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A noção de proximidade vai revestindo, ao longo da obra de Lévinas, uma importância fundamental, pelo que merece um estudo pormenorizado também na terceira parte da nossa investigação

Tal como dissemos, o termo proximidade aparece, embora poucas vezes, em

Totalité et Infini566e, a partir de 1965, com o artigo ―Énigme et phénomène‖567, ganha importância na expressão do pensamento do autor, aparecendo incluído, em 1967, no título de um texto fundamental apresentado na segunda edição de En Découvrant

562 AE.a, pg. l0l-l02, AE.b, pg. 140. 563 AE.a, pg. 94, nota 8.

564 TI, 1961, pg. l09.

565 Sobre o sofrimento cf. ―Transcendance et mal‖, 1978, DVI, pg. 189-207. 566 Cf. Capítulo I, nº 1.

567 EE.a, pg. 203-216. Neste texto, Lévinas aproxima os termos enigma, transcendência e proximidade:

121

l‘Existence avec Husserl et Heidegger, ―Langage et Proximité‖568. Encontramo-lo também como título de um artigo publicado em 1973569, que reproduz, com alterações de pormenor, parte de ―Sensibilité et Proximité‖, Capítulo II de Autrement qu‘être, em que descreve a proximidade fora da ontologia e que é objeto de investigação nesta parte do nosso trabalho570.

Logo em ―L‘Argument‖ da grande obra em análise, Lévinas claramente indica o seu propósito de pensar para além da ontologia ao afirmar que ―a proximidade de um ao

outro é pensada aqui fora das categorias ontológicas‖571. Toda a leitura da obra publicada em 1974 tem que ter esta afirmação em conta, sob pena da sua total incompreensão. Grande parte das dificuldades com que os leitores deste livro se deparam provêm de não se ter em conta esta saída, ou tentativa de saída, da ontologia. O fato do autor conceber a proximidade para além do ser, para além da essência, de tal modo que na relação com o Outro não se verifique a sua integração na totalidade, é fundamental para a compreensão da sua filosofia572. Lévinas mostra ter consciência plena da importância da compreensão rigorosa da noção de proximidade como se pode verificar pela insistência em explicar bem o seu conteúdo.

Se na Terceira Parte do nosso trabalho deparamos com várias tentativas de precisão do conceito de proximidade nos textos publicados até 1967, veremos em especial neste número que o autor continua na procura dessa precisão na grande síntese que agora estamos estudando.

Ao tornar claro o que é a proximidade, Lévinas afirma que ela não significa fusão dos que estão próximos porque ela ―permanece distância diminuída,

exterioridade conjurada‖573. O que o autor quer expressar com o termo proximidade é a separação comunicante, possível entre seres separados que estão abertos um ao outro, proximidade essa impossível de ser pensada dentro da ontologia. Ela exprime uma

568 EE.a, pg. 217-236.

569 ―La proximité‖ in: Archives de philosophie, 34 (1971), pg. 373-391.

570 O texto que se encontra em Autrement qu‘être (pg. 102-124) retoma o artigo publicado em 1971 com

alguns acrescentos e outras pequenas modificações de redação sem importância para a questão aqui tratada. Atendendo ao que se acaba de dizer, não se fará qualquer referência ao artigo em causa mas sim ao texto de Autrement qu‘être ou au-delà de l‘essence.

571 AE.a, pg. l9. 572 Cf. AE.a, pg. 19. 573 AE.a, pg. l9.

122 comunicação sem fusão dos pólos em contato, do eu e do Outro quando estão face a face.

Aqui nos deparamos com o problema das relações entre a ontologia e a ética, tema para o qual o autor chama a atenção em ―L‘Argument‖ e que desenvolverá mais tarde574. A proposta não é, como uma leitura superficial da obra poderia levar a pensar, negar a ontologia ou o seu valor e necessidade. O que Lévinas apenas pretende mostrar é que o ser só tem o seu sentido justo se o ponto de partida for a proximidade, isto é, a ética e não a ontologia575. É na relação assimétrica eu-Outro que o ser e o seu sentido ganham valor devido às responsabilidades que o eu tem perante os muitos outros com os quais se cruza na vida576.

