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Kapittel 3: Metode og empiri

3.2 Datainnsamlingsmetode

Concluímos, assim, que a determinação econômica das trocas mercantis não dá conta da complexidade das articulações entre sociedade, cultura e natureza. A materialidade da cultura - a linguagem, as formações do inconsciente, as estruturas simbólicas, a organização social – permite conhecer os modos de articulação do processo de reprodução do capital com as diferentes formações sociais, de modo que a organização cultural de uma formação socioeconômica aparece como um tecido de valores, de

73 formações ideológicas, de sistemas de significação, de práticas produtivas e de estilos de vida, em um contexto geográfico e um momento histórico dados (LEFF, 2009).

Para Buttel (1992), a maioria dos sociólogos considera a “ambientalização ou o enverdecimento” (“environmentalization or greening”) uma das mais importantes forças sociais do nosso tempo. Por “enverdecimento” o autor entende os processos pelos quais as preocupações ambientais são nutridas por grupos sociais e modernos símbolos ligados ao ambiente se tornam crescentemente proeminentes no discurso social. O enverdecimento pode ser tomado, então, como uma larga força social, equivalente, por exemplo, à ética protestante na consolidação do capitalismo.

Segundo Acselrad (2010), a noção de “ambientalização” pode designar tanto o processo de adoção de um discurso ambiental genérico por parte dos diferentes grupos sociais, como a incorporação concreta de justificativas ambientais para legitimar práticas institucionais, políticas, científicas etc. A pertinência teórica do termo ganha força particular na possibilidade de caracterizar processos de ambientalização específicos a lugares, contextos e momentos históricos, de modo que disputas de legitimidade instauram-se para classificar as diferentes práticas como ambientalmente benignas ou danosas.

Leff (2009), por sua vez, chama de “cultura ecológica” o sistema de valores ambientais que, nas últimas décadas, vem reorientando os comportamentos individuais e coletivos. Segundo este autor, a crise do desenvolvimento econômico manifestada na destruição da base de recursos naturais, no desequilíbrio tecnológico, na contaminação ambiental e na degradação da qualidade de vida levou a uma revisão dos princípios morais que guiam a conduta dos homens e legitimam a tomada de decisões sobre o uso e formas de exploração dos recursos naturais. Isso marca o nascimento de uma cultura geralmente entendida como uma “tomada de consciência” dos diferentes protagonistas sociais e uma mobilização da cidadania para proteger o ambiente. Nesta perspectiva, a cultura ecológica circunscreve-se ao campo das formações ideológicas, sem tocar as raízes da racionalidade produtiva e dos estilos de desenvolvimento.

O meio ambiente é, segundo Jollivet (2001, p. 366), “um campo que toca profundamente o imaginário, as representações e sistemas de valores sociais, porque obriga a repensar as relações entre sociedade, técnica e natureza e, portanto, tudo o que, na organização da sociedade, rege essas relações”. Essa produção simbólica, segundo o autor, passa por tudo que contribui para dar corpo àquilo que chamaríamos de “opinião pública institucional”: as mídias, as sondagens de opinião e o campo da política. Isso não

74 significa que o meio ambiente seja uma preocupação prioritária, mas que serve como caixa de ressonância para um movimento militante não negligenciável, que constrói progressivamente uma opinião pública cada vez mais sensível acerca dos problemas ambientais, favorecendo a composição de uma “aura mágica” sobre as mercadorias verdes.

“Sociologicamente falando, nós nos encontramos frente a uma ‘ideologia’ no sentido estrito do termo, quer dizer, face a um campo estruturado de representações coletivas fundadas sobre um sistema de valores sociais” (JOLLIVET, 2001, p. 359), que frequentemente remete a uma ética das relações com a natureza, das relações sociais e do bem comum. Jollivet (2001) menciona também a aproximação com uma ideologia política, que renova a questão democrática através de pontos como o direito do cidadão à informação e à participação na tomada de decisões públicas, embora ressalte que o caráter recente desta ideologia a torna difícil de identificar. O autor utiliza alguns adjetivos para caracterizar a questão ambiental: instável, fluída, aberta, permeável, adaptável, polissêmica... o que denota sua riqueza simbólica e, podemos adicionar, seu potencial de mercado.

Para Jollivet (2001), o fato que a referência ao meio ambiente seja cada vez mais frequente na publicidade (no domínio agroalimentar, energético e outros) e que o ambiente se transforme na base de todo um conjunto de inovações tecnológicas leva a pensar que o meio ambiente pode ser um dos eixos do desenvolvimento econômico moderno. Nova mola da sociedade capitalista, o meio ambiente passa a ser parte integrante de uma sociedade produtora de mercadorias verdes e eco-serviços.

