Tradicionalmente, o trabalho ocupa um lugar de destaque dentro dos projetos de futuro dos jovens. Em uma pesquisa nacional realizada no ano de 2003 pelo Projeto Juventude/Instituto Cidadania, intitulada “Perfil da Juventude Brasileira”, identificou o desemprego como o principal problema no país; e quando questionado sobre o que mais preocupa os jovens entrevistados, o emprego e a atividade profissional ficaram em 2º lugar, com menos de 1% em relação à violência e a educação, que foram os primeiros citados.
Diante disso, em uma tentativa de elucidação da relação entre a juventude (perfil que compõem a amostra desta pesquisa) e o trabalho, iremos inicialmente caracterizar a juventude no intuito de compreender a dinâmica psicossocial dos que participaram deste estudo.
Segundo Abramo (2008, p. 40-41)
a noção de condição juvenil remete, em primeiro lugar, a uma etapa do ciclo da vida, de ligação (transição, diz a noção clássica) entre a infância, tempo da primeira fase de desenvolvimento corporal (físico, emocional, intelectual) e da primeira socialização, de quase total dependência e necessidade de proteção, para a idade adulta, em tese a do ápice do desenvolvimento e de plena cidadania, que diz respeito, principalmente, a se tornar capaz de exercer as dimensões de produção (sustentar a si próprio e a outros), de reprodução (gerar e cuidar dos filhos) e participação (nas decisões, deveres e direitos que regulam a sociedade).
Consideramos jovens os sujeitos entre 15 e 24 anos de idade. A partir dos seguintes critérios: em sua maioria os estudos que aborda a juventude no mercado de trabalho consideram a faixa de 16 a 24 anos. Conforme a Lei 11.129 de 30/06/2005 que criou a Secretaria Nacional da Juventude, é considerado jovem no Brasil todo cidadão ou cidadã com idade entre 15 e 29 anos (CORROCHANO et al., 2008).
A OIT em seu relatório intitulado Trabalho Decente e Juventude no Brasil (OIT, 2009. Grifo nosso) utiliza a faixa etária da juventude para aqueles que têm entre 15 e 24 anos. Entretanto, este mesmo documento aponta que a Constituição da República Federativa do Brasil determina os 16 anos como idade mínima para o trabalho, admitindo, a partir dos 14 anos apenas o trabalho na condição de aprendiz. Compartilhamos com Corrochano et al. (2008) a percepção de que cada vez mais se discute sobre a juventude e as questões relacionadas a esta etapa de transição entre a infância e a vida adulta, marcada por diversas transformações biopsicossociais. Na atualidade, os jovens são reconhecidos como diferentes entre si a depender de sua classe social, sexo, cor/raça; além disso, são sujeitos que vivem em um determinado contexto social, econômico e político.
Abramo (2008:41) em consonância com esta perspectiva aponta que os conteúdos, a duração e a significação social dos “atributos das fases da vida são culturais e históricos, e que a juventude nem sempre apareceu como etapa singularmente demarcada”.
Segundo o relatório da OIT (2009) ao analisar a juventude é necessário levar em conta a heterogeneidade e os diferentes padrões vivenciados por distintos grupos de jovens, pois os processos tradicionais de transição ao longo do ciclo de vida dos indivíduos estão se tornando cada vez mais complexos. Ribeiro (2011) aponta a complexidade nos padrões de transição para a vida adulta, diante uma menor linearidade, homogeneidade e previsibilidade das trajetórias, o que dificulta a delimitação de uma faixa etária específica aos jovens.
Guimarães (2004) corrobora com estas concepções ao afirmar que o mercado de trabalho, na atualidade, percebe distintas formas de socialização profissional relativas aos grupos de jovens, variados por sua origem social, regional, étnica, ou mesmo por sua condição de gênero ou seu capital escolar, existindo assim, “juventudes” antes que “juventude”, enquanto termo para considerar os sujeitos pertencentes a esta faixa etária.
O relatório da OIT (2009) destaca que o aumento da escolaridade pode ocorrer concomitantemente ao ingresso no mercado de trabalho, sem que isso implique no adiamento da transição para a vida adulta. Muitos jovens buscam conciliar o estudo com a formação profissional e o trabalho, seja por questões de necessidade financeira, seja pela busca e desejo de conquistar sua autonomia econômica em relação à família.
Segundo Branco (2008) os jovens além de se mostrarem empenhados em conquistar espaços no mercado de trabalho por razões de necessidades de obtenção de renda ou por razões de sua própria autonomia. Buscam, sempre que possível, conciliar tais responsabilidades com outras práticas dedicadas ao estudo e à aprendizagem profissionalizante, bem como atividades ligadas à participação social, tais como cultura e ao esporte.