Não se pretende, ―desconhecer o ser nem tratá-lo com uma pretensão ridícula

de uma maneira desdenhosa, como o desfalecimento (défaillance) de uma ordem ou de uma Desordem superior‖577; não se pretende negar a ontologia e o seu lugar. O que se afirma é que nela não se encontra o sentido radical, a significância da própria significação. Como se verá, a proximidade de um ao Outro aparecerá como ―o Dizer

[que] precisamente não é jogo‖578 no espaço do qual o jogo do ser, a ontologia, adquire sentido. Porque a subjetividade é proximidade, ela está separada, não engloba o Outro nem é englobável por ele579 e o seu sentido não provém do ser.

A proximidade aparece como separação, ―irredutível à consciência de... e

descrevendo-se, se possível, como inversão da intencionalidade‖580. Isto significa que a proximidade não é uma categoria do conhecimento que comportando-se de um modo inverso, é estar exposto ao Outro de modo que a comunicação não é mera troca de informações. Não é o conhecimento que está na raiz da proximidade do eu. É precisamente o contrário: ―a intriga da proximidade‖, é que permite o conhecimento, isto é, a intencionalidade da consciência do eu partindo da proximidade não aparece

574 Cf. AE.a, pg. 195 e ss. 575 Cf. AE.a, pg. 19. 576 Cf. AE.a, pg. 33. 577 AE.a, pg. 19. 578 AE.a, pg. 6. 579 Cf. AE.a, pg. 17. 580 AE.a, pg. 60.

123 como ―força que vai‖ sem limites mas, porque intencionalidade de um eu responsável, está sujeita a limites na sua ânsia de saber581.

Se a proximidade não é originariamente conhecimento, ela também não é ação espontânea do eu. Ser próximo do Outro não é estar em ação sobre ele, é, pelo contrário, estar à sua mercê, o que, apesar de tudo, mantém ainda válido o aforismo da filosofia escolástica ―agere sequitur esse‖. Para os escolásticos, o ser era ação, atividade e, por isso, o que é próprio do ser da pessoa é agir. Para Lévinas, pelo contrário, o ser da subjetividade é passividade, pelo que o que lhe é próprio, o que se segue ao seu ser, é ser ―paixão‖582, é estar exposto ao Outro, às suas ordens. Neste sentido deve compreender-se a afirmação levinasiana ―a exposição a outrem é desinter-essamento -

proximidade, obsessão pelo próximo‖583, ―má consciência‖, dirá mais tarde Lévinas 584. Como tem sido sugerido, esta proximidade surge fora dos esquemas habituais. Sugerindo normalmente posse atual ou futura, aqui proximidade é doação585 e surge muito aparentada com a noção de sensibilidade que refletimos no número anterior. Como acabamos de ver, Lévinas afirma que a proximidade não é conhecimento; proximidade é Dizer que permite o acesso ao conhecimento, o que supõe ―a

sensibilidade e, desde logo, proximidade, vulnerabilidade e significância‖586.

Parece, contudo, não se verificar sinonímia entre sensibilidade e proximidade; será mais rigoroso dizer que vão a par. A subjetividade é sensibilidade e, por isso, é proximidade; esta significa na sensibilidade587 que é estar exposto ao contato do Outro sem qualquer mediação e a imediatez da sensibilidade é a proximidade que significa como proximidade e não enquanto experiência da proximidade588. A reflexão sobre a proximidade vai buscar o seu sentido à própria proximidade.

