A cultura está no cerne do enfoque terminológico apresentado por Diki-Kidiri (2009), e por isso é denominado Terminologia Cultural (TC). O pressuposto básico de seu enfoque é que a Terminologia é uma disciplina não só de construção do saber, mas também de apropriação de uma cultura particular. Isso porque a visão de mundo de uma cultura determina a sua forma de classificar, ordenar, nomear e categorizar tudo o que os seus membros percebem e concebem, inclusive a própria identidade (DIKI-KIDIRI, 2009). Assim, o autor propõe uma Terminologia mais interdisciplinar e mais geral enquanto ciência da linguagem, levando em conta as dimensões sociocultural, histórica, fenomenológica e psicológica, além das linguística e técnica. Tal enfoque corrobora as propostas da TCT, da ST e da TSCT, com as quais estabelece pontos de interface.
Diki-Kidiri (2009, s/p) entende que ―[...] a cultura é o conjunto das experiências vividas, das produções realizadas e dos conhecimentos gerados por uma comunidade humana que vive em um mesmo espaço e em uma mesma época.‖ 65 Isso implica que as diversas
culturas se estabelecem em lugares e épocas diferentes, e mesmo assim, parte do núcleo cultural se mantém, tanto na memória coletiva quanto nos membros de uma cultura. Essa
65 No original: [...] la cultura es el conjunto de las experiencias vividas, de las producciones realizadas y de los
memória coletiva compreende referências simbólicas comuns que permitem que os membros de uma mesma comunidade se entendam quando comunicam entre si. Desse modo, quando os falantes não compartilham dos mesmos referenciais simbólicos, explicações tornam-se necessárias.
Outro ponto a ser ressaltado é que, ―o homem não pode acessar o mundo real senão por meio de suas representações mental e culturalmente condicionadas. A representação da realidade se faz de forma muito distinta de uma cultura para outra, dando lugar a conceitos específicos em cada cultura‖ 66 (DIKI-KIDIRI, 2009, s/p). Assim, quando um produto
tecnológico elaborado em uma cultura é importado por outra pode ser que seja necessário um processo de reconceptualização para que esta cultura apreenda a novidade inserida em seu interior. O autor exemplifica esse fenômeno com a tradução do inglês software e hardware para o francês logiciel e matériel, que necessitou de um grande trabalho de reconceptualização em que treze pares de opções tradutórias foram descartados. Conclui-se desse caso que, a comunidade francesa optou por reconceptualizar esses termos, adaptando-os ao seu modo de pensar e de apreender o real.
Diki-Kidiri (2007) delineia seu enfoque terminológico com base em quatro aspectos preponderantes: seu objetivo é a apropriação do saber e das tecnologias novas que adentram determinada sociedade; a cultura está no âmago da Terminologia; a formação do termo se dá a partir dos elementos conceito, percepto e significante; as relações semânticas admitem polissemia, sinonímia, homonímia.
O conceito é a delimitação de uma noção; o percepto é o ponto de vista particular de um indivíduo ou comunidade, de modo que o conceito é integrado ao seu modo de pensar; e o significante é o modo de expressão que permite a denominação de um conceito dentro de uma cultura e língua particulares (DIKI-KIDIRI, 2007). Entendemos que o percepto é o componente que integra a visão de uma cultura na conceptualização de um termo. Como a própria denominação sugere, o percepto reflete a percepção que dada cultura ou indivíduo agrega a um conceito e o torna próprio do seu modo de conceber a realidade que o cerca. Visto que as percepções são culturalmente motivadas (DIKI-KIDIRI, 2009), a distinção entre conceito e percepto permite situar as múltiplas percepções particulares de um mesmo objeto, de modo que o percepto é o elemento variável e caracterizador das diferentes percepções culturais.
66 No original: [...] el hombre no puede aceder a este mundo real nada más que a través de las representaciones
mentales y culturalmente condicionadas. La representación de la realidad se hace, a menudo, de forma muy distinta de una cultura a otra, dando lugar a conceptos expecíficos en cada cultura.
