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The thematic areas and disciplines involved

2 The landscape of Norwegian development research

2.3 The thematic areas and disciplines involved

Foi tardio o reconhecimento do suicídio como grave problema de saúde pública. Iniciativas de políticas de prevenção são recentes no Brasil e no mundo. As Diretrizes da Organização Mundial de Saúde para a prevenção do suicídio só foram publicadas em 2004.

A preocupação surge no século 21, mas a gravidade da situação se manifestava desde a metade do século passado. As taxas de suicídio no mundo aumentaram 60% nos últimos 50 anos. O aumento foi acentuado nos países em desenvolvimento. Cerca de 60% dos suicídios ocorrem na Ásia, China, Índia e Japão, devido às suas grandes populações (AJDACIC-GROSS et al., 2008a).

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 1 milhão de pessoas cometem suicídio anualmente. A estatística corresponde a 1 morte a cada 40 segundos, aproximadamente. O suicídio está entre as três principais causas de morte na faixa de 15-44 anos, em alguns países. É a segunda causa de morte na faixa de 10-24 anos. Os números de tentativas superam os suicídios consumados 10 a 20 vezes mais. Em 2020, se nada for feito, a previsão é de que um milhão e meio de pessoas cometerão suicídio por ano no mundo (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2014).

É difícil entender porque as políticas preventivas são embrionárias frente à velocidade do crescimento das taxas de suicídio.

A Organização Mundial da Saúde transfere a responsabilidade para os países. Segundo a OMS, a prevenção do suicídio é ineficiente devido à falta de consciência de muitas sociedades que não veem o suicídio como grave problema. O tabu dificulta a discussão aberta do assunto e impede que a prevenção esteja entre as prioridades, na maioria dos países (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2014).

Como agência das Nações Unidas encarregada de organizar estatísticas relacionadas à saúde e promover ações de prevenção, a Organização Mundial de Saúde, como os governos dos países, também foi negligente. O programa Suicide Prevention (SUPRE) só foi criado em 1999.

O objetivo geral do SUPRE é reduzir a mortalidade e morbidade resultantes de comportamentos suicidas, quebrar o tabu em torno do tema, e reunir autoridades nacionais e a sociedade para superar desafios de forma integrada.

O programa começa por discutir a necessidade de capacitar profissionais da atenção primária à saúde para auxiliar na detecção de fatores de risco para suicídio. Depois, passa a organizar simpósios internacionais com o objetivo de pensar e planejar ações.

A Áustria sediou, em 2004, evento que reuniu 15 estudiosos do tema para discutir estratégias de prevenção. Foram identificadas cinco áreas de intervenções preventivas: 1) programas educacionais e de conscientização para o público em geral e para profissionais; 2) identificação dos possíveis métodos de tentativas; 3) tratamento das desordens mentais; 4) restrição ao acesso a meios letais; 5) enfoque das reportagens que aparecem na mídia sobre suicídio.

No Brasil, a análise epidemiológica feita em parceria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Columbia University, de New York, detectou crescimento de 29,5% dos índices brasileiros de suicídios, entre 1980 e 2006. Os maiores aumentos ocorreram na faixa de 20 a 59 anos; nível educacional baixo e estado civil solteiro compõem as principais características sociodemográficas; os métodos mais

usados, enforcamento, arma de fogo, envenenamento, conferem com o padrão internacional (LOVISI et al., 2009).

Em 2002, José Manoel Bertolote, da Universidade Estadual Paulista/UNESP, da unidade de Botucatu, no interior do estado de São Paulo, dirigiu uma pesquisa sobre o tema que resultou em um programa de prevenção ao suicídio (BERTOLOTE et al., 2005). Com apoio da Organização Mundial de Saúde, os pesquisadores buscaram os fatores que contribuem para prevenção do suicídio. O objetivo era traçar estratégias de políticas públicas para reforçar os fatores protetores e reduzir os fatores de risco.

Como proposta de Estado, a política de prevenção ao suicídio foi publicada em 2006, na Portaria GM nº 1.876 do Ministério da Saúde. A Estratégia Nacional para Prevenção do Suicídio propõe-se a reduzir taxas de suicídios e tentativas (PIACHESKI DE ABREU et al., 2010).