No número 6 do Capítulo III de Autrement qu‘être, Lévinas faz uma larga

exposição da noção de proximidade começando, logo no início do texto, por discordar da tendência natural que se tem de conceber espacialmente a proximidade. Lévinas

581 AE.a, pg. 62. Cf. ainda AE.a, pg. 62 nota 34. 582 Cf. AE.a, pg. 130, 130 nota 5 e pg. 144. 583 AE.a, 974, pg. 70-71.

584―La mauvaise conscience‖, 1981, DVI.a, pg. 265. 585 Cf. AE.a, pg. 72.

586 AE.a, pg. 86. 587 Cf. AE.a, pg. 96. 588 Cf. AE.a, pg. 96.

124 argumenta em favor da sua tese afirmando, em primeiro lugar, que a proximidade espacial tem em consideração a contiguidade do que a limita, pelo que é relativa a esta. Em segundo lugar, Lévinas pergunta se não será a contiguidade que é compreensível na proximidade, na aproximação, na vizinhança, no contato589.

Lévinas pretende mostrar que a proximidade espacial pressupõe a proximidade inter-subjetiva eu-Outro da qual até se deriva a homogeneidade espacial. É a significação humana da justiça que está na raiz da própria proximidade espacial. Nota- se aqui, como sempre, que para Lévinas tudo se origina e ganha sentido, até a proximidade geométrica, a partir da relação eu-Outro que é aproximação e contato. A proximidade é, antes de ser proximidade espacial, ―inquietude, não-lugar‖590. Ela é relação com o Outro, ―o sujeito que aproxima e que, por consequência constitui uma

relação na qual eu participo como termo, mas em que sou mais - ou menos - que um termo‖591. Não se trata, de uma relação objetiva como também não é uma relação subjetiva no sentido de relativa. É uma relação em que o eu não é definível porque ―eu

sou termo irredutível à relação e contudo em recorrência que me esvazia de toda a consistência‖592, pelo que

a relação de proximidade não podendo reconduzir-se a um modo qualquer de distância ou de contiguidade geométrica, nem à simples ―representação‖ do próximo, é já citação, de urgência extrema - obrigação anacronicamente anterior a todo o compromisso593.

Por outro lado, a proximidade não pode ser entendida como consciência dessa proximidade, o que, reduzindo-a ao conhecimento, seria a sua própria anulação. Considerar que a proximidade eu-Outro se identifica com a consciência dessa proximidade é pensar o eu originariamente como intencionalidade o que, em primeiro lugar, seria conceber o eu como atividade, o que está nas antípodas da filosofia levinasiana e, em segundo, seria a negação da separação própria da proximidade, que

589 Cf. AE.a, pg. 102 e AE.b, pg. 95 590 AE.a, pg. 103.

591 AE.a, pg. 103-104. 592 AE.a, pg. 104.

593 AE.a, pg. 127. Na obra em análise o termo ―citação‖ ocupa o lugar que o termo ―manifestação‖

ocupava em TI (Cf. P. RICOEUR, Emmanuel Lévinas, penseur du témoignage, in: Répondre d‘autrui, Emmanuel Lévinas, Neuchâtel, Éditions de la Baconnière, 1989, pg. 31).

125 seria considerar esta relação como uma objetividade, ―o que anularia a não-indiferença

ou a fraternidade da proximidade‖594.

Proximidade é, aproximação na fraternidade para além e para aquém da relação espacial, não se identificando com a consciência que dela se tem. ―A subjetividade do

sujeito aproximando-se é portanto preliminar, an-árquica, ante da consciência, uma implicação – uma prisão na fraternidade‖595. É nesta relação de fraternidade que Lévinas enraiza tudo, pois nela está a significância596.

A proximidade não é reduzida ao espaço nem à consciência que se tem de se ser próximo ou de se ter um próximo. A proximidade não é, pois, entendida em termos de conhecimento; não é reduzida ao pensamento representativo porque

a proximidade aparece como uma relação com Outrem, que não se pode resolver em ―imagens‖ nem expor-se em tema; com o que é não desmesurado relativamente à arqué da tematização, mas incomensurável, com o que não tem a sua identidade do logos kerygmático, pondo em cheque todo o esquematismo597.

