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5.2 Cross-correlation functions

As reformas pretendiam reestruturar saberes e práticas escolares das instituições públicas oficiais de ensino, e eram baseadas nas ideias e metodologias do movimento renovador pedagógico. As mudanças escolares surgem do pretexto que fica bem claro nas palavras de Lourenço Filho (1935, p. 22).

[...] uma grande reforma de costumes, capaz de ajustar “os homens a novas condições e valores de vida, pela pertinácia da obra de cultura, que a todas atividades impregne, dando sentido e direção à organização de cada povo. (LOURENÇO FILHO, 1935, p 22)7

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Portanto, não bastava à escola ensinar a ler, escrever e contar, a instituição deveria se comprometer a “ajudar os homens a novas condições e valores da vida”. Desta maneira, há um redimensionamento político, cultural e social da instituição escolar: seus métodos, espaços e tempos que são reconfigurados. O intuito de tal reformulação é constituir uma escola gratuita, leiga, pública e de coeducação, para disponibilizar o ensino para todos como meio de construir uma nação civilizada, como nos moldes europeus e americanos. Para Veiga (2011) o período republicano possui uma característica reformista intensa, pois seus esforços se voltam para a reforma das instituições e para a ideia do seu potencial reformador dos indivíduos e da sociedade.

Neste sentido, para legitimar as reformas, e ganhar visibilidade da opinião pública, são iniciadas Conferencias, Inquéritos, Cursos de Férias e Congressos que envolviam professores, diretores e inspetores escolares. Para as famílias são criados círculos de pais e mestres que faziam “ecoar para além do universo burocrático das providências legais, o apelo modernizador das reformas” (CARVALHO, 2007, p. 233). Para justificar o modelo pretendido, as elites políticas se voltavam para o professor com o discurso de convocação para realização deste grande projeto. Assim, Francisco Campos – reformador da instrução publica em Minas Gerais – retomava que não bastava apenas alfabetizar, mas construir um cidadão modelado para os processos e métodos da vida.

O futuro das instituições democráticas depende, sobretudo, da orientação e do incremento do ensino primário. Saber ler e escrever não são, porém, títulos suficientes à cidadania digna desse nome. Não basta, pois difundir o ensino primário para dilatar os limites da cidade. Se este ensino não forma homens, não orienta a inteligência e não destila o senso comum, que é o eixo em torno do qual se organiza a personalidade humana, por fazer eleitores, não terá feito cidadãos. (CAMPOS, 1930, p. 100)

Para executar o desejo e a aspiração na construção do novo cidadão republicano, as reformas educacionais buscaram se basear nos princípios inovadores e modernizantes do pensamento escolanovista. Nas palavras de Pedro Deodato de Moraes na 1ª Conferência Nacional de Educação, onde ele apresentava a tese “A Escola Nova” clareia a intenção do movimento renovador

A ciência oferece-nos hoje essa chave na psicologia experimental, o ramo mais fresco e viçoso do velho tronco maldito, que se enraíza no mercado original, e que tem crescido com seiva de suor de sangue e lágrimas.

A escola ativa...

É de escola nova que precisamos. Mas de escola nova brasileira, para o povo brasileiro com ideias brasileiros e com recursos brasileiros. De escola nova que prepare, dirija e fortaleça o nosso povo para a vida brasileira.

Não basta ensinar a ler; é preciso ensinar a habituar o brasileiro a trabalhar. Em regra geral, a nossa tendência é para lei do mínimo esforço. Ao comércio e à

indústria preferimos o funcionalismo. Enquanto o estrangeiro que aqui chega procura progredir e mesmo enriquecer pelo ativo e constante, o brasileiro se contenta com um emprego público e a doce visão de um acesso fácil.

Só a Escola Nova será capaz de fornecer ao Brasil homens vigorosos e sãos, inteligentes e bons, não com o cérebro recheado de teorias, de formulas e preceitos, mas de conhecimentos práticos, habituados a trabalhar, a bastar-se a si próprios, a vencer por si às dificuldades e ter a consciência exata do seu valor e do seu poder (MORAES, 1927, p. 611)8

A Escola Nova era a metáfora de salvação dos “pobres e incultos brasileiros”, deste modo, somente a educação nova e moderna poderia regenerar e reformar o “povo” para à República, por conseguinte, projetar a nação para o progresso econômico e social. Nas palavras de Anísio Teixeira, a escola tradicional não adequava a estes objetivos, desta maneira, discorria.

A escola é uma réplica da sociedade a que ela serve. A escola tradicional era replica da sociedade velha que estamos vendo desaparecer. É fácil demonstrá-la e mostrar que como todos os pressupostos em que ela baseava foram alterados pela nova ordem de coisas e pelo novo espirito da civilização.

