• No results found

A manchete reportada na capa da edição de 14 de fevereiro de 2007 da Revista Veja, na página seguinte, traz algo que esteve presente também ao final do depoimento dos pais de João Hélio na Novela Páginas da Vida. Com a mão nos ombros da sua esposa, o pai do menino, olhando diretamente para a câmera, diz: ―eu queria saber quantos mais Joãos vão ser preciso ser sacrificados para que o País mude? Quantos? Quantos precisa? E aí, não vamos fazer nada diante de tanta violência?‖. Assim, como em outros acontecimentos de grande repercussão social, a morte não é apenas um ato individualizado, observado como resultado de um momento circunscrito no espaço e no tempo. Ela é a representação de algo mais. De algo que está além da excepcionalidade do acontecimento, reportando enunciador e interlocutor a problemas que organizam o acontecimento em uma conjuntura de problemas muito mais ampla e que desafia a sociedade, como um todo, a pensar em soluções para os problemas evidenciados pela morte.

Figura 19 - Capa da Revista Veja: Não vamos fazer nada?

Fonte: Disponível em: <http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/140207/capa.html>. Acesso em: 09 set. 2011.

A ideia de sacrifício foi explorada para dizer que a morte do menino, representada como calvário, não poderia representar apenas o sofrimento recorrente e presente na vida de outras famílias brasileiras. Era preciso que algo fosse feito para que todo o sofrimento experimentado por João Hélio, em sua morte calvário, não fosse experimentado por outras famílias. Era preciso da sociedade pronunciamentos e repostas a ações que colocavam em jogo sua legitimidade, institucionalidade e existência.

A ideia de sacrifício sem sentido também foi uma das tônicas da entrevista ao Fantástico, em que o pai ressaltou que eles queriam que ―a morte dele não ficasse em vão, que tudo que vem acontecendo servisse realmente para marcar uma fase de mudança no nosso país, que realmente houvesse essa mudança‖ (PAI e madrasta..., 2008). Para ele, coisas como as que aconteceram a João Hélio não poderiam voltar a acontecer, pois ―as pessoas não podem sofrer como a gente está

sofrendo. É muito duro, muito difícil‖.

A Revista Veja se apoiou nessa ideia para construir a matéria cuja capa é retratada no início desse tópico. Em matéria de Marcelo Bortoloti, o repórter chama atenção ao fato de o ―suplício público de um menino de 6 anos no Rio mostra que o Brasil está na sala de emergência de uma tragédia social em que o bandido decide

quem vive e quem morre‖ (BORTOLOTI, 2007). O conteúdo do texto produzido pelo repórter foi um dos mais intensos em detalhes que remetiam até mesmo à massa encefálica do garoto arrastado por sete quilômetros. Todo teor da violência sofrida é resgatado, assim como a ação do motoqueiro, agora evidenciada a partir do detalhe de que o mesmo, ao empreender perseguição, viu quando a cabeça do menino bateu na proteção da calçada e o sangue respingou em sua roupa. O discurso da Veja se constrói narrando a cena, em todos os seus detalhes, reproduzindo na manchete o terror do acontecimento e estendendo a imaginação dos seus leitores, que encontraram na matéria uma reprodução dramática do calvário vivida pelo menino.

Respaldado na leitura de que o País vive um drama social87, decorrente

não apenas do acontecimento, mas o acontecimento decorrente desse drama, o discurso da Revista reforça a visão de que a morte calvário do menino representa uma tragédia que pode ser sentida e traduzida pela dor compartilhada entre milhões de brasileiros. Ao falar do assalto, a Revista traz o depoimento de uma testemunha que afirma ter visto os assaltantes descerem do carro, vasculhar os pertences e depois abandonar o veículo. Essa construção discursiva da cena busca produzir no leitor maior perplexidade ao interpretar a morte calvário tratada pelos acusados como banalidade. Mesmo com críticas aos especialistas em estudos da violência, a Revista abriu espaço para uma discussão sobre o que poderia ser feito para conter a onda de violência que se abate sobre as cidades brasileiras. Em alguns dos

depoimentos, foram ouvidos os sociólogos Claúdio Beato88 e Ignácio Cano89.