Para elaborar o Plano Nacional de Prevenção do Suicídio, um grupo de trabalho foi criado, em 2005, composto por representantes do governo, entidades da sociedade civil e universidades. O evento que lançou As Diretrizes Brasileiras para um Plano Nacional de Preven ção do Suicídio ocorreu na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. A cidade foi escolhida por estar sempre no topo do ranking de suicídios entre capitais do Brasil (BOTEGA, 2007).

Os números do suicídio continuaram em ascensão após o lançamento do Plano Nacional de Prevenção do Suicídio. Ainda não foi feita avaliação para identificar causas da falta de efetividade do programa, mas há evidências de que medidas concretas não foram adotadas. As estratégias permaneceram nos discursos de congressos, simpósios e na legislação. As ações de prevenção ao suicídio do Ministério da Saúde do Brasil e da Organização Mundial de Saúde vão se mostrando ineficazes.

A Organização Mundial de Saúde iniciou, em 2002, o Estudo de Intervenção sobre o Comportamento Suicida em Múltiplos Locais, o

Supre-Miss. Nove cidades de países diferentes participaram. No Brasil, Campinas, em São Paulo, foi escolhida para o projeto. O objetivo era avaliar a intervenção breve na redução de novas tentativas de suicídio.

Há razões para a ineficácia dos programas de prevenção do suicídio no Brasil. A imaturidade do comprometimento da universidade é provavelmente uma delas. Estamos há apenas uma década do surgimento da preocupação com a problemática.

A UNICAMP, através do professor Botega, e a UNESP, de Botucatu, com o professor Bertolote, assumiram o pioneirismo na análise do tema, sobre o qual poucos pesquisadores se interessam.

O Laboratório de Saúde Mental e Medicina (LSMM) da UNICAMP criou a linha de pesquisa Prevenção do suicídio. Após uma década, a produção resultou em um livro, 10 teses acadêmicas, 18 capítulos de livros, 28 artigos científicos em periódicos. A informação pode ser encontrada na página eletrônica do LSMM.

Já podemos entender o vácuo de literatura científica brasileira sobre suicídio. Se a universidade pioneira na discussão do assunto, mesmo com uma linha de pesquisa específica, apresenta uma produção quantitativamente limitada, o que poderemos esperar de outras universidades?

O Levantamento da produção científica brasileira sobre suicídio de 1996 a 2007, feito por pesquisadoras da FIOCRUZ, revelou o predomínio das ciências da saúde no estudo do tema:

Essas produções acadêmicas sobre o tema situavam-se, majoritariamente, nas seguintes áreas do conhecimento: saúde mental, enfermagem, farmácia, ciências sociais e letras (MORAES; OLIVEIRA, 2011, p. 17)

As autoras enfatizaram a pequena quantidade de autores encontrados e “a exiguidade de publicações sobre o tema”. O relatório apontou “406 autores que publicaram algo sobre o tema suicídio no país” (MORAES; OLIVEIRA, 2011, p. 18).

O predomínio das ciências médicas na pesquisa contribui para que os trabalhos apresentem, invariavelmente, uma perspectiva de intervenção clínica. A partir das pesquisas, surgiram as experiências de intervenção da UNICAMP e da UNESP de Botucatu. Os programas tornaram-se referência no Brasil e no exterior.

A hegemonia na pesquisa apresenta aspectos positivos e negativos. É interessante que haja uma unidade de ideias e de procedimentos que favoreçam a ambientação para a produção científica, mas há o risco de enrijecimento, padronização excessiva e incapacidade de elaborar conhecimento novo.

Bertolote e Botega, orientadores de quase todas as teses e dissertações sobre o tema, conseguiram produzir arcabouço sólido do pensamento sobre o tema a aperfeiçoaram a prática da condução da pesquisa. Mas isso tem um custo. O preço é pago nos trabalhos repetitivos, estéreis, insípidos.

