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5.1 Experiments at NTNU

6.1.2 Cross-Platform Validation

Com o intuito de contribuir com a ampliação das pesquisas no âmbito da formação de professores de línguas na perspectiva da prática crítico-reflexiva, por intermédio do uso de filmes sobre professores como mediadores da ressignificação identitária e profissional, escolhemos como metodologia a Pesquisa-Ação (doravante P-A) de Barbier (2007).

Como método de pesquisa, a P-A está inserida no paradigma qualitativo- interpretativista de pesquisa, o qual tem ganhado cada vez mais espaço no campo da educação e também da LA. Segundo Moita Lopes (1994), a pesquisa interpretativista pode contribuir de maneira mais reveladora, pois não objetiva verificar hipóteses previamente estabelecidas, mas sim investigar como se dá o processo pelo qual o homem, usando a linguagem, significa e ressignifica o mundo através das relações sociais. Desse modo, na posição interpretativista, “não é possível ignorar a visão dos participantes do mundo social caso se pretenda investigá- lo, já que é esta que o determina: o mundo social é tomado como existindo na dependência do homem” (MOITA LOPES, 1994, p. 331).

Assim, na perspectiva interpretativista da LA, é mais relevante focar nos aspectos processuais do que no produto, ou seja, nas relações intersubjetivas do sujeito. Tem-se, portanto, a possibilidade de um mesmo objeto ser desenvolvido por diferentes visões, pois o pesquisador e seus métodos nunca são neutros.

Entendemos que a P-A é uma metodologia que coaduna perfeitamente com a perspectiva sócio-discursiva e dialógica de linguagem (BAKHTIN/VOLOSHINOV, 1929/2004, FARACO, 2009), bem como com a concepção de identidades sociais como algo que não está nos indivíduos, mas que é construído de maneira posicionada por eles através da interação em práticas discursivas (MOITA LOPES, 2002). Nesse sentido, a linguagem para essa metodologia assume um caráter primordial, pois é através dela que os sujeitos (professoras) participantes da pesquisa puderam desenvolver sua reflexão crítica.

Na verdade, é a própria linguagem que atua na constituição e na transformação da identidade do sujeito, pois a relação entre este e o outro apenas é possível pela palavra, ou seja, pelo exercício de linguagem que ambos realizam. Segundo Bakhtin/Voloshinov (1929/2004),

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Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à coletividade. A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apoia em mim numa extremidade, na outra se apoia sobre o meu interlocutor (BAKHTIN/VOLOSHINOV, 1929/2004, p. 113).

Cumpre ressaltar que a P-A exige um maior engajamento tanto por parte dos participantes da pesquisa quanto do pesquisador, tornando fundamental que este compreenda melhor a problemática do fazer pesquisa nas Ciências Humanas, uma vez que neste campo de investigação as relações com a subjetividade e a figura do outro são definitivamente bem mais estreitas. Portanto, é pertinente fazer algumas considerações acerca da importância do outro para o trabalho mais eficiente do pesquisador.

Amorim (2004) reflete sobre alguns conceitos, como o de discursividade, com base na teoria bakhtiniana de dialogismo, a fim de explicitar a relação existente entre o ato de pesquisar e a questão da alteridade. A discursividade constitui-se em um elemento que está presente no trabalho de campo da pesquisa e na escrita do texto científico, porque existe nestes dois espaços dialógicos a figura do outro, ou seja, o próprio texto oral e escrito necessita da presença de um interlocutor, o qual pode dizer algo diferente daquilo que já foi dito em determinado discurso. No processo de realização do trabalho de campo, podemos dizer que a interação ocorre, principalmente, por meio da oralidade e, portanto, ao se fazer P-A na contemporaneidade, o pesquisador, assim como o cineasta, juntamente com seus colaboradores, não realizam friamente uma pesquisa, mas sim estabelecem um encontro caloroso uns com os outros. Esse encontro é estabelecido pelas vias da identificação, da empatia e da naturalidade.

