CONSORT DIAGRAM: RCT Screened patients (n=179)
3. Closing dialogue: At the end of the postoperative phase, the music therapist proposed a debriefing dialogue during which the patient was invited to share and evaluate their experience with the invasive procedure
4.8 Data collection
O padre anglicano William Paley escreveu três obras de relativa importância para a filosofia e a teologia: The Principles os Moral and Political
Philosophy (1785), A View of the Evidences of Christianity (1794) e Natural Theology
Em relação a Hume, James Fieser diz que Os Princípios de Paley são importantes para o estudo do filósofo escocês por três motivos:
“Primeiramente, neste trabalho Paley critica brevemente Hume por dissociar Deus e moralidade. Em segundo lugar, Paley argumenta que determinamos a moralidade das ações baseados na utilidade delas. Escritores da época acreditavam que Hume era a fonte de inspiração imediata de Paley no que se refere à sua noção de utilidade. Em terceiro lugar, depois de Paley, discussões sobre a teoria moral de Hume eram frequentemente entrelaçadas às discussões sobre a teoria de Paley.”293
Ainda sobre as teorias de Hume e Paley, mais especificamente sobre suas alegadas similaridades, encontramos, em seus contemporâneos, comentários como o que segue: “Do livro do Sr. Paley só poderia esperar uma coisa; que não tivesse qualquer senso da Beleza e da Graça, mais do que o Sr. Hume, cuja filosofia moral ele se esforçou em reviver, fazendo o princípio da utilidade, ou computação dos ganhos e perdas...”294. Vê-se, portanto, que similaridades e discrepâncias são apontadas quando se comparam as obras de Hume e Paley. Vejamos, então, a teoria moral deste último.
A teoria de Paley é chamada por alguns de “utilitarismo teológico”295.
Nela, benefício individual e vontade de Deus são elementos conciliáveis. Partindo da
293 FIESER, James (ed.). Early responses to Hume’s moral, literary and political writings. Vol. I. Bristol: Thoemmes Press, 1999, p. 147.
294 BURNET, James. Of the Origin and Progress of Language. Vol. 6. Edinburgh: J. Bell, 1773-74, p. 211.
295 Guizán, Esperanza. Concepciones de la Ética. In: Enciclopedia Iberoamericana de Filosofia, v. 2. Madrid: Trotta, 1992, p. 290.
premissa de que “a vontade de Deus é a nossa lei”296, e, consequentemente, de que
a função da moralidade é descobri-la, Paley preocupa-se, no capítulo IV do livro II, com a origem dessa vontade:
“[...] inquirir qual é nosso dever, ou o que estamos obrigados a fazer, em qualquer circunstância, é, com efeito, inquirir o que é a vontade de Deus nesse caso? O que consequentemente torna-se todo o objetivo da moralidade.
Há dois métodos para chegar-se à vontade de Deus em qualquer caso:
1. Através de suas declarações expressas, [...] que podem ser buscadas na Escritura.
2. Através do que podemos descobrir de seus desígnios e da índole de seus trabalhos; ou, como usualmente a chamamos, a luz da natureza.”297
Depois de afirmar que a vontade de Deus está na Escritura ou na Natureza, Paley logo faz uma referência a Hume, apontando a queixa deste à união entre ética e teologia cristã, e, na seqüência, criticando a teoria moral humeana, que dependeria de sanções adicionais298, já que não há na mente humana algo que
torne possível diferenciar o certo do errado. Para Paley, Deus não municiou os homens de instrumentos que sirvam de comando morais.
296 The Principles of Moral and Political Philosophy. In: FIESER, James (ed.). Early responses to
Hume’s moral, literary and political writings. Vol. I. Bristol: Thoemmes Press, 1999, p. 150.
297 The Principles… , p. 150.
298 “O Sr. Hume, no quarto Apêndice de seus Princípios da Moral, satisfez-se em queixar-se do esquema moderno de unir Ética e Teologia Cristã. Os que estão dispostos a aderir a essa queixa farão bem em observar o que o próprio Hume foi capaz de fazer da moralidade sem essa união. Nesse propósito, deixe que leiam a nona seção do ensaio acima; cuja parte contem a aplicação prática de todo o tratado, - um tratado que o Sr. Hume declara ser ‘o melhor que ele escreveu’. Quando tiverem lido tudo, deixe que considerem se algum motivo lá proposto deve ser tido por suficiente para deter o homem da gratificação da luxúria, da vingança, da inveja, da ambição, da avareza; ou para prevenir a existência dessas paixões. A não ser que surja desse celebrado ensaio impressões fortes contras suas mentes, mais do que surgiu contra a minha, eles reconhecerão a necessidade de sanções adicionais.” The Principles… , p. 151.
Em Paley, essa sanção adicional necessária é divina. Quanto ao método de chegar a essa vontade, especificamente àquele que leva em conta a “luz da natureza”, diz que se trata de perguntar pela “tendência da ação para promover ou diminuir a felicidade geral”299. Essa regra deriva, diz Paley, da presunção de que
Deus quer a felicidade de suas criaturas e, por isso, agrada-lhe as ações que promovem sua vontade300.
