3 RESULTATER
3.1.2 LOD og LOQ
Se alguns constroem uma ligação com esse trabalho como um ilusionismo, que camufla um motoqueiro de verdade como motoboy, criando a possibilidade de manter sua maneira preferida de viver, ou seja, sobre uma moto, para outros, a vinculação ao trabalho assume metáfora diversa: a de um pedágio, configurando uma outra maneira de fazer o pacto com a sociedade e o espaço da cidade da São Paulo. A maioria dos
motoqueiros com quem convivi afirma que essa vinculação ao trabalho de motoboy é algo passageiro em suas vidas, pela precariedade das condições e das relações de trabalho a que são expostos, para alcançar, no futuro, a possibilidade de se vincularem a outras formas de trabalho e irem sobrevivendo, de maneira socialmente aceitável, ou melhor dizendo, tolerável, enquanto isso não acontece.
Neka é um exemplo claro disso, pois, apesar de continuar a ser um motoqueiro, como já o era antes de ingressar na profissão, hoje se encontra trabalhando como professor, depois de ter-se formado no curso de Filosofia da USP. Ele nunca se afastou dos interesses e da luta da categoria, mantendo-se à frente dos esforços do Canal Motoboy, participando e trabalhando na organização, junto com o grupo, dos principais eventos sobre a categoria, na cidade. Tem orgulho de ter sido motoboy durante anos e de ter trabalhado desde a época em que ainda eram chamados de courriers, mas afirma que manter-se muito tempo dentro dessa profissão pode ser enlouquecedor.
Essa profissão é justa, é honesta como qualquer outra... é uma forma honesta do cara sobreviver nesta cidade. Ninguém tá livre de ter que se esforçar para ganhar a vida, mas esse esforço tem que ter um fim, porque trabalhar sobre uma motoca a vida toda... isso enlouquece qualquer um. Tem que ter cabeça pra fazer isso e aguentar, é muita pressão... muita cobrança e ninguém tá nem aí para você não. Eu já cumpri a minha parte. (Diário de Campo – dia 03/10/2007)
Neka contou-me que, ao chegar a São Paulo, foi assim que conseguiu se manter na cidade. Porém, com o passar do tempo e com todas as complicações que foram aparecendo, na profissão, decidiu dar prosseguimento aos seus sonhos de continuar os estudos, pois não se sentia justamente recompensado, pela cidade, por seus esforços na realização das práticas cotidianas como motoboy. Com o tempo, principalmente na segunda metade da década de 90, e com o grande aumento de pessoas que passaram a se dedicar a essa atividade, o valor pago aos motoqueiros foi caindo e a atenção e o controle sobre a categoria, aumentando. Por tudo isso, decidiu que era tempo de se aposentar dessa profissão, antes que o pior pudesse lhe acontecer ou que enlouquecesse e, como ele mesmo disse, ele já havia cumprido a sua parte. Deu para a cidade, que necessita manter o fluxo de coisas (SANTOS, 2005), como um complemento do complexo produtivo, anos de contribuição como trabalhador de uma das profissões mais arriscadas do mundo, fez sua parte no Pacto Social entre os motoboys e a cidade de São Paulo taticamente (CERTEAU, 1994), ressignificando, de dentro do grupo social, a obrigatoriedade do trabalho: “Se eu não enlouquecer, se eu não adoecer, ou se eu não morrer, então, posso conseguir fazer outra coisa de minha vida que não seja tão difícil e deixar de ser tolerado para ser aceito”.
Essa mesma visão de Neka sobre um “tempo de validade” para a profissão e da necessidade de buscar outra possibilidade de “ganhar a vida”, encontramos em uma conversa com Café. Ele me contou que está na profissão há dezoito anos e que vem, de um tempo para cá, juntando dinheiro e comprando algumas ferramentas para abrir uma oficina de consertos e ter o seu próprio negócio, para, como ele diz, sair dessa vida:
Como eu te falei outro dia, trabalhar de motoboy tem seu lado bom, mas eu já estou há muito tempo nisso... chega. Tenho guardado um dinheirinho e comprado umas ferramentas pra abrir uma oficina... ter meu próprio negócio. Já paguei meu pedágio amigo: dezoito anos em cima de uma moto, um monte de acidentes... chega. Quem sabe eu consigo realizar meu sonho e ir para Portugal... meu sonho é conhecer Portugal... parece loucura, né, mas quem sabe dá certo; aí eu te mando um postal. Escreve isso no seu trabalho: o motoboy que quer ir para Portugal109... risos... Só
saindo dessa vida, amigo, só assim. (Diário de Campo – dia
24/07/2010)
Café explicita claramente a metáfora do pedágio em sua fala e deixa transparecer a vontade e a construção de um projeto de uma nova vida, que para ele seria a possibilidade de não mais se acidentar, quase sempre flertando com a morte, e de realizar um grande sonho. Os impactos do trabalho como motoboy pela cidade de São Paulo, que me mostrou tatuados em seu corpo na forma de inúmeras cicatrizes, encontram uma resistência (CERTEAU, 1994) criada por esse motoboy ao fazer seu Pacto Social: a possibilidade de construção de uma nova vida em outra profissão, depois de pagar o seu pedágio, ou seja, após trabalhar em uma profissão que se ofereceu a ele como uma oportunidade de emprego, auxiliando-o a ser reconhecido, mesmo que precariamente, como um membro da sociedade, em um mercado de trabalho com tantos desempregados, como enfatiza Pochmann (1999; 2001) sobre o trabalho na cidade de São Paulo.
