Notational conventions
2 Two planes – developing the research questions .1 Introduction .1 Introduction
2.3.4 Two cultural planes
Da mesma forma que as pessoas exercem os papéis performáticos, o público do ritual é formado pelas pessoas que presenciam o evento. No caso do casamento, os convidados. Estas pessoas também têm papel fundamental nos ritos, conforme destacado no discurso de uma das noivas:
Não adianta eu contratar muita comida e eles não estarem lá pra comer; eu
con... eu ter comprado muita bebida e eles não estarem pra... pra beber... principalmente pra dançar, pra se divertir. (...) Por exemplo, umas (lembrancinhas) que eu quero colocar os nomes da pessoa... e se a pessoa não tiver lá pra pegar a
lembrancinha (rindo)? Então assim, tenho essa preocupação da presença deles realmente (NVIII).
Com efeito, as testemunhas do casamento são entendidas pelos noivos como aquelas pessoas capazes de promover reconhecimento social, bem como simbolizar apoio para o compromisso que estão assumindo (KALMIJN, 2004). As pessoas estarem presentes para legitimar o enlace, para testemunhar essa mudança de status e reconhecer os novos
papéis sociais dos noivos é muito importante, o que pode ser compreendido por meio dos discursos seguintes:
Não podem faltar todas aquelas pessoas que eu vou considerar de convidar
porque pra mim vai ser... eu... porque senão eu não precisava... casaria só eu e ele
normal sem precisar de nada. Mas eu quero um... uma festa assim, que eu quero distribuir a minha felicidade com todo mundo que for convidar (NXI).
A gente faz o... a gente... é... assim, pensa no casamento pra gente também, claro, mas... mas é pra compartilhar com as pessoas, né? Com nossos amigos, com nossa família. (NX)
Três das noivas entrevistadas, inclusive, acreditam que o fato dos convidados serem pessoas pertencentes ao seu convívio social maximiza a possibilidade de que suas escolhas pessoais acabem agradando um grupo preponderante. Agradar os convidados é uma preocupação que influencia algumas escolhas, mas não a maioria.
Sendo assim, todas as noivas responderam que, embora tenham se preocupado com a satisfação dos seus convidados em determinados aspectos, prevaleceu o seu gosto na elaboração do casamento, como observado no discurso: “no geral assim, eu acho que eu to
fazendo mais minha própria vontade, do que pensando nos convidados!” (NVIII). Os
convidados foram considerados em se tratando de pontos mais específicos, como cardápio ou estrutura da casa de recepções, unanimemente.
Mesmo que elas ponderassem da seguinte forma: “Mas eu também pensava
neles, porque eu contratava pensando: será que vão gostar?! Porque a, a minha intenção era agradá-los (ênfase), né?” (NII), algumas noivas atentam para a noção de que “nem todo
mundo vai sair satisfeito, né?” (NX). Talvez por isso não se preocupem excessivamente em agradá-los.
Coerentemente, é possível estabelecer uma relação entre os papéis performáticos e o público do ritual com a terceira dimensão do consumo conspícuo: conformidade social. Observa-se que as noivas atuam conforme os parâmetros estipulados por seu grupo social, elaborando um evento com propósito de atender às expectativas gerais dos convivas, mesmo que o casamento tenha a finalidade primordial de realizar um sonho, principalmente, da noiva. Além disso, as noivas destacam pessoas do seu círculo social para executarem um papel importante dentro do ritual, como padrinhos e madrinhas, e escolhem os seus convidados de maneira cuidadosa. Desse modo, fica claro que selecionar os convidados é algo que demanda muita atenção das noivas, porque as obriga a delimitar o seu grupo social, como pode ser visto na fala: “... o sentido da festa também é você querer dividir aquele momento
com as pessoas que você... é... acha mais especiais na sua vida. Porque... é, é tão difícil listar na hora que você tá fazendo, tá vendo os convidados, né?” (NI).
A lista de convidados mostrou-se ser algo complicado para as noivas, afinal, além dos convidados do casal, há os convidados de ambas as famílias. Isso resulta ou em cortes ou em acréscimos na lista final, o que, em qualquer dos casos, requer uma seleção minuciosa de quem irá participar do evento. Até porque, principalmente no caso do acréscimo de convidados, “tem que selecionar direitinho, porque... custa... né?” (NI). Além do aumento dos custos, há também a impossibilidade de alterar o que foi previamente organizado.
Tal perspectiva é ilustrada pelo discurso de uma das noivas, que escolheu um local para a recepção do casamento que comporta determinado número de pessoas, o que, por si só é limitador. No caso dela, é provável que haja cortes na lista futuramente.
...até porque o local, por exemplo, ele não supor... ele suporta uma quantidade x
de convidados, então, desde o início, quando a gente fez uma lista prévia, né, de
que, de que... das pessoas que...que iriam participar e tudo mais, que é mais família, né? São poucos amigos... e, e... a gente escolheu o local justamente porque com...
conseguia suportar. E agora, como tá surgindo (gestos): ah, fulano vem, fulano
não vem, e tudo mais... aí a gente fica preocupado, porque não tem como expandir
mais o local.. então, não tem mais como mudar o local... e aí? (riso) Como é que vai
fazer? Então isso me, me deixa muito apreensiva... né? (NX)
Portanto, assim como os elementos mais inerentes ao ritual, como os artefatos e o roteiro, os papéis performáticos e o público do ritual são fundamentais. Como muitas noivas afirmam, sem a presença dos convidados, não há por que elaborar o evento, posto ser ela um dos motivos pelos quais o casamento é tão idealizado. O discurso de uma das noivas reflete essa noção: “a gente quer que saia tudo perfeito, pra que eles (convidados) se sintam
realmente prestigiados naquele, na festa, entendeu?” (NV).
Observa-se, ainda, que o consumo ritualístico é abundantemente simbólico, uma vez que representa um rito de passagem, não sendo um consumo ordinário, mas que desempenha uma função específica dentro de um contexto único. Ritos de passagem e papéis sociais em transição, em geral, estão relacionados ao consumo, tendo em vista que são permeados de construções culturalmente idealizadas (THE VOICE GROUP, 2010).
Nesse sentido, o consumo simbólico serve como um suporte durante a aquisição de um novo papel social, tendo em vista que visa a representar adequação à nova fase transitória. Isso porque, o consumo simbólico possui um significado emocional que ultrapassa a função utilitária do objeto, assumindo um caráter fundamental no processo de transição vivenciado (NOBLE; WALKER, 1997).
Sendo assim, coloca-se que o consumo simbólico no contexto do casamento, materializado principalmente pelo consumo dos elementos do ritual, é capaz de amenizar o estado transitório liminar no qual a noiva se encontra, tendo em vista que possibilita uma proximidade com a nova identidade, a de casada. Portanto, é importante considerar a influência do estado transitório liminar no consumo das noivas, que será discutida seguidamente.