1 Introduction
1.4 Data limitations
A jovem vizinha surgiu de repente e, sem embaraço, iniciou a conversa com o desconhecido. Sozinho, ele tomava cerveja na calçada. Aparentava o dobro da idade menina. Delicadamente, convidou-a a compartilhar da bebida. Com delicadeza, ela recusou, mas não era por reprovação que não aceitava, é que preferia o cigarro, tragado com volúpia, um após outro. Os cigarros saiam do maço carregado no cós da saia longa, estampada, estilo hippie. O sol escaldante da metade da tarde refletira seus cabelos claros e obrigavam a avaliar se a moça, com a frescura dos 20 anos, era feia ou bonita. Nem uma coisa nem outra. Era simpática, agradável. Algo na figura esquálida da moça tornava-a atraente. Algum motivo havia, naquele instante ao menos, que a tornava destaque. E sua fala fluía rápida, inocente, surpresa por encontrar um homem, ali, naquele local ermo, a prestar-lhe ouvidos atenciosos. Ela experimentara muitas coisas, namorou diversas crenças e muitas formas de expressar sua fome obsessiva de fé. Seu discurso ganhava um ritmo fascinante, o tom era proselitista. Ela praticou Yoga e meditação, frequentou tendas espíritas, umbandistas, manipulou cristais e conhecia astrologia. O cristo não foi lembrado, mas ele estava lá, de alguma forma, o tempo todo. Os santos e anjos também. Era um vale-tudo espiritual. Práticas religiosas antagônicas misturadas sem conflito, um caleidoscópio mais amplo do que a mestiçagem religiosa dos negros brasileiros, que camuflaram orixás sob santos católicos para permanecerem na fé, ludibriando a opressão. O interlocutor falava pouco, por cálculo, apenas o suficiente para alimentá-la do desejo de falar tudo o que já havia descoberto, em tenra idade. Não havia reprovação às preferências da garota, cujas verdades eram intensas, superficiais e a credenciavam a avaliar-se diferente, portar-se, falar e vestir-se diferente do vulgar na cidade. A conversa prolongou-se; a cerveja despretensiosa, do hábito de descer do apartamento para respirar, multiplicou-se; o maço de cigarros também. Mas ela não se sentou, nem por um instante. Uma energia incansável sustentava as
pernas finas da moça. Não era por falta de confiança no desconhecido, a quem pediu um novo maço de cigarros. Parecia ter algo de urgente a fazer, e sentar-se a distanciaria mais do objetivo. Eros, sorrateiro, sussurrava à medida da chegada do crepúsculo. Ela pareceu feliz. O homem sondava os significados da vida daquele ser, mais do que ansiava por um fortuito proveito dos afetos e da carne. E como começou, abrupto, terminou. Foi-se a menina, acompanhada da fumaça. Despedira-se com dois beijos ternos. A noite chegou, e antes que outra escuridão banhasse a cidade, um corpo jovem precipita-se de um prédio luxuoso, ali perto, de uma altura inescapável.
Em modalidades como o enforcamento ou sufocamento (X70), por vergonha, por constrangimento, a família consegue esconder dos vizinhos e da cidade, mas o salto para a morte chama a atenção.
Embora a mídia tradicional restrinja a cobertura dos casos, os portais e blogs na Internet publicam fotos de corpos estraçalhados no asfalto, instantes após a queda de edifícios.
Em 2009, em intervalo inferior a duas semanas, duas jovens precipitaram-se de prédios luxuosos nas proximidades dos shoppings da cidade. Graças às tecnologias presentes nos aparelhos celulares, seus corpos foram parar, em tempo real, nas páginas de um blog. E as fotos foram reproduzidas em dezenas de páginas do Facebook, à disposição de indivíduos ávidos por matar a curiosidade. Milhares de acessos, centenas de comentários.
Antes dos prédios, as pontes eram os locais escolhidos para a precipitação mortal. Teresina é uma cidade banhada por dois rios. O Parnaíba, que separa Teresina do estado do Maranhão, e o Poti, que corta a cidade de sul a norte, até encontrar-se com o Parnaíba e formar o belo Encontro das Águas. Sobre os dois rios, dez pontes, vez por outra utilizadas para suicídios.
O método é clássico no mundo todo. Na Golden Gate Bridge, uma das sete maravilhas do mundo moderno, na Califórnia, Estados Unidos, estima-se o suicídio de mais de 1500 pessoas (BLAUSTEIN; FLEMING, 2009).
