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O Trust Game é a tarefa que foi adotada neste trabalho, pois é um jogo que mensura a confiança entre os participantes e engloba as principais condições de confiança. Basicamente o Trust Game consiste em investir dinheiro em outra pessoa sem garantia de retorno, o que implica em risco, mas com a expectativa de que um valor maior seja retornado, porém este retorno depende basicamente da ação do receptor que é independente da vontade do doador.

Wout e Sanfey (2008, p. 797) descrevem o Trust Game da seguinte forma: em um Trust Game padrão duas pessoas anônimas, um investidor e um parceiro, interagem um com o

outro. O investidor, ou doador, é dotado de uma determinada quantia de dinheiro e é informado que ele tem a oportunidade de transferir parte desse montante inicial para seu parceiro. Este jogador então tem duas opções possíveis:

 Ficar com todo o recurso inicial, sendo que nesta opção o jogo se encerra;

 Dividir o recurso com o receptor, que quando o receber será multiplicado por três, na expectativa que o receptor haja com reciprocidade.

Do ponto de vista do doador manter os $10 iniciais recebidos é a opção que lhe propicia maximizar o seu ganho com o menor risco possível. Porém ele pode optar por doar qualquer valor entre $1 e $10 ao receptor com a expectativa de que este irá adotar uma atitude de reciprocidade e lhe retornar algum valor entre $1 e três vezes o valor recebido, uma vez que o recurso inicial será triplicado quando enviado ao respondente. Assim ambos sairiam melhor do que no início do jogo.

Entretanto nesta opção o doador está sujeito ao risco do receptor, não retribuir a confiança inicial, ficando com todo o valor recebido ou retribuir algo menor que o valor enviado inicialmente. Conforme Van den Bos et al. (2009, p.1) a decisão de confiar em outra parte envolve riscos para o cedente e a decisão de retribuir a confiança depende do deslocamento entre a maximização dos resultados pessoais em relação à valorização da confiança que foi dada.

Em essência, o receptor tem uma escolha entre honrar ou abusar da confiança, portanto irá decidir entre duas opções:

 Maximizar o seu ganho e ficar com o valor recebido multiplicado por três, não retornando nada ao doador;

 Retribuir a confiança do doador, lhe retornando parte do valor recebido.

Se o receptor honra a confiança e retorna mais dinheiro do que o transferido pelo investidor, ambos os jogadores acabam com um maior retorno monetário que foi originalmente obtido. No entanto, se o parceiro abusar da confiança, o investidor fica com menos dinheiro do que a dotação inicial, enquanto que o parceiro acaba com um grande lucro (WOUT E SANFEY, 2008, p. 797).

De um ponto de vista tradicional da teoria dos jogos, um parceiro (egoísta) racional nunca iria honrar a confiança dada pelo investidor e manteria todo o montante transferido para si próprio. O investidor, sendo um ser racional, naturalmente percebe isso e nenhuma quantia

seria enviada para o parceiro. No entanto, na maioria dos estudos experimentais sobre o Trust Game, os investidores geralmente estão dispostos a enviar alguma quantia de dinheiro para o parceiro (WOUT E SANFEY, 2008).

Os investidores tomam uma decisão (geralmente muito rápido) a respeito da confiabilidade de um parceiro que nunca havia encontrado anteriormente e na ausência de quaisquer outras informações, parece que automaticamente processam pistas sobre suas intenções sociais, um sinal, atitudes ou comportamentos podem ser vitais na determinação da probabilidade de cooperação no Trust Game (WOUT E SANFEY, 2008, p. 797).

Um dos primeiros trabalhos utilizando Trust Game é o de Berg, Dickhaut e McCabe (1995), este estudo serviu como base para diversos outros trabalhos que também realizaram pesquisas usando o Trust Game como tarefa. E este trabalho de Berg, Dickhaut e McCabe (1995) será utilizado também como base para esta pesquisa.

O Trust Game é uma tarefa reconhecida e consolidada e já foi utilizado com sucesso em diversos trabalhos. Colturato (2011) elaborou uma coletânea de trabalhos que utilizaram a tarefa Trust Game em diversas áreas do conhecimento, que é apresentada no Quadro 1.

Autores publicação Ano de Tema

Evans, A.M.; Krueger, J.I. 2011 Testar a correlação entre decisões de alto risco e probabilidade de reciprocidade a partir dos interesses individuais.

Ben-Ner, A.; Putterman, L.; Ren,

T. 2011

Verificar se a comunicação de forma numérica aumenta significativamente a confiança e

confiabilidade.

Kéri, K.; Kiss, I. 2011 Explorar a relação entre os níveis de oxitocina em uma relação íntima.

Deck, C.A. 2010 Analisar o comportamento em negociações

comerciais.

Slonim, R.; Guillen, P. 2010 Avaliar o efeito da confiança quanto ao gênero dos jogadores. Lev-On, A.; Chavez, A.;

Bicchieri, C. 2010

Estudar a consequência comportamental da comunicação interpessoal antes do jogo da

confiança.

