4. Part 2: Waste model development and comparison of waste from FTS and RAS conditions
4.1.7. Day degrees
Como vimos no capítulo 3, Kant apresenta vários exemplos de objetos naturais sublimes e afirma que, na arte, o sublime está sempre limitado pelas condições de concordância com a natureza: “[...] que, se, como é justo, aqui consideramos antes de mais nada somente o sublime em objetos da natureza (pois o sublime da arte é sempre limitado às condições da concordância com a natureza)” (CFJ, §23, B76). A questão é, então, se a arte pode ou não ser sublime. O conteúdo da citação, por si só, autoriza uma resposta afirmativa. No entanto, para o prosseguimento do itinerário argumentativo, é preciso firmar e esclarecer dois pontos: 1º) Como alertamos diversas vezes, a aplicação da categoria do sublime (na forma como desenhada por Kant) à compreensão da arte moderna não pode ocorrer como mera transposição. A CFJ carrega potenciais que ajudam a esclarecer o que acontece com a arte e sua relação com a filosofia; são potenciais que precisam ser explorados, não adotados ipsis litteris. 2º) Mesmo quando examinamos a argumentação kantiana segundo sua lógica interna, aparecem indícios suficientemente fortes para legitimar uma interpretação que coloque o sublime para além das fronteiras da natureza. Por isso, consideramos, no mínimo,
exagerada a afirmação de Guyer (1996, p. 264) de que “obras de arte parecem não ter nenhum papel na imagem do sublime em Kant”121.
Um desses indícios pode ser encontrado já na CRP (B641, p. 513), onde Kant, ao se referir ao modo como a poesia pode descrever a eternidade, utiliza a expressão “terrivelmente sublime”122. Na CFJ, a discussão é bem mais explícita:
Assim diz, por exemplo, um certo poeta na descrição de uma bela manhã: “Nascia o sol, como a tranqüilidade nasce da virtude.”123 A consciência da
virtude, se a gente se põe, mesmo que só em pensamento, no lugar de uma pessoa virtuosa, difunde no ânimo um grande número de sentimentos
sublimes e tranqüilizantes e uma visão ilimitada de um futuro feliz, que nenhuma expressão que seja adequada a um conceito determinado alcança inteiramente” (CFJ, § 49, B 197, p. 161-162. O grifo é nosso).
Por esses indícios podemos perfeitamente pensar que, mesmo na estrita lógica interna da argumentação kantiana, o sublime, da mesma maneira que o belo, pode aparecer na arte como se esta fosse natureza. Pelas características assumidas pela arte moderna, a nossa hipótese é de que esse trânsito analógico (natureza – arte) realizado pelo sublime é mais elucidativo do que as exigências estabelecidas para o ajuizamento da beleza.
Não podemos desconsiderar a óbvia relutância de Kant em fornecer exemplos de obras artísticas sublimes124. Entretanto, também é bastante claro que o motivo disso tem algo a ver com a dificuldade de um produto humano ser compatível com as exigências do ajuizamento estético em geral: enquanto produto humano, a arte, seja bela, seja sublime, está “perigosamente” eivada de determinações finalísticas. Kant
121 . “[...] works of art seem to have no part in Kant’s image of the sulime”.
122 . A passagem é a seguinte: “A necessidade incondicionada de que tão imprescindivelmente carecemos, como
suporte último de todas as coisas é o verdadeiro abismo da razão humana. A própria eternidade, por mais terrivelmente sublime que um Haller a possa descrever, está longe de provocar no espírito esta impressão de vertigem, porquanto apenas mede a duração das coisas, mas não as sustenta” (CRP, B641, p. 513).
123 . Conforme nota que acompanha a edição, o verso é de autoria de J. Ph. L. Withoff (1725-1789).