87 A ideia de drama social é tratada aqui como conceito nativo, produzido pelo discurso midiático para

falar da força do acontecimento, dos seus efeitos e da sua repercussão. No entanto, é importante ressaltar que o antropólogo Victor Turner (1974) tratou desse conceito como categoria antropológica que remete a pensar sobre como a experiência irrompe no tempo e espaço liminares fundantes da experiência ao decompor estruturas culturais. No modelo de Turner, o drama social pode ser compreendido em quatro momentos: 1) ruptura; 2) crise e intensificação da crise; 3) ação reparadora; 4) desfecho.

88 Conforme autodescrição disponível em seu Currículo Lattes, Claúdio Beato é ―Professor titular do

Departamento de Sociologia da UFMG. Possui graduação em pela Universidade Federal de Minas Gerais (1982), mestrado em pela Sociedade Brasileira de Instrução - SBI/IUPERJ (1986) e doutorado pela Sociedade Brasileira de Instrução - SBI/IUPERJ (1992). Atualmente é Coordenador do CRISP - Centro de Estudos em Criminalidade e Segurança Pública, e professor associado da Universidade Federal de Minas Gerais. Recebeu a Comenda do Mérito Científico Nacional, concedido pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Foi Visiting Scholar no David Rockfeller Center for Latin American Studies, da Universidade de Harvard e do Centre of Brazilian Studies, da Oxford University. Membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social de Minas Gerais. Tem atuado principalmente nos seguintes temas: criminalidade e violência, seguranca publica, políticas públicas de segurnaça, estatísticas criminalidade e policia e análise urbana de crimes. É consultor em diversos estados brasileiros e países da América Latina para o desenvolvimento de programas e projetos de controle e prevenção da violência. Também atuou com o Banco Mundial, Banco Interamericano de

Criar uma rede multidisciplinar de assistência para jovens que começam a se envolver com a criminalidade, praticando pequenos atos de vandalismo ou participando de brigas de rua, por exemplo. "Nenhum jovem vira assassino da noite para o dia", afirma o sociólogo Cláudio Beato. "Uma rede de professores, psicólogos e assistentes sociais treinados pode atuar nas escolas e comunidades, dando suporte e orientação ao jovem ainda nessa etapa do processo", diz.

Priorizar o policiamento comunitário. "O policial comunitário ganha a confiança dos moradores, é mais bem informado sobre a criminalidade no bairro e, portanto, consegue agir com mais eficácia", afirma o sociólogo Beato. No bairro Jardim Ângela, considerado uma das regiões mais violentas de São Paulo, a adoção da medida ajudou a reduzir o número de homicídios em 57% entre 2001 e 2005.

Criar varas especiais que possibilitem o julgamento mais ágil de policiais acusados de corrupção e outros crimes: "Um agente suspeito que permanece trabalhando, enquanto aguarda julgamento por um longo período, contribui para aumentar a sensação de impunidade e afastar a polícia da sociedade", afirma Ignácio Cano, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (BORTOLOTI, 2007).

Conforme é possível observar, os sociólogos problematizam a questão evidenciando que ações para controle do crime e da violência na verdade perpassam medidas de curto, médio e longo prazo. O sociólogo Cláudio Beato ainda ressalta que os problemas de segurança pública requerem ações urgentes e esse ponto do seu discurso foi ressaltado ao final das considerações dos especialistas. Apesar das problematizações expostas por Beato e Cano, a reportagem encerra-se

com a seguinte previsão: ―que se faça o que tem de ser feito já para conter a

hemorragia social provocada pelo crime. Ou, em breve, estaremos chorando outro João Hélio‖ (BORTOLOTI, 2007). Os problemas de segurança pública, como os discutidos por Beato e Cano, foram uma constante ao se buscar refletir sobre o acontecimento, principalmente os referentes aos assaltos que, por sua recorrência, não permitiam que se pudesse esperar do Estado apenas medidas de longo prazo.

Como destacou a Revista, era preciso agir com urgência para conter a onda de violência. Diante dessas problematizações, assim como após a morte de Tim Lopes, o Estado estava diante do desafio de oferecer respostas eficientes e

Desenvolvimento e UNODC das Nações Unidas‖. Disponível em: <http://buscatextual.cnpq.br/ buscatextual/visualizacv.do?id=E80035>. Acesso em 18 jan. 2012.