Oguer, F. 2010 Avaliar o comportamento de confiança e reciprocidade em personagens teatrais. Castillo, M.; Leo, G. 2010 Avaliar o risco moral e a reciprocidade.

Apicella, C.L.; Cesarini, D.; Johannesson, M.; Dawes, C.T.; Lichtenstein, P.; Wallace, B.; Beauchamp, J.; Westberg, L.

2010

Analisar a relação entre a oxitocina receptora (OXTR) de genes e a indução experimental de

preferências sociais. Kang, Y.; William, L.E.; Clark,

M.; Gray, J.R.; Bargh, J.A. 2010

Avaliar os efeitos físicos da temperatura e o papel da ínsula no comportamento de

confiança. Charness, G.; Du, N.; Yang, C-

L. 2010 Avaliar a confiança baseada na reputação do indivíduo. Desmet, P.T.M.; Cremer, D.D.;

Dijk, E.V. 2010

Diferenças comportamentais entre decisões voluntárias e forçadas.

Pelligra, V. 2010 Discutir raízes filosóficas bem como o caráter relacional deste princípio. Xiao, E.; Bicchieri, C. 2010 Avaliar a igualdade como trunfo da

reciprocidade. Van den Bos, W.; van Dijk, E.;

Westenberg, M.; Rombouts, S.A.R.B., Crone, E.A.

2009 Correlação neural da reciprocidade

Coleman, E.A.; 2009 Analisar o comportamento humano em questões políticas e sociais. Etang, A.; Fielding, D.;

Knowles, S. 2009

Analisar o efeito da distância e convívio social na confiança e altruismo.

Sripada, C.S.; Angstadt, M.; Banks, S.; Nathan, P.J.; Liberzon, I.; Phan, K.L.

2009 mentalização em situações sociais. Avaliar o efeito da ansiedade e da Boudreau, C.; McCubbins,

M.D.; Coulson, S. 2009

Estudar o efeito da confiança quando as informações são transmitidas por

desconhecidos. Boero, R.; Bravo, G.; Castellani,

M.; Squazzoni, F. 2009 Avaliar a reputação em jogos de confiança. Bracht, J.; Feltovich, N. 2009 Avaliar a reputação de um indivíduo através de conversa fiada. Haile, D.; Sadrieh, A.; Verbon,

H.A.A. 2008

Avaliar o efeito do comportamento de pessoas de alta renda e baixa renda.

Singer, T.; Snozzi, R.; Bird, G.; Petrovic, P.; Silani, G.;

Heinrichs, M.; Dolan, R.J.

2008 Mensurar as atividade cerebrais em situações de empatia e altruísmo.

Bracht, J.; Feltovich, N. 2008 Testar o mecanismo do compromisso prévio para o jogo de confiança. Cesarini, D.; Dawes, C.T.;

Fowler, J.H.; Johannesson, M.;

Lichtenstein, P.; Wallace, B. 2008

Avaliar a variação genética de sujeitos em situações de decisão.

Krueger, F.; Grafman, J.;

McCabe, K. 2008

Avaliar a correlação neural dos participantes de jogos econômicos.

Deck, C. 2007 Correlacionar o Trust Game com o Market Game. Chaudhuri, A.; Gangadharan, L. 2007 Analisar a confiança e a confiabilidade. Ciriolo, E. 2007 Estudar o efeito injustiça no julgamento de

confiabilidade. Sankaranarayanan, V.;

Chandrasekaran, M.; Upadhyaya, S.

2007 Avaliar um modelo de confiança baseado em decisões.

Johansson-Stenman, O.;

Mahmud, M.; Martinsson, P. 2005

Avaliar a conduta do administrador relacionada à quantia de dinheiro que está em

jogo. King-Casas, B.; Tomlin, D.;

Anen, C.; Camerer, C.F.; Quartz, S.R.; Montague, P.R.

2005 Mensurar a correlação neural de reciprocidade. Delgado, M.R.; Frank, R.H.;

Phelps, E.A. 2005

Analisar se as percepções de caráter moral modulam os sistemas neurais de recompensa

durante o jogo da confiança.

Malhotra, D. 2004 Atos de Confiança e Reciprocidade

Eckel, C.C.; Wilson, R.K. 2004 Avaliar as atitudes de risco e decisões de confiança a parceiros anônimos. Engle-Warnick, J.; Slonim, R.L. 2004 Avaliar comportamentos de relacionamentos

previsíveis. Pillutla, M.M.; Malhotra, D.;

Murnighan, K. 2003 Investigar confiança e reciprocidade entre desconhecidos King, R.R. 2002 Analisar a confiança, vieses de conduta no

convívio social. Anderhub, V.; Engelmann, D.;

Güth, W. 2002 Analisar a reputação do sujeito.

Berg, J.; McCabe, K. 1995 Jogo de Confiança

Quadro 1: Coletânea de artigos que usam Trust Game (COLTURATO, 2011, p. 54)

É importante salientar que o Trust Game é um jogo derivado da teoria dos jogos e Camerer e Fehr (2002, p. 3) definem que um jogo é um conjunto de estratégias para cada um dos vários jogadores, com regras precisas para a ordem em que os jogadores escolhem suas estratégias, as informações que eles têm quando escolhem e como avaliam a utilidade dos resultados obtidos. E Osborne e Rubinstein (1997, p. 2) definem que um jogo é uma descrição

da estratégia de interação que inclui as limitações da ação que os jogadores podem tomar e os interesses dos jogadores, mas não especifica as ações que cada jogador pode tomar.