A elevada carga de significações presente nos discursos ambientais permite-nos sugerir, assim, que a questão ambiental radicaliza o fetichismo da mercadoria, tanto o descrito por Marx com relação ao valor de troca como a complementação teórica efetuada por Baudrillard no tocante ao fetiche do valor de uso. Proponho, deste modo, buscar identificar as particularidades do que estamos chamando de mercadoria verde, em específico o etanol.

Defendemos – e pretendemos demonstrar nos próximos capítulos – que a emergência do discurso ambiental cria a mercadoria verde com a emersão de um valor de uso coletivo, que rende ao processo de comercialização do etanol (ou ao processo de troca) uma aura ética. Como vimos, Marx enxergou o valor de uso como aquilo que satisfaz as necessidades humanas individuais e “naturais”, intrínsecas ao homem. Baudrillard criticou essa necessidade espontânea afirmando que a necessidade por uma

75 mercadoria surge no seio de uma sociedade na qual os signos, as imagens, ditam as regras. Para ele, consumir uma mercadoria (e seu valor-signo, ou valor de uso signo) passa a ser um elemento de diferenciação de classe, de distinção social do indivíduo, cujo apelo reside na particularização do sujeito, em torná-lo “único” ou, no máximo, “igual a seus iguais”. Neste terceiro estágio “verde”, no qual a cultura ambiental ganha incomparável relevo, percebo que o valor de uso que se consome com a mercadoria diz respeito também a uma necessidade coletiva, um valor-signo coletivo, calcado numa moral que zela pelo outro, pelo planeta, pelo futuro, complementando (mas nunca substituindo) a racionalidade egoísta de um fictício homo economicus. Um rápido exemplo pode ser expresso pela ideia que “todos precisamos” viver em um ambiente saudável, menos poluído, sendo o etanol o combustível que “melhora a sua vida e a do planeta” (UNICA, 2008). O interesse individual claramente é contemplado nas mensagens, mas pode-se ressaltar que o acréscimo deste apelo despersonalizado é próprio das mercadorias verdes. Tal observação coincide com aquela elaborada por Boltanski e Chiapello (2009) quanto ao “novo espírito do capitalismo”, que conteria dois níveis lógicos diferentes: o primeiro voltado para a realização do lucro, o segundo, dotado de um grau de reflexividade superior, julgaria os atos do primeiro em nome de princípios universais, morais e justos.

Neste sentido, a mercadoria verde tem também a particularidade de lembrar-nos que a preocupação ambiental deveria atingir todas as classes ou grupos, diferindo do signo do consumo individualizante e estratificante. A “responsabilidade de todos”, ao contrário, aparentemente elimina os estratos sociais no discurso geral da troca, ou seja, no momento de circulação do etanol, homogeneizando as classes e tornando-as virtualmente iguais tanto para sentir os impactos quanto para buscar as soluções dos problemas ambientais40. De acordo com Leff (2014), da mesma forma que a narrativa do homo economicus converte o ser humano em força de trabalho, o discurso ecológico lhe atribui uma função de guardião da biodiversidade na ordem econômico-ecológica do desenvolvimento sustentável.

Enquanto, na sociedade industrial, o trabalho abstrato foi identificado por Marx como sendo a substancia comum a todas as mercadorias (e o componente de seu valor de

40 Esta homogeneidade aparente também é identificada no discurso ambiental hegemônico e é fortemente criticada por meio do conceito de injustiça ou desigualdade ambiental (ACSELRAD, 2010; COLETIVO BRASILEIRO DE PESQUISADORES DA DESIGUALDADE AMBIENTAL, 2012). A desigualdade ambiental aponta que o capitalismo liberalizado faz com que os danos decorrentes de práticas poluentes recaiam predominantemente sobre grupos sociais vulneráveis, configurando uma distribuição desigual dos benefícios e malefícios do desenvolvimento econômico. Basicamente, os benefícios destinam-se às grandes interesses econômicos e os danos a grupos sociais despossuídos.

76 troca), identifico como uma propriedade comum às mercadorias verdes um elemento adicional: o respaldo na ciência, ou seja, o trabalho científico e sua produção discursiva. Não há mercadoria verde que se venda sem esse argumento, uma vez que os riscos/efeitos/avaliações ambientais dependem fundamentalmente da análise e da previsibilidade cientifica41. Ademais, segundo Leff (2014), a economia do poder do

conhecimento científico substitui a economia fundada no tempo de trabalho como meio de produção e apropriação da natureza na cultura ecológica contemporânea, de modo que as criações científicas e tecnológicas não podem ser entendidas como simples resultado da lógica interna da ciência, nem tampouco como determinantes do desenvolvimento sustentável e de uma nova ética do conhecimento capaz de dirimir os conflitos em torno da apropriação da natureza.

