Segundo Bortoni-Ricardo (2014), a Sociolinguística é uma ciência que nasceu preocupada com o desempenho escolar e, por esta razão, tem impacto direto na educação. Muitos trabalhos desenvolvidos sob o enfoque variacionista têm contribuído com orientações e sugestões voltadas à prática de sala de aula, embora esses trabalhos, muitas vezes, não cheguem até o professor. Dentre os estudos sobre concordância verbal com propostas voltadas ao ensino, pode-se destacar o de Lemle e Naro (1977 apud LEMLE, 1978), o de Mollica (2003) e o de Vieira (1997; 2013a).
Lemle (1978) faz um relato sucinto do trabalho pioneiro sobre concordância verbal9 no desempenho linguístico de alunos do Mobral. Um dos objetivos do referido trabalho consistia no entendimento dos fatores que regem o uso da regra variável na fala de 20 alunos. As variáveis testadas no referido trabalho foram a saliência fônica da oposição singular e plural do verbo, a posição do sujeito em relação ao verbo, o caráter definido ou indefinido do sujeito, e a variável estilística baseada no nível de formalidade das entrevistas.
Segundo a autora, a variável estilística não apresentou relevância. Já no que diz respeito à variável posicional, o sujeito imediatamente anteposto ao verbo é a posição que mais favorece a aplicação da concordância padrão; já o sujeito posposto ao verbo favorece o cancelamento da marca formal de CV. Em termos pedagógicos, “a apresentação de estruturas com sujeito anteposto deve ser feita em primeiro lugar, como modelo para as estruturas de
9 LEMLE, M.; NARO, A. J. (1977). Competências básicas do português. Rio de Janeiro: Relatório final de
pesquisa apresentado às instituições patrocinadoras Fundação Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL) e Fundação Ford.
sujeito separado e posposto, sendo estas últimas as que requerem mais treino” (LEMLE, 1978, p. 94).
Os níveis mais altos de saliência fônica representam contextos favorecedores à aplicação da concordância padrão (entre .58 e .83 de peso relativo10), enquanto que os níveis mais baixos de saliência – aqueles em que o acento tônico está na raiz do verbo – apresentam índices significativos de não concordância padrão (entre .06 e .27 de peso relativo). Como estratégia didática, sugere-se que o trabalho em sala explore inicialmente os verbos de alta saliência fônica para que estes sirvam de modelo aos verbos de baixa saliência, com intenso treino de concordância com foco em verbos regulares.
Lemle (1978), no final da década de 70, já chamava a atenção para o fato de que o ensino escolar de língua portuguesa, para ter real utilidade para quem ensina e, principalmente, para quem aprende, deve ser um ensino em que se leve em consideração a heterogeneidade dialetal. A autora já destacava que o papel do professor não é o de fazer com que o aluno abandone a sua gramática e que a substitua pela gramática ensinada na escola, e sim auxiliar o aluno na aquisição de competência de uso da variedade de prestígio da língua para que esta competência seja somada àquela que ele já possui ao ingressar na escola. Em outras palavras, um ensino que vise à pluralidade de normas e à adequação destas normas às diversas situações de comunicação. Nas palavras da autora, “o objetivo a ser proposto não é ‘aprenda a norma culta em vez do português que você fala’, e sim: ‘aprenda a norma culta além do português que você fala, e utilize um ou outro segundo as circunstâncias” (LEMLE, 1978, p. 62).
Trabalhos de Vieira (1997; 2013a) sobre a concordância verbal também trazem orientações para a abordagem em sala de aula. A autora chama a atenção para a importância de aplicar os resultados das pesquisas sociolinguísticas ao ensino de língua portuguesa. No artigo de 1997, intitulado “A não-concordância em dialetos populares: uma regra variável”, Vieira controlou as variáveis linguísticas saliência fônica, paralelismo clausal e discursivo, posição do sujeito, animacidade e distância entre o SN e o SV (fatores que se mostraram relevantes na análise), e verificou os contextos em que estas variáveis favorecem e desfavorecem o uso da regra de concordância.