89

Ignácio Cano ―possui graduação em Sociologia - Universidad Complutense de Madrid (1985) e doutorado em Sociologia - Universidad Complutense de Madrid (1991). Atualmente é professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Psicologia Social e Sociologia, com ênfase em Outras Sociologias Específicas, atuando principalmente nos seguintes temas: metodologia de pesquisa, políticas públicas, educação, direitos humanos, violência e segurança pública‖. Disponível em: <http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?metodo= apresentar&id=K4769729T8>. Acesso em 18 jan. 2012.

imediatas para a sociedade. Isto envolvia, sobretudo, mexer com questões estruturais para a promoção da segurança pública e do bem estar coletivo. Também como no caso Tim Lopes, logo após a morte calvário de João Hélio, a imprensa ilustrou a necessidade urgente da Polícia ―colocar as mãos nos bandidos‖.

A primeira atitude das agências de segurança pública, em prol da prisão dos suspeitos, conforme visualizado em reportagem publicada no dia 08 de Fevereiro de 2007, no Portal G1, foi a mobilização de três delegacias e do 9º Batalhão da PM, ―onde 30 soldados decidiram se manter em serviço até capturar os criminosos‖ (GRANCHI; MENDONÇA, 2007). A matéria ressalta, ainda, que foi uma denúncia anônima que levou à prisão dos dois primeiros suspeitos, Diego, um jovem de 18 anos de idade, E., de 17 anos - reportado apenas pela letra E nas reportagens por ser menor de idade. O episódio também ficou marcado pela iniciativa da Secretária de Segurança Pública do Rio em oferecer uma recompensa de R$ 4.000,00 para informações que pudessem levar ao paradeiro dos suspeitos. Ao serem presos os dois primeiros suspeitos, as reportagens enfocaram o comportamento deles após o crime, conforme relatado pelo próprio pai de Diego.

Suspeitos

Na fuga, antes de ir para o morro São José da Pedra, em Madureira - onde os suspeitos foram presos-, a dupla atirou documentos de Rosa e das crianças em um galpão abandonado. Um dos presos, Diego Nascimento Silva, 18, ainda passou em casa depois do crime, tomou banho, trocou de roupa, bebeu água e foi embora. E, segundo os policiais, os dois ainda participaram de uma festa.

O pai de Diego afirmou que o filho não trabalhava e tinha comportamento rude. Ele já tinha passagem na polícia por roubo e, se for condenado, pode ficar de 20 a 30 anos na prisão. O adolescente pode ficar no máximo três anos apreendido. Para o delegado, ambos estariam sob o efeito de drogas. (NO ENTERRO..., 2007)

Inicialmente, a polícia suspeitava da participação de três pessoas no crime, mas, após denúncias e depoimentos dos acusados, os investigadores concluíram que mais duas pessoas estavam envolvidas na ação. Os outros dois suspeitos teriam levado o grupo em um taxi até o local em que se desdobrou o acontecimento. As denúncias então levaram à prisão de Thiago, de 18 anos, e

Carlos Roberto, de 21 anos. Conforme reportagem do Portal G1, ―Carlos Roberto da

Silva teria levado o bando para o local do crime‖ (GRANCHI, 2007). Ele foi preso

envolvimento no crime, foi liberado as 18:30h, sendo novamente preso cerca de uma hora depois pela PM do Rio. A prisão de Tiago ocorreu horas depois, concluindo a polícia que era do pai dele o táxi que levou o grupo ao local. Ele declarou ter sido obrigado a conduzir os outros para o local em que se desdobrou o assalto. Após a prisão de quatro dos cinco suspeitos, a Polícia e as instâncias de produção se concentraram na expectativa de encontrar o último suspeito em decorrência das denúncias e depoimentos realizados.

No dia 10 de Fevereiro, a Folha de São Paulo deu destaque à cobertura das buscas pelo quinto integrante do grupo ao relatar que a ―Polícia busca em morros do Rio suspeito de arrastar menino à morte‖ (2007). Neste ato do acontecimento, a participação da família do suspeito foi uma ação que ganhou destaque na cobertura do caso. O suspeito era Carlos Eduardo, irmão de E., considerado o líder do grupo que teria protagonizado a morte calvário de João Hélio.