Logo as ideias se transformam em premissas e o trabalho prossegue sem a crítica permanente que deve caracterizar o fazer científico Bertolote aceitou como premissa que a presença de doença mental e o abuso de álcool e outras drogas explicam mais de 90% dos suicídios (BERTOLOTE; MELLO-SANTOS; WANG, 2005). A Organização Mundial de Saúde publicou nove manuais de prevenção, voltados para diferentes categorias. Em todos, a informação dos mais de 90% está impressa.

Os estudos, tanto nos países desenvolvidos quanto nos países subdesenvolvidos, revelam uma prevalência total de transtornos mentais de 80 a 100% em casos de suicídios com êxito letal. Estima-se que o risco de suicídio ao longo da vida em pessoas com transtornos do humor (principalmente depressão) é de 6 a 15%; com alcoolismo, de 7 a 15%; e com esquizofrenia, de 4 a 10%. (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2000a, p. 4)

Bertolote era chefe da equipe de psiquiatras que elaborou o manual. Botega traduziu para o português. A informação se repete nos nove manuais dirigidos a médicos clínicos gerais, profissionais de mídia, professores, profissionais de saúde primária, agentes penitenciários, sobreviventes, conselheiros, trabalhadores, socorristas. É a baliza do atendimento e dos trabalhos de prevenção.

No Brasil, um manual similar foi produzido numa parceria entre UNICAMP, Ministério da Saúde e Organização Pan-Americana de Saúde. O texto é dirigido aos profissionais de saúde da atenção básica. Neury Botega e seus orientandos de pós-graduação elaboraram o material. A formulação dos 90% aparece, com poucas variações:

A compilação de vários estudos, realizada pela OMS, mostrou que em mais de 90% dos suicídios pode ser feito um diagnóstico de transtorno mental. Os quadros clínicos mais frequentes correspondem a depressão, transtorno afetivo bipolar, dependência de substâncias químicas, notadamente álcool (MINISTÉRIO DA SAÚDE DO BRASIL, 2006, p. 7).

A formulação surge no texto sem um caminho explicativo anterior. Como o manual se propõe a ser uma comunicação fácil e didática, é compreensível que os fundamentos das assertivas não sejam a tônica do trabalho. O texto é informativo, é para ser entendido e aceito.

O problema é que a mesma premissa é transcrita nos textos acadêmicos dos dois expoentes no estudo do suicídio no Brasil. E se espalha. Percorre a pesquisa brasileira do suicídio, e por onde vai não se faz acompanhar de fundamentos. Como nos manuais. E na tese de doutorado de Cais (2011) e na dissertação de mestrado de Lima (2010), ambos orientados por Botega.

Cais cita revisão de artigos publicados entre 1959 e 2001 feita por Bertolote e Fleischmann. Cais (2011) passa a sintetizar as descobertas da revisão:

15.629 casos de suicídio em indivíduos com idade acima de 10 anos foram avaliados quanto à presença de transtorno mental, seja por avaliação psiquiátrica ocorrida

antes do suicídio, ou pelo método da autópsia psicológica após o mesmo. O estudo mostrou que em 97% dos casos de suicídio caberia um diagnóstico de transtorno mental na ocasião do ato fatal. Estudos têm demonstrado que o diagnóstico e tratamento correto dos transtornos mentais são medidas fundamentais com vistas a se reduzir suicídio

No mérito, a formulação pode até ter validade, mas que seja por convencimento, não por aceitação tácita. É temeroso para o conhecimento que a revisão de literatura tome o lugar da pesquisa específica e passe a engendrar conclusões específicas.

Quando se trata de transtorno mental, a situação ganha mais complexidade. Se o diagnóstico não é fácil em pessoas vivas, quanto mais mortas. E se não é fácil nos dias atuais, imagine em 1959, por regressão.

A prosseguir a prática, descredencia-se a pesquisa brasileira do suicídio, com riscos para quem é alvo de propostas de prevenção de tal modo fundadas, ou infundadas.

