Notational conventions
2 Two planes – developing the research questions .1 Introduction .1 Introduction
2.5 From cultural discussion to linguistic evidence – the incorporation claim incorporation claim
2.5.3 The cultural plane – the eco-radical vision for reality
A transição de papel social requer uma mudança nos hábitos de consumo. Isso ocorre em virtude da necessidade de adaptação, representada por objetos de consumo direcionados para a nova fase de vida. O consumo, portanto, está relacionado aos ritos de passagem, na medida em que atua como facilitador da transição (NOBLE; WALKER, 1997).
No caso específico do casamento, o consumo possibilita a confirmação da nova identidade da mulher, por meio da aquisição de objetos referentes ao papel de nubente ou mesmo de casada. Sendo assim, a partir do momento em que as entrevistadas decidiram casar, mesmo que estivessem noivas há anos, seus hábitos de consumo se direcionaram para o ritual que marca a transição propriamente dita.
Bom... na verdade, apesar de eu ser bem consumista, assim de, de parte de, de roupas, acessórios... eu procurei economizar pra investir no casamento. Então, assim, se eu queria comprar duas, três, quatro blusas, eu comprava só uma, porque deixava uma parte pra poder guar... guardar e gastar em alguma coisa que eu
queria inventar, que eu sabia que ia acontecer, para o casamento (NII).
Você acaba a se voltar muito mais pra festa. Lógico que tinha dia que eu fazia,
não, eu to merecendo um brinquinho... né? Mas assim... vo... é... você dorme e
acorda pensando naquilo, né? No que você tem que comprar, e faz lista, (...), você começa a respirar casamento, então tudo você, você começa a ver: não, tenho que comprar... lembrancinha, tem que comprar lacinho, tem que comprar
florzinha, caixinha de doce, tem que juntar dinheiro pro vestido, tem o sapato, brinco... então, assim, é muita coisa. Quando você começa a listar... (NI)
Os hábitos? (...) Mudou assim, em relação a.. eu não ando consumindo muita
coisa...pessoal pra mim; eu fico pensando em economizar no que eu... pra mim,
tipo, eu não vou comprar roupa, não vou comprar perfume, essas coisas, porque eu acho que o dinheiro dá pra eu comprar uma lembrancinha, dá pra eu investir não detalhezinho do convite... aí eu fico... economizando no pessoal, pra investir na
festa (NIX).
Quase não comprava na... comprei nada pra mim. (...) Nesses 3 meses, a única coisa
que eu paguei pra mim foi o vestido, mas que era pro casamento. O resto... não,
eu comprei, comprei pra lua de mel, assim, umas linge... mas era pro casamento,
também (NIV).
A mudança efetiva nos hábitos de consumo varia de acordo com cada noiva. Porém, quanto mais próximo o evento, mais os relatos evidenciam o casamento como o principal motivador do consumo atual das noivas. Tanto que as entrevistadas que irão casar em novembro de 2012 e em abril de 2013 não reconhecem grandes modificações em suas práticas de consumo. Uma delas expõe que:
(pausa) eu acho que pensar... é, é... como é que eu posso explicar? Pensar assim não, não... já ser mais palpável, realmente já é, mas não em todas as minhas atitudes. Por exemplo, essa do, do, de comprar, eu não vou comprar, eu não compro uma
coisa hoje pensando que daqui a um ano... até porque, daqui pra, pra um ano as
coisas vão ser, é... talvez eu me interesse por outras coisas também (NXI)
Observando-as com base no modelo de transição liminar (NOBLE; WALKER, 1997), pode-se dizer que estado liminar delas ainda não está fortemente desprendido simbolicamente do papel anterior. O consumo atua justamente como suporte durante o processo entre a ambiguidade de papéis e o pressuposto simbólico do novo papel a ser assumido. Contudo essas noivas não atribuem ainda o valor simbólico que esse consumo possui enquanto reforçador da sua nova identidade. Em contrapartida, ambas surpreendem-se quando percebem mudanças mais significativas nos hábitos do casal, principalmente em termos de consumo com lazer, como pode ser visto no discurso de uma delas, a seguir:
Vou te falar... é... antes a gente... é... quando, quando... antes de começar mesmo,
né? A, a... a, enfim, a ir atrás dos fornecedores e tudo mais, e de pensar realmente não, não... no casamento, a gente, é... saia mais (entonação de reconhecimento), a gente viajava mais... realmente... isso aí eu não tinha atentado pra esse fato...
não, não só o consumo... fi, físico né? De bens. Mas, a gente viajava mais, a gente ia mais pra festa, e isso diminuiu assim... bastante, do ano passado pra cá (NX). É perceptível que quanto mais próximo o casamento, maiores são as diferenças nos padrões de consumo das noivas. Elas relatam que mudaram efetivamente seus hábitos quando marcaram a data, o que denota que o casamento, como evento gerador objetivo, é o que motiva o desprendimento simbólico propriamente dito do papel de solteira. O noivado não tem a mesma função, tendo em vista que muitos casais permanecem noivos durante anos antes de marcar o casamento.