Com base nos resultados da análise, a autora propõe que o ensino da concordância verbal se inicie por aquelas estruturas que favorecem o uso das marcas de plural no verbo e que os exercícios de fixação priorizem as estruturas que desfavorecem o uso da marca de
plural. O ponto de partida para o ensino da CV, segundo a autora, deve ser aquele em que a norma do aluno se aproxima da norma que se pretende ensinar (cf. VIEIRA, 1997).
Haja vista o fato de que a CV não constitui regra categórica em nenhuma variedade do português, nem mesmo aquelas com alto grau de monitoramento, Vieira (2013a) considera fundamental que se conheçam os fatores que influenciam o uso padrão e não padrão da concordância, para que se possa estabelecer uma metodologia adequada de ensino na escola. Para isso as pesquisas sociolinguísticas proporcionam grande contribuição à compreensão do fenômeno. Esse conhecimento é necessário para que o professor possa realizar um trabalho explorando os mais variados gêneros de texto.
O texto, aliás, deve ser o ponto de partida e de chegada para que o aluno tenha uma percepção abrangente do fenômeno variável. Uma orientação importante da autora é usar textos que explorem o fenômeno da concordância como recurso expressivo para a construção dos sentidos do texto. Vieira (2013a) retoma os pressupostos de Lemle e Naro (1977) no que diz respeito ao procedimento em sala de aula. Segundo a autora:
Em sua pesquisa, Lemle & Naro (1977:50) propõem que o ensino deve enfatizar os aspectos em que a variedade do aluno mais difere do padrão que se pretende ensinar. Assim, sugerem, segundo os resultados obtidos com o controle da variável saliência fônica, que os exercícios focalizem os verbos regulares no presente e no imperfeito do indicativo, visto que nesses tempos há menor diferenciação fônica entre as formas singular e plural e, portanto, menor tendência à concordância. No que diz respeito à posição e à distância do sujeito em relação ao verbo, propõem que os exercícios privilegiem as estruturas de sujeitos pospostos e distantes do verbo, que propiciam maior tendência ao cancelamento da marca de número do verbo.
Os autores recomendam, ainda, o “princípio didático” de que as explicações e os primeiros exercícios devem priorizar os contextos em que o estudante já concretiza a estrutura em questão. Posteriormente, as atividades de fixação de conteúdo deveriam focalizar os pontos em que se verifica maior discrepância entre a norma dominada pelo aluno e a norma que se pretende ensinar. (VIEIRA, 2013a, p. 98-99).
Nesses termos, observa-se um ensino que leva em consideração a norma que o aluno traz consigo ao chegar à escola e a introdução de outras normas que o aluno ainda não domina.
Mollica (2003), por meio de aplicação de um teste elaborado de modo a poder ser usado em diferentes níveis de escolaridade, observou a variação da CV controlando duas variáveis: posição do sujeito em relação ao verbo e distância entre o sujeito e o verbo. O teste consistia no preenchimento de lacunas de acordo com o ícone usado para representar a ação e foi aplicado em duas turmas de 7º série de uma escola estadual da zona sul do Rio de Janeiro.
Os resultados mostraram que a variante padrão é menos usada em casos em que o sujeito aparece posposto ao verbo pelo fato de o aluno não interpretar o SN posposto como
sujeito. Os resultados mostraram, também, que quanto mais distante estava o sujeito do verbo mais ocorrências de concordância não padrão eram registradas, independentemente de o sujeito estar antes ou depois do verbo.
Segundo a autora, é extremamente aconselhável o trabalho em sala de aula de contextos em que o sujeito aparece posposto ou distante do verbo, visto que as chances de as marcas de plural do verbo serem apagadas são bem altas.
Como orientação pedagógica, Mollica (2003) apresenta algumas sugestões que podem subsidiar um trabalho mais direcionado ao uso da língua escrita: especial atenção à ordem Verbo/Sujeito; casos em que o sujeito esteja distante do verbo “especialmente com sintagmas nominais grandes e complexos estruturalmente” (p. 90); uso adequado de uma metalinguagem que possa ser eficiente no processo de ensino-aprendizagem que ajude o aluno na identificação do sujeito seja qual for a posição e a distância em que ele se encontre; e que o trabalho em sala de aula deva começar pelos casos de posposição e com estruturas em que o sujeito não esteja contíguo ao verbo.
2.6.2 A concordância verbal em trabalhos desenvolvidos no âmbito do Mestrado