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2 The Data Set

2.2 Data Description

Se a política externa de Sarney guardou inúmeros traços de continuidade do governo anterior, o tema da integração regional não foge a regra. “Desde o início do governo Figueiredo, as relações com a Argentina encaminharam-se em direção à fase integracionista, que os presidentes Raúl Alfonsín e Sarney iriam desencadear” (CERVO e BUENO, 2002, p.453). Assim, não é difícil imaginar que a relação Brasil / Argentina certamente ocupou um lugar central na política externa da segunda metade da década de 1980. Nas palavras de Mello (2000, p.53)

O espaço mais dinâmico da política externa do governo Sarney foi sem dúvida a estruturação do programa de integração com a Argentina, marcando efetivamente uma mudança de curso sem

47 O tema dos Direitos Humanos foi incluído no Parágrafo 4º, inciso II da Constituição Federal promulgada em 1988, como um dos princípios norteadores da ação internacional do Brasil.

precedentes na história das relações do Brasil com a América Latina, e com este vizinho em particular.

Destarte, em julho 1986 Sarney e Alfonsín assinam a Ata para a Integração Brasileiro- Argentina. Antes mesmo disso, já haviam assinado a Ata de Iguaçu (novembro de 1985), estabelecendo entre outras coisas: a criação de uma Comissão Mista de Alto Nível para a Cooperação e a Integração Econômica Bilateral; o compromisso de atuação conjunta em foros multilaterais, especialmente na América Latina; e a promoção da cooperação política e econômica, inclusive no campo nuclear.

Em abril de 1988, os mesmos Sarney e Alfonsín, agora acompanhados de Julio Sanguinetti (presidente uruguaio) assinam a “Decisão Tripartite n.1”, que inseria o Uruguai no processo de integração argentino-brasileiro. Meses adiante, em novembro 1988 na capital Buenos Aires, Sarney e Alfonsín dão continuidade ao Processo de Integração e Cooperação, assinando o Tratado de Integração e Cooperação Econômica entre Brasil e Argentina (que só entrou em vigor em agosto de 1989), consagrando a criação de um mercado comum entre os dois países e estabelecendo, em dez anos, a remoção de todos os obstáculos ao comércio de bem e serviços entre os mesmos. O Uruguai entraria no tratado assim que iniciasse as mudanças internas para adaptar o país às decisões já firmadas entre Brasil e Argentina, ao longo dos 23 protocolos assinados desde 1985.

Na esfera das formulações e idéias, tende-se a constatar um diálogo permanente entre o desenvolvimento do processo de integração regional e os três conceitos em destaque (autonomia, universalismo e não alinhamento). Assim, no que tange ao conceito de autonomia, conforme abordado anteriormente, o cenário doméstico, principalmente em função da crise da dívida que atinge o Brasil, de certo modo acabava limitando uma postura de caráter mais autônomo por parte do Itamaraty frente às questões internacionais.

Parece clara a diminuição da capacidade brasileira de influir sobre o mundo. Nesse contexto, uma maior aproximação da Argentina, do entorno geográfico e em especial, a

governo brasileiro como saída ao enfraquecimento da autonomia brasileira nos foros internacionais.

Exemplo claro dessa situação é encontrado em Pereira (2003, p.47) quando afirma que, ao voltar sua atenção prioritariamente a América Latina, Sarney buscava, entre outras coisas, uma postura de solidariedade e apoio na complexa questão da dívida externa com países devedores da região e frente as negociações com o FMI.

Ademais, considerando a lenta gestação paradigmática da postura da autonomia pela

participação em substituição à autonomia pela distância, imaginava-se que, a junção de posturas e pleitos no âmbito do Cone Sul e a defesa conjunta dos mesmos nos âmbito global oferecia maiores possibilidades de sucesso da estratégia da autonomia pela

participação.

Vale ressalvar que, tais reflexões são realizadas a partir do entendimento de que, nos últimos anos do Governo Sarney a postura diplomática brasileira dava apenas um passo inicial no que, ao raiar da década de 1990, viria a se constituir uma revisão paradigmática maior.

Caminhando com considerável proximidade à idéia de autonomia, o conceito de não- alinhamento possivelmente manifesta-se nas ações brasileiras voltadas à integração regional. A integração regional em si mesma, na medida em que figurava como uma estratégia diplomática independente, alheia aos norte-americanos, já pode ser relacionada ao ideal de não-alinhamento. Vale lembrar que, a relevância atribuída ao processo de integração regional no período pode ser notada pela inclusão do tema no

parágrafo único do artigo 4º da Constituição Federal, promulgada em 1988.

Art. 4º. A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: [...]

Parágrafo único. A República Federativa do Brasil buscará a

integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino- americana de nações (BRASIL, 2000).

Sugere-se que, os reflexos do conceito de não-alinhamento também podem ser notados ao se constatar o interesse brasileiro de, por meio da integração regional, criar um braço

autônomo de diálogo na região. Nas palavras de Pereira (2003, p.32) “A América Latina passava a criar canais autônomos de ação diplomática sem a participação ou tutela dos Estados Unidos”.

Em análise semelhante, Corrêa (1996, p.373), acredita que o governo Sarney inovou em matéria de política regional ao aceitar integrar (juntamente com Argentina, Peru e Uruguai) o Grupo de Apoio a Contadora48, trabalhando no processo de pacificação da América Central. “Criou-se pela primeira vez na América Latina um canal autônomo de ação diplomática, habilitando a discutir e influenciar políticas sobre as principais questões regionais sem a participação ou a tutela dos EUA”.

Com relação ao conceito de universalismo, conforme discutido anteriormente, a partir da segunda metade da década de 1980, paralelamente ao reforço da postura do Brasil como global trader, contata-se o que Ricupero (1996, p. 53-4) chama de “latino- americanização” da política externa brasileira.

Deste modo, depara-se com cenário em que, mesmo em meio a uma estratégia universalista, abre-se uma exceção, na medida em que as relações com a América Latina passam a ser gradualmente percebidas como prioritárias, preferenciais, sendo consideradas, ao menos no nível retórico, como fortalecedoras do diálogo brasileiro com o meio internacional.

Tem-se assim uma equação ainda em desenvolvimento em que o regionalismo não

diminui, mas reforça o universalismo.Tal fato representa uma inovação considerável,

uma releitura dentro da lógica da diplomacia universalista e se manifestará também ao longo da década de 1990.