos, com uma grande vantagem, porque não têm patrão. Alguns dos motoqueiros autônomos se sentem como verdadeiros empreendedores e reproduzem o perigoso discurso do autoempreendedorismo, que culpabiliza os mal-sucedidos por seu fracasso (ALENCAR, 2007). Além disso, favorece a alguns não se identificarem como motoboys, por, como já vimos, preferirem ser reconhecidos como courriers, ou motoqueiros de verdade.
Além dessas vantagens, citadas pelos motoboys, alguns deles, como o Ronaldo e o Luiz, reconhecem outras que se apresentam por trabalharem como autônomos. Falam do poder que está por traz da circulação dos motoqueiros pela totalidade do espaço da cidade e ambos aliam isso ao fato de se manterem como autônomos e dentro de uma organização primária do trabalho, oferecendo-lhes uma rotina imprevisível, presa à demanda de seus antigos clientes e de novos clientes, que, segundo eles, surgem o tempo todo, de maneira inesperada e com novas demandas. Comenta Luiz:
Eu circulo pela cidade com meu número de telefone no baú, com a moto sempre limpa e em ordem, com uma roupa sempre ajeitada. Quanta gente já me ligou encomendando serviço, porque viu o telefone no baú. Procuro manter o cabelo e a barba em ordem, a aparência ajuda muito a conquistar a confiança. Várias vezes, acontece de estar parando pra almoçar e o cara me vê, pergunta se eu sou motoboy e me pede pra entregar isso ou aquilo... isso é direto. (Diário de Campo – dia 16/07/2010)
Taticamente (CERTEAU, 1994), ele se vale de sua circulação pela cidade para conseguir manter um bom fluxo de trabalho, fazendo das contingências de sua profissão um instrumento para aumentar sua renda.
Para vários deles, permanecer como autônomos é a melhor maneira de se vincular à profissão, a despeito da segurança que o trabalho registrado pode oferecer, como um salário certo no fim do mês e as garantias trabalhistas, prevista na Consolidação das Leis do Trabalho. Dizem conseguir uma remuneração melhor, trabalhando como autônomos, e se sentem seguros com relação à frequência de serviços. Eles têm clientes fixos, aos quais prestam serviços há muitos anos; garantem que, por sempre trabalharem direito e com responsabilidade, os antigos clientes trazem novos clientes, às vezes até mais do que podem dar conta, o que os leva a passar serviços para outros companheiros de confiança, os quais não vão ser irresponsáveis com a indicação, pois, no caso dos autônomos, o nome do motoqueiro é muito importante.
Eu tenho sempre muito trabalho, tem dia que eu nem consigo dar conta direito de tudo. Tem cliente que pede umas coisas pra gente que não dá para fazer sozinho... aí eu chamo uns caras de confiança, pessoal lá do bairro, e divido com eles... não dá pra ser zoião (egoísta) e querer fazer tudo sozinho: você acaba atrasando e desse jeito pode até perder o cliente.
(Diário de Campo – dia 20/07/2010)
Ronaldo aponta ainda que muitos clientes preferem trabalhar com esses motoqueiros, mesmo tendo um fluxo regular de entregas, pela certeza de que os serviços serão efetivados; em sua visão, alguns clientes gostam de conhecer seus motoqueiros e saber se eles conhecem bem a cidade e a maneira de realizar as entregas, ou seja, gostam de conferir a experiência do motoqueiro e preservar uma ligação de maior confiança. Para alguns motoboys, manter-se como autônomo também se trata de uma questão tática (CERTEAU, 1994), pois veem uma boa oportunidade de negócios, ao se manterem nessa forma de vinculação ao trabalho.
Luiz e Deco acreditam que, um dia, esses motoboys de vínculo autônomo serão “profissionais de luxo”, porque os motoqueiros que trabalharem sob a organização terciária da profissão não conheceram o espaço da cidade e serão cada vez mais mal
pagos, enquanto os autônomos, sob uma organização primária do trabalho, por conhecerem todos os lugares da cidade, serão chamados para serviços de emergência, podendo negociar melhor o valor de seus serviços. Assim, esses motoqueiros irão prestar serviços tanto para clientes pequenos, do circuito inferior, como para clientes grandes, do circuito superior da economia da cidade (SANTOS, 2004).
O que pude compreender da relação que se estabelece entre o vínculo de trabalho e o espaço da cidade é que, dentre os motoboys que participaram desta pesquisa, alguns veem pontos positivos nas diferentes formas de organização de trabalho com que convivem, cotidianamente, mas observam que a especialização da rotina por atividades e principalmente por áreas de entrega pode trazer consequências negativas, quando se pensa na vida profissional do motoqueiro, a médio e a longo prazo. Reconhecem que não saber transitar em toda, ou em grande parte da cidade, os impede de adquirir um dos seus principais poderes de barganha no mercado de trabalho: o saber construído no cotidiano de trabalho, na cidade, sobre os seus caminhos e as localizações dos destinos, quer dizer, ficam impossibilitados de uma relação mais abrangente com a cidade de São Paulo e, ao invés da sua relação com os espaços urbanos potencializá-los, passará a aprisioná-los.
Diante dessa situação, alguns motoqueiros preferem não ter um vínculo de trabalho formal, mesmo que este lhes garanta todos os direitos e possíveis benéficos, pois não querem perder o conhecimento do espaço da cidade e manter a principal característica dessa profissão: serem os únicos que conseguem chegar a qualquer lugar da cidade de São Paulo com agilidade, uma vez que criaram um espaço entre os carros que lhes faculta isso e porque conhecem o espaço da cidade.
Conhecer o espaço da cidade, de fato, é uma das coisas que lhes confere uma equilibração maior com as contingências desse trabalho, em São Paulo, porque podem se ligar a lugares e a pessoas que podem trazer benefícios a eles. Além disso, é, talvez, o maior poder da categoria, o que lhes possibilitaria até fundar um próprio (CERTEAU, 1994), um lugar para poder planejar ações e armazenar conquistas, ou seja, poder agir com estratégia, pois, como apontamos anteriormente, no Capítulo 2, a fundação de um próprio pressupõe um poder e não o inaugura; portanto, assim seria possível pensarmos em ações estratégicas por parte dos motoboys, porque a onipresença é um poder que a categoria já tem, apesar de não usá-lo com frequência. Se eles não realizarem suas entregas, ninguém mais, pelo menos nesse momento, pelo tipo de transporte que se observa em São Paulo – o rodoviário – poderia fazer esse trabalho: estar em todas as partes da cidade, de maneira rápida e eficiente. Uma paralisação da categoria acarretaria transtornos significativos à economia da cidade e muitos dos motoboys com que convivi
sabem disso, mas as iniciativas coletivas como associações e sindicatos têm tido grande dificuldade de conseguir e manter sócios. Em acréscimo, a onipresença apenas é um poder significativo, na relação de força desses profissionais com a cidade, quando ela é pensada enquanto uma onipresença da categoria e não somente de um ou outro motoboy.
No entanto, alguns motoboys mais novos, que querem fugir de uma vinculação precária do trabalho e que não têm conhecimento da profissão, segundo os próprios motoqueiros, não percebem a perda que terão, com a especialização espacial do trabalho, presente na organização terciária da profissão. Uma frase de Leão sintetiza muito bem o que certos motoqueiros acham, sobre a escolha por trabalhar sobre uma vinculação formal e, consequentemente, sob uma organização terciária do trabalho de motoboy: “Nem tudo que reluz é ouro” (Diário de Campo – dia 14/07/2010).