Em Teresina, após a verticalização imobiliária, as pontes estão sendo trocadas pelos edifícios. Os mais escolhidos ficam na área mais cara, nas redondezas dos shoppings, zona leste da cidade. Os edifícios do centro da cidade também são utilizados. Em 17 de fevereiro de 2011, um policial civil de 28 anos e um advogado de 32 saltaram de prédios no centro, no horário comercial. O rebuliço criado por ambulâncias, corpo de bombeiros, policiais, transeuntes, jornalistas não permite que a precipitação de edifícios fique oculta. O acontecimento é horripilante. Por
alguns dias, mobiliza atenções para o grave problema de saúde pública de uma cidade que não quer discutir, nem admitir, suas tragédias.
A Lesão Autoprovocada Intencionalmente Por Precipitação de um Lugar Elevado, classificação X80 da CID 10, não é a modalidade mais frequente nos atos suicidas em Teresina, mas é a mais espetacular. Das 25 formas catalogadas pela CID 10, X60 a X84, capazes de levar ao suicídio, a X80 ocupa a 6ª posição entre as modalidades escolhidas pelos suicidas na cidade.
As mulheres mais que os homens utilizam a precipitação de lugar elevado para o ato suicida. Foram treze casos na década contra três de homens. Para as mulheres, encontra-se o X-80 na quinta posição entre os métodos escolhidos, e ocupa a 12ª na estatística masculina.
De 2001 a 2010 foram 16 casos registrados, o que corresponde a 2,85% dos 562 suicídios consumados na década. Ainda assim esses eventos repercutem mais.
Homens cometem mais suicídios que mulheres, em quase todo o mundo, com exceção da China e da Índia (XINRAN, 2007). A aviltante condição social em que vivem as mulheres nos dois países deve explicar a anomalia. Na Europa do século 19, Durkheim percebeu o padrão nas estatísticas. Os homens sempre superaram as mulheres nos suicídios consumados (DURKHEIM, 2011). Paradoxalmente, as mulheres fazem mais tentativas. Alguns autores (BERTOLDI et al., 2004) acreditam que o suicídio é um fenômeno marcado pelas diferenças de gênero da sociedade. Historicamente condicionados pela uso da força para subjugar a mulher, os homens seriam mais efetivos no ato suicida, porque utilizam os métodos violentos que lhes são peculiares.
A regularidade histórica se reproduz em Teresina. Na primeira década deste século, 69% dos casos correspondem aos suicídios masculinos e 31% às mulheres. Como mostra o gráfico a seguir:
Gráfico 7 - Óbitos por lesões autoprovocadas voluntariamente Grande Grupo CID10: X60-X84
Município: Teresina - Sexo: masculino e feminino – 2001-2010
Fonte: Ministério da Saúde/SVS - Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM
As pesquisas não avançaram o suficiente para demonstrar porque as mulheres tentam mais e se matam menos. O debate sobre as diferenças de gênero, relações de poder, fraqueza feminina ou força masculina, crise do masculino na sociedade contemporânea são hipóteses ainda não confrontadas com dados, com o devido rigor (MENEGHEL et al., 2004)
Não está longe o tempo em que a mortalidade por agravos cardíacos, problemas com álcool, acidentes vascular cerebral eram prevalentes no sexo masculino, e em poucos anos essa realidade se alterou. Em 1970, a proporção era de dez homens para uma mulher; hoje as doenças coronarianas matam homens e mulheres na razão de 2,25:1 (AMERICAN HEART ASSOCIATION, 2013). A variação das taxas de suicídio, no mundo, sugere que em breve esses números também se nivelarão, refutando hipóteses sobre diferenças de gênero ou determinações genéticas. Homens e mulheres correm risco semelhante, quando se trata dessa modalidade de morte violenta. Em Teresina, o número de suicídios masculinos supera o de mulheres em 2,2 vezes.
homens
387
69%
mulheres
175
31%
Tabela 7 - Óbitos por causas externas
Lesões autoprovocadas voluntariamente - Grande Grupo CID10: X60-X84 Município: Teresina - Sexo: masculino e feminino
Ano Homens Mulheres
2001 31 16 2002 40 17 2003 34 15 2004 47 25 2005 26 16 2006 34 14 2007 42 15 2008 49 28 2009 42 16 2010 42 13 Total 387 175
Fonte: Ministério da Saúde/SVS - Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM
As hipóteses que sugerem que as mulheres são mais frágeis, possuem menor determinação ou usam métodos menos agressivos são questionáveis.
