A Escola Agrícola de Lavras foi idealizada por Samuel Rhea Gammon, tendo como objetivo influenciar toda a região Oeste de Minas Gerais com os seus ideais de modernidade e progresso. Tais ideais, segundo a tradição religiosa de origem puritana, calvinista, estavam vinculados ao dever cristão do exercício da sua vocação no mundo e desenvolvimento das potencialidades humanas para a glória de Deus.52 Nas suas viagens a cavalo pelas fazendas e localidades da
52 Segundo o entendimento reformado, todas as coisas foram criadas por Deus, para a Sua
própria glória e devem ser objeto de todo empenho humano no exercício pleno das suas habilidades. Daí o lema do Instituto Evangélico: “Para a Glória de Deus e progresso humano”
região, com a finalidade de visitar as famílias por ele evangelizadas, percebia “problemas” tanto no cultivo da terra como na criação do gado. Os métodos adotados eram arcaicos e tradicionais. Tal situação o levou a entender a importância de que, pelo menos as gerações mais novas, deveriam ter acesso às técnicas científicas e modernas para esse trabalho, garantindo o aproveitamento do potencial desta terra que, na sua percepção, era fértil e de clima privilegiado. Como não havia nenhuma escola especializada no Estado de Minas Gerais, o referido pastor absorve como parte dos seus ideais reformadores a criação de um estabelecimento que oferecesse instruções nessa área, ainda que elementares. Considerando que em Lavras já havia se instalado, com a chegada da Missão, vinda de Campinas em 189353, sob a sua direção, o Instituto Evangélico, que posteriormente passou a chamar-se Instituto Gammon, onde eram desenvolvidos outros tipos deensino, a criação da Escola Agrícola seria apenas mais um desafio dentre os já assumidos.
Samuel R. Gammon assim se expressou em 190854:
Desde que fundamos o nosso estabelecimento de Ensino Secundário, em 1904, nutrimos o desejo de proporcionar aos alunos que se destinam à vida de agricultores um curso especial de estudos que os prepare para convenientemente aproveitar as riquezas naturais da terra. Incontestavelmente a mão da natureza prodigalizou os seus benefícios quando passou por esta terra: O solo é ubérrimo, o clima é salubre e favorável; Não menos certos, porém que o povo não tem sabido desfrutar estas ricas dádivas da generosa providência. Nenhuma ciência ou arte, neste último meio século, tem feito progresso como a arte e a ciência da agricultura em certos países da Europa e América. Na Inglaterra, no Canadá, e nos Estados Unidos do Norte, os governos federais e estaduais, bem como sociedades patrióticas e indivíduos altruístas, têm gasto fabulosas somas em dinheiro para fundarem estabelecimentos de instrução onde a mocidade, que, pressurosa, afluía às aulas, pudesse aprender os conhecimentos sempre crescentes desta moderna e mais importante- ao mesmo tempo
53 Antes da criação da escola Agrícola de Lavras, o Instituto Evangélico mantinha as seguintes
escolas:
mais antiga e mais honrada- ciência e arte. O Brasil é essencialmente um país agrícola, e Minas, sobretudo, tem sua principal fonte de riqueza no seu solo fertilíssimo. Os interesses de numerosíssima classe de lavradores exige que seja feito aqui o que vai se fazendo em outros países adiantados. Está chegando o tempo em que desejamos, por meio de nossa Escola Agrícola, concorrer modestamente para o desenvolvimento e o progresso desta arte de Agricultura.
A idéia era formar agentes de mudança capazes de contribuir para o progresso da nação brasileira, fazendo “brilhar a luz do Evangelho” nesta terra: a reforma da sociedade, segundo os princípios teológicos protestantes da vertente calvinista. Em uma conferência realizada no Rio de Janeiro, em 1912, Samuel Gammon foi incumbido de falar sobre o tema: “A Contribuição das Escolas Evangélicas para o Progresso do Brasil”. A sua idéia de “progresso” manifesta-se nos cursos oferecidos pela escola, sobretudo, a Escola Agrícola, com sua fazenda modelo, que adquiriu prestígio junto ao governo, que, além de manter alguns alunos, ofereceu bolsas a alguns deles para estudarem nos Estados Unidos, sob recomendação do Instituto.