Outro motoboy que descreve, explicitamente, sua vinculação ao trabalho como um pedágio é Léo. Ao se referir ao descaso das pessoas para com as possíveis desventuras da vida de um motoboy, ele disse:
Isso aqui não é vida (se referindo ao trabalho como
motoboy). Se você tiver cabeça... todo mundo que eu
conheci aqui que tem cabeça, trabalha um tempo aqui e depois abre um butequinho, um táxi; poupa pra fazer outra coisa... paga o pedágio e vai fazer uma coisa melhor. Eu não quero fazer isso o resto da minha vida. Sou motoqueiro, trabalho nisso porque não tive, na época, coisa melhor pra fazer, mas já estou nisso há muito tempo, não é belinha?!
(forma como se dirige à Andréia). Quero mudar de vida. (Diário de Campo – dia 14/07/2010)
Para ele, é falta de juízo conservar-se nessa profissão por muito tempo. Ele parece concordar com as ideias de Neka sobre os perigos de se manter como motoboy e deixa claro seu desejo de mudar de vida. Fato perfeitamente congluente com sua primeira descrição sobre ser motoboy: Isso aqui não é vida. Para ele, sua profissão se configura como um pedágio para conseguir ter acesso a algo que não seja aquém do aceitável como uma maneira de vida, diferente do trabalho precário ao qual se dedica diariamente: algo que lhe possibilite se sentir vivendo, ao invés de sobrevivendo.
Assim como esses três motoqueiros, que têm suas falas destacadas acima, muitos outros apontam a profissão de motoboy como uma sobrevivência, uma alternativa ao desemprego, e nutrem a esperança, que muitas vezes se materializa em projetos, de conseguir encontrar uma nova possibilidade de efetivarem seu pacto com a sociedade. Essa ideia de construir uma pacto mais aceitável, para eles, no futuro, após terem pagado seus pedágios, fica muito mais clara quando nos deparamos com outra fala, que frequentemente aparece em conversas sobre a retribuição que encontram, por parte da sociedade, ao esforço que fazem para honrarem seus compromissos no Pacto Social.
Marcelo, que é motoboy há 28 anos, ao me contar sobre um amigo que também trabalhava como motoboy em São Paulo, disse-me que este escondia das outras pessoas a sua profissão, por vergonha. A essa afirmação do amigo, respondia da seguinte maneira:
Eu não tenho vergonha de ser motoboy, é uma profissão como outra qualquer. Eu estou trabalhando, não estou roubando e nem estou matando ninguém. Se eu estivesse, sei lá... traficando drogas... essas coisas... você sabe, se eu estivesse envolvido com o crime... aí sim eu ia ter vergonha dos outros, até da minha família, mas não, eu estou trabalhando [...] muita gente tem medo de motoboy, acha que é tudo um bando de louco, de infrator... não, não moço... tem muita gente boa, muito pai de família aqui, trabalhando e mantendo as coisas funcionando. É uma minoria que não presta, como em todo lugar, como em toda profissão tem uns aloprados, mas é a minoria. (Diário de Campo – dia
23/07/2010)
Os motoboys reconhecem claramente os preconceitos que recaem sobre sua profissão. Notam que, apesar da grande importância da profissão, para a cidade, muitos os tratam como membros toleráveis de nossa sociedade: um estorvo necessário. Mesmo assim, Marcelo não se deixa tomar por esses preconceitos que recaem sobre a profissão e consegue extrair dela uma satisfação moral, quer dizer, como trabalhador, responde
com orgulho às regras impostas pela sociedade para aqueles que querem se considerar, dignamente, como seus membros.
Além da dificuldade de conseguirem se empregar e de encontrarem uma maneira de resistir a isso, aliando-se taticamente à profissão de motoboy, para dar conta das contingências do mercado de trabalho, assumindo um Pacto Social que descrevemos aqui através da metáfora do pedágio – que lhes permite viver como membros da sociedade, mas que só em um futuro, longe da profissão, venham a ser finalmente reconhecidos pelos seus esforços, caso sobrevivam ao “estágio” e encontrem outro trabalho –, esses profissionais têm que resistir mais uma vez, porque se deparam com a maneira perversa com que muitos retribuem ao trabalho de motoboy: reconhecem a utilidade do serviço, mas não reconhecem, apenas toleram os profissionais, os motoboys. Essas pessoas que trabalham para manter a configuração de um espaço que foi criado e é vivido por todos nós são conservadas na corda bamba, ou melhor, no limite da vida.