As estatísticas dos serviços de saúde indicam que a mulher procura mais ajuda médica. O homem reluta e costuma buscar ajuda apenas nos quadros graves de doença. Em consequência, problemas de saúde são mais diagnosticados em mulheres. Se elas manifestam ideação suicida, é possível que passem a ser mais vigiadas, tenham menos liberdade para cometer o ato, e o socorro chegue antes que se consuma o óbito, ao ser feita tentativa não imediatamente letal.
As mulheres utilizam menos as armas de fogo em virtude da restrição do acesso. As armas de fogo são ferramentas de trabalho de militares e, em diversos países, é vedado às mulheres o alistamento nas academias militares. É provável que elas fizessem uso da arma de fogo, na mesma proporção dos homens, se possuíssem acesso equivalente.
O método para cometer suicídio é escolhido pela facilidade de acesso e garantia de que o ato será consumado. Para a maioria das mulheres, armas de fogo ficam fora dos seus domínios. Sobram-lhes remédios e venenos de uso doméstico.
Da mesma forma que os homens procuram pouco os cuidados médicos, eles também têm menos confiança na eficácia dos medicamentos. A automedicação é prática mais habitual entre as mulheres. A intoxicação por medicamentos ou envenenamento ocorre entre as mulheres com uma prevalência de 72,9%, de acordo com a pesquisa sobre a utilização de medicamentos por adultos (BERTOLDI et al., 2004).
Cada gênero utiliza o método que lhe está disponível. As mulheres encarregadas dos cuidados domésticos desenvolvem domínio sobre venenos que eliminam pragas do lar como ratos, formigas, baratas. Nos homicídios passionais é mais comum que o homem seja vítima da mulher quando o recurso usado é o envenenamento. Os homens usam recursos como arma de fogo, arma branca, espancamento. Nos suicídios, a lógica é idêntica.
As mulheres possuem menos força nas mãos que os homens. Considerada a população normal, sem treinamento atlético, avaliações da força de preensão manual (FPM), feitas com dinamômetro, mostram que as forças de pinça no sexo masculino são em média 30% mais fortes que no sexo feminino (ARAÚJO et al., 2002).
Conscientes da desvantagem no quesito força muscular, as mulheres são impelidas a usar recursos sutis e camuflados. A atitude é racional, ocorre em homicídios e nos crimes de diversas modalidades. Se as mulheres usam recursos elaborados para cometer homicídio, é presumível que usem recursos semelhantes em suicídios.
No quesito raça/cor, chama a atenção os negros serem as maiores vítimas do suicídio em Teresina. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) começou a adotar a categoria cor/raça,
oficialmente, a partir de 1991. O Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) pesquisou a desigualdade social e usou pela primeira vez a categoria cor no ano 2000 (OSÓRIO, 2003). Os dados são coletados através de autodeclaração e são consideradas cores o preto, pardo, branco, amarelo e índio. A medida pôs fim à esdrúxula aquarela coletada pela Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios de 1976 (PNAD/76), que identificou 115 cores de brasileiros, do marrom bombom, passando pela cor-de-burro-quando-foge, até o branco.
Tornou-se praxe nesses dois institutos de pesquisa agrupar pretos e pardos em única categoria, os NEGROS. A medida não obteve consenso na comunidade científica brasileira, mas está se consolidando .
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Tabela 8 - Óbitos por lesões autoprovocadas voluntariamente - Grande Grupo CID10: X60-X84 Cor/raça: preta, parda, branca.
Município: Teresina - Período: 2001-2010
Cor Total de óbitos
Parda 376
Branca 106
Preta 48
Fonte: Ministério da Saúde/SVS - Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM
O dilema racial brasileiro apresenta uma complexidade que não deverá ver resolução teórica com brevidade. O futuro dos debates talvez aponte caminhos para o tratamento epistemológico dessa problemática social. Entre os brasileiros o conceito de raça está mais para posicionamentos políticos do que para definições genéticas, e é marcado por imprecisões e contendas intelectuais que tornam a discussão inconclusa (IANNI, 2004).
Em Teresina, separadas as categorias, pretos responderão por 9% dos suicídios, pardos por 71%, e brancos ficam com 20%. Se a prática do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) e Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) for adotada,
NEGROS atingirão a marca dos 80% dos suicídios na primeira década do século 21.