A alteridade, como um elemento inerente a toda atividade de pesquisa, passa a ser concebida nas Ciências Humanas como uma alteridade humana. Esta que faz o conhecimento ser produzido por intermédio da linguagem, de modo que o objeto da pesquisa é inicialmente visto pelo pesquisador como um estranho para, posteriormente, ser traduzido para o âmbito familiar, sucessivamente. Sobre isso, podemos refletir acerca do fato de que

em torno da questão da alteridade se tece uma grande parte do trabalho do pesquisador. Análise e manejo das relações com o outro constituem, no trabalho de campo e no trabalho de escrita, um dos eixos em torno dos quais se produz o saber. Diferença no interior de uma identidade, pluralidade na unidade, o outro é ao mesmo tempo aquele que quero encontrar e aquele cuja impossibilidade de encontro integra o próprio princípio da pesquisa. Sem reconhecimento da alteridade não há objeto de pesquisa e isto faz com que toda tentativa de compreensão e de diálogo se construa sempre na referência aos limites dessa tentativa. É exatamente ali onde a impossibilidade de diálogo é reconhecida, ali onde se admite que haverá sempre uma perda de sentido na comunicação que se constrói um objeto e que um conhecimento sobre o humano pode se dar (AMORIM, 2004, pp. 28-29).

81 A partir dessas proposições sobre o outro, podemos concluir, parcialmente, que por mais que haja métodos e técnicas de pesquisa que pretendam ensinar o pesquisador como fazer pesquisa, pois este a todo o momento é perturbado por seus próprios questionamentos referentes às estratégias de como encontrar o outro, como fazê-lo falar, ouvi-lo, compreendê- lo, traduzi-lo e deixar ou não ser influenciado por ele, o pesquisador somente irá encontrar respostas para seus questionamentos quando e onde menos espera. Muitas vezes, as respostas estão na naturalidade, no acaso e no diálogo (AMORIM, 2004).

Em nossa proposta de pesquisa, o outro é representado por professoras de línguas em formação, as quais, através do exercício da prática crítico-reflexiva, puderam transformar e ressignificar suas identidades, bem como analisar e interpretar sua própria prática. Há também o outro representado no discurso dos filmes, os quais foram assistidos pelas professoras participantes. Portanto, a criação de espaços para que o professor possa refletir é importante, porque a constituição desse profissional é bastante complexa (MAGALHÃES, 2004). Além disso, os trabalhos realizados por essa pesquisadora indicam que

os modos como a linguagem vem sendo enfocada nos contextos de formação nem sempre possibilitam aos participantes a desconstrução de representações tradicionais que têm uma sólida base em uma pedagogia que entende ensino-aprendizagem como transmissão e devolução de conhecimentos e está apoiada em um conceito estruturalista de linguagem (MAGALHÃES, 2004, p. 47).

Com isso, para que haja uma transformação gradativa do perfil dos profissionais professores, é essencial atrelar a teoria à prática, no sentido de se construírem as competências e os saberes necessários à profissão de maneira dialógica, descrevendo, analisando, confrontando e ressignificando, sempre considerando que o ideal a ser desenvolvido é a práxis, ou seja, um processo no qual a teoria e a prática se completam numa perspectiva sociocultural ampla.

A P-A estabelece uma relação direta com a perspectiva de formação de professores com vistas a desenvolver uma prática crítico-reflexiva, pois está interessada em problematizar e solucionar questões que emergem da e na sala de aula coletivamente, ou seja, pela participação direta do pesquisador e de outros sujeitos também envolvidos na construção de sentidos. É por isso que a P-A dialoga diretamente com a perspectiva da pedagogia do oprimido, defendida por Freire (1970/2013), que se preocupa com a emancipação do sujeito.

Apesar das várias vertentes de P-A descritas na literatura, optamos pela proposta de P-A existencial de Barbier (2007), a qual está baseada na teoria do pensamento complexo de Morin (2011). Fizemos essa opção porque entendemos que ela se apresenta como mais

82 promissora no que tange ao trabalho com filmes aplicados à formação crítico-reflexiva de professores de línguas. Esse método convida o pesquisador a lançar novos olhares sobre a complexa realidade investigada e sobre as ciências do homem e da sociedade. A P-A é possuidora de uma intersubjetividade que “leva inevitavelmente o pesquisador para regiões de si mesmo que ele, sem dúvida, não tinha vontade de explorar” (BARBIER, 2007, p. 33). Além disso, a P-A

obriga o pesquisador de implicar-se. Ele percebe como está implicado pela estrutura social na qual ele está inserido e pelo jogo de desejos e de interesses de outros. Ele também implica os outros por meio do seu olhar e de sua ação singular no mundo. Ele compreende, então, que as ciências humanas são, essencialmente, ciências de interações entre sujeito e objeto de pesquisa. O pesquisador realiza que sua própria vida social e afetiva está presente na sua pesquisa sociológica e que o imprevisto está no coração da sua prática. [...] O pesquisador descobre que na pesquisa-ação, que eu denomino pesquisa-ação existencial, não se trabalha sobre os outros, mas e sempre com os outros (BARBIER, 2007, p. 14).

