4. Analyse
4.3. Argumentasjonsanalyse av tekstutvalet
4.3.10. Argumentasjonsanalyse, Tekst 11
Primeiramente, cabe esclarecer que, dreadlocks, miçangas, pulseiras, colares, pessoas reunidas tocando violão e cantando no woman, no cry, é, definitivamente, algo que não se vê na Feira Hippie de Goiânia-GO que, de Hippie, só tem o nome. Essa descrição não pretende estereotipar o movimento hippie e nem mesmo sintetizá-lo de forma tão restrita. Souza et al. (2008) utilizaram os métodos antropológicos para comparar o comportamento de indivíduos em duas feiras verdadeiramente hippies, sendo uma no Brasil e a outra nos EUA. As características anteriormente citadas tiveram como base as informações desses autores.
O contexto analisado tinha a presença de artesãos, shows musicais, preocupação com o meio ambiente, com a saúde do corpo e da mente, preceitos que seguem a conduta desse movimento, e que vem lutando com a questão da formação identitária, principalmente, no Brasil (SOUZA et al., 2008).
Voltando ao caso dos hippies de Goiânia-GO, a Feira, que teve início em 1969, era localizada no Parque Mutirama, local de grande fluxo de pessoas situado no centro de Goiânia-GO. A Feira nasceu estimulada pelo crescimento do movimento hippie, que deu origem ao nome, perdurando até os dias atuais. O comércio era caracterizado pela venda de artesanatos e comidas típicas. Maia e Coelho (1997) discutem a questão da historicidade da Feira, relembrando, de forma nostálgica, a presença de músicos locais e o envolvimento da sociedade com aquele ambiente.
A aglomeração de pessoas fez com que produtores locais vissem a oportunidade de exporem suas mercadorias, mesmo aquelas que não estivessem relacionadas com trabalhos manuais. Em 1995, a Feira foi transferida para a Praça do Trabalhador, um local mais amplo para acomodar os mais de 5000 expositores da época.
Para melhor entendimento quanto ao funcionamento, estrutura e composição da Feira Hippie, recorri aos órgãos de controle do local, quais sejam: a Associação dos Feirantes da Feira Hippie (ASFFEHIPPIE) e ao Sindicato dos Feirantes do Goiás. De acordo com as
informações coletadas nas entrevistas realizadas com os presidentes das duas instituições, foi possível determinar as principais características da feira e seus principais objetivos.
“Se trata de uma Feira de fabricantes”, disse o presidente da ASFFEHIPPIE. Cerca de 85% dos expositores são responsáveis pela confecção do seu próprio produto, e, por essa razão, conseguem atrair multidões que procuram mercadorias de qualidade a preços baixos. A magnitude do local dificulta o acompanhamento dos feirantes. Os dois presidentes não sabem ao certo a quantidade de expositores que realmente ocupam um espaço na Praça do Trabalhador. Aqueles formalmente cadastrados na Secretaria de Turismo de Goiânia-GO totalizam 8.130, porém, esse número pode passar de 10.000 se considerados os cadastrados e os clandestinos.
As duas entidades são enfáticas ao destacar que se trata do maior centro de mercado aberto da América Latina, onde circulam de 80.000 a 100.000 pessoas todos os domingos, das 07h00 às 14h00, horário regulamentado para funcionamento da feira. Cerca de 300 ônibus trazem clientes de todos os cantos do Brasil, ocupando as mediações da praça e contribuindo para o aquecimento de outros setores, como o hoteleiro e alimentício. Na época de Natal, o movimento ultrapassa 120.000 pessoas, conforme destaca o presidente do Sindicato dos Feirantes de Goiás. O presidente enaltece, ainda, que a Feira é responsável pela geração de, aproximadamente, 25.000 empregos diretos e indiretos.
A Feira é dividida em quadras e cada barraca possui um número. São 19 quadras representadas por letras que vão de A a S. Cerca de 90% dos feirantes pertencem ao ramo de vestuário. Desses, 90%, mais da metade, dedicam ao público feminino, conforme relata o presidente da ASFFEHIPPIE.
Foto 1 – Visão aérea da Feira Hippie de Goiânia
Foto 2 – Movimentação nos corredores da feira
Foto 3 – Corredores da Quadra “O”
Sentindo necessidade de conhecer melhor a organização da Feira, realizei minha primeira imersão a campo, deixando de lado a visão do consumidor, incorporando o etnógrafo, como é recomendado na utilização da técnica (MARIAMPOLSKI, 2006).
Se me fosse requisitado que, em poucas palavras, descrevesse a Feira Hippie de Goiânia-GO, eu diria: simplesmente monumental. Esse adjetivo reflete a minha impressão como pesquisador, postura adotada nesse contato inicial com a Feira, que agora passa a ser meu contexto de pesquisa, e não mais uma desculpa para visitar a capital goiana com o objetivo de renovar o guarda-roupa, o que, por diversas vezes, serviu como argumento. Digo monumental em razão de seu tamanho, complementado pelo imenso número de pessoas que transitam em seus corredores estreitos, tentando realizar a impossível tarefa de ocuparem um mesmo lugar no espaço.
Pois bem, depois de percorrer, quase ininterruptamente, toda a Feira, pude, então, constatar que, realmente, a predominância das transações comerciais se concentrava no setor de vestuário, porém, não havia critérios de agrupamento em relação aos expositores. Durante o reconhecimento do local, notei que se misturavam, em um mesmo corredor, a barraca de roupas íntimas, o fabricante de jeans, o expositor de botinas, a barraca das malhas e a carrocinha de acarajé e tapioca. Como definir, então, o local onde realizarei minha observação? Eis que me deparei com a “Quadra O” (DIÁRIO DE CAMPO, 14/08/2011).
A quadra O é a única na qual é possível identificar uma homogeneidade dos produtos comercializados, e, consequentemente, atrai consumidores que procuram esse tipo de mercadoria. Nessa quadra, estão concentradas as barracas que vendem produtos para recém- nascidos. São cerca de 500 expositores situados no coração da Feira, uma localização privilegiada por ser de fácil acesso à rodoviária e à avenida principal que passa nos arredores da praça. Abaixo segue os registros fotográficos da localidade selecionada.
Foto 5 – Barracas da Quadra “O”
Foto 7 – Acesso principal à Quadra “O”
Foto 8 – Barraca da Quadra “O”
Nos tópicos seguintes, serão apresentadas a etnografia de consumo e a discussão dos achados do trabalho de campo realizado no local anteriormente mencionado. Por fim, ao término das discussões, fazem-se as considerações finais, salientando as contribuições da dissertação e explicitando as limitações na operacionalização desta pesquisa.
5 APRESENTAÇÃO DOS DADOS ETNOGRÁFICOS
Neste tópico, é apresentado o trabalho etnográfico realizado na Feira Hippie de Goiânia. Pretende-se, assim, fazer a descrição densa (GEERTZ, 1978) do lócus de pesquisa, focando as análises no comportamento dos consumidores da quadra O, na qual, conforme descrito anteriormente, concentram-se lojas especializadas no fornecimento de produtos para recém- nascidos.