As teorias narrativas contemporâneas, apesar de transportarem consigo a herança teórica e metodológica da narratologia tradicional, configuram uma abordagem distinta, derivada da especificidade dos meios digitais e do seu impacto nos modelos de representação intrínsecos a outros meios, seja através da remediação de conteúdos, da convergência mediática ou da hibridação. Os textos produzidos nestes novos modelos narrativos possuem assim uma lógica funcional singular, que decorre das formas de expressão de conteúdos narrativos permitidas e configuradas pelo atual ecossistema mediático.
As teorias narrativas clássicas tomavam como objeto de estudo um corpus muito vasto, que, em larga medida, as antecedia e se alicerçava em convenções há muito estabelecidas. A preponderância da linguagem verbal nos modelos de representação narrativos, pelo menos até ao advento do cinema, e a prescrição de teorias universais da narrativa justifica a persistência do texto literário no seio narratologia. Por outro lado, a relativa estabilidade do texto literário e das características físicas do dispositivo dotaram a narratologia de um objeto de estudo com um nível de constância e invariabilidade que os meios digitais, ou mesmo o cinema, não conseguiram almejar. Se considerarmos Dom Quixote como o romance inaugural, à semelhança do que faz Michel Foucault em As Palavras e As Coisas (1991), que o classifica como “a primeira das obras modernas” (p. 103) ou aceitarmos que a profusão de detalhes no romance realista se deve a Honoré de Balzac e Gustave Flaubert (Wood, 2010, pp. 91-92), teremos que admitir que a narratologia identificou os padrões universais a que se propunha em textos ou convenções literárias reconhecíveis e preexistentes. A narratologia tradicional analisou preferencialmente textos há muito escritos e já amplamente interpretados. Todorov (1982), por exemplo, utiliza o Deccameron de Boccaccio, que é mesmo anterior ao
estabelecimento do romance como género autónomo, para identificar modelos macro- estruturais de plot. Barthes (1999) enuncia o conceito de lexia através da análise estrutural de Sarrazine de Balzac e Bakhtin demonstra a pluridiscursividade na heterogeneidade polifónica dos romances de Dostoievsky. As proposta da narratologia tradicional passam, sobretudo, pela exposição de propriedades e características invisíveis, mas preexistentes, e pela aplicação de novas ferramentas e metodologias a um corpus literário com uma vasta tradição.
As teorias narrativas contemporâneas, pelo contrário, elegem como objeto um corpus narrativo ainda largamente indefinido, numa fase quase embrionária que requer a utilização de modelos estranhos à narrativa ou a valorização de figuras tradicionalmente menosprezadas. Estes objetos textuais resistem à aplicação de muitas das categorias e figuras habituais da narratologia, combinando narrativa e jogo, linearidade e multi-linearidade, utilizadores promovidos a agentes da narrativa e a imposição de restrições à sua liberdade discursiva ou a conjugação do plot com interatividade. Estas teorias operam então nos limites ontológicos da narrativa, numa zona híbrida e indefinida, entre o nomadismo e a sedentarização, a disciplina e o caos, a estrutura e a cacofonia.
As faculdades, figuras e categorias enunciadas pelas teorias narrativas contemporâneas não são necessariamente novas, mas adquirem uma preponderância singular, assumindo-se como concêntricas no próprio processo de narração. São a concretização da transformação profunda que os meios digitais operaram no ecossistema mediático, anunciada por autores como Lev Manovich (2001, 2008), que viam no computador menos uma máquina de remediação que uma lógica funcional, e dos seus efeitos na produção de conteúdos em todos os meios, através da convergência e da hibridação. Ao contrário do códice, cuja funcionalidade não se alterou significativamente nos últimos mil anos, ou do cinema, cujo dispositivo de projeção permaneceu inalterado ao longo do último século, os meios digitais conheceram alterações profundas nos últimos quarenta anos. Não pretendemos olvidar ou depreciar a invenção da imprensa, que teve efeitos revolucionários na produção, difusão e até no manuseamento do livro, ou sequer as evoluções tecnológicas que o dispositivo cinematográfico integrou ao longo do século XX. Porém, com a exceção do advento do 3D no cinema, nenhum destes dispositivos configurou uma alteração tão significativa na substância da sua expressão como a transformação das máquinas textuais dos pioneiros da computação em sistemas gráficos operados a partir de redes informáticas ou de ecrãs tácteis.
O estabelecimento dos novos modelos narrativos não remete exclusivamente para condições técnicas, ainda que estas sejam determinantes. Estes modelos configuram também novos processos de narração e relações com o sistema textual. Tal como a prensa foi o catalisador do romance moderno, o desenvolvimento das bobines de projeção foi preponderante no estabelecimento da narrativa cinematográfica e a portabilidade do aparato tecnológico permitiu ultrapassar os limites convencionais da linguagem cinematográfica, a evolução dos
sistemas digitais materializou-se também em novos modelos de representação e expressão. A faceta mais notória dos novos modelos narrativos é a relevância que o leitor assume na sua lógica funcional, elevado a uma instância produtora do discurso narrativo e ontologicamente distinta do interpretador. A promoção do leitor a utilizador e, consequentemente, a agente da narrativa presume uma modalidade de organização que se distingue da narrativa tradicional, com o plot e a lógica narrativa imposta pelo discurso a verem a sua hegemonia refutada ou contestada.
A relação entre as novas modalidades narrativas e os legados da pós-modernidade é evidente e tem sido enfatizada por diferentes autores (Bolter e Grusin, 2000). Conceitos como hipertexto e texto escrevível, por exemplo, surgem na análise dos novos modelos narrativos como princípios doutrinários, sendo invocados no âmbito da ficção hipertextual, das narrativas transmediáticas (Long, 2007) e até nas incursões narrativas na ludologia. No entanto, a análise empírica destes textos implica o transporte destas figuras e categorias para a literalidade das suas aplicações, revelando, frequentemente, o descomprometimento funcional e formal destes textos em relação às teorias e doutrinas que, aparentemente, estão na sua base.
Os novos modelos narrativos sofrem assim de uma enorme indefinição, que se manifesta na dificuldade em identificar características e propriedades invariáveis nos seus processos de narração. Estes modelos parecem não possuir uma substância de expressão claramente definida, na medida em que assentam em meios em permanente reconfiguração, combinam as linguagens de diferentes meios num único texto ou integram uma pluralidade de textos com modalidades de expressão distintas.
Nas páginas seguintes tentaremos esboçar um estado da arte das teorias narrativas contemporâneas. Para este efeito, invocaremos alguns autores que têm trabalhado estes textos, tanto aqueles que enfatizam a sua dimensão narrativa como os que se opõem a abordagens narrativistas, e outros que, não tendo por base esta classe de textos, desenvolveram categorias e classificações cuja aplicação se revelou extremamente pertinente. Não pretendemos conjurar a narratologia desta classe emergente de textos, mas, pelo contrário, contribuir para o desenvolvimento de ferramentas e categorias que a permitam compreender e classificar a dimensão narrativa destes textos.