O modelo teórico proposto no Capítulo 2 apresentou os construtos latentes que se pretende avaliar, e cuja influência sobre o fenômeno da interação de pesquisa colaborativa entre universidade e setor industrial é objeto de investigação neste estudo.
Por meio de extensa revisão de literatura, buscou-se, além de subsidiar a proposição do modelo explicativo referido, identificar instrumentos de coleta já validados que
UF Universidade Instituto Federal Total
RS 13 2 15 MG 11 3 14 PR 8 0 8 SC 6 1 7 RJ 5 2 7 SP 7 0 7 CE 6 0 6 BA 4 1 5 PE 4 1 5 AL 3 1 4 RN 3 0 3 AM 2 1 3 MS 3 0 3 PB 3 0 3 SE 2 1 3 MA 1 1 2 AP 1 1 2 GO 2 0 2 PI 1 1 2 MT 2 0 2 PA 2 0 2 TO 0 1 1 DF 0 1 1 ES 0 1 1 RO 1 0 1 Total Geral 90 19 109 a
pudessem ser aplicados no contexto desta pesquisa. Todavia, tal esforço, para este fim, não se mostrou eficaz. Apresentam-se abaixo algumas razões:
a) A maioria dos estudos abordados dedicou-se à aplicação de técnicas estatísticas que dispensaram a construção de escalas, em congruência com seus objetivos de pesquisa;
b) Alguns outros, por sua natureza qualitativa, não propuseram um instrumento de aferição com escalas, ainda que tenham sido úteis para a definição dos construtos aqui adotados;
c) Poucos estudos, como aqueles desenvolvidos por Segatto-Mendes e Sbragia (2002), Mora-Valentin, Montoro-Sanchez e Guerras-Martin (2004), Porto (2004), Plewa e Quester (2007) e Cruz e Segatto (2009), utilizaram escalas de mensuração. Contudo, seus contextos de pesquisa foram bastante distintos daquele aqui considerado, tanto em termos de unidade de análise quanto de sujeitos da pesquisa, o que praticamente impediu a adaptação de itens de suas escalas para esta pesquisa.
Estas razões levaram à proposição de uma nova escala de mensuração, mais alinhada com os objetivos e delineamentos da pesquisa. Se, por um lado, isso pode suscitar potenciais limitações à pesquisa – como a adoção de escala não validada por resultados de estudos empíricos anteriores – por outro, confere maior grau de aderência ao que de fato se pretende medir.
Para mitigar tais limitações, alguns procedimentos foram adotados em relação à dimensionalidade da escala e aos itens de verificação.
3.5.1 Etapas da construção do instrumento de coleta
Os estudos abordados no referencial teórico-empírico foram considerados suficientes para a proposição do modelo e das dimensões constitutivas de cada construto nele presente. Cabe ressaltar que, não obstante essa determinação “a priori” de dimensionalidade dos construtos seja considerada um critério objetivo, após a coleta de dados definitiva junto aos respondentes da pesquisa, foi realizada uma análise fatorial exploratória visando a confirmar a proposição dimensional originalmente sugerida e, assim, “deixar que os dados falem” (COSTA, 2011, p. 180).
Consideradas concluídas as etapas de definição dos construtos e de suas dimensões definidas “a priori”, como discutido acima, partiu-se então para as atividades de
geração dos itens a serem coletados (variáveis manifestas), e de tomada de decisões sobre as respostas, em que se deteve à escolha do tipo de escala e à determinação da quantidade de pontos usada.
3.5.1.1 Geração de itens de mensuração
A geração dos itens teve como fonte fundamental as pesquisas abordadas na revisão da literatura acerca dos determinantes, barreiras e motivações da interação entre indústria e universidade para pesquisa e inovação, visto que todos estes aspectos exercem influência sobre tal relacionamento.
Sempre que possível, buscou-se adaptar a descrição do item da literatura existente, traduzindo-o e/ou adequando-o à realidade deste trabalho, conforme suas particularidades de investigação e público respondente. Porém, estes casos não foram frequentes, dado que a maioria dos estudos abordados pretendia avaliar relacionamentos específicos em que os respondentes (pesquisadores da indústria e da universidade) estavam envolvidos. Em síntese, apenas para a variável dependente foi possível realizar algum tipo de adaptação, a partir dos estudos de Mora-Valentin, Montoro-Sanchez e Guerras-Martin (2004) e Plewa e Quester (2007).
Destarte, foram criadas asserções baseando-se em hipóteses testadas e em argumentações dos autores dos estudos analisados. Este esforço levou à proposição de uma escala contendo 38 itens de mensuração refletivos, distribuídos em oito dimensões, por sua vez relacionadas a seis construtos, conforme apresentado no quadro 11:
Quadro 11 – Construtos, dimensões e itens do modelo proposto
Fonte: Elaborado pelo autor.
