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DADES ESTADÍSTIQUES

Com foco na diversidade linguística do português brasileiro (doravante PB), diversos estudos sobre a concordância verbal vêm sendo feitos com base nos pressupostos teóricos da Sociolinguística, tanto na modalidade falada quanto na modalidade escrita da língua. Esses estudos vêm mostrando que os fatores que são considerados relevantes na modalidade falada também o são na modalidade escrita.

Scherre e Naro (1998a), em análise da concordância de número no português do Brasil, dizem que o PB apresenta uma variação no processo de concordância de número, com variantes explícitas de marca de plural e a variante zero – a ausência dessa marca. Essa variação no PB se configura, segundo os autores, como um caso de variação inerente e que os processos variáveis de concordância “evidenciam um sistema perfeito, correlacionados a variáveis linguísticas e sociais” (SCHERRE; NARO, 1998a, p. 510).

No referido trabalho, os autores focalizam duas variáveis linguísticas consideradas importantes para o entendimento da concordância de número no PB: a saliência fônica e a posição do sujeito em relação ao verbo. Além das variáveis linguísticas, os autores também levaram em consideração a influência de três variáveis sociais: ano de escolarização, sexo e faixa etária.

Na análise das variáveis linguísticas, o fator “saliência fônica” mostra que os níveis mais altos de saliência favorecem a concordância: 70% (nível 1) e 80% (nível 2). Na análise da variável “posição do sujeito”, os resultados mostram que o sujeito imediatamente anteposto e os que estão a uma distância pequena do verbo (1 a 4 sílabas) favorecem o estabelecimento da concordância: 82% e 74%, respectivamente. Quanto às variáveis sociais, os fatores relevantes para o estabelecimento da CV foram o ano de escolarização e o sexo. Os resultados dessas variáveis mostram que “os fenômenos analisados são sensíveis às variáveis sociais” (SCHERRE; NARO, 1998a, p. 519).

Outro estudo que se pode destacar é o de Moura (1999). A autora inicia dizendo que, pela ordem SVO do português padrão, a concordância verbal é estabelecida entre o sujeito e o verbo. Nessa perspectiva, tem-se o sujeito como o elemento básico que controla a CV, pois o sujeito é, segundo a autora, na estrutura profunda, o primeiro sintagma nominal da oração.

A autora realizou um estudo da concordância verbal em escritas de narrativas infantis de alunos do primeiro ciclo do ensino fundamental (1ª a 4ª séries) e neste estudo também se constatou o caráter variável da concordância verbal; isto é, uma regra que sofre influência de fatores internos e externos à própria língua. Bechara (2009, p. 544) também chama a atenção para essa liberdade da língua ao dizer que “é preciso estar atento à liberdade de concordância que a língua portuguesa muitas vezes oferece”. Aqui, a própria GN reconhece a variação da CV, porém o posicionamento de Bechara (2009) é diferente do dos linguistas, uma vez que ele alerta para que se tenha cuidado com essa liberdade para “não prejudicar a clareza da mensagem e a harmonia do estilo” (p. 544).

Em um estudo sobre a variação da CV em redações escolares, Almeida (2010) analisou um corpus constituído de 3650 ocorrências coletadas de redações produzidas por

alunos do 9º ano do ensino fundamental e da terceira série do ensino médio. A hipótese que a autora pretendeu testar foi a de que alunos de escolas consideradas tradicionais apresentariam maior domínio das regras formais de concordância verbal, aplicando-as em suas produções, enquanto que alunos de escolas não tradicionais (regulares7, na definição da autora) apresentariam comportamento inverso.

O índice de não aplicação da regra de CV registrado pela autora foi muito baixo: 3,9%. As variáveis que se mostraram relevantes no cancelamento da marca de plural foram: tipo de escola, saliência fônica, paralelismo clausal e paralelismo discursivo. A hipótese levantada pela autora se confirmou: alunos de escolas regulares apresentaram índices mais altos de não concordância (7,6%) que alunos de escolas tradicionais (1,8%). Este baixo percentual levou a autora a considerar a concordância verbal, na modalidade pesquisada, como uma regra semicategórica8.