Note-se que já encontramos formulações levinasianas muito semelhantes para falar do rosto. Para exprimir a concepção de proximidade, Lévinas utiliza o termo ―obsessão‖598, que se poderia pensar dialéticamente, isto é, poder-se-ia conceber uma reciprocidade entre o eu e o Outro que é minha obsessão. O autor, contudo, logo se apressa a rejeitar uma tal interpretação porque por esta via se ficava ao nível do universal, da consciência de..., do conhecimento, em que o todo subsumiria as partes de modo que o indivíduo ficaria dissolvido na totalidade. Não se trata de uma obsessão de um sujeito de conhecimento, mas a de uma ―subjetividade obsidiada pelo próximo‖599, subjetividade

sujeita à afecção por outrem, a qual, pela sua própria irreversibilidade, não se muda em pensamento universal: o sujeito afectado pelo outro não pode pensar que a afecção seja recíproca, pois a obsessão que ele poderia exercer sobre aquele que o obsidia, é ainda obsidiada600. Esta obsessão revela-se assim irreversível, sem reciprocidade; ela é

594 AE, pg. 104.

595 AE.a, pg. 104. Cf. ―Dieu et la philosophie‖, 1975, DVI.a, pgs. 117-119. 596 Cf. AE.a, pg. 104.

597 AE.a, pg. 126. 598 AE.a, pg. 105. 599 AE.a, pg. 105.

126 a ―subjetividade‖ do sujeito, [...] o para cá pré-originário da obsessão em que se anuncia o um-para-o-outro, relação com sentido único, não retornando, sob qualquer forma, ao ponto de partida, a imediatez do outro, mais imediata que a imediata identidade na sua quietude de natureza, a imediatez da proximidade601.

Estamos perante a assimetria eu-Outro que desenvolveremos mais adiante. Na proximidade, o eu é totalmente o ―eis-me aqui‖ que não espera qualquer resposta ou recompensa da sua ida para o Outro porque, mesmo que se verifique qualquer resposta ou recompensa, não foi esta perspectiva que provocou a caminhada. Ser subjetividade, estar na proximidade, é ser responsável. Pode até dizer-se que a proximidade é responsabilidade porque, apesar da reciprocidade que por vezes surge, deve afirmar-se ―que na responsabilidade que nós temos um pelo outro [na relação com o próximo], eu

tenho sempre uma resposta a mais a dar, a responder pela sua própria responsabilidade‖602.

Como se vai tornando claro, a proximidade tem em Lévinas um sentido profundo e original. Não se trata de uma relação espacial nem universal e recíproca mas individual, an-árquica e assimétrica na qual o eu surge como servidor e o Outro como próximo no sentido bíblico do termo: como o que está primeiro e a quem o eu deve servir.

A proximidade faz do eu um indivíduo. Ela é anterior à consciência que se tem dela própria; não é abstrata, é concreta e real, não organizando-se em ordem a uma totalidade. Não é recuperável pela memória, de modo a sincronizar o eu e o Outro.

Na proximidade não há sincronia mas ruptura, o que permite surgir a significância. O eu surge como responsável e, por isso, insubstituível. Não temos por isso uma subjetividade originária que depois se relaciona com o próximo. Primeiro há a proximidade603 e, por isso, o eu está an-arquicamente no acusativo604.

601 AE.a, pg. 106. 602 AE.a, pg. 106. 603 Cf. AE.a, pg. 108.

604 Cf. A.aE, pg. 107. Em todo o AE o eu, a subjetividade, aparece sempre no acusativo na sua relação

com o Outro. Indicamos as páginas em que o termo acusativo aparece para qualificar o eu ou a subjetividade: pgs. 14, 55, 69, 107, 134, 140, 143, 150 nota 21, pgs. 151, 157 nota 27, pgs. 159, 163, 177, 186, 195.