Ao explicar a referida presunção da vontade divina, Paley, no capítulo V, do mesmo livro II, da mesma obra, diz que se Deus desejasse nosso sofrimento, teria certificado-se de seu propósito fazendo com que nossos sentidos nos dessem muitas dores, e não faria deles “instrumentos de gratificação e prazer”301. Por outro lado, se Deus fosse indiferente à felicidade ou ao sofrimento dos homens, deveríamos imputar à sorte a capacidade de nossos sentidos em receber prazer e a existência de objetos externos que sirvam para produzi-lo, o que seria “muito para ser atribuído a um acidente”302. Sendo assim, só podemos concluir que Deus, “quando criou a espécie humana, desejava sua felicidade”303. Além disso,
o seguinte raciocínio levaria à mesma conclusão:
“O artifício prova o que se quer; a predominante tendência do artifício indica a disposição do criador do artifício. O mundo é rico em artifícios; e todos os artifícios com os quais estamos familiarizados
299 The Principles… , p. 151. 300 The Principles… , p. 151. 301 The Principles… , p. 151. 302 The Principles… , p. 151. 303 The Principles… , p. 151.
estão direcionados a fins benéficos. O mal, sem dúvida, existe; mas nunca é, pelo que podemos perceber, o objeto do artifício.”304
Portanto, se a vontade de Deus, em relação às ações humanas, à luz da natureza, implica inquirir a tendência dessa ação para promover ou diminuir a felicidade geral, as ações devem ser estimadas por sua tendência. São certas ou erradas, em abstrato, por sua tendência. Por outro lado, o agente é virtuoso ou vicioso conforme sua disposição. Por isso, diz Paley em uma nota de roda-pé: “É evidente que nossa preocupação é com ações em abstrato”305. Nesse sentido, é um claro defensor do utilitarismo de regra.
Sobre o tema, faz a seguinte distinção: “Para ver esse ponto perfeitamente, deve-se observar que as más conseqüências das ações têm duas faces, particular e geral”306. A particular é “o dano que a única ação direta e imediatamente ocasiona”307. A geral é “a violação de alguma regra geral necessária ou útil”308. Na seqüência, completa dizendo que mesmo que uma ação não tenha
más ou boas consequências particulares, ainda assim essas espécies de consequências não são úteis, pois as consequências gerais são mais importantes309.
304 The Principles… , p. 152. 305 The Principles… , p. 153. 306 The Principles… , p. 154. 307 The Principles… , p. 154. 308 The Principles… , p. 154. 309 The Principles… , p. 154.
Além dessa defesa do utilitarismo de regra, Paley estende-se na defesa de seu “requisito transcendente”, isto é, da vontade de Deus enquanto regra que determina a promoção da felicidade geral:
“O requisito consiste na ideia de que existe um Deus, e que Ele recompensará com a felicidade eterna os que executarem a Sua vontade nesta vida. A vontade expressa de Deus é que os indivíduos contribuam para a promoção da felicidade da humanidade como um todo. Esta seria, portanto, a condição necessária para que o indivíduo seja agraciado com a felicidade eterna”310.
Portanto, o julgamento divino, que tem por objeto os atos praticados durante a vida do homem em julgamento, implicaria, no caso do resultado ser “condenatório”, imposição de sanções adicionais suficientes para motivar as pessoas durante suas vidas. A recompensa ou punição pós-morte serviriam de móbeis da ação, exigindo-se que esta tivesse por fim a maximização do prazer e a minimização da dor: “Assim, dois pontos podem ser destacados no projeto ético de Paley: o primeiro refere-se justamente à ideia de que o grau de felicidade geral é o indicado para saber se a ação humana está correspondendo à vontade de Deus; o segundo refere-se à ideia de que cumprir a vontade de Deus é a condição para que o indivíduo maximize a sua própria felicidade”311.
Diante do exposto, pode-se dizer que a teoria moral de Paley é utilitarista, seja porque diz que somos orientados a agir para obter prazer e evitar a
310 DEL CONT, Valdeir. Razões egoístas para se agir de modo altruísta: o utilitarismo teológico de William Paley. In: Cadernos de Ética e Filosofia Política n. 12. São Paulo: USP, 1/2008, p. 45.
dor, seja porque diz que devemos procurar maximizar a felicidade. Além disso, ao negar que o homem possua um mecanismo que permita a distinção entre o certo e o errado, e, também, ao negar que Deus teria embutido nos homens tais valores, Paley acaba por adotar um claro critério externo para julgar moralmente as ações, seguindo, nesse ponto, o utilitarismo de Bentham. O referido critério externo é a utilidade, isto é, a tendência para a maximização da felicidade e minimização da dor. Há, ainda, nos Princípios de Paley, a menção à soma de prazeres como uma exigência da vontade de Deus312.