Gráfico 8 - Óbitos por lesões autoprovocadas voluntariamente - Grande Grupo CID10: X60-X84 - Cor/raça: preta, parda, branca.
Município: Teresina. Período: 2001-2010.
Fonte: Ministério da Saúde/SVS - Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM
Precisaríamos investigar melhor se existe correlação entre raça/cor, condição econômica e vulnerabilidade ao suicídio. O Censo 2010 revela que o rendimento mensal total nominal da população branca de Teresina é de R$ 1.789,00 e da população preta só chega a R$ 791,00. Não fica excluída a possibilidade de negros não pobres se suicidarem.
A complexidade do espectro racial brasileiro ultrapassa os problemas epistemológicos e atinge os discursos da sociedade. O ex- governador do Piauí Francisco Moraes Sousa, o “Mão Santa”, exerceu dois mandatos, foi cassado no segundo por corrupção, proferiu em discurso, no aniversário do Piauí, que o estado não tinha negros. O pronunciamento causou protestos dos movimentos negros e reverberações em diversos setores da sociedade, algumas em acordo, outras de indignação.
branca
20%
parda
71%
preta
9%
Seria arriscado, no estágio atual da discussão, elaborar juízos sobre o suicídio com critérios de raça/cor, mas pesquisas futuras não podem desprezar o dado que aponta 80% de negros como vítimas preferenciais de suicídio.
A faixa etária que concentra o maior número de vítimas encontra - se entre os 15 e os 44 anos; os indivíduos nessa faixa fazem parte do que as pesquisas oficiais brasileiras chamam de População Economicamente Ativa, composta por pessoas de 10 a 65 anos. A tabela a seguir mostra a distribuição dos suicídios nas faixas etárias definidas pela Organização Pan-americana de Saúde-OPAS:
Tabela 9 - Óbitos por causas externas - Grande Grupo CID10: X60- X84 -Lesões autoprovocadas voluntariamente - Faixa Etária OPAS:
5-75 anos e mais Município: Teresina Período 2001-1010
Faixa etária Óbitos
5-14 08 15-24 172 25-34 131 35-44 108 45-54 64 55-64 43 65-74 27 75 e mais 09
Fonte: Ministério da Saúde/SVS - Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM
Nota-se que as ocorrências de óbitos entre idosos com mais de 75 anos quase se equivale à faixa entre 5-14 anos. Nessa última, as ocorrências são tradicionalmente baixas, enquanto o número de suicídios de idosos vem crescendo, no mundo todo. Os fatores seguintes podem estar relacionados a incidência fraca de suicídios nessa camada da população teresinense. Ela corresponde a apenas 0,33% da população total; a incidência de fatores de morbidade incapacitante como diabetes, hipertensão arterial, acidente vascular cerebral, doenças coronarianas comprometem a exequibilidade de atos extremos como o
suicídio; as condições de saúde e saneamento são agravadas pelo coeficiente de analfabetismo em Teresina que atinge 31,4% das pessoas com mais de 60 anos, do número total de pessoas que não sabem ler nem escrever acima de 15 anos (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2012). O analfabeto na sociedade da escrita fica sem poderes para reivindicar, ou sequer buscar, atendimento à saúde, o que o conduz à maior procura por tratamentos alternativos. Todos esses fatores resultam em uma esperança de vida do teresinense limitada a 69,06 anos, com saúde de qualidade débil.
Gráfico 9 - Óbitos por lesões autoprovocadas voluntariamente - Grande Grupo CID10: X60-X84 -Faixa Etária OPAS: 5-75 anos e
mais. Município: Teresina - Período: 2001-2010
Fonte: Ministério da Saúde/SVS - Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM
Não houve registro de suicídio de crianças de 0 e 5 anos, entre 2001 e 2010, em Teresina. As estatísticas globais são baixas nessa faixa
8
172
131
108
64
43
27
9
5-14 15-24 25-34 35-44 45-54 55-64 65-74 75emaisetária e as respostas para o fenômeno são superficiais. Parece natural que a criança não cometa suicídio. As pesquisas precisam enfrentar esse caso sem pudor, para que seja avaliado com maior precisão se crianças nessa faixa estão mais protegidas do suicídio por incapacidade de cometerem o ato, ou se elementos psíquicos estão envolvidos. Nas análises do psicólogo infantil Bruno Bettelheim, que cometeu suicídio em 1990, aos 86 anos, o psiquismo infantil é organizado para viver o presente, sua configuração se faz pelo lúdico e pela fantasia. Na obra A psicanálise dos contos de fadas, Bettelheim desenvolveu a tese de que as histórias folclóricas são necessárias para estruturação psíquica das crianças, para solucionar conflitos internos, para fornecer esperança de um futuro seguro e feliz. Os contos estariam em conformidade com princípios subjacentes do pensamento da criança, porque eles são construídos com a linguagem da fantasia, tematizam dramas universais, a morte, a rivalidade fraterna, o amor, o ciúme, e organizam os sentimentos ambivalentes das crianças em relação aos pais (BETTELHEIM, 2004).
