3 Datakilder og tolkningsprosedyre
3.4 Datakvalitet til de seismiske undersøkelsene
No âmbito da primeiridade musical, Santaella (2001) considera o ritmo e os seus parâmetros como foco de análise. Um aspecto que pode ser analisado do ponto de vista do ritmo é a duração das notas, e se há repetição ou variação entre elas a partir de determinados trechos de uma partitura. A duração diz respeito ao próprio tempo que é utilizado na execução das notas no seu processo acústico. As figuras 23 e 24 ilustram os trechos da partitura relativos à primeira estrutura da Ária 14, ligada ao sentir da Rainha da Noite, conforme a tabela 2 e a figura 20.
Figura 23: Trecho da partitura referente ao primeiro verso da Ária 14
Figura 24: Trecho da partitura referente ao segundo verso da Ária 14
Nas figuras 23 e 24 podemos observar repetições e variações na duração das notas. Se articularmos essas figuras que indicam as qualidades do sentir da Rainha, com as respectivas marcações indicadas na partitura, iremos obter a figura 25:
Figura 25: O sentir da Rainha da Noite referenciada na partitura da Ária 14
Podemos extrair, a partir da análise da figura 25, os aspectos que são mobilizados a partir de um poder moral de negação imposto por Sarastro à Rainha da Noite colocando o seu Isso127 em ação e em condição de descontrole em virtude da sua
posição vingativa. As ações tomadas pela Rainha são mobilizadas pelo seu sentir doloroso. A partir desse sofrimento provocado pela ansiedade de separação, ela irá se autorizar-se a recorrer à vingança. Isso porque existe uma necessidade, inclusive ligada ao corpo, alimentada pela necessidade física128.
Ao nível da duração temporal, o sentir ligado à vingança infernal é marcado por uma repetição na enunciação de “infernal129” o que nos permite indicar a obstrução
oferecida pela resistência ao processo de perlaboração, o que é também característica de muitos pacientes vingativos crônicos (Socarides, 1977; Brenner, 1987; Lane, 1995). Essa fixação irá adjetivar a ideia de vingança e irá se manifestar na fonte da pulsão: O peito130, sob o qual fica o coração131. A repetição, nesse caso, é típica de um processo libidinal que atingiu um desenvolvimento, mas que não consegue se reinventar a partir de um ponto o qual recebe forte influência da resistência devido à ansiedade da castração (Freud, 1914). Ademais, podemos denominar esse evento como isométrico, uma vez que todas as notas no intervalo possuem o mesmo tempo (Hérbert, 2012). Essa constatação nos remete à verificação de que o mecanismo da repetição pode ser 127 Das Es. 128 Müssen. 129 Der Holle. 130 Herzen. 131 Herz.
encontrado paralelamente na linguagem musical e psicanalíticas (Leader, 2010). Na Ária 14 da Flauta Mágica, isso ocorre quando observamos o problema do supereu e o problema de negação social do Poder moral, mobilizador de um auto-autorização, cuja decorrência é uma forte mobilização do Isso que irá atuar livremente, manifestando-se em repetições rítmicas que, no caso da partitura da Ária 14, estão encerradas, por exemplo, na sequência de três notas lá de meio tempo.
Outra duração que nos revela um aspecto do Id em chamas da Rainha é o aspecto da morte, indicado por notas longas. As duas menções à morte a partir da repetição do segundo verso são representadas por notas de mesmo tempo, indicando uma estrutura do sentir ligado à morte132. A estrutura revela que a Rainha da Noite sente no corpo uma sensação prolongada marcada por pensamentos ligados à morte já que o processo de enunciação representa temporalmente esse sentir, indicado pelo uso de mínimas nos dois momentos nos quais a Rainha menciona o termo “morte”.