Corrochano et al. (2008) aponta que o término da escolaridade formal, a constituição de uma nova família e o ingresso no mercado de trabalho constituem, tradicionalmente, aspectos importantes da transição dos jovens para a vida adulta. Sendo que para a maioria dos jovens dos países desenvolvidos esse ingresso ocorre após o término da educação formal, enquanto no Brasil, a maioria dos jovens tem o início da vida ocupacional antes da conclusão da escolaridade, em uma combinação entre trabalho e estudo.
Corrochano et al. (2008, p 10) acrescenta que ao considerar as transformações que atingem a esfera do trabalho e da escola, é relevante aprofundar os estudos sobre “os percursos dos jovens nessas esferas, principalmente em países como o Brasil, pois aqui, para além da escola, o trabalho também faz a juventude”.
No atual contexto da sociedade capitalista, a entrada de jovens no mercado de trabalho é vista como uma forma de inserção na vida social adulta. Estes são percebidos socialmente como futuros trabalhadores e o reconhecimento se dá através da participação no processo de crescimento do mundo produtivo. Assim, a escola ao exercer um papel na socialização dos jovens, adquire a função de prepará-los para o mercado de trabalho, pois a formação profissional é indispensável para o acesso e a permanência no trabalho, além de assegurar o reconhecimento das pessoas como cidadãos (ALVES, 2005; WICKET, 2006). Nesta perspectiva, Guimarães (2004, p. 4) aponta o trabalho como um “passaporte para o reconhecimento social a ser outorgado pelo mundo dos adultos”.
O relatório da OIT (2009) afirma que embora muitos jovens inserem no mercado de trabalho por necessidade ou por precariedade econômica e social de suas famílias. Há também aqueles que anseiam autonomia, independência financeira, crescimento pessoal ou por outras razões subjetivas entram no mundo do trabalho de forma voluntária. Importante destacar que a necessidade de trabalhar não deve ser vista como empecilho para os jovens de baixa renda aumentarem a
escolaridade e o nível de qualificação profissional. Acreditamos na possibilidade destes jovens conciliarem o estudo com o trabalho dentro do processo de construção da trajetória profissional.
A entrada do jovem no mundo do trabalho se dá de diversas formas nas hierarquias ocupacionais, onde as oportunidades de emprego dependem do nível de escolaridade alcançado. Wicket (2006, p. 263) esclarece que anteriormente, o trabalhador conseguia vislumbrar o trabalho como um referencial em sua vida ou um instrumento que possibilitasse a mobilidade social. Entretanto, no cenário atual, o jovem a partir do processo de flexibilização e precariedade do trabalho assalariado, “se vê à deriva, sem referenciais claros, sem rumos a priori. Não há mais padrões de estabilidade”.
A instabilidade do atual mercado de trabalho torna-se presente a engendrar novos modos de ser trabalhador, onde as exigências demandam cada vez mais qualificações, diante um cenário que não dá garantias na realização do projeto de futuro.
Nesta perspectiva, Pais (1993, p. 319) afirma que as transformações no mundo do trabalho
[...] criaram um novo mercado de trabalho que, cada vez mais, exclui jovens não diplomados ou profissionalmente não formados. Os itinerários de passagem para a vida ativa são cada vez mais marcados por períodos de desemprego, emprego itinerante e inatividade. Os jovens detentores de maior capital escolar não deixam também de ser afetados pelas dificuldades de inserção profissional, embora beneficiem-se de modos de inserção comparativamente privilegiados. À medida que o nível de formação escolar aumenta, as dificuldades de inserção profissional traduzem-se mais na dificuldade de obtenção de emprego do que na sua conservação.
Neste sentido, Pais (2001) reflete sobre as estruturas sociais cada vez mais fluídas e modeladas em função dos indivíduos e seus desejos. Os jovens contemporâneos sentem suas vidas marcadas por crescentes inconstâncias, flutuações, descontinuidades, reversibilidades, movimentos autênticos de vaivém, isto é, trajetórias ioiô. Diante este cenário, os jovens tendem a relativizar a vida laboral, desde o valor dos diplomas até a segurança de emprego. Os diplomas são cada vez mais vistos como “cheques carecas” sem cobertura no “mercado de trabalho”. Mercado de trabalho, também sujeito a grandes inconstâncias, a “voltas e mais voltas”, a flexibilizações, segmentações e turn overs”. (PAIS, 2001, p. 59)
A preparação dos jovens trabalhadores a partir dos estudos escolares no ensino médio torna-se salutar, ao possibilitar o equilíbrio entre a formação educacional e a iniciação às experiências de trabalho. Estes visam suprir as lacunas que culminam no desemprego de adultos jovens, dentre eles, a falta de experiência e qualificação profissional (MATSUZAKI, 2011).
A inserção no mercado de trabalho para o jovem representa tradicionalmente seu reconhecimento enquanto cidadão participante do mundo produtivo no qual está inserido, sendo então, considerado sujeito social. Tal entrada tem ocorrido cada vez mais precocemente entre aqueles pertencentes às famílias menos abastadas com o intuito de contribuir na renda familiar e alcançar uma oportunidade de ascensão social.