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Dataanalyse

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3. Metode

3.4 Dataanalyse

Pesquisa é o processo de entrar em vielas para ver se elas são becos sem saída."

(Marston Bates)

O estudo que propomos, consoante ao objeto que apresentamos no início desse texto, se caracteriza como de natureza qualitativa, onde trabalharemos com os textos e as imagens de revistas femininas conforme adiante detalhado, buscando compreender as particularidades do discurso como campo de produção de verdades em seu papel na atribuição de significados e motivações para busca da saúde, beleza e magreza. Isso implica atentar para as aspirações, construções de crenças e valores advindos daí, gerando atitudes que interferem no campo das relações humanas.

Lançaremos mão da Análise Critica de Discurso – ACD, abordagem que procura localizar mecanismos semióticos, e suas causas e efeitos de sentido potencialmente ideológicos. Exercendo três funções, como considera Halliday (1991), o texto é ideacional, interpessoal e textual. Ideacional significa dizer que representa a realidade, a experiência; é interpessoal na medida em que se refere ao significado da perspectiva de sua função na interação social, e tem função textual porque gramática, semântica e estrutura têm função no contexto social de interação. Fairclough, um dos maiores representantes da ACD, explica que o discurso figura de “três principais maneiras: como parte de práticas sociais, na relação entre textos e eventos: como modos de agir, como modos de representar e como modos de ser.” (RESENDE, 2006, p.1071). A Análise Crítica de Discurso, ou como denominam Ramalho e Resende (2011), ‘Analise de Discurso Crítica’ “não se refere a uma abordagem única e estável dos estudos de linguagem. Ao contrário, como campo de investigação dos discursos em práticas contextualizadas, é heterogênea, instável e aberta”. (p.18). É instável tanto pelas combinações possíveis de diferentes abordagens quanto por ter como um de seus pressupostos básicos de analises discursivas críticas a interdisciplinaridade.

Tendo em vista que nossa visão sobre o processo de construção do corpo passa por uma leitura crítica dos saberes que elaboram verdades e modelos práticos para o preparo do corpo saudável e bonito, é fundamental o estudo dos textos das revistas partido da compreensão de que a linguagem é uma forma de prática social e que seu

estudo desvela os fundamentos ideológicos dos discursos naturalizados, já tomados de forma incorporada como modelos de verdade e aceitos sem questionamentos. Assim, tanto a ideologia quanto as relações de poder estão presentes e envolvidos nos discursos.

De acordo com Figueiredo (2008), os textos escritos para as revistas não são desconectados da realidade social. Feitos com a função de alimentar modelos de beleza e vender corpos ideais, as matérias e as imagens não se separam do contexto e nem das práticas sociais. Comprar as revistas, apresentar interesse, construir-se (construir o próprio corpo) como modelo, seguir as dietas indicadas, comprar os produtos que as revistas apresentam, tudo isso gera práticas representativas que ajudam na construção e manutenção de certas relações ideológicas.

A ACD pertence às analises de discurso textualmente orientadas, ligadas a perspectivas metodológicas qualitativas e interpretativas. É um recurso metodológico relevante para análise dos textos das revistas, pois os considera realidade na medida em que constroem traços de identidade e interagem como evento discursivo. (HEBERLE, 2004). Baseados na compreensão de que o texto tem funções variadas, pois constrói identidades e estabelece relações entre os interlocutores do discurso, interrogamos sobre como a mídia se articula com o saber especializado em medicina estética dos cuidados corporais para a construção estética, da saúde e da juventude no modelo hegemônico e propagado hoje.

Investigando as relações entre a linguagem e o contexto social. A Análise Crítica de Discurso permite revelar as ligações entre poder, ideologia e linguagem. Segundo Fairclough (2001), a análise tridimensional abrange o texto, as práticas discursivas e as práticas sociais. Nosso interesse é tomar o texto como fonte viva de formação de identidades e modelos de naturalização das verdades, buscando desnaturalizar e apontar a construção das verdades na dobradinha entre mídia e saber médico-estético.

A ACD objetiva a desnaturalização das noções ideológicas que subjazem aos discursos, buscando, por meio da investigação das relações entre discurso e prática social, despertar nos agentes sociais uma consciência crítica em relação às crenças naturalizadas que contribuem para a consolidação das estruturas de dominação que os cercam e constrangem. (DAUFEMBACK, 2008, p.21).

Assim, entre as figuras de arqueólogo e detetive, vamos buscando os vestígios, que compõem as produções de verdade exercidas pelos textos sobre os cuidados corporais. Buscaremos as enunciações como forma de compreender os discursos presentes na modelagem do corpo saudável/belo/magro.

Pesquisar sobre o corpo e a produção de um determinado modelo desejado por um número cada vez maior de pessoas implica também estudar os desdobramentos que o texto gera: os desejos, as motivações, os jogos de palavras publicados, construindo os modelos ideais de uma época. No que concerne ao material empírico, trabalhamos com as revistas de publicação mensal Boa Forma e Corpo a Corpo, nas edições de agosto de 2011 a julho de 2012, abarcando 12 meses de publicação num total de vinte e quatro fascículos.