A categoria trabalho científico que destaco aqui não se refere, assim, ao “trabalho morto”, implícito no desenvolvimento de tecnologias de produção incorporadas ao processo produtivo da mercadoria verde e materializadas na forma de máquinas, equipamentos e implementos (as quais foram “trabalho vivo” num processo de produção anterior, mas entram como “trabalho morto” no processo seguinte). Refiro-me, ao contrário, ao “trabalho vivo” presente nos discursos científicos que agregam valor (ou que valorizam) a mercadoria verde. Este trabalho científico, por sua vez, não advém de uma "ciência pura", totalmente livre de qualquer necessidade social, nem tampouco de uma "ciência escrava", sujeita a todas as demandas politico-econômicas (BOURDIEU, 2004). Ele encontra-se imerso em um campo de forças, com relações assimétricas de poder, no qual se disputa a legitimidade para estabelecer verdades. Tais verdades compõem discursos que conformam o “real” das mercadorias ambientais, os discursos que, como prática, performam a realidade tal qual ela se apresenta à nossa consciência.

Assim, não apenas o trabalho abstrato42, mas também o trabalho científico e os

esforços discursivos de criação e legitimação de significados (o trabalho político, publicitário, etc., que chamaremos aqui de “trabalho de significação”) pesam na composição do valor do álcool combustível, criando seu “valor ambiental”. Este valor ambiental soma-se ao econômico na determinação da taxa de equivalência do etanol frente a outras mercadorias, nas esferas de circulação (o mercado).

41 Hannigan (2009) considera que os fatores necessários para a construção de um problema ambiental são o embasamento cientifico, a presença de agentes “popularizadores”, a atenção midiática e a possibilidade de dramatização simbólica.

77 Há, então, uma complementariedade entre valores objetivos e subjetivos atribuídos à natureza a partir da cultura, abrindo novas perspectivas para a relação entre o material e o simbólico na teoria do valor e para a interpretação da “mercadoria verde”, tal qual a estamos delineando. É importante notar que argumentamos em favor da existência de uma complementariedade entre as representações oriundas da racionalidade econômica e as oriundas dos princípios éticos e morais. Essas representações podem tanto caminhar juntas quanto podem ser mobilizadas seletivamente nos discursos que buscam construir a imagem do etanol, a depender do público ao qual elas se dirigem. Grosso modo, discursos dirigidos a um público geral e heterogêneo, uma “massa”, tendem a interpelar preferencialmente para um ambientalismo que apela para a responsabilidade coletiva, e para as vantagens econômicas quando elas existem. No âmbito dos negócios mais estritos, as vantagens comerciais ou mercadológicas tendem a ser enfatizadas, dispensando a mediação dos valores morais (GAMEIRO, 2015). Consideramos, portanto, que a acumulação e a concentração do capital já não se baseiam apenas na superexploração da natureza e da mão-de-obra barata, mas também em novas estratégias de apropriação capitalista da natureza dentro da nova geopolítica do desenvolvimento sustentável, mantendo uma agricultura supercapitalizada e a hiperurbanização do planeta (LEFF, 2014)

Isso dito, propomos para fins analíticos uma categorização entre as diferentes formas de mercadoria encontradas ao longo do tempo. No século XIX, prevaleceria a mercadoria tal qual descrita por Marx. Quando decomposta, esta seria formada pelo valor de troca e pelo valor de uso (este último, de certa forma, subsumido ao primeiro). A substância do valor desta mercadoria seria, portanto, o valor de troca, equivalente direto do trabalho abstrato, como teorizado por Marx. No século XX, teríamos testemunhado a prevalescência da mercadoria-signo, segundo a contribuição teórica de Baudrillard. Esta seria composta pelo valor de troca e pelo valor de uso, adicionados do valor conferido pelo significante e pelo significado. A substância do valor-signo não advém, portanto, apenas do trabalho abstrato da mercadoria, mas também de um trabalho de significação, ou seja, de atribuição de significados simbólicos à mercadoria-signo.

