6. Evaluation and Discussion
6.2.2. Dataset Comparison for Classification and Composition
De acordo com o paduano, muitos santos – como São João Crisóstomo, Santo Hilário e Santo Ambrósio – deram testemunho do verdadeiro “julgamento” do sacerdote. Refere-se a Crisóstomo para mostrar que o presbítero é uma pessoa hábil na sua atividade de corrigir e educar os fiéis; o seu modo de aconselhar e repreender são decisivos para acolher o crente infrator; e se este decide permanecer no erro, o “médico das almas”, o mestre da Lei Evangélica, deve ter uma virtude muito importante para o seu ofício, a saber, a paciência150. A propósito, Marsílio tira de Santo Hilário a seguinte lição: ser paciente é
uma qualidade que só vem a tornar mais eficaz o ministério sacerdotal, pois, em se tratando da fé em Cristo, é da vontade divina que ela seja confessada e admirada livremente, sem pressão ou violência151.
Recorre, por sua vez, a Santo Ambrósio para sustentar a idéia de que a única arma legítima a ser usada pelo mestre da Palavra contra o pecador são suas lágrimas. Não é com prisões, torturas, ameaças ou qualquer outro instrumento secular intimidador que o ministro da Lei Evangélica conduz os crentes em direção à graça divina. É a sua dor, o seu sofrimento, os únicos meios de defesa de que ele dispõe para impedir o avanço do pecado152.
Enquanto os instrumentos de intimidação são sinais de arrogância, as lágrimas consistem num sinal de humildade. Esta virtude é imprescindível no ministério sacerdotal. Ela se enquadra no estado de perfeição que deve praticar. Vejamos a seguir como Marsílio descreve esse estado de vida evangélica. Inicialmente, vale observar que ele o fundamenta 1 14499 EExxpprreessssããoo ddee MMaarrssíílliioo.. CCff.. DDPP,, IIII,, 99//33,, pp.. 330066.. 1 15500 CCff.. DDPP,, IIII,, 99//44,, pp..330088,, nnoo qquuaall MMaarrssíílliioo cciittaa CCrriissóóssttoommoo.. 1
15511 DDiziz SSaannttoo HHiilláárriioo:: ““DDeeuuss nnããoo eexxiiggee uummaa fféé ssoobb ccooaaççããoo””.. AAppuudd DDPP,, IIII,, 99//55,, pp.. 330099..
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na história de Jesus, descrita no Novo Testamento: Cristo nasceu, viveu e morreu pobre153.
Nasceu numa manjedoura, “(...) isto é, onde ficam o gado e a forragem”154. Já adulto,
declarou que não tinha onde reclinar a sua cabeça, como demonstram Mateus [8, 20] e Lucas [9, 58]. Se nesta vida assumiu a condição de extrema humildade e de recusa às riquezas materiais, pretendeu demonstrar que a pobreza é um sinal de despojamento dos bens materiais; o exemplo e imitação da Verdade é o melhor modo de propagar o Evangelho155.
O paduano reconhece que o valor da imitação no ensino é uma idéia antiga. Crisóstomo e Aristóteles compartilham do pensamento de que as palavras e as ações têm força quando se unem para revelar a verdade156. É o que também diz Jesus quando
aconselha aos Apóstolos seguir o seu exemplo: “Brilhe do mesmo modo a vossa luz diante dos homens”157. Sêneca é outro sábio que concilia o ensino da sabedoria à vida. Ele afirma
que “o que deve ser feito, deve-se aprender a fazê-lo com quem o faz”158. No caso da Lei
Evangélica, a eficácia de seu ensino pressupõe a sua vivência.
O distanciamento entre a pregação e a ação, principalmente se for praticado por aqueles que foram escolhidos como líderes da corporação dos perfeitos, é motivo para os fiéis levantarem dúvidas acerca do juízo final ou da crença do outro mundo. O crente poderia se perguntar: se o sacerdote é o médico das almas, que vive uma vida despojada e, portanto, distribui tudo que recebe ou possui aos pobres, então por que a realidade mostra o contrário? Isto é: por que há ministros da Palavra que oferecem dinheiro a quem não precisa, ficam com os bens dos fiéis que foram ofertados, adquirem inúmeros bens supérfluos, fazem banquetes? Enfim, por que existem sacerdotes que procuram viver uma 1 15533 DDAAMMIIAATTAA,, 11998833,, pp.. 6666:: ““LLaa ppoovveerrttàà aassssoolluuttaa –– ccii llaasscciiaa ccaappiirree MMaarrssiilliioo –– nnoonn èè uunn ffaattttoo iissoollaattoo nneellllaa vviittaa d dii CrCriissttoo;; néné ququaallccoossaa ddii alaleeaattoorriioo o o didi pprreeccaarriioo,, mmaa unun atattteeggggiiaammeennttoo chchee sisi coconnnneettttee ininttrriinnsseeccaammeennttee ee s saallddaammeennttee aallllaa ssuuaa mmiissssiioonnee ddii uuoommoo--DDiioo””.. 1 15544 DDP,P, IIII,, 1111//22,, pp..333311.. 1 15555 M Mmmee.. QQuuiilllleett chchaammaa--nnooss a a atateennççããoo ppaarraa o o fafattoo ddee ququee MaMarrssíílliioo “(“(...)) vava eemmpprruunntteerr à à l’l’iimmaaggee,, sseemmii-- u uttooppiiqquuee,, sesemmii--rrééeellllee dudu ChChrriisstt etet ddee sasa vviiee llee paparraaddiiggmmee ddee l’l’ééttaatt dduu prprêêttrree enen cece momonnddee, , ffiiddèèllee àà cece m moouuvveemmeenntt qquuii aanniimmee ll’’eennsseemmbbllee ddee ssoonn eeccccllééssiioollooggiiee:: llaa rreessttaauurraattiioonn dduu mmeessssaaggee éévvaannggéélliiqquuee ddaannss ssaa ppuurreettéé p
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vida de prazeres e vaidades se, como fiéis perfeitos, “(...) deviam se contentar em receber apenas a alimentação e o vestuário, ao exercerem o ministério da Palavra”159?
Jesus mostrou que o estado perfeito é o da pobreza. Ele declarou, se alguém deseja ser perfeito, que venda seus bens e dê o seu valor aos pobres160. Essa recomendação de
Cristo torna-se uma condição necessária para o exercício do ministério pastoral: se o seu discípulo não é pobre, ele não consegue cativar mais pessoas a abraçar a verdadeira religião. Segundo Marsílio, “se a pessoa possuir riqueza e aspirar ao poder, ensinando aos outros desprezá-los, seus atos contradirão explicitamente as suas palavras”161. A coerência
de vida é, portanto, um requisito indispensável para a eficácia do sacerdócio.
Os sacerdotes coerentes não processam os seus agressores; confiam na misericórdia divina; entregam ao ladrão os bens mais preciosos; doam todos os bens supérfluos, enfim, imitam a vida de Jesus. Marsílio, baseando-se numa obra de São Bernardo, afirma que, no sacerdócio, ao contrário do governo civil, não há pedras preciosas, vestes de seda bordadas com ouro, pessoas escoltadas por uma força militar e cercadas por serviçais162.