Ao anunciar que o ―quinto acusado da morte do menino arrastado é preso no Rio‖

(UCHÔA, 2007), o Portal G1 deu visibilidade ao papel desempenhado pelos pais do suspeito, que, segundo reportagem, haviam negociado sua rendição à polícia. A reportagem ressalta o trabalho das agências de segurança pública que percorreram todos os lugares em que o suspeito poderia ser encontrado, além de divulgar seu retrato em diversos meios de comunicação. Não obstante, foi a disposição da família em ―entregar‖ o suspeito à polícia o elemento chave para efetivação de sua prisão. Conforme consta na reportagem do Portal G1:

De acordo com o delegado, Lima [Carlos Eduardo] foi preso em na praça Montese, próxima à delegacia, acompanhado da família. Evangélico, o pai do jovem, conhecido como Dudu, negociou sua rendição com um policial também evangélico, depois que seu outro filho, o menor que também estaria envolvido no assalto, foi preso.

"Ele ficou com o meu celular e sempre íamos nos falando. Até que ele me ligou de madrugada e combinamos a hora e o local da apresentação", contou o inspetor Aliel Oliveira. Segundo ele, a família pediu garantias de que Lima não sofresse nenhuma agressão. Segundo o inspetor, o acusado alega inocência e chegou a prometer apresentar uma testemunha para comprovar seu álibi (UCHÔA, 2007).

Apesar de alegar inocência, os depoimentos recolhidos pela Polícia Civil não apenas desfizeram a versão de Carlos Eduardo como o colocaram como principal suspeito de coordenar as ações do grupo. A namorada, com a qual Carlos Eduardo afirmava estar, negou que estivesse com ele no dia do crime e a sua própria mãe contou detalhes sobre o envolvimento do mesmo, afirmando à imprensa

que o menor de idade tinha assumido a culpa do acontecimento para acobertar o irmão a pedido dele. A tática adotada teria como finalidade atribuir culpa ao menor de idade devido ao tempo e condições da pena atribuída - ao longo da cobertura do caso, como será possível verificar, observa-se que esse dado provocará uma intensa polêmica a respeito da punibilidade de menores de 18 anos que protagonizam crimes, como no caso João Hélio.

No dia 13 de Fevereiro, a Folha de São Paulo deu destaque à tática de

Carlos Eduardo ao publicar reportagem com a manchete: ―Adolescente suspeito de

matar menino acobertou irmão, diz mãe‖ (FIGUEIREDO, 2007). As declarações da

mãe de Carlos Eduardo repercutiram nos noticiários por ilustrar que a mesma não desejava ser ―tachada como a mãe dos monstros". A matéria da Folha deu visibilidade à expressão de sentimentos da mãe e do pai do acusado ao publicar em seu conteúdo as manifestações deles a respeito do ato protagonizado por seus dois filhos.

"Preferia estar no lugar dessa mãe e ter meus filhos mortos e enterrados [a vê-los presos acusados de crime tão bárbaro]", disse a evangélica e técnica de enfermagem de 43 anos, que prefere ser identificada apenas como Maria. "Não criei monstros, sempre os criei dentro da igreja", disse. Ela tem outros três filhos, dois meninos (12 e 17) e uma menina (14). Moram numa casa no morro São José da Pedra.

"Toda hora que eu fecho os olhos, vejo aquele carro arrastando aquela criança. Estou pedindo a Deus que me dê forças para ficar em pé", disse. Apesar de o adolescente andar em "más companhias", é Carlos Eduardo quem tem histórico de problemas, conta a mãe. Fugiu de casa pela primeira vez aos dez anos e "virou menino de rua" até os 18, quando foi preso por roubar um celular. Dormia mais na rua do que em casa. "A gente buscava, trazia para casa e ele fugia de novo."

Foi Nilson quem levou Carlos Eduardo à delegacia, no último domingo. Carlos Eduardo diz que é inocente, mas é apontado pela polícia como o chefe do bando. "Para mim, foi como levá-lo a um matadouro", preocupa-se o padrasto que o criou desde os seis anos.

