3 Motion detection by optical flow
3.2 The data term
Há a tendência, nas reportagens jornalísticas analisadas, em se criar uma história da cidade de São Luís do Maranhão tendo como pano de fundo o problema da criminalidade. Predominou nas reportagens manifestações do saudosismo de um espaço urbano pacífico e organizado que “há algum tempo atrás” caracterizaria essa Capital.
Antes ou depois de narrarem a ocorrência de crimes violentos, os repórteres lamentam “já ter passado o tempo” em que o cotidiano de São Luís era marcado pela paz e
pela tranqüilidade. Tais relatos passam a idéia de linearidade nas transformações da violência urbana, colocando o presente sempre como um tempo marcado pelo auge dos crimes violentos, que “chocam a sociedade”.
No entanto, a (re)construção da história de São Luís como lugar marcado por um passado ordeiro tem bases ficcionais. Os repórteres se restringem à caracterização do tempo presente como marcado pelo “caos” (desordem) e do passado pela “tranqüilidade” (ordem). Quando levados a apontar em que época imperou em São Luís a “paz” e a “tranqüilidade”, nada dizem. A idéia de que esse discurso é ficcional deriva da percepção de que as narrativas nunca delimitam, e nem parecem ter essa delimitação como objetivo, de que época (“ordeira”) está se falando.
Entendo que a visão de um presente caracterizado pelo crescimento desenfreado da violência mantém ligação com a noção de cultura do medo desenvolvida por Débora Rodrigues Pastana (2003, p. 40-48). Para a autora, o período de derrocada da ditadura militar no Brasil foi marcado, dentre outras questões, pela deflagração e consolidação, no imaginário deste país, da violência urbana como principal problemática nacional. Essa “cultura” seria caracterizada pela crença de que vivemos em um momento particularmente perigoso. As razões do perigo residiriam justamente no aumento da criminalidade violenta.
A cultura do medo, conforme anunciada por discursos oficiais e pela imprensa, ainda para Pastana, caracteriza a contemporaneidade como marcada pela “escalada da criminalidade” e demanda a segurança pública (estatal) como a única forma de proteção aos “cidadãos de bem”. Tudo isso forjado num contexto em que:
Tornava-se oportuno para a elite dominante criar um clima de neurose coletiva e social em relação à segurança da população. Uma postura severa, autoritária, brutalizada, num primeiro momento, poderia servir para impressionar e atemorizar os criminosos, funcionando assim como atitude tranqüilizadora da sociedade, porém, num segundo momento, funcionaria para calar qualquer oposição política democrática (PASTANA, 2003, p. 45).
A relação entre temporalidade e o relato da violência adquire no Jornal Pequeno uma dupla perspectiva. As notícias policiais, como espetáculo, estão inseridas num tempo espetacular de consumo e, ao mesmo tempo, produzem uma peculiar consciência de tempo.
Na primeira acepção, elas (notícias) se encaixam num “tempo pseudocíclico” (DEBORD, 1997, p. 105), num tempo repetitivo no qual é alimentado no espectador (leitor) o interesse periódico pelo consumo do espetáculo. No caso do Jornal Pequeno, o “ciclo” do consumo seria diário.
Na segunda perspectiva, mais diretamente relacionada com o que aqui denomino de história ficcional de São Luís, as representações sobre o tempo, ou melhor, sobre a relação presente-passado-futuro, buscam a própria organização da vida social, através, principalmente, do apagamento da memória e da construção de um sentido para a história da cidade. Conseqüência, para Guy Debord, inerente à sociedade moderna: “o espetáculo, como organização social da paralisia da história e da memória, do abandono da história que se erige sobre a base do tempo histórico, é a falsa consciência do tempo” (DEBORD, 1997, p. 108, grifo do autor).
Assim, nessa (re)organização da história de São Luís, tendo como parâmetro a questão da criminalidade violenta, ganham sentido presente, passado e futuro. O primeiro entendido como paz, como tempo-ordem. O segundo como explosão da violência, como tempo-convulsão. O terceiro como época em que aparecerão as conseqüências da violência desenfreada, principalmente, como a seguir será explicitado, através do juízo divino de nossas ações (violentas). Nessa perspectiva, o futuro seria o tempo-julgamento.
Percebi a utilização de diferentes estratégias, pelos jornalistas do Jornal Pequeno, para dar impressão de que o tempo presente é caracterizado pelo crescimento da violência, quer quantitativo (número de crimes), quer qualitativo (crimes “violentos e cruéis”).
A principal (estratégia) é a junção, em uma mesma reportagem, de distintos relatos de crimes, dando à notícia título que faça crer existir uma estreita relação entre as mesmas.
Alguns desses títulos:
“Tio mata o sobrinho em São Luís e sobrinho mata o tio em Rosário” (28.02.2000, p. 12); “IML registra cinco casos de mortes violentas” (01.05.2002, p. 12); “Mais um fim de semana violento na Grande São Luís” (19.05.2003, p. 6); “Explode a violência pelo MA” (03.07.2003, p. 12); e, “Noite sangrenta em São Luís: 4 mortes violentas” (18.11.2003, p. 10).