O problema não se encontra na constituição do grupo de pesquisa de ciências médicas sobre o suicídio. O problema é a criação de barreiras que enclausuram o tema em conceitos fechados, e produzem pontos cegos da análise. Já é hora de religarmos as duas culturas, aquela que teria a incumbência de fazer as relações públicas entre os saberes, e acabou por fracassar, como lamenta Carvalho (2000):

A existência de uma terceira cultura formada pelas ciências da sociedade, que se incumbisse de manter boas relações tanto com cientistas quanto com literatos, deixou-se contaminar pelo estigma da separação. Com isso, o panteon do conhecimento redividiu-se de novo, constituído agora pelas ciências da natureza, pelas ciências da cultura e pelo imaginário presente nas artes, na literatura e na poesia. Incomunicáveis, essas três galáxias foram contaminadas pelo desenvolvimento fantástico da tecnociência, que selou de vez as mais variadas formas de dominação do homem sobre a natureza, impedindo que itinerários racional racional- lógico-dedutivos e mítico-imaginários se retroalimentassem mutuamente.

Precisamos romper com as práticas de separação dos saberes, se quisermos operar uma escuta melhorada dos problemas da vida e da morte. Se a atual hierarquia disciplina continuar operando nos projetos de prevenção, estaremos atacando apenas um aspecto do problema.

Projetos multidimensionais, que entendam o suicídio como resultado da interação dos fatores sociais e biológicos, que proponham reformas do sistema de saúde, de modo que os profissionais de saúde aprendam a lidar com problemas emocionais, mentais e sociais , só poderão ser elaborados com uma visão transdisciplinar.

4 CONCLUSÃO

O crescimento das taxas de suicídio em Teresina denunciam o grau de entropia da cidade, no contexto de um sociedade mundial em crise.

O suicídio é o mais eloquente sinal de que os rumos estão quase se perdendo de vez.

O problema precisa ser enfrentado de maneira especial, porqu e é urgente, porque pessoas morrem. E a maior parte dos suicidas pode ser salva.

As ações devem ser multifacetadas, não podem ficar a cargo apenas da área de saúde. O modelo biomédico acreditou ter encontrado o mecanismo de funcionamento do comportamento suicida na atuação dos neurotransmissores GABA (ácido gama amino-butírico), serotonina, noradrenalina e dopamina. Descobriu também que a ação de drogas terapêuticas pode colocar sob controle as emoções que levam às angústias, incluído o comportamento suicida. Mas vimos que esse saber restrito à bioquímica apresenta falhas, ignorâncias e perigos.

Os programas de prevenção pecam por enfatizar o hospital como centro de tratamento e o médico como dono do saber.

Pode parecer que não há esperança porque tudo conspira contra a mudança. As instituições da cidade perderam seu poder regulador, há desordem por todos os lados. Os prefeitos estão sendo cassados por corrupção, os juízes que deveriam julgar são condenados. A polícia não dá solução para os crimes que todos sabem quem foi o mandante. A juventude se entrega às drogas, os políticos são os mesmos há décadas.

Serão necessárias políticas específicas para a prevenção do suicídio e políticas generalizantes para melhorar a vida de todos. Mas precisamos começar.

Alguns setores são mais fechados e avessos à reforma. O Político é um deles. Os princípios democráticos são corrompidos a todo instante.

O menos praticado é a alternância de poder, que faz a política do lugar parecer com regimes totalitários.

A cidade está parada no tempo, na pobreza, no subdesenvolvimento e há vereadores com seis mandatos consecutivos . O atual prefeito já está no terceiro mandato, e antes já havia ocupado cargos de secretário do município por quase dez anos. É um economista, professor da Universidade Federal do Piauí, que está distante da sala há pelo menos vinte anos. Nem é professor, nem transforma a realidade da cidade.

Nas universidades, os intelectuais perderam força crítica, praticamos nossa profissão alheios à realidade fora dos muros .

Se o mundo vive a angústia das incertezas, da falta de garantia sobre o futuro, da convivência com a possibilidade de extinção da espécie humana, nos lugares à margem do projeto de mundialização, a vida é muito pior.

Lugares como Teresina experimentam as sobras do progresso do projeto modernizador, e não possui condições de acompanhar as exigências de um tempo que coloca o consumidor acima do cidadão.

O segredo para a metamorfose da cidade pode estar na lição que Lévi-Strauss nos revela do contato com o Japão. Em Teresina, talvez precisemos reaprender nossas tradições, a vida poética, usufruir da mundialização ocidental sem subsumir-se a ela.

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