"Não temos certeza, não estamos aqui defendendo nenhum deles, mas queremos saber qual está falando a verdade. Acho que o Carlos Eduardo é mais capaz [de cometer esse crime]. É experiente, já ficou preso, sabe o que está atrás daquelas grades, da violência que há lá dentro. O mais novo não sabe o que iria sofrer ali dentro", diz a mãe (FIGUEIREDO, 2007). A preocupação dos pais com os filhos reflete, também, uma preocupação sobre si mesmos, reflexo de uma identidade desconstruída pelo acontecimento. O temor de serem reconhecidos como os pais dos ―monstros‖ revela a intensidade dos sentimentos que buscam nos discursos criar uma conexão afetiva com os pais da vítima. Eles receberam desses o agradecimento em virtude de sua conduta, pautada

inclusive no desejo de ver os filhos serem punidos, mas também no medo do que poderiam acontecer aos suspeitos e a si mesmos em virtude da gravidade e repercussão do acontecimento. O pedido de anonimato é uma tentativa de preservar a identidade despedaçada e maculada pelas ações dos filhos.

Aqui, é importante ressaltar que, conforme demonstra Taylor (2005, p. 47), a identidade representa para o sujeito um bem sobremodo valorizado, cujo

papel é orientá-lo e proporcioná-lo a estrutura das coisas que têm sentido, ―em

virtudes das distinções qualitativas que ela incorpora‖. Para Taylor, ―nossa

identidade é aquilo que nos ajuda a definir o que é e o que não é importante para nós‖ (p. 47). É a partir dela que o sujeito discrimina os valores sociais que ele busca preservar e aqueles que ele buscar rejeitar como forma de construir seu autorreconhecimento. A identidade da mãe é despedaçada pelo seu próprio reconhecimento de estar diante de ação de filhos que colocam em jogo a sua condição de pessoa e os valores nos quais ela acredita.

Os pais, ao tentarem resgatar a si mesmos do horror do acontecimento, rejeitam pensar na ação como decorrente de seus cuidados para com eles, preferindo atribuir o fracasso pessoal dos dois filhos aos descaminhos da vida de cada um. A entrega do filho é um gesto que pode ser interpretado como entrega do próprio pai aos valores que ele julga serem necessários para preservar a si mesmo. Os filhos são representados como portadores de uma ação que coloca em jogo os valores de seus pais. Estes, ao entregá-los, intentam não apenas resolver um problema da Polícia, mas da sua própria constituição de pessoa em torno do que eles julgam ser certo e bom para a sociedade. A visibilidade dada pelos meios de comunicação ao gesto dos pais dos dois dos suspeitos pode ser compreendida como um momento positivo, no qual são celebrados valores sociais que podem ser vistos na atitude dos mesmos e merecem ser preservados em nome de um bem maior.

Além de ser um acontecimento que não conteve em si mistérios sobre como transcorreram os eventos que culminaram na morte, como no caso Daniella Perez, a perseguição aos acusados de matar João Hélio também não foi uma empreitada tão longa e desgastante para as agências de segurança pública do Rio de Janeiro, como no caso Tim Lopes. Considerada, também, como uma questão de honra para as agências de segurança pública, a prisão dos assaltantes que causaram a morte de João Hélio foi uma ação emblemática pela velocidade com que

os acusados foram presos e colocados à disposição das câmeras fotográficas e de televisão. Estas registraram uma ação dotada da brutalidade envolta na própria morte, sendo os presos exibidos como troféus por policiais que os apertavam pela garganta para que olhassem para as câmeras que registrariam suas imagens e as colocariam à disposição do seu público.

O que poderia ter sido interpretado como ato de responsabilidade, competência, eficiência e compromisso das forças policiais com a segurança e o bem estar da população, originou uma intensa discussão sobre a falta de ética e brutalidade das agências de segurança pública. A prisão dos acusados expostas nos meios de comunicação pareceu ser motivada pela necessidade de impor o suplício

do menino aos suspeitos, estendendo a ―barbárie‖ do acontecimento à ação de

quem, fundamentado nos valores de uma sociedade democrática de direito, deveria