2.3 Patofysiologi ved Gonartrose
2.3.2 Bruskens bestanddeler kort oppsummert
Encontramos na Teoria Funcional da Comunicação subsídios para a compreensão das especificidades linguísticas da linguagem literária. Tal teoria desenvolveu-se na Alemanha, tendo como o seu principal expoente o sociolinguista alemão Hugo Steger, da Universidade de Freiburg. Nomura (1993, p. 12) sintetiza que ―nessa teoria, o discurso é considerado em sua ‗função pragmática‘, isto é, em sua função social de uso dentro de determinado contexto comunicativo e voltado para atingir determinados fins práticos.‖ A partir da determinação da motivação pragmática do discurso, a comunicação social é classificada em três campos: comunicação cotidiana, comunicação científica e técnica, e comunicação literária. Cada um desses campos comunicativos faz uso de manifestações linguísticas que os caracterizam e os distinguem. Essa distinção de tipos comunicativos e de linguagens é um fenômeno caracterizador das sociedades industriais e pós-industriais, como bem explica Nomura (1993, p. 54):
-em sociedades mais primitivas não existe uma separação rígida entre os aspectos religioso, literário e até mesmo científico (pense-se na medicina primitiva), pois todos esses aspectos estão presentes e fazem sentir sua influência na vida cotidiana dessas sociedades;
-numa sociedade altamente diferenciada, como a industrial, cada área do conhecimento desenvolveu uma linguagem especial graças a uma divisão do trabalho bastante especializada. Deu-se aí o fenômeno da setorização das [sic] linguagem, processo definido por um inventário lexical específico e por um tipo de estrutura sintática considerada característica desse tipo de comunicação.
Entendemos, portanto, que ao contrário das sociedades primitivas ou arcaicas, as sociedades industriais são caracterizadas pela divisão social de campos comunicativos que fazem uso da língua para determinados fins. Por isso, a seleção dos recursos da língua nas manifestações discursivas de cada um desses campos é realizada de modo a construir recortes linguísticos específicos, caracterizados tanto por um conjunto lexical, quanto pela organização maior das manifestações linguísticas concretizadas em textos de cada campo. Ainda tendo em vista essa divisão social da comunicação, e consequentemente da linguagem, compreendemos que ―a complexa estruturação da sociedade industrial moderna é responsável pelo surgimento de campos comunicativos específicos da cultura, cada qual se manifestando em sua linguagem própria, o que provocou o fenômeno da setorização da linguagem‖ (NOMURA, 1993, p. 65). Em outras palavras, o estabelecimento da unidade da linguagem só é possível se levadas em conta as diversas linguagens constituídas nos diversos campos comunicativos da cultura.
Vemos que a autora abarca os campos comunicativos no campo mais amplo e mais diverso da cultura, chamando as linguagens que integram esses campos de linguagens culturais.
Com base em Steger (1982), Nomura (1993, p. 65) define linguagens culturais como ―[...] evoluções especiais e escolhas extraídas da língua nacional, cada qual com marcas funcionais e estruturais próprias.‖ Essas linguagens atuam em sistemas de organização ―internos‖ da cultura como artes, ciências, religião, ética, direito, economia, política, e sistemas de organização ―externos‖, como comunidade, estado, igreja. Cada um desses âmbitos é passível de organizar os recursos linguísticos de formas específicas, dependendo do conteúdo e de suas motivações pragmáticas. Assim, quanto mais variados forem os sistemas de organização cultural, mais variadas serão as linguagens que manifestam seus propósitos comunicativos.
Para a proposição da Teoria Funcional da Comunicação, considera-se que, ―[...] de todo ato de fala e de todo ato de escrita fazem parte [...] conjuntos complexos simultâneos de
dimensões comunicativas [...]‖ (NOMURA, 1993, p. 53); são elas: função, espaço,
organização social, condições mediais, estágio de evolução da língua, situações sociais. A seguir, apresentamos concisamente o que entendemos por cada uma dessas dimensões com base em Nomura (1993):
Função: função social dos modos de uso particular da língua em uma comunidade linguística; caracteriza um funcioleto;
Espaço: experiências regionais e diferenciações culturais condicionadas pelo espaço geográfico; caracteriza um regioleto;
Organização social: relações sociais entre os participantes do ato comunicativo baseadas na estratificação social; caracteriza um socioleto;
Condições mediais: diferenças condicionadas pelos meios de comunicação; caracteriza um medioleto;
Estágio de evolução da língua: língua usada na atualidade ou em estágios anteriores; caracteriza fases históricas e estágios de evolução da língua;
Situações sociais: condições situacionais de comunicação em que ocorrem os discursos; caracteriza gêneros e tipos textuais.