Ressalte-se, como antecipado, que a atribuição da dimensionalidade tomou como critério de definição a temática central de cada determinante identificado na literatura, o que foi objeto de testes exploratórios e confirmatórios tempestivamente abordados na continuação deste estudo.
3.5.1.2 Decisões sobre respostas: tipo de escala e número de pontos
Como já argumentado, a maioria dos estudos visitados não utilizou metodologias que empregaram escalas; mesmo aqueles poucos que as adotaram, declararam objetivos, unidades de análise e público-alvo de pesquisa distintos daqueles deste estudo, reduzindo as possibilidades de replicação.
Por estas razões, optou-se por adotar escalas intervalares de Likert de dez pontos para todas as asserções propostas. Costa (2011) argumenta que escalas de Likert são as mais frequentemente utilizadas em pesquisas em ciências sociais. Além disso, ainda segundo o autor, usar escalas de dez pontos codificadas somente em seus extremos (de 1 – “Discordo
C O NSTRUTO DIMENSÃO Q TDE ITENS
HIST ÓRICO DE COLABORAÇÃO
COM A INDÚST RIA 1
QUALIDADE DA PESQUISA
CIENT ÍFICA 3
ORIENT AÇÃO ACADÊMICA
EMPREENDEDORA 2 PROXIMIDADE/DIST ÂNCIA GEOGRÁFICA 1 DISPONIBILIDADE DE FINANCIAMENT O PELA INDÚST RIA 2 FACILIT ADORES POLÍT ICO-
INST IT UCIONAIS 3
BENEFÍC IO S DA C O O PERAÇ ÃO UNIVERSDADE-INDÚSTRIA
BENEFÍCIOS PARA A
UNIVERSIDADE 4
BARREIRAS À C O O PERAÇ ÃO
UNIVERSDADE-INDÚSTRIA BARREIRAS 7
INST IT UCIONALIZAÇÃO 2
COMPROMET IMENT O 2
COMUNICAÇÃO 3
CONFIANÇA 2
SAT ISFAÇÃO GLOBAL 3
PROSPECÇÃO E RENOVAÇÃO DE
PARCERIAS 3
38 TO TAL DE ITENS
REPUTAÇ ÃO DA UNIVERSIDADE
DETERMINANTES C O NTEXTUAIS
GO VERNANÇ A DO RELAC IO NAMENTO DE
C O O PERAÇ ÃO
PRO PENSÃO DA UNIVERSIDADE À C O O PERAÇ ÃO C O M A
totalmente” até 10 – “Concordo totalmente”, por exemplo) tem como vantagens a eliminação de codificações difusas nos pontos intermediários, além de eliminar o problema da neutralidade ou indecisão presumidas para o ponto central de escalas com número ímpar de pontos, não raro, elemento gerador de vieses ou problemas de avaliação de resultados.
3.5.2 Pré-validação do instrumento de coleta
A primeira etapa de validação do instrumento de coleta, ocorrida entre 02/12/2014 e 15/02/2015, foi centrada nos seus aspectos semânticos e estruturais, e na adequação aos objetivos da pesquisa.
O questionário originalmente proposto continha sete itens de identificação do respondente e de sua instituição a que é vinculado, e 36 itens de mensuração dos construtos latentes. O mesmo foi enviado por e-mail para onze especialistas, todos com titulação de doutorado e atuantes na área de pesquisa e pós-graduação em importantes universidades, perfil semelhante ao público da pesquisa. Seis desses especialistas atenderam ao convite de participação. Suas contribuições foram relevantes, e a maior parte delas incorporadas, como: (i) adequação na abordagem de convite aos respondentes; e (ii) adequações na redação de alguns itens da escala de mensuração; (iii) inclusão de dois novos itens na escala, referentes aos construtos “Reputação da Universidade” e “Determinantes contextuais”; e (iv) exclusão de questões de identificação que poderiam ser inseridas posteriormente, via consulta a fontes secundárias, reduzindo o esforço do respondente (por exemplo: as informações de categoria administrativa e de organização acadêmica podem ser facilmente obtidas por consulta ao banco de dados do Ministério da Educação (MEC)). Após estas adaptações, o instrumento passou a ter itens de identificação e 38 de mensuração dos construtos.
Esta nova versão foi submetida a uma segunda rodada de avaliação, que se deu entre 28/02/2015 e 11/03/2015, agora com solicitação de preenchimento do questionário em sua forma on-line (a mesma adotada na pesquisa de campo do estudo). Dos vinte especialistas convidados, em sua maioria doutores, pró-reitores ou coordenadores de pesquisa e/ou pós- graduação em Universidades ou Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, sete responderam o questionário. Dois desses pesquisadores propuseram melhorias que, todavia, não puderam ser incorporadas ao questionário, uma vez que se distanciavam dos objetivos do estudo e/ou do referencial teórico adotado, mas que suscitaram potenciais oportunidades para futuras pesquisas.