Um mundo com mais fantasia poderia ser um antídoto para enfrentar a realidade fria e racionalizada dos dias atuais?
Desde Durkheim o estado civil era considerada condição importante na análise dos suicídios. Torquato Neto, poeta, compositor, cineasta, escritor, componente do movimento tropicalista, ligou o gás do banheiro e pôs fim à sua conturbada vida em 1972. O teresinense, com 28 anos, sofria com o abuso de álcool, depressão e com a ditadura militar no período de maior opressão, quando o País era comandado pelo general Médici. Os textos de Torquato revelavam sua angústia com o regime (ALVES, 2011). Sua biografia é recheada de atribulados casos amorosos. Atribui-se ao rompimento de um enlace amoroso uma das várias tentativas de suicídio (VAZ, 2005).
Talvez nunca descubramos a causa do suicídio de Torquato. Se resultou de uma crise amorosa, da conjuntura política, da depressão, do abuso de álcool e LSD, ou de tudo isso junto. O certo é que as pesquisas
sobre o suicídio perscrutam as relações afetivas ou estado civil das vítimas desde as publicações de Marx e Durkheim sobre o tema no século 19.
O Manual de prevenção do suicídio para médicos clínicos gerais da Organização Mundial de Saúde sugere que cônjuge, filhos e companhia funcionam como proteção:
Pessoas solteiras, viúvas ou divorciadas est ão em maior risco para suicídio. O casamento parece ser protetor para o sexo masculino em termos de risco de suicídio, mas não tão significativamente para as mulheres. Separação e morar sozinho aumentam o risco de suicídio (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2000a).
O gráfico a seguir relativiza essa afirmação, no caso de Teresina, na primeira década do século 21. A capital segue o padrão mundial com números revelando que solteiros são mais vulneráveis, mas o casamento não garante proteção. No mapa da cidade, vítimas casadas superam em mais de 11 vezes os óbitos de separados e viúvos.
Gráfico 10- Óbitos por lesões autoprovocadas voluntariamente - Grande Grupo CID10: X60-X84 - estado civil: casado, separado,
solteiro, viúvo -Município: Teresina - Período: 2001-2010 – Números absolutos.
Fonte: Ministério da Saúde/SVS - Sistema de Informações sobre Mortalidade
315
198
17
16
Torquato Neto casou com Ana Maria, em 1967, e geraram Thiago. No ano seguinte ao casamento, Torquato fez a primeira tentativa de suicídio, ao ingerir todo o conteúdo de um frasco de valium (ALVES, 2011, p. 105). O caso não possui valor estatístico para demonstrar que a família não é antídoto para o suicídio, mas é emblemático em Teresina. Torquato tornou-se figura notória. Intelectuais e jovens estudantes universitários, que possuem poder para difundir ideias, eternizam o poeta e letrista. Seu nome batiza salas, ruas, auditório, conjuntos residenciais e o principal campus da Universidade Estadual do Piauí. No pátio desse campus, estudantes celebram a produção cultural de Torquato, e usam sem moderação a mesma substância que minou a curta existência do poeta.
Em correspondências, Torquato admitiu fragilidade que o acometiam o álcool, a própria esposa e a repressão política, até escrever “pra mim chega”, em 1972.
O texto da Organização Mundial de Saúde destinado a conselheiros (2006, p. 8) afirma que “um fator de risco adicional para o suicídio de adolescentes é o suicídio de figuras proeminentes”. A afirmação precisaria de fundamento que as ciências humanas ainda não são capazes de fornecer. Teríamos que encontrar o mecanismo para aferir se a escolha de um suicida como ídolo pode engendrar uma onda de outras mortes autoinflingidas em uma cidade.