A caracterização de diferentes manifestações de textos pode ser realizada a partir de cada uma dessas dimensões comunicativas. Para Steger, a dimensão da função é a que influencia mais diretamente na determinação de diferentes manifestações textuais. Há também
que se considerar a motivação pragmática, por meio da qual se identificam os objetivos intencionais e as finalidades práticas de uso de certo tipo de comunicação, juntamente com o conteúdo, que envolve referência ao mundo, à realidade e à verdade dos enunciados emitidos (NOMURA, 1993, p. 61).
Ao levar em conta os critérios de função, motivação pragmática e conteúdo, Steger faz a distinção entre comunicação cotidiana, comunicação científica e técnica, e comunicação literária. De maneira concisa e objetiva, podemos distribuir as características de cada tipo de comunicação, linguagem e campo funcional no QUADRO 1, disposto abaixo:
QUADRO 1 – Comunicação Funcional
CARACTERÍSTICAS COMUNICAÇÃO
COTIDIANA COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA E TÉNICA
COMUNICAÇÃO LITERÁRIA TIPO DE MOTIVAÇÃO
PRAGMÁTICA domínio da vida prática Motivação para o por meio da comunicação. ‗Motivação prática‘
Motivação para a análise descritiva e explicativa
do mundo empírico. ‗Motivação analítica‘
Motivação para a criação sintética de um mundo ficcional. ‗Motivação sintética‘ MODOS DE AÇÃO, OBJETOS E DELIMITAÇÃO ONTOLÓGICA (especificação de mundos) O mundo vivenciado pela prática da vida. ‗Mundo cotidiano‘
Os campos parciais do mundo empírico submetidos à análise.
‗Mundo da análise‘
Tudo aquilo que se torna manifesto por meio de uma forma linguística. ‗Mundo linguístico-
estético‘ VALIDADE DOS
ENUNCIADOS inquestionavelmente O sucesso prático/o ‗certo‘ e ‗normal‘. O que é metodológica e sistematicamente experimentado e/ou o que é comprovado ou comprovável pela argumentação e suas conclusões.
O ‗verdadeiro‘ por meio da ‗forma estética‘.
TIPOS DE LINGUAGEM LINGUAGEM
COTIDIANA CIENTÍFICA E LINGUAGEM TÉCNICA
LINGUAGEM LITERÁRIA CAMPOS DA
COMUNICAÇÃO CAMPO DA PRÁXIS CAMPO DA TEORIA
FUNCIOLETOS
Fonte: Adaptado pelo autor com base em Nomura (1993) e Steger (1987).
Notamos que, tanto a linguagem científica e técnica, quanto a linguagem literária, são agrupadas no mesmo campo da comunicação, ou seja, o da teoria, enquanto a linguagem cotidiana ocupa o campo da práxis. Essa separação é explicada por Nomura da seguinte forma:
As linguagens das técnicas e ciências e a linguagem literária servem para a comunicação dentro de setores específicos do conhecimento ou da teoria; paralelamente, a linguagem cotidiana serve para a comunicação entre todos os membros da comunidade linguística e usada em situações concretas da
vida cotidiana, podendo tomar diversas acepções regioletais e socioletais, como: dialetos, falares locais e regionais, gíria urbana, linguagem coloquial, linguagem de grupos sociais (linguagem dos jovens, linguagem feminina, linguagem de malandro, etc.) e outras variações dependentes também de situações sociais e de contextos comunicativos variados (NOMURA, 1993, p. 65).
Entendemos, portanto, que para Steger, apesar das linguagens especializadas das ciências e técnicas e das linguagens especiais da literatura constituírem-se conteudística e funcionalmente de modos diferentes, ambas as linguagens são usadas em setores específicos do conhecimento e da cultura, estabelecendo a comunicação no interior de grupos específicos da sociedade, diferentemente da linguagem cotidiana que busca estabelecer a comunicação entre os membros de uma sociedade. Falamos em linguagens especiais da literatura, uma vez que a linguagem literária assume uma roupagem diferente dependendo da obra em que se insere, de modo a configurar linguagens especiais diversas. Enquanto as linguagens especializadas circulam em setores científicos e tecnológicos do conhecimento, atuando no sistema de organização interno científico e tecnológico da cultura, as linguagens especiais da literatura abarcam inúmeros setores do conhecimento a depender da inscrição temática de determinada obra, compondo parte do sistema de organização interno artístico da cultura.