A P-A existencial de Barbier (2007), ao convidar o pesquisador e os outros atores sociais envolvidos na pesquisa a se implicarem na situação de reflexão, exige que eles exercitem sua sensibilidade, a fim de compreender, dialeticamente, como o conhecimento é construído pelas relações entre os sujeitos, os outros e os signos ideológicos, nesse caso os filmes. Isso é importante, porque é através da palavra, ou seja, da fala, da enunciação, que os signos passam a ser determinados e a representar as leis econômicas e sociais das instituições. Sobre isso, Bakhtin/Voloshinov (1929/2004) aponta que:

[...] a palavra funciona como elemento essencial que acompanha toda criação

ideológica, seja ela qual for. A palavra acompanha e comenta todo ato ideológico. Os processos de compreensão de todos os fenômenos ideológicos (um quadro, uma peça, um ritual ou um comportamento humano) não podem operar sem a participação do discurso interior. Todas as manifestações da criação ideológica – todos os signos não-verbais – banham-se no discurso e não podem ser nem totalmente isoladas nem totalmente separadas dele (BAKHTIN/VOLOSHINOV, 1929/2004, pp. 37-38).

Portanto, observando que os indivíduos são, por natureza, seres de linguagem e que por meio dela eles podem exercer sua cidadania e, consequentemente, se emanciparem, a proposta de se promover reflexões críticas com professores de línguas em formação acerca das identidades é essencial para que eles conheçam melhor a realidade da profissão. Essas discussões orientadas pela P-A assumem um papel político e pedagógico quando o objetivo é discutir as representações ideológicas presentes no cinema acerca da profissão “professor de línguas”, pois a assistência a filmes sobre professores no processo de formação pode

83 significar a possibilidade de se desenvolver nos jovens que já optaram pela licenciatura em Letras uma identificação positiva com a profissão de professor de LE. Nessa perspectiva, Gimenez (2013) salienta que a P-A, atrelada a pesquisas que investigam as crenças de professores de línguas sob uma perspectiva indisciplinar31 (MOITA LOPES, 2006) de LA, é amplamente promissora para que essa mudança se efetive.

Por outro lado, Gimenez (2013) faz uma crítica ao fato de que, muitas vezes, a abordagem reflexiva pode não gerar os resultados de mudança, caso a reflexão passe a ser uma zona de conforto com um fim em si mesma. Isto é, não promove uma transformação da identidade do professor em formação. O mais adequado seria que este construísse o conhecimento, os saberes e agregasse as competências desejáveis através do engajamento nas atividades da profissão, fazendo uso de uma constante crítica reflexiva.

Além da implicação, do investimento e do exercício de sensibilidade que os sujeitos envolvidos com a P-A se dispõem a realizar, o seu caráter emancipatório e libertador conduz os participantes da pesquisa a questionarem coletivamente os sistemas impositivos e burocráticos da sociedade.

Barbier (2007) assevera que sua P-A existencial tem foco na afetividade, de modo que a experiência é mais importante do que a competição, ou seja, a experiência é mais rica e repleta de “[...] uma complexidade crescente do Potencial Humano” (p. 67). Apresenta-se também “[...] como uma arte de rigor clínico, desenvolvida coletivamente, com o objetivo de uma adaptação relativa de si ao mundo” (p. 67).

Ela aborda a realidade de maneira intuitiva, criativa e sensível, sem ser possível saber qual será o resultado final, que consiste na mudança, na transformação dos atores envolvidos na pesquisa em relação à condição inicial da realidade. Isto é, “[...] consiste em uma mudança possível do sistema vivido de representações, de sensações, de sentimentos, de pensamentos, de valores de cada participante [...]” (BARBIER, 2007, p. 72).

Ainda observando as reflexões postas por Barbier (2007) sobre a P-A ser desenvolvida coletivamente por aqueles nela implicados, evidencio o fato de que eu como pesquisador- participante desta pesquisa e as professoras investigadas procuramos nos constituir ao longo do processo como sujeitos “verdadeiramente envolvidos pessoalmente pela experiência, na integralidade de nossa vida emocional, sensorial, imaginativa, racional” (p. 70).

A seguir, tecemos algumas considerações acerca do construto “complexidade” na constituição da P-A Existencial.

31 O aspecto indisciplinar da LA relaciona-se ao fato de o seu campo de estudo não se ater apenas a uma área de

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