Ainda, notamos uma terceira estrutura que é aquela que se liga ao termo desespero. Notamos que Mozart repetiu a estrutura da dinâmica temporal da mesma forma que fez quando marca o termo morte, indicando ambos por meio de inter- isometrias. O desespero133 é indicado por uma sequência de três notas, a primeira tem a metade da duração que as duas seguintes. O tempo de duração para cada nota referente a desespero é indicado assim: meio-tempo (colcheia); um tempo (semínima); um tempo (semínima). O pensamento clínico sobre o desespero compreende que ele é um fato que provoca o avanço mórbido dos processos pathologicos (Siirala, 1969). Por outro lado, a psicoterapia e o caso dele promover a melhora do paciente, exije o partilhamento da responsabilidade entre terapeuta e paciente, o que se opõe a uma ideia de clínica ôntica que toma o paciente como objeto (Weizsäcker, 1958; Siirala, 1969). No caso da Rainha, como ela é excluída da fraternidade e por não possuir o Círculo de Ouro, ela precisa se permitir a um método que procure devolver o sentimento de segurança para o seu eu.
No caso da variação na duração das notas nos trechos referente ao desespero, temos uma parametria, já que a segunda e a terceira nota possuem a mesma duração e se diferem, no mesmo aspecto, da primeira nota (Hérbert, 2012). Isso indica uma sequência sentida que, inicialmente, possui uma sonoridade mais curta que é seguida por uma série de duas sonorizações de tempo maior. O desespero surge como algo súbito e permanece prolongadamente após o espanto da constatação de se estar
132 Tod.
desesperado. Um detalhe relativo ao termo “e134” que precede “desespero” é que ora ela
é iniciada por um tempo de pausa mais uma nota de meio tempo preenchida pela nota Mi 4 e ora ela é antecedida por dois tempos de pausa e uma nota Mib 4, sendo então executada em um tempo e meio de Fá# 4. Dessa maneira, a partícula aditiva “e” ora é marcada por meio tempo de música e ora é marcada por um tempo e meio. A repetição da partícula aditiva sugere uma sensação de tempo que se arrasta, e que cada vez se percebe enquanto mais demorado. Isso implica na inflação do aspecto desesperado já que ele parece durar cada vez mais. A supressão da pausa gera a ideia de que há uma contiguidade entre os termos, no sentido de que essas ideias se aproximaram mais (morte e desespero).
Os aspectos isométricos encontrados na primeira estrutura da Ária 14, marcados por repetições, representam a relação entre a mãe e o bebê à época do regozijo pleno, do júbilo na Shangri-la dos afetos, marcado por trocas fundadas mais em aspectos rítmicos do que em aspectos verbais. A regressão operada pelo aparelho psíquico da Rainha faz com o núcleo do Supereu, herdeiro do Eu Ideal, seja mantido, e revelado nessas repetições.
O problema do narcisismo ligado ao afeto da vingança é indicado no primeiro verso pela sequência isométrica “arde em meu135” (figura 23). Mais específicamente, a
sequência de dois Mi 4, representados por colcheias, mostram que há uma fixação de primeiridade. Essa sequência isométrica de quatro notas que se dá em “arde em meu” intercala a presença de “Vingança”136 e “Peito”137, que possuem uma dinâmica de
duração que valoriza a primeira nota de “Vingança” que, por sua vez, em “Peito”, passa a ser idêntica à segunda nota do termo.
Outro destaque relativo à duração das notas na primeira estrutura é o tempo de duração prolongado de “em chamas138”, ligado ao processo de incitação no corpo e
aparelho psíquico da Rainha da Noite, que irá se armazenar no Isso e irá desencadear uma série de ações dela por meio da realização ligada ao verbo pathico “querer139”.
Aquele termo é seguido por um trecho de quatro notas de mesma duração, ou seja, marcando uma sequência isométrica ligada ao problema do narcisismo, já que é quando a Rainha faz menção ao problema que ela revela em relação a si mesma. Dessa maneira, 134 Und. 135 kochte in meinem. 136 Rache. 137 Herzen. 138 Flammet. 139 Wollen.
podemos dizer que há isometria nos dois relatos narcísicos da primeira estrutura da Ária 14, ainda que a duração das notas ligadas à incitação de “em chamas”, que está ligada a “morte” e “desespero” seja maior do que quando ela conta que a “vingança arde”.