127 Esta proximidade que não é espacial nem consciência da aproximação nem fusão, ―é contato de Outrem‖605. No contato, não há a perda de alteridade de cada um dos elementos da relação. O próprio contato sublinha a separação, ―o tocante e o tocado

separam-se‖606, e é por isso que Lévinas introduz aqui um termo imensamente expressivo: designação. O contato é feito como se o Outro nada tivesse em comum com o eu, ―como se a sua singularidade [...] apenas respondesse à designação‖607. Mas este designar não significa captar-lhe a essência, colocá-lo num horizonte a partir de um conhecimento prévio. Do próximo não tenho qualquer conhecimento porque ―o

próximo, premier venu, me concerne pela primeira vez [...] numa contingência excluindo o a priori‖608. O eu não tem conhecimento de nenhum universal no qual integra o Outro. Se, por um lado, o contato com o Outro não parte do conhecimento que o eu tem dele, por outro, não é fruto da vontade do eu. ―Estou ligado a ele [...] antes de

toda a ligação contraída. Ele ordena-me antes de ser reconhecido‖609.

Para expressar este tipo de relação, Lévinas usa uma metáfora que foi buscar à relação parental e que também encontramos em Totalité et Infini: fraternidade. Não é porque conheço, ou porque quero, que o meu irmão é meu irmão. Antes do conhecimento e da vontade, o meu irmão tem essa relação comigo à qual não posso deixar de responder. Mesmo contra a minha vontade, o Outro é meu irmão com quem eu estou relacionado. A própria negação da relação é o reconhecimento de que a relação é inapagável. O próximo

é precisamente outro. A comunidade com ele começa na minha obrigação com respeito a ele. O próximo é irmão. Fraternidade irrescindível, citação irrecusável, a proximidade é uma impossibilidade de se afastar sem a torção do complexo – sem ―alienação‖ ou sem falta – insónia ou psiquismo610.

605 AE.a, pg. 108-109. 606 AE.a, pg. 109. 607 AE.a, pg. 109. 608 AE.a, pg. 109. 609 AE.a, pg. 109.

610 AE.a, pg. 109-110. É curioso comparar o significado dos termos insónia e psiquismo em AE e na obra

anterior de Lévinas. Nos primeiros escritos do autor, a insónia é-nos apresentada como uma das experiências que o eu tem do ser, do il y a (cf. EE.a, 1947, pg. 109 ss e TA, 1948, pg. 25. Luis Carlos SUSIN, em O Homem Messiânico. Uma Introdução ao Pensamento de Emmanuel Lévinas traduz il y a por ha; cf. Op. cit., Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, Editora Vozes, Porto Alegre/Petrópolis, 1984, pg. 150 ss.); a insónia aparecia como a experiência do mar do il y a do qual o eu só se pode libertar na relação com o Outro (cf. EI, 1982, pg. 51); não adormecer e permanecer eu consciente contra vontade, eis uma das experiências do il y a. Em AE.a a insónia é a vivência da

128 O próximo não é objeto de conhecimento porque, de alguma maneira, conhecer é criar e aniquilar e a aproximação do próximo é estar a ele submetido. Antes de o conhecer já o eu está ao seu serviço, a obedecer-lhe. Ele é irmão e, por isso, a relação do eu para com ele é a obsessão de um perseguido. Antes de ter conhecimento do Outro, o eu já está obcecado e perseguido por ele611.