O noivado, na cultura brasileira, serve mais para fortalecer o compromisso do namoro e estabelecer uma promessa de casamento do que anteceder a data nupcial em si. Por isto, a maioria das noivas passou a direcionar seus hábitos de consumo para o casamento a partir da definição da data e não do noivado, embora alguns casais noivem já com a data do casamento definida. Duas delas, inclusive, sequer noivaram, uma vez que decidiram casar repentinamente. Algumas das entrevistadas, ao serem questionadas quando mudaram seus hábitos, disseram que:
Quando marcou data, porque então, quando a gente estava noivo, eu estava “banda voou” mesmo. Mas, depois que a gente marcou data, e como eu disse, o
casamento ia ser realizado em junho de 2011, eu... no final, assim, entrando 2010 eu
É, logo no início, não. Mas quando foi dando... mais ou menos uns seis meses, aí,
sim, começou a mudar muito mesmo (NIII).
Só quando eu comecei a gastar (ri bastante) é que eu vi os custos, aí eu falei: não vou economizar na outra parte (risos) (NIX).
O consumo relacionado à casa, também símbolo da mudança de vida, foi mencionado por duas noivas concomitantemente ao consumo do ritual. Há sentido na aquisição dos objetos que são direcionados para o período pós-ritual. Algumas não indicam essa preocupação, talvez porque ainda não tenham definido o local onde vão morar após o casamento, por exemplo. Realmente, tal situação não foi discutida por não ser foco desta pesquisa.
As entrevistadas que estão vivenciando a nova fase, já casadas, revelaram que seus hábitos de consumo ainda não se “equilibraram”. Uma delas explica que : “é, agora eu
só compro coisa pra casa (risos)” (NII). Enquanto outra concorda que: “depois do casamento, agora, só é casa” (NIII). Contudo, ambas acreditam que com o tempo as suas práticas de consumo serão voltadas para elas e para a casa, de maneira mais igualitária. Tal perspectiva está prevista no modelo de transição liminar (NOBLE; WALKER, 1997), pois o último estágio considera que as discrepâncias entre a identidade social e pessoal são reduzidas após o período liminar. Com o tempo, a identidade de casada será inerente a estas mulheres.
Entretanto, durante a fase liminar, o consumo de artefatos é direcionado para o ritual e para o pós-ritual, sem que haja usufruto imediato. Mas, até mesmo as duas noivas que, na época da entrevista, estavam sem renda, revelaram que suas práticas de consumo envolvem, sobretudo, os preparativos do casamento. A noiva NX explica que, embora esteja sem remuneração para gastos pessoais, o valor poupado para o casamento é algo intocável: “como a gente tinha esse orçamento só reservado pro casamento, então assim: se utilizar
dele, não tem mais...” (NX).
Conclui-se que as noivas, portanto, sacrificam seus hábitos pessoais de consumo, independentemente de como isto ocorra. Inclusive aquelas que não são responsáveis financeiramente pelo casamento tiveram seus gastos mais reservados para o evento. É interessante notar que esta mudança de hábito em relação às despesas pessoais acontece naturalmente, sem muita premeditação, porque ultrapassa o orçamento destinado ao casamento.
Com efeito, as noivas explicam, principalmente, que sacrificam seus gastos em detrimento de “novidades” ou “detalhes” que surgem no decorrer dos preparativos e que despertam o desejo de inserir no casamento. Tal noção pode ser relacionada ao consumo
conspícuo, pois o que não está previsto no orçamento é, geralmente, mais supérfluo e passível de funcionar como sinalização ostensiva ou singular.
Observa-se esta perspectiva no discurso da noiva NII: “eu só acrescentaria, muito mais... muita, muita, muitas coisinhas que eu queria... puxa, eu queria sousplat na mesa, na mesa da, da... da recepção”. No entanto, como ficaria muito caro, a noiva se contentou com mesas sem sousplats. Além disso, os objetos que detém maior valor simbólico são aqueles que cumprem mais do que sua função utilitária, como por exemplo, o vestido de noiva e as lembrancinhas, que não são escolhidos simplesmente para vestir ou para presentear. Ademais, os artefatos do ritual podem assumir a forma de objetos sagrados, quando usados em cerimônias religiosas (TREISE et al., 1999).
Posto isto, é pertinente compreender como as noivas se sentem nesse período liminar, uma vez que o consumo simboliza a mudança de vida, bem como é altamente idealizado para que concretize o “casamento perfeito”. Tal perspectiva é abordada na próxima categoria.