Em relação à denominação, Diki-Kidiri (2009, s/p) ressalta que ―denominar um objeto, inclusive em campos especializados, não significa rotulá-lo de forma aleatória. Ocorre que sejam recuperados termos antigos, ‗esquecidos‘ para introduzi-los outra vez em novas realidades.‖ 67 Em outras palavras, o acervo linguístico-cultural de um povo é passível de
fornecer representações que se constituíram no percurso de evolução histórica da cultura, que podem vir a ser utilizadas para denominar conceptualizações novas ou alheias a uma dada cultura. Dessa forma, há uma motivação cultural na denominação.
Para a concepção cultural da Terminologia, o termo é compreendido como produto das linguagens culturalmente integradas e, como tal, seu funcionamento indifere do funcionamento do signo linguístico (DIKI-KIDIRI, 2009). Isso implica que o estudo terminológico não inclui apenas aspectos relativos à definição e cognição, mas também aspectos relativos à morfologia, regra de formação de palavras, sinônimos, homônimos, polissemia, metáfora, metonímia, sentido figurado, significação, interpretação. Em outras palavras, os termos passam a ser vistos para além de um enfoque estritamente conceptual, abarcando uma série de outros fatores inerentes a qualquer unidade lexical em funcionamento na língua.
De modo semelhante ao enfoque cultural de Diki-Kidiri (2009), Lara (2007) ao afirmar que a Terminologia nasceu com uma pretensão de universalidade, independente de culturas particulares, defende uma integração do componente cultural no pensamento terminológico. Para Lara (2007), os vocábulos são formados no interior de uma comunidade linguística particularizada com todas as implicações culturais decorrentes. O que os tornam termos é o surgimento de interesses e necessidades que redefinem os significados dos vocábulos para delimitar melhor os seus conceitos. O autor define que, ―um vocábulo, ao menos um de cujos significados se delimita em relação a um conhecimento especializado, é um termo‖ 68 (LARA, 2007, p. 361). Em outras palavras, inferimos que o autor reconhece que
um termo não deixa de ser um vocábulo. O que ocorre é que o vocábulo passa por um processo de especialização, ou terminologização, de modo que ao ter um de seus significados atrelado a um conhecimento especializado ele assume valor de termo.
Lara (2007) afirma que o vocábulo torna-se termo sempre com base em seu significado comum, de forma que o termo não se configura à parte dos processos de
67 No original: Denominar un objeto, incluso en los campos especializados, no significa pegarle de forma
aleatoria cualquier etiqueta. Ocurre, a menudo, que se recuperen términos antiguos, “olvidados” para introducirlos otra vez en nuevas realidades.
68 No original: Un vocablo, al menos uno de cuyos significados se delimita en relación con un conocimiento
significação da língua comum, sendo impossível desvinculá-lo da cultura. Ao fazer uma comparação entre o vocabulário quéchua da agricultura e o da psicanálise, o autor conclui que ambos foram constituídos da mesma forma e que, a diferença entre eles é que o da psicanálise traz consigo a pretensão à universalidade da ciência ocidental, enquanto o de quéchua mantém-se como ―próprio de uma espécie de etnoterminologia enquanto não atranha o interesse especializado moderno‖ 69 (LARA, 2007, p. 360). Concluímos, a partir dessa
comparação, que os vocábulos passam a ser considerados termos, não por uma propriedade que lhes é intrínseca, mas por interesses externos. Isso nos faz entender que mesmo antes de serem alvo de interesses normalizadores, eles já desempenhavam a sua função na categorização de objetos e processos agriculturais específicos. Os vocábulos funcionam como termos dentro da cultura em questão, mesmo não sendo reconhecidos como tais pelo pensamento universalizante especializado. Na citação seguinte, Lara resume o seu pensamento a respeito da relação entre vocábulo e termo.