Porque o Outro é obsessão, a relação com ele não se faz no equilíbrio da consciência da igualdade; ela é obsessão, perseguição que desequilibra a relação porque perante o Outro o eu não pode ficar na serenidade da indiferença. A proximidade do Outro afeta o eu antes de ele ter consciência do Outro. ―O próximo bate-me antes de me

bater como se eu o tivesse ouvido antes que ele me fale. Anacronismo que atesta uma temporalidade diferente da que escande a consciência‖612. A obsessão pelo Outro não tem origem no tempo sincronizável da história; é imemorial o tempo a partir do qual a subjetividade é obsessão e, por isso, o autor afirma que ―

na proximidade se ouve um mandamento vindo como de um passado imemorial: que nunca foi presente, que não começou em alguma liberdade. Esta maneira do próximo é rosto613.

Surge aqui a noção de tempo descontínuo presente na obra em análise e que trataremos desenvolvidamente mais adiante614. Reencontramos assim, na síntese de 1974, uma das noções fundamentais de Totalité et Infini em que o autor expressa a subjetividade sempre inobjetivável do Outro por quem o eu é an-arquicamente responsável. ―O rosto do próximo significa-me uma responsabilidade irrecusável,

precedendo todo o consentimento livre, todo o pato, todo o contrato‖615.

Do rosto do Outro não posso ter uma representação; não o posso cristalizar na sua forma plástica, não consigo objetivá-lo. Não me posso assenhorear dele porque, forte na sua debilidade, ele está sempre a exigir uma resposta mesmo antes que eu tenha consciência dele a quem devo responder. Isto é, perante o Outro, o eu está sempre

subjetividade como responsabilidade. Sobre este tema da insónia no sentido de AE.a cf. ―De la conscience à la veille. À partir de Husserl‖, 1974, DVI.a, pg. 47 ss; ―Dieu et la philosophie‖, 1975, DVI.b, pg. 98-99. Quanto ao termo psiquismo, aparece em TI (pg. 24) significando vida interior separada que resiste à totalização. Em AE o psiquismo é o que está no eu e faz dele um sujeito, uma subjetividade. Este psiquismo será descrito por Lévinas como presença do Outro no eu que fará deste uma subjetividade.

611 Cf. AE.a, 1974, pg. 110. 612 AE.a, pg. 112.

613 AE.a, pg. 112. 614 Cf. Capítulo X. 615 AE.a, pg. 112.

129 atrasado, ―atraso irrecuperável‖616 sugerido pelo autor com esta citação do Cântico dos

Cânticos 617: ―Eu abri... ele tinha desaparecido‖618. Na proximidade o Outro não é redutível à sua imagem, à tematização, à representação que o eu pode dominar. A sua pele não é imóvel como a máscara mortuária. Ele aparece citando-me de tal modo que me não posso escusar. Na proximidade o Outro surge na distância e o meu atraso na resposta é irrecuperável porque ele não é fenomeno mas rosto.

O Outro surge na proximidade, o seu ―aparecer é perfurado pela nova epifânia -

pela beleza - ainda essencial - do rosto‖619. Na proximidade, a objectivação é impossível porque no rosto se verifica a

forma ambígua de uma suprema presença assistindo ao seu aparecer, perfurando de juventude a sua plasticidade, mas já desfalecimento de toda a presença, menos que fenomeno, já pobreza que esconde a sua miséria e que me chama e me ordena620.

Para mostrar que o Outro não é fenomeno, Lévinas sublinha que, na proximidade do rosto, o Outro surge na sua nudez, o que ―interrompe a ilacerável

essência do ser‖621. A sua pele não é proteção ou superfície; pela sua finura ela é ―ambiguidade do fenomeno e da sua defeção‖ 622. Ela é pobreza exposta e retirada dessa exposição; exibição e encobrimento. Mesmo quando se expõe à carícia, a pele não é objetivável. ―A carícia é o não coincidir do contato, uma desnudação nunca

suficientemente nua‖623. É assim que a pele é o abismo que permite a alteridade:

ternura da pele, é a própria decalage entre aproximação e aproximado, desproporção, não-intencionalidade, não-teleologia: de onde desordem da carícia, diacronia, prazer sem presente, piedade, dolência. A proximidade, a imediatez, é fruir e sofrer pelo outro624.