No entanto, a aproximação entre diferentes relatos de violência, narrados em uma mesma reportagem, faz-se com o emprego de relações bastante tênues entre as ocorrências, quando não inexistentes. Em notícia veiculada em 28.02.2000, o próprio subtítulo indica a forma como os repórteres procederam a essa aproximação: “os dois casos aconteceram domingo à noite e no mesmo horário” (TIO, 2000, p. 12). Uma mais consistente identificação de elementos que pudessem estabelecer relações entre os delitos, que, no exemplo, ocorreram em municípios diferentes, é suplantada pelo interesse primordial em se formar “mosaicos” de relatos de violência, a serem expostos em uma mesma oportunidade.
Outra forma de exteriorização desse discurso se dá através da remissão, quando da narrativa de um crime “atual”, a delitos anteriormente ocorridos. A seção policial do Jornal Pequeno possui um pequeno quadro, denominado memória policial, cuja função é justamente estabelecer relações entre crimes ocorridos em diferentes épocas e locais.
A utilização dessa “memória” acaba fortalecendo, a meu ver, a idéia de que São Luís passa por periódicas “ondas de violência”, caracterizadas pela reiteração de crimes que poderiam, sem muita dificuldade, serem aproximados pelo local onde ocorreram ou por suas características.
Notícia publicada em dezembro de 2003 relata o assassinato de jovem no bairro Santa Clara por “moradores do local”. O relato dos fatos não ocupa sequer a metade da reportagem. A maior parte da notícia é destinada à tentativa de se ligar a ocorrência a “outra
tentativa de linchamento, [...] ocorrida na semana anterior, no bairro da Cidade Operária”. Para o repórter, as ocorrências manteriam “estreita aproximação” e teriam sido “motivadas pelos mesmos fatos” (BANDIDO, 2003, p. 12).
A idéia do presente como ápice da violência é corroborada através da referência a citações bíblicas, relacionadas, em sua maioria, a elementos que identificariam o “fim dos tempos”, que sinalizariam o futuro como tempo-julgamento. Nesse aspecto, algumas narrativas de crimes foram seguidas de trechos de capítulos da Bíblia com remissão direta ao Juízo Final, quando os homens seriam julgados por seus atos.
Após narrar tumulto na Av. Jerônimo de Albuquerque, “ocasionado por acidente automobilístico ocorrido no trecho denominado Curva do Noventa”, o editor do Jornal Pequeno destacou a seguinte citação:
Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a luz não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento e os poderes dos céus serão abalados. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da Terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu com poder e muita glória.
E ele enviará os seus anjos, com grande clangor [sic] de trombetas; os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade do céu. Mas a respeito do dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão somente o Pai.
Pois assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem / MATEUS 24:29, 30, 31, 36 e 37 (MOTOQUEIRO, 2003, p. 5).
A forma como essas notícias e citações são veiculadas estabelece uma direta relação entre a violência atual (tempo-convulsão) e as conseqüências desse estado “caótico” para a humanidade. Assim, os redatores do Jornal Pequeno passam a idéia de que a diminuição da violência, em seu juízo descontrolada hodiernamente, seria a única estratégia de salvação dos homens do castigo divino.
Duas reportagens ilustram a afirmação:
Em agosto de 2002, o Jornal Pequeno noticiou a história de uma “jovem” (não identificada) que, “incentivada por promessas de dinheiro, [...] migra do interior do Estado para a Capital e se submete ao assédio sexual de Joaquim Gonçalves”, de 50 anos. Segundo a
notícia, “as promessas aos poucos se convertem em violência”. Após alguns meses de “reiterados espancamentos”, a jovem é expulsa de casa por Joaquim. Ao lado da reportagem é destacada a seguinte citação: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo / Atos 2:38” (PROMESSA, 2002, p. 10).
Em outra notícia, datada de 7 de maio de 2003, um homem não identificado pela equipe de reportagem é “encontrado pela polícia desfalecido e amarrado a um poste no bairro da Redenção”. Em seguida à notícia, é colocado o seguinte trecho bíblico: “Convertei-vos pela minha repreensão; abundantemente derramarei sobre vós o meu espírito e vos farei saber as minhas palavras. O que me der ouvidos habitará seguro / Provérbios 1:23 e 33” (JOVEM, 2003, p. 10).
O crescimento da criminalidade, mesmo que não datado (ficcional), liga-se à idéia de que a cidade passa por “ciclos de violência”. A história da violência em São Luís, nessa interpretação, far-se-ia através da identificação desses “ciclos”.
Acho que a criminalidade tem crescido bastante. [...] É uma coisa que sempre está se modificando. Hoje o crime acontece em determinada área [...] vamos supor, nas festas de reggae. Aí a policia começa a intensificar a vigilância. Aí os criminosos mudam. O crime cresceu muito, só que como eu te falei, sempre muda de alvo, nunca é o mesmo [...]. Aí ele elege determinado alvo. Aí a polícia bate em cima e ameniza. Mas os criminosos sempre ficam se espalhando, procurando outros ramos (ENTREVISTADO 03).
Se a “explicação” da criminalidade está arrimada em sua “historicidade”, essa história, por sua vez, teria como principal característica ser linear. “Ordem” e “desordem” identificariam, respectivamente, o passado e o presente de São Luís.
A referida linearidade, como visto, possibilitaria a especulação das conseqüências futuras dessa “explosão da violência”. Nesse sentido, o destino da humanidade estaria relacionado, para o discurso ora enfocado, a atitudes de controle aos crimes violentos.