A partir dessa explanação geral da Teoria Funcional da Comunicação, passemos à conceituação específica do que entendemos por linguagem literária. A proposta de Steger acerca da linguagem literária integra noções desenvolvidas em diferentes momentos de teorização, de modo que Steger (1987) integra as noções de poeta-creator retomado à Antiguidade por pensadores renascentistas italianos, mundos possíveis de Leibniz, arte como sistema modelizante secundário de Lotman24, e separação metodológica de campos funcionais de Hamann. Todavia, está além do escopo desta dissertação revisitar todos esses momentos. Limitar-nos-emos apenas à sinalização dessas noções no percurso de conceituação de Steger de linguagem literária.
Principiamos com a noção de que, ―[...] a língua natural é um sistema semiótico complexo, pelo fato de permitir no seu interior o desenvolvimento de metassemióticas segundas, como a linguagem jurídica [...]‖ (GREIMAS, 1976, p. 75). Assim, a partir da noção de Lotman (1978, p. 37) de que ―a arte é um sistema modelizante secundário‖, Steger entende que ―a linguagem literária como texto artístico seria expressão de uma linguagem secundária que não é natural, mas que se baseia numa linguagem natural‖ (STEGER, 1987, p. 130).
24 Destacamos a importância das contribuições de Iuri Lotman, semioticista russo, para o reconhecimento e
Assim, a linguagem literária, enquanto metassemiótica, funciona como um sistema modelizante secundário que atua na construção de uma percepção de mundo, na criação de um mundo ficcional, um mundo de contraste, de possibilidades alternativas ao mundo real.
Segundo Steger (1987, p. 107), o conceito de poeta-creator ―[...] enfatiza o fato de o autor como criador não imitar a criação divina, mas criar seu próprio mundo como Deus no Gênesis.‖ Associada à noção de mundos possíveis de Leibniz, Steger (1987, p. 108) afirma que ―[...] o mundo da fantasia poética é um mundo possível; a fantasia poética tem portanto sua própria lógica. A história trata do mundo real, a literatura de um mundo possível [...].‖
Segundo Steger (1987, p. 109), Hamann entende que a ciência atua por meio de ―operações metodológicas de uma análise generalizante do mundo real através da linguagem‖, enquanto a literatura traça ―um projeto sintetizante de um mundo ficcionável a partir da linguagem.‖ É estabelecido, portanto, ―[...] o contraste da ‗síntese criativa (racional e emotiva) de um mundo novo‘ como motivo e método da literatura, que é substituído pela ‗análise racional e observadora de recortes de um mundo real‘ como motivo e método da filosofia e das ciências empíricas‖ (STEGER, 1987, p. 110). Assim, a síntese criativa realizada pela linguagem literária é capaz de transpor elementos utilizados em diversas esferas comunicativas da sociedade para a composição de um mundo linguístico ficcional, que busca por meio do plano da expressão atingir a eficácia da concepção de mundo modelizada na obra literária.
―Se é possível associar-se um sentido concreto ao conceito de linguagem literária, então chama-se literária a linguagem que provém de tais processos de transposição, adaptada a seus objetivos de expressão na literatura ficcional‖ (STEGER, 1987, p. 128). Os processos dos quais o autor fala são aqueles em que uma obra literária faz uso de subsistemas linguísticos, como linguagem cotidiana, jargão, linguagem jurídica, linguagem especializada, ou seja, ―[...] elementos extraídos de diferentes sistemas parciais da sociedade dispostos num novo contexto‖ (STEGER, 1987, p. 122). De forma semelhante, Barbosa (2000, p. 177) ressalta que, no universo de discurso literário, certos aspectos de outros universos de discurso são reunidos sincreticamente. Entendemos, portanto, que no universo de discurso literário é possível encontrar elementos de natureza especializada provenientes de outros universos, trazidos para a linguagem literária na composição sintética de um mundo ficcional. Nesse sentido, a linguagem literária conta com inúmeros recursos de expressividade, podendo adotar um modo de dizer similar, próximo de uma linguagem especializada com uso de terminologias, por exemplo, a depender dos objetivos de composição estética. Assim, Steger (1987, p. 134; grifo nosso) reconhece que ―[...] temos [...] linguagens literárias especialmente
diversificadas em nossa língua como um todo, o que percebemos principalmente na literatura
moderna.‖
Outro aspecto importante a ser considerado é que, os textos literários
[...] criam o contexto referencial, que por si só permite que venha à tona o novo sentido linguístico. Fora deste mundo ficcional eles não existem, sucumbem, e somente uma parte deles tem força suficiente para acionar a consciência dos leitores, a ponto de adentrar direta ou disfarçadamente a linguagem prática cotidiana (STEGER, 1987, p. 129).