A criação de termos especializados não é muito diferente da formação comum dos vocábulos: no segundo caso, o vocábulo se forma no interior da comunidade linguística como efeito da divisão social do trabalho, e como resultado de interesses históricos da comunidade, por estar sempre definido em um contexto cultural. No primeiro, o termo especializado se forma por impulsos tecnológicos, comerciais ou científicos quando há necessidade de delimitar com total precisão os objetos (as taxonomias biológicas, geológicas e químicas, assim como catálogos de instrumentos [...]), ou os conceitos de uma teoria, um método ou um procedimento. O aspecto cultural do significado corrente do termo cede ao universalismo da teoria e este nega essa ligação cultural, que alguns cientistas chegam a conceber como um verdadeiro inconveniente. Daí parece que os termos especializados não têm caráter cultural, posto que, ao delimitar seus significados, o ato de denominação abstrai os valores culturais dos significados dos vocábulos70
(LARA, 2007, p. 361).
69 No original: [...] proprio de uma especie de etnoterminologia mientras no atraiga el interés especializado
moderno.
70 No original: La creación de términos especializados no es entonces muy diferente de la formación común de
los vocablos: en el segundo caso, el vocablo se forma en el interior de la comunidad lingüística como efecto de la división social del trabajo, y como resultado de intereses históricos de la comunidad, por lo que está siempre definido en un contexto cultural. En el primero, el término especializado se forma por impulsos tecnológicos, comerciales o cientpificos cuando se presenta la necesidad de delimitar con total precisión los objetivos (las taxonomías biológicas, geológicas y químicas, así como los catálogos de instrumentos […]), o los conceptos de una teoría, un método o un procedimiento. El aspecto cultural del significado corriente del término cede al universalismo de la teoría y éste niega esa liga cultural, que algunos científicos llegan a concebir como un verdadero lastre. De ahí que, en efecto, parezca que los términos especializados no tengan carácter cultural, puesto que, al delimitar sus significados, el acto de denominación abstrae los valores culturales de los significados de sus vocablos.
Clas (2004) também não descarta o componente cultural das terminologias, afirmando que ―[...] uma língua é o reflexo da cultura [...]‖. No caso das denominações terminológicas, o autor exemplifica que ―[...] níquel vem do alemão Kupfernickel, que designa o cobre e o apelido dos duendes [...]‖ (CLAS, 2004, p. 228). Também ressalta que, ―[...] o barbital (veronal) assim é chamado porque foi descoberto em 1903, dia de Santa Bárbara [...]‖ (CLAS, 2004, p. 228). Ou seja, temos, respectivamente, exemplos em que uma denominação terminológica partiu do acervo de uma cultura em que a mesma denominação é usada para uma criatura folclórica, e outro em que a denominação partiu da tradição religiosa de certa comunidade. Esses casos levam-nos a concluir que, a categorização, própria da atividade de conceptualização, pertence à experiência real, linguística e cultural humana, de modo que a busca por denominações ―limpas‖ das ―impurezas‖ da língua comum é uma idealização. Em outras palavras, terminologias não passam ao largo da experiência cultural e social humana, mas estão imbricadas nela. Adicionamos também à questão a dimensão individual, uma vez que ―os fenômenos subjetivos também têm naturalmente um alcance pregnante na denominação‖ (CLAS, 2004, p. 229).
Diante de toda essa discussão, entendemos que trabalhar em uma perspectiva cultural nos estudos terminológicos é aceitar que tanto as denominações terminológicas quanto as conceptualizações de um termo passam pelo crivo da cultura de determinado povo, que imprime a sua visão de mundo e expressa o modo como percebe o real a sua volta a partir de seu acervo de práticas culturais sedimentado na memória coletiva e individual. É também compreender que o caráter terminológico de uma unidade lexical pode ser estabelecido em função de interesses comerciais, científicos, tecnológicos, industriais, políticos, bem como em função das necessidades dos usuários, e não por propriedades intrínsecas dos termos, o que não significa que já não se comportem como tais dentro de certa cultura.
A seguir tratamos da Etnoterminologia, subárea da Terminologia, que em nosso ponto de vista, estabelece pontos de interface com a perspectiva da Terminologia Cultural.