Já no século XXI, a emergência e a consolidação da questão ambiental como um novo paradigma cultural, axiológico e econômico possibilitou a criação das mercadorias verdes (sem eliminar, é claro, a existência das formas anteriores de mercadoria), tendo como proxy o etanol, em função das limitações do estudo ora empreendido. A mercadoria verde, sugerimos, pode ser decomposta em três níveis, que representam a sobreposição

78 dos conteúdos das mercadorias dos períodos anteriores, adicionadas dos valores próprios da cultura ambiental. São eles, portanto, o valor de troca e o valor de uso; o valor do significante e o do significado; e adicionalmente um valor de troca ético (decorrente de uma aura que extrapola a racionalidade econômica e interpela à moral ética) e um valor de uso coletivo (que, por sua vez, extrapola a distinção individualizante da mercadoria- signo em prol de um caráter de “utilidade geral planetária, social”). Com isso, a substância do valor da mercadoria verde não se reduz, apenas, ao trabalho abstrato da mercadoria marxiana, nem à incorporação do trabalho de significação da mercadoria-signo, mas conjuga esses dois de modo indissociável ao trabalho científico. Chamamos de “valor ambiental” essas três camadas de valor superpostas, as quais dão substância à mercadoria verde e garantem seu potencial econômico no seio do sistema capitalista, não representando uma alternativa a este, mas sim uma forma sofisticada de expansão da acumulação do capital. O Quadro 1 a seguir traz um resumo esquemático das especificidades da mercadoria que acabamos de descrever, não devendo, contudo, ser entendido como uma simplificação da realidade social:

Quadro 1. Resumo esquemático proposto para a interpretação da mercadoria “verde”.

O que/Quem Mercadoria (Marx) Mercadoria-signo (Baudrillard) Mercadoria verde (etanol)

Quando Século XIX Século XX Século XXI

Decomposição

da mercadoria M = Vt/Vu Ms = Vt/Vu + Ste/Sdo

Mv = Vt/Vu + Ste/Sdo + Vt ético/Vu coletivo Substância do Valor V = Vt = Trabalho abstrato V = Vs = Trabalho abstrato + trabalho de significação V = Va = Trabalho abstrato + trabalho de significação + ênfase no trabalho científico

Fonte: Elaboração da autora.

Onde:

M = mercadoria

Ms = mercadoria-signo Mv = mercadoria verde Vt = valor de troca

79 Vu = valor de uso Ste = significante Sdo = significado V = valor Vs = valor-signo Va = valor ambiental

A partir da decomposição analítica das características da mercadoria verde que acabamos de realizar, podemos compreender como as mercadorias verdes contribuem para o processo de acumulação do capital. Entendemos que, nas diferentes fases do desenvolvimento capitalista, o sistema precisa criar estratégias para ultrapassar as barreiras que lhes são inerentes; e que a ancoragem cultural da problemática ambiental fornece, no estágio atual, os elementos para a reinvenção de uma parte da economia. Isso porque, como afirmam Boltanski e Chiapello (2009), o capitalismo, para manter seu poder de mobilização, deve obter recursos fora de si mesmo, nas crenças que, em determinado momento, têm importante poder de persuasão, nas ideologias marcantes, inclusive nas que lhes são hostis – como seria o caso de uma perspectiva de proteção da natureza e do meio ambiente.

Ademais, as críticas que se opõe a processos capitalistas (como as críticas ambientalistas) têm, dentre seus efeitos, o fato de coagir aqueles que são seus porta-vozes a justificá-lo em termos do bem comum. Nesta operação de justificação, o capitalismo incorpora uma parte dos valores axiológicos em nome dos quais era criticado, sem pôr em xeque o próprio princípio de acumulação e a exigência de lucro. “O preço que a crítica deve pagar por ter sido ouvida, pelo menos parcialmente, é ver que uma parte dos valores por ela mobilizados para opor-se à forma assumida pelo processo de acumulação foi posta a serviço dessa mesma acumulação” (BOLTANSKI e CHIAPELLO, 2009).

Ao compreender que a mercadoria verde incorpora a materialidade e o fetiche da forma-mercadoria de Marx (expressos pela simultaneidade do valor de troca e do valor de uso), e incorpora o simbolismo e o fetiche da forma-signo de Baudrillard (expressos pela simultaneidade entre significante e significado, por sua vez produtos de discursos e práticas de atores sociais articulados em campos delimitados do espaço social), percebemos que recai sobre o etanol um fetichismo que decorre da materialidade das relações sociais de produção que criam a mercadoria e, adicionalmente, da carga simbólica que forma a mercadoria verde, permitindo ao etanol participar do processo de

80 reprodução e acumulação do capital, ao invés de expressar uma possível racionalidade alternativa a ele.