Observamos nessa afirmação de Steger a especificidade de uma obra literária ao criar o próprio contexto referencial, gerando especificidades intrauniverso de discurso, conforme Pais e Barbosa (2004) salientam ao tratarem da rede de relações semânticas específicas presentes no universo de discurso etnoliterário.
Jeha (1993) também explica que a linguagem do texto literário constrói, em parte, o campo de referência da obra.
As proposições ou sentenças do texto literário formam um campo interno de referência – uma rede de referentes interrelacionados: personagens, acontecimentos, idéias e diálogo. A linguagem do texto ajuda a construir esse campo interno ao mesmo tempo que se refere a ele (JEHA, 1993, p. 82).
Como exemplo, ao nos referirmos ao universo de Harry Potter, ou ao mundo ficcional de Harry Potter, fazemos referência a todo um conjunto de relações não só de personagens e acontecimentos, mas a um campo de relações semântico-conceptuais que conferem à obra a sua coerência interna. Nas palavras de Jeha (1993, p. 82),
O campo de referência interno funde aspectos formais, convencionais e temáticos em uma combinação – o mundo ficcional – que confere à obra literária sua unicidade. Ele também veicula o valor expressivo, simbólico ou modelador do texto em relação ao mundo externo e ao autor. Além disso, o campo interno orienta (ou deveria orientar) toda interpretação do significado da obra literária.
No excerto seguinte, Nomura (1996, p. 202) sintetiza pontos nodais da concepção de linguagem literária de Steger:
[...] a linguagem literária tem a responsabilidade de modelizar uma concepção de mundo; com isso, o plano da expressão adquire uma nova dimensão, pois ele constitui e legitimiza essa concepção, visto que a força de verdade dessa concepção depende do poder de convicção e de
convencimento da linguagem que a modeliza; [...] com essa nova responsabilidade, fez-se presente a necessidade de remodelar internamente a linguagem existente, não só por meio dos procedimentos poéticos já consagrados – como o uso de metáfora e metonímia, de equivalências sintático-semânticas e de procedimentos, como estranhamento e singularização, conotação e semantização –, como também pelo aproveitamento intencional das variantes linguísticas de outros campos funcionais da comunicação humana – o uso intencional estético da linguagem técnico-científica, religiosa, institucional, administrativa e outras no contexto do texto literário.
É preciso lembrar também que, de acordo com Steger (1987), o mundo do texto literário contém modelos comportamentais que nos permitem ensaiar ações antes de realizá- las de fato. Nesse sentido, a literatura busca fornecer ―[...] modelos existenciais adequados à vida e à sociedade‖ (STEGER, 1987, p.134). Mesmo tratando-se de uma obra ficcional, a literatura pode influenciar ações e comportamentos na sociedade, tendo em vista os valores culturais linguisticamente codificados nos textos.
Concluímos que a linguagem literária não se constitui como uma linguagem à parte da linguagem comum. Não se trata de uma linguagem desviante e inacessível. Como colocado por Hunt (2010a, p. 89), ―a ‗linguagem literária‘ é diferente no sentido de que o discurso ao qual ela pertence é exclusivo.‖ Por isso, é importante deixar claro que, ao falarmos de linguagens especiais da literatura, estamos nos referindo aos modos de dizer específicos que a linguagem literária assume em textos concretos delimitados por certa temática. Ela é especial não por propriedades intrínsecas, mas pelo uso que se faz dela em um universo de discurso específico.
A seguir, tratamos dos mundos ficcionais semiotizados por meio da linguagem literária e da atividade sígnica da fantasia literária.