124 . Isso fica claro na seguinte citação: “[...] mas observo apenas que, se o juízo estético deve ser puro (não
mesclado com nenhum juízo teleológico como juízo da razão), e disso deve ser dado um exemplo inteiramente adequado à crítica da faculdade de juízo estética, não se tem de apresentar o sublime em produtos de arte (por exemplo, edifícios, colunas etc.), onde um fim humano determina tanto a forma como a grandeza, nem em coisas da natureza, cujo conceito já comporta um fim determinado (por exemplo, animais de conhecida determinação natural), mas na natureza bruta (e nesta inclusive somente enquanto ela não comporta nenhum atrativo ou comoção por perigo efetivo), simplesmente enquanto ela contém grandeza”. (CFJ, § 26, B89, p. 98-99).
procura evitar apresentar a arte e a finalidade natural como exemplos do sublime porque, nesses casos, nosso julgamento incluiria conceitos de finalidade do objeto, contradizendo o caráter contestatório próprio do sublime. Esse problema acaba sendo particularmente relevante para os movimentos no interior da arte moderna, tais como o surrealismo, o teatro do absurdo, o expressionismo abstrato e boa parte dos trabalhos de Samuel Beckett, que visam, conscientemente, minar determinados padrões de expectativa e finalidade. Nesses casos, o processo de produção da obra é, em si mesmo, uma ação conforme a fins, ou seja, o fim que acompanha o trabalho do artista é dar origem a uma obra; daí em diante, porém, as finalidades podem ser subvertidas.
Utilizar obras de arte para discutir os julgamentos sobre o sublime era, evidentemente, mais complicado no tempo de Kant, quando a arte em geral era representativa (figurativa): “Uma beleza da natureza é uma coisa bela [schöne Ding]; a beleza da arte é representação bela [schöne Vorstellung] de uma coisa” (CFJ, § 48, B188, p. 157). Isso significa que são bastante precárias as condições para uma obra de arte representativa ser julgada como sublime. Se considerarmos, por exemplo, formas miméticas de arte, como a pintura e a escultura, fica mais agravada a possibilidade de trazer para dentro do julgamento estético as exigências do sublime: a escultura e a pintura restringem o tamanho da representação aproximando seus temas da capacidade de medir grandezas, própria das operações cognitivas determinantes. O mesmo problema poderia ser analisado de um outro ponto de vista: pinturas são definidas por Kant como aparências sensíveis125; para produzir um objeto que atendesse às exigências do sublime, o pintor teria de criar aparências (ilusões) de infinito ou de forças esmagadoras. Tais aparências, entretanto, nunca estão completas uma vez que o espectador está bem consciente da artificialidade do objeto, o que acaba desviando a atenção para o seu caráter finalístico. Assim que a ilusão é quebrada e o objeto se deixa ver como criação conforme a fins, a condição de sublimidade, cuja marca central é a contestação dos propósitos da cognição, fica inviável.
125 . “As artes figurativas ou de expressão de idéias na intuição dos sentidos (não por representações da simples
faculdade da imaginação, que são excitadas por palavras) são ou as da verdade dos sentidos ou as da aparência dos sentidos. A primeira chama-se plástica [Plastik]; a segunda, pintura [Malerei]” (CFJ, § 51, B207, p. 167).
É conveniente ressaltar ainda outro ponto: existe uma importante diferença entre obras de arte utilizadas para exemplificar julgamentos de beleza e obras de arte utilizadas para exemplificar julgamentos do sublime. Já examinamos em capítulos anteriores que, no objeto artístico, a conformidade a fins (Zweckmässigkeit) presente nele, não obstante ser sem fim, é compatível com o jogo livre das faculdades do conhecimento. Nesse caso, a conformidade a fins sem fim (Zweckmässigkeit) conecta- se com o ato da cognição. No sublime, pelo contrário, a conformidade a fins (Zweckmässigkeit) resiste à expectativa finalística da cognição.
O caráter de resistência do sublime é suficiente para trazer à tona os paradoxos que envolvem a produção de uma arte que visa criar a aparência (ilusão) do sublime ao transpor para dentro dela uma imagem da natureza. Uma representação de algo infinito não é, de fato, algo infinito. O sublime, na arte figurativa, deveria ser, ao mesmo tempo, conforme a fins, resistente à conformidade a fins e ser uma ilusão propositalmente criada. Tal configuração, profundamente paradoxal, explica por que Kant não encontra muitas obras de arte adequadas para exemplificar a sua exposição do sublime. A saída para uma aproximação da arte com o sublime fica mais clara se a pensarmos fora do campo da simulação (ilusão, aparência) da natureza e apresentando- se como infinita ela mesma. A arte não é sublime porque seu tema é algo sublime, mas é sublime porque é uma unidade de forma e conteúdo capaz de gerar no espectador a experiência do sublime.