A escolha dessas revistas deve-se ao fato de serem meios consolidados na área da beleza e trabalharem temáticas consideradas em voga no mundo da estética e da saúde corporal. As duas revistas existem já há três décadas, são bem conhecidas do público geral e acessíveis à classe média urbana feminina brasileira. Trazem em seu editorial um forte apelo ao corpo belo, magro e que representa sucesso. Tais recursos refletem histórica e socialmente as questões centrais de uma época.

Há conteúdos disponibilizados de forma digital pelos sites das revistas e estes nos servirão como alusão às matérias onde fizemos uso de forma ilustrativa, margeando nossa analise. A aquisição das publicações foi através de compra nas bancas de revistas ou solicitações às editoras, quando não conseguimos através da venda direta. Vale ressaltar ainda que nosso recorte com as publicações mais recentes se impõe por alguns motivos: pelo fato de estarmos fora do polo editorial; não termos acesso a números mais antigos; o estudo pretende ressaltar a realidade atual; o volume de material é suficientemente expressivo e referenda nosso interesse.

Além disso, o recorte temporal está baseado no fato de que trabalhando com um ano de edição é possível tomar temáticas atravessadas por questões que envolvem épocas do ano, as estações, as coleções de moda, as diversas celebridades das capas e personalidades em destaque de acordo com os trabalhos na mídia, as receitas de cada época para a saúde, beleza, as descobertas recentes no campo da estética e da nutrição, além do desenvolvimento de produtos para tratamento de beleza, recortados em momentos definidos temporalmente como as festas, o natal, a páscoa, o carnaval, etc.

Através de matérias especializadas sobre os temas e com cardápios para emagrecimento, técnicas e receitas de beleza e rejuvenescimento, procedimentos

cirúrgicos e intervenções estéticas, tais magazines se configuram como veículos de credibilidade para o público conhecedor e que acessa suas informações. Abordam cuidados com o corpo, com a saúde e a boa forma através de disciplinas que incluem atividade física, alimentação, disciplina e modelos famosos a serem seguidos como ideal.

 Sobre as revistas:

A revista Corpo a Corpo (RCC) nasceu como um guia, uma espécie de livro com temas bastante abrangentes (Castro 2007). Com tiragem mensal, seu público alvo são mulheres das classes ABC e com faixa etária de 15 a 39 anos, mas já mostrando expressão com idades acima dessa média. (dados consultados no midiakit da revista http://www.escala.com.br/midiakit/). Nas informações sobre o perfil da revista temos as seguintes informações:

Corpo a Corpo é a mais completa revista de beleza do País, pois valoriza a essência de cada mulher. Em suas páginas, a leitora encontrará informações para ter uma silhueta definida e um visual mais bonito e saudável, com dicas de moda, cabelo, maquiagem e cuidados com a pele. Uma revista atual, feita para a mulher que sabe o quanto a aparência é fundamental na vida moderna. (Midiakit, p.2)

Da editora Símbolo, nasceu em 1987, enfocando qualidade de vida e ecologia. Passou a ser editada pela Escala desde 2011 e anuncia-se como a revista completa de

beleza. Traz na capa a cada mês uma importante personalidade do mundo dos artistas. Nas seções principais que estruturam a revista, as temáticas são: “mais bonita”, “na moda”, “magra e saudável” e “corpo em forma”. No comentário sobre os dezoito anos de publicação da Corpo a Corpo, editores ressaltam que originalmente a revista estreava como um guia de qualidade de vida.

A revista Boa Forma (RBF) surgiu em 1984, voltada como guia para profissionais de educação física, reposicionando-se para o público feminino. Atingindo um público muito semelhante, segue a mesma lógica de cuidados com o corpo e a manutenção da juventude.

Realizamos análise discursiva dos materiais e imagens das revistas a partir de algumas de suas seções e chamadas da capa. Na revista Boa Forma, tratamos das matérias: Estrela da capa, dieta e nutrição, beleza e eu consegui! Na revista Corpo a Corpo tomamos como recorte de análise Corpo em forma, Magra e saudável, e matéria feita com a personalidade da capa da revista. Vale ressaltar que nos reportamos às

imagens quando as matérias fizeram menção, como no caso das reportagens com as personalidades da capa e as leitoras que são apresentadas por terem “vencido a luta” com a balança.

O que é que se pode ler com as reportagens e imagens veiculadas nas revistas? Quais funções estão por ser reveladas? Tudo nos textos gira em torno dos sujeitos em confecção, que podem ir se fazendo a cada receita ou dica publicadas nas edições mês a mês. As revistas difundem valores e ideologias de um grupo social e então o corpus indicado e os conteúdos veiculados apontam importante material investigado na tentativa de compreender como certo tipo de corpo, exitoso por ser belo e jovem e refletir saúde, motiva uma busca constante.

Elaborados por profissionais de publicidade com constante consultoria aos especialistas em saúde – dos mais diversos – as matérias são interpretadas em suas linguagens técnicas com a devida tradução pelos jornalistas responsáveis pelas matérias. Pautados no saber especializado sobre concepções de corpo, beleza, magreza e qualidade de vida, emergem práticas e modos de ser que manifestam a busca por um corpo ideal: magro, belo e saudável que revela completude, felicidade e êxito.

8. CAPÍTULO VII: A CONFECÇÃO DO CORPO NAS REVISTAS:

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