Rilling e Sanfey (2010, p. 17.3) ressaltam as vantagens da utilização da teoria dos jogos ao afirmar que ela oferece uma fonte rica de ambos os testes comportamentais e de dados, além de modelos bem especificados para a investigação da interação social. Os jogos utilizados têm a vantagem de serem fáceis de serem compreendidos pelos participantes, oferecem cenários sociais bastante atraentes e são relativamente simples de se adaptar ao estudo da neurociência. Essas tarefas têm sido usadas para estudar vários aspectos sociais do processo decisório, principalmente intercâmbio recíproco, as respostas à justiça e equidade, e do altruísmo e da punição.

Bahry e Wilson (2004, p. 5) afirmam que em vários estudos recentes, o montante enviado neste jogo provou ser uma medida útil de confiança e reciprocidade e demonstrou que varia de acordo com as características do jogador e do contexto de jogo.

Conforme Berg, Dickhaut e McCabe (1995, p. 126) uma das condições para que a confiança possa ocorrer no jogo é o primeiro jogador enviar dinheiro em um estágio de risco uma vez que a outra parte pode ou não agir com reciprocidade.

De acordo com Etang, Fielding e Knowles (2009, p. 2) o montante de dinheiro enviado é interpretado como forma de confiança que o remetente deposita no destinatário anônimo, bem como o montante devolvido é interpretado como uma indicação de quão confiável o destinatário é.

Bahry e Wilson (2004, p. 5) salientam que o modo de pensar do Trust Game tem todas as características padrão de uma relação de confiança. O investidor opta por se tornar vulnerável no que diz respeito ao receptor. Se o receptor se mostra confiável, então ambas as partes ficam em melhor situação. Na ausência de confiança (ou confiabilidade) de um ou ambos os sujeitos, os dois são deixados em situação pior.

Os resultados de Malhotra (2004, p. 61) demonstram que os doadores se concentram principalmente sobre os riscos associados com confiança, enquanto os receptores, aqueles que estão em condições de retribuir, baseiam suas decisões sobre o nível dos benefícios que receberam. Especificamente, confiança é mais provável quando o risco é baixo, mas a probabilidade de confiança não depende do nível de benefício que a confiança oferece às partes.

De acordo com Etang, Fielding e Knowles (2009, p. 7) embora o Trust Game seja normalmente interpretado como medida de confiança, a quantidade de dinheiro enviado no Trust Game pode ser influenciada por pelo menos dois outros fatores. A primeira é que em alguns casos, a utilidade do remetente é uma função positiva de utilidade do destinatário. Em outras palavras, algumas pessoas podem simplesmente serem mais generosas. A segunda é que algumas pessoas podem enviar menos porque são mais avessas ao risco.

Conforme Berg, Dickhaut e McCabe (1995, p. 126) as condições para que haja confiança no Trust Game são as seguintes:

 Enviar dinheiro no estágio um é arriscado uma vez que a outra parte pode ou não ser recíproco;

 No estágio dois a outra parte tem que desistir de alguma parte do dinheiro recebido para deixar o primeiro sujeito melhor;

 Uma vez que o dinheiro é multiplicado por um determinado fator ambas as partes podem ficar melhor em relação ao resultado perfeito do sub-jogo.

De acordo com McCabe, Rigdon e Smith (2003, p. 267) o jogador 1 confia no jogador 2 somente se o jogador 1 tem duas crenças relevantes:

 O jogador 2 irá interpretar o seu movimento como confiança;

 O jogador 2 irá retribuir. E é evidente que a ação do jogador 2 pode ser descrita como recíproca somente se ele interpreta a ação do jogador 1 como de confiança. De acordo com Berg, Dickhaut e McCabe (1995, p. 126) em um extremo, enviar $1 pode ser sinal de acreditar pouco na reciprocidade e no outro extremo enviar $10 pode ser sinal de acreditar muito na reciprocidade.

2.2.6.1 Trust Game e Confiança

Tendo em vista o referencial teórico estudado sobre confiança é possível concluir que a confiança medida no Trust Game apresenta características semelhantes às encontradas na confiança calculada. Uma vez que os sujeitos irão jogar a tarefa com uma pessoa que não conhecem (o proprietário que será executado através de programação) é esperado que a

confiança seja frágil e parcial, ou seja, como eles não têm histórico do comportamento do seu parceiro proprietário, não poderão formar expectativa sobre como irão reagir conforme o valor que receberão.

Além disso, ainda é esperado que o sujeito tome a decisão de doar qualquer valor ao proprietário se baseando em uma avaliação racional de que o seu ganho poderá ser maior caso ele abra mão de parte do seu montante inicial na expectativa de conseguir reciprocidade do proprietário e receber um montante maior que o doado.