Além dos interesses diretamente relacionados com o desenvolvimento do “ramo industrial” do seu trabalho, Samuel Gammon via também na Escola Agrícola um meio de ampliar o acesso ao Ginásio. Aqui fica explícito, mais uma vez, a expectativa relacionada com a educação escolar como elemento imprescindível para o desenvolvimento do país:
[...] nos tem dominado o desejo de colocarmos ao alcance do maior número possível de moços, as vantagens de educação. Quantos vultos eminentes, quantas capacidades raras não se perdem para a Pátria por faltarem aos moços meios de se educarem!55
Segundo o seu planejamento, um maior número de rapazes poderia custear os seus estudos, dedicando horas de trabalho na agricultura e produzindo o necessário para a manutenção dos internatos:
Vinte ou trinta rapazes, trabalhando poucas horas por dia, sob a direção de um professor competente, produziam grande parte dos gêneros alimentícios de que o estabelecimento precisa; isto diminuiria consideravelmente nossa despesa, e nos habilitaria a receber maior número de alunos por preço mínimo, ou sem outra anuidade além das horas de serviços por eles prestados. Desta maneira, no decorrer dos anos, avultado número de homens se poderiam preparar para melhor servir à Pátria, que, de outra sorte teriam de passar os seus dias, seguindo a rotina de uma vida acanhada e sem perspectiva. É esta consideração que nos impele a lutar pelo desenvolvimento dos trabalhos industriais e especialmente dos trabalhos agrícolas56
Para executar o empreendimento, a Missão Oeste do Brasil, mediante solicitação, o reverendo Samuel Gammon providenciou a vinda dos Estados Unidos, do agrônomo recém-formado Benjamin Hunnicutt, que na ocasião tinha apenas vinte anos de idade. Além dos conhecimentos científicos adquiridos no Mississipi State College, era atribuída ao jovem bastante experiência nas questões relacionadas ao cultivo da terra, devido à sua tradição familiar57. Hunnicutt é lembrado nas publicações da Universidade Federal de Lavras, não apenas como o fundador da escola, mas como responsável por iniciativas pioneiras consideradas relevantes para a região e em âmbito nacional. São citadas ações relacionadas à importação de animais de raça e, principalmente, como incentivador da cultura do milho, sobre o que publicou um livro em 1823. Em 1922, organizou a primeira exposição agropecuária do Estado de Minas Gerais, a I Exposição Agropecuária e Industrial de Lavras. Nesse mesmo ano foi
56 Conforme justificativa que Samuel R. Gammon apresentou à Missão ao solicitar autorização
para a criação da EAL
57 Segundo os registros do Museu Bi-Moreira, da Universidade Federal de Lavras, “Toda a sua
família tinha grande conhecimento com a agricultura e registra uma curiosidade: “A sua bisavó fora proprietária da fazenda ‘Tara’, imortalizada na obra ‘...E o Vento Levou’”
criado o periódico O Agricultor, que até 1935 era o único nessa especialidade de Minas Gerais, com objetivo de levar informações referentes à almejada modernização da agricultura para além do âmbito da instituição. “Por sua grande contribuição dada ao Brasil -- que ele adotou como sua segunda pátria -- o Dr. Benjamin Hunnicutt recebeu do Governo, a maior condecoração dada a um estrangeiro, a comenda da ordem do Cruzeiro do Sul”.58
FIGURA 12: Benjamin Hunnicutt, o instalador da EAL Fonte: Acervo do Musei Bi-Moreira
Em 1910, com a regulamentação do ensino agrícola pelo Governo Federal, a escola ampliou seus cursos, com duração de três anos, passando a ser “modelado sobre o das Escolas Theorico-Praticas, estabelecido pelo Governo Federal no Regulamento Geral de Ensino Agronômico”59. Em 1917, a Escola
Agrícola de Lavras foi reconhecida pelo governo de Minas Gerais e o curso por ela oferecido passou, em 1919, a ter quatro anos de duração. Em 1930, dois anos após a morte do fundador da escola, Samuel Gammon, foi oficializado o curso de Engenheiro Agrônomo. Em 1936, a Escola Agrícola foi oficializada pelo Governo Federal, passando a ser chamada, em 1938, Escola Superior de Agronomia de Lavras- ESAL, na mesma época em que são oficializadas a Escola Nacional da Agronomia, do Rio de Janeiro, a Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa e a Escola Agrícola de Luís de Queirós, de Piracicaba, por preencherem “as condições estabelecidas pela nova organização que se imprimiu ao ensino agronômico”.60 A escola, criada com objetivos modestos, para oferecer instruções
elementares ao homem do campo, adquiria o status de ensino superior. Em 1963, a escola foi federalizada, dando origem à atual Universidade Federal de Lavras- UFLA.