A escola nova não pretende, por sua vez, se apoiar nesses fatos e nessa nova mentalidade. Como a escola tradicional, ela é replica da sociedade renovada em que vivemos (TEIXEIRA, 1930, p. 8)

O discurso do educador Anísio Teixeira expõe a necessidade de reformas nos métodos e práticas de ensino para a adequação a sociedade moderna que se instalava, e a proposição do descarte de métodos tradicionais de ensino. As práticas escolares consideradas inadequadas deveriam ser substituídas em nome de uma ciência pedagógica moderna que congregava fundamentos da Psicologia, Biologia e a Sociologia. Para um dos educadores envolvidos no ideal da educação nova Lourenço Filho em Introdução a Escola Nova, utilizar os conhecimentos bio-psiquicos e sociais surgia da necessidade de perceber o desenvolvimento infantil,

A aplicação de novos conhecimentos da biologia e da psicologia relativos ao crescimento da criança, seus estágios de maturação, organização das capacidades de aprender e diferenças individuais, e a segunda influenciada pelos estudos sociais e uma nova filosofia por eles inspirada. Na realidade, à medida que os conhecimentos biológicos e psicológicos se aperfeiçoavam, percebia-se que todos os aspectos da formação humana não eram independentes de influência da organização da vida social. Para exemplificar: o crescimento normal e a defesa da saúde na infância estão estreitamente ligados a condições de nutrição e habitação e, em consequência, às da situação econômica das famílias; a formação emocional e o desenvolvimento da personalidade não se apartam dos contatos e relações humanas, sendo igualmente favorecidos ou perturbados por elas. (LOURENÇO FILHO, 2002, p. 59)

Destarte, as práticas e métodos baseados nas ciências que se constituía o “novo” da escola nova. A aplicação pedagógica destas ciências permitiu avaliar de forma cientifica o

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desenvolvimento infantil. “A partir, de então, passou-se a elaborar dados objetivos, estabelecer referências, comparar, realizar diagnósticos, apreciar variações e sistematizar o ensino de acordo com as diferenças individuais, estabelecidas mediante triagens de grupos médios, “avançados” e “retardados” de crianças” (VEIGA, 2007, p. 212).

Neste sentido, os estudos científicos sobre a infância, o crescimento do número de alunos e da demanda por instituições de ensino levou a construção de nova escola. Com isso, as inovações apresentadas por educadores, como Rousseau, Pestalozzi e Fröbel foram consagradas e tentou-se sua efetivação. Diversas práticas passaram a ser utilizadas: estimular o interesse da criança, proporcionar aprendizado de acordo com suas potencialidades, adaptar a criança ao ambiente e realizar sua integração social. (VEIGA, 2007).

As concepções teóricas apresentadas pelo movimento escolanovista como, “a centralidade da criança nas relações de aprendizagem, o respeito às normas higiênicas da disciplinarização do corpo do aluno e de seus gestos, a cientificidade da escolarização de saberes e fazeres sociais e a exaltação do ato de observar, de intuir” (VIDAL, 2003, p. 497), reverberaram nos anos de 1920 e nas décadas seguintes, e povoavam o imaginário da escola. Assim, eram reproduzidos, como prescrição, nos textos dos relatórios de inspetores e nos preceitos legais.

A escola renovada pretendia a incorporação de toda a população infantil, que serviria de base à disseminação de valores e normas sociais em sintonia com os apelos da nova sociedade moderna, “construída a partir dos preceitos do trabalho produtivo e eficiente (CARVALHO, 1997)9. Com isso, o trabalho individual e eficiente tornava-se a base da construção do conhecimento infantil. Portando, “devia a escola, oferecer situações em que o aluno, a partir da visão (observação), mas também da ação (experimentação) pudesse elaborar seu próprio saber” (VIDAL, 2003, p. 498). Deste modo, deslocava-se o “ouvir” para o “ver”, e o ensino associava “ver” a “fazer”.

Este modelo torna o aluno centro de todo processo educativo, a preocupação maior é o respeito à criança e as suas características bio-psicológicas. Desta forma, o foco da ação educativa se desloca do adulto para criança, da sociedade para o indivíduo, do professor para o aluno (PEIXOTO, 1992).

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Neste sentido, os discursos escolanovistas impulsionavam uma nova dinâmica das relações escolares. O aluno assumia soberanamente o centro dos processos de aquisição do conhecimento escolar: aprendizagem em lugar de ensino (VIDAL, 2003). A psicologia experimental tão importante para o ideário escolanovista dava suporte à cientificidade pedagógica e produzia no discurso da escolarização das massas populares o efeito da individualização da criança. Esta somente poderia ser definida pelo recurso dos testes e à constituição das classes homogêneas que pretendia assegurar a centralidade da criança no processo educativo e garantir o respeito à sua individualidade em uma escola estruturada para o ensino de um número crescente de alunos. (VIDAL, 2003)

Na escola renovada a regulação das práticas escolares realizava-se pela contabilidade de ritmos e produção de gestos eficientes. “Os materiais da escola recebiam outra importância porque imprescindíveis à construção experimental do conhecimento pelo estudante. Os métodos buscavam na “atividade” sua validação”. (VIDAL, 2003, p. 498) Neste sentido, os discursos escolanovistas operaram mudanças significativas nos dispositivos da escola primária brasileira nos anos de 20 e 30 em busca da racionalização e adequação dos processos educativos em frente aos novos contextos sociais.

De todo modo, a escola renovada se fazia presente nas políticas educacionais dos estados brasileiros de forma diferenciada, devido a herança da divisão descentralizadora da administração do ensino primário ocorrida em 1834, no qual, cada província, e depois, os estados deveriam desenvolver a educação em seus territórios. Somente, a partir do decreto n. 19.402 de 1930 que instituiu o “Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública” no Governo de Getúlio Vargas, é que um órgão central propendeu a homogeneizar conteúdos, métodos, tempos e espaços escolares. Deste modo, cabe verificar como foi o processo de assimilação e reação do ideário escolanovista em Minas Gerais.