Silva (2008) também analisou redações escolares de alunos de escolas públicas que cursavam a última série do ensino fundamental e do ensino médio. A autora analisou 20 redações a fim de verificar a competência linguística dos alunos no que diz respeito à aplicação das regras de CV. As estruturas levantadas e analisadas pela autora limitaram-se às formas verbais na terceira pessoa do plural, resultando nos seguintes grupos de fatores analisados: sujeito formado por um núcleo ou mais; sujeito anteposto ou posposto ao verbo; verbos na passiva pronominal com sujeito plural; verbos impessoais; verbo com pronome relativo como sujeito e antecedente plural; verbo ser, com sujeito e/ou predicativo no plural.

Foram levantadas 235 ocorrências nos textos da oitava série e 218 nos textos de alunos do ensino médio, distribuídos pelos grupos de fatores citados acima. Um fato interessante mostrado pelos resultados obtidos na análise é que 89% das ocorrências de verbos na terceira pessoa do plural apareceram em estruturas de sujeito simples no plural anteposto ao verbo. Nesse trabalho, os índices de não concordância também foram baixos: 3% (alunos do ensino fundamental) e 7,4% (alunos do ensino médio).

7 A autora utilizou alguns critérios para classificar as escolas em “tradicionais” e “regulares”. Cf. Almeida (2010,

p. 105) para os detalhes da classificação.

8 Labov (2003) apresenta uma solução quantitativa para um problema da Sociolinguística no que diz respeito à

distinção entre variação estruturada da língua e flutuação da fala (um fenômeno ligado ao desempenho e não à competência, como no caso da variação estruturada). Para Labov (2003) existem três classes de regras linguísticas: as regras categóricas, que operam em uma frequência de 100% dos casos, sem qualquer violação na fala natural; as regras semicategóricas, que operam em uma frequência entre 95% e 99% dos casos, com violações raras e relatáveis; e regras variáveis, que operam em uma frequência entre 5% e 95% dos casos, em que não há violações por definição. Se uma determinada frequência opera abaixo de 5%, caracteriza-se em uma oscilação da fala e não variação estruturada da língua. Cf. Brandão; Vieira, 2012; e Lucchesi (2015).

Um dado interessante nas análises de Silva (2008), que também foi registrado nas de Almeida (2010), é que os alunos do ensino médio apresentaram maior índice de não concordância que os alunos do último ano do ensino fundamental. Almeida (2010, p. 136) observa que “embora a diferença entre os níveis de escolaridade seja mínima, menos de 0,5%, não se pode deixar de observar o fato de que os alunos do ensino médio apresentam maiores índices de não-concordância”.

A conclusão a que Silva (2008) chegou é de que, com base nos resultados de sua análise, os alunos da oitava série em geral “não apresentam dificuldades em relação ao uso das formas da variante padrão. De modo geral, empregam as marcas de concordância verbal preconizadas pelas gramáticas nos textos que produzem” (SILVA, 2008, p. 36).

A conclusões semelhantes chegaram Vieira e Pires (2012). Em um estudo das normas variáveis de concordância verbal de terceira pessoa do plural em um corpus constituído de 400 redações, as autoras registraram índices de 7,5% de não concordância. O objetivo das autoras era descrever e analisar o comportamento da regra de concordância verbal definindo os condicionamentos linguísticos que atuam na realização da variável. Em razão da natureza do corpus pesquisado (redações de vestibular para ingresso no ensino superior), as autoras estabeleceram como uma das hipóteses que a variável dependente “presença de concordância” seja altamente produtiva em virtude do contexto de produção, que requer um elevado grau de monitoração estilística por parte dos alunos. No estudo em questão, foram controladas a variável dependente (ausência/presença de concordância verbal) e as variáveis independentes, estas de natureza estritamente linguística.

As variáveis independentes que se mostraram altamente significativas para o condicionamento da regra de concordância foram, por ordem de importância: saliência fônica, animacidade do sujeito, posição do sujeito em relação ao verbo e presença de elementos intervenientes entre o SN sujeito e o verbo da frase. Uma vez que as autoras objetivaram verificar os mecanismos que agiam no sentido de (des)favorecer o apagamento da marca de plural nos verbos, a variável aplicação utilizada na pesquisa foi a ausência de concordância padrão.

Pode-se observar, a partir dos trabalhos aqui destacados, que a concordância verbal em textos escritos de alunos se apresentou muito produtiva, com baixos índices de discordância verbal. Pôde-se observar, também, que fatores estruturais, como níveis altos de saliência fônica, sujeito anteposto, bem como o traço [+ animado], favorecem a aplicação da marca de plural no verbo.

2.6 ABORDAGENS DO TEMA CONCORDÂNCIA VERBAL VOLTADAS PARA O