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PART I: FRAMEWORK AND STUDY DESIGN

3 Theoretical basis for the study

3.5 Knowledge and rationality

3.5.4 Creation of organizational knowledge

Embora tais demonstrações fenomenológicas pudessem ser consideradas plena- mente suficientes, ainda se faz necessária, segundo Heidegger (2002a, p. 292), uma a- presentação propriamente “explícita” desse caráter derivado da relação de correspon- dência. Enquanto tema expresso de discursos, as descobertas dos entes circunjacentes se

preservam em proposições e, assim, se propagam de tal modo que se sujeitam a cons- tantes recauchutagens em outros discursos. O pronunciamento se torna, por assim dizer, “um instrumento à mão”, disponível àqueles que participam desse “comércio” discursi- vo. Em virtude da preservação da referência ao ente descoberto, cada um se encarrega de averiguar uma possível relação de correspondência da proposição à mão com sua respectiva parcela de realidade, também à mão. Assim, uma experiência originariamente indócil à instrumentalização se desvirtua, segundo Heidegger, no burburinho desse

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“comércio” impessoal de discursos, caindo num profundo esquecimento, ainda que fo- mente, às escondidas, as correspondências que ali se realizam.

Todavia, parece haver um aspecto fundamental da própria experiência da verda- de que, embora possibilite toda a estruturação desse “comércio” entre os discursos, permanece à margem na descrição fenomenológica de Heidegger. De fato, a remissão àquilo que se visou no momento da descoberta se preserva na proposição que, por isso mesmo, quando se a enuncia num discurso, remete mais uma vez a isso que, outrora, se fez motivo daquele descobrimento. Essa preservação da referência à coisa em apreço na proposição, no entanto, também constitui a experiência da verdade, que Heidegger de- terminou preponderantemente como desvelamento. Para proporcionar o desenvolvimen- to da articulação de palavras em proposições, o descobrimento deve se preservar em remissão a... para, assim, promover a familiarização da existência humana com a coisa em questão. Familiarizar-se com... diz: elaborar uma composição de ser pela qual a apreensão disso junto ao qual nos encontramos adquire consistência e, assim, determina a maneira em que isso se nos presenta.

A determinação da maneira de ser das coisas circunjacentes orienta a nossa mo- vimentação no mundo, já que a preservamos em uma interpretação prévia à qual nos remetemos a todo instante no intuito de tomar atitudes cotidianas. As coisas somente podem se nos mostrar familiares desde que as incorporemos ao transcurso da nossa e- xistência, tornando-as momentos previamente integrantes de nosso mundo. Uma experi- ência exemplar desse fenômeno ocorre quando devemos reinterpretá-las à luz de outra perspectiva e, assim, reincorporá-las à nossa existência. Esse confronto com uma orien- tação renovadora nos põe em condições de realizar uma reabertura para a experiência de familiarização. Esse parece ser o principal intuito da filosofia, que, portanto, deve se valer da preservação da referência ao ente na proposição para se fazer tradição de pen- samento.11 – A verdade, enfim, consiste em descobrir e também preservar as coisas cir- cunjacentes no âmbito de influência da existência humana.

Haja vista a precedência da estruturação ontológica da existência em relação ao próprio existente concreto, como Heidegger tantas vezes reitera, o fenômeno da verdade

nos precede na medida em que nos constitui como seres humanos. Em decorrência dis- so, segundo Heidegger (ibid., p. 297), nós devemos pressupor a verdade. Porém, já que

11 Entretanto, Heidegger associa inadvertidamente esse fenômeno da preservação apenas ao “comércio”

impessoal de discursos, de sorte que inclui nele toda a tradição de pensamento, que evidentemente não pode se realizar sem se preservar em proposições, escritas ou orais.

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nos propomos acompanhar essa investigação dos fundamentos da nossa própria existên- cia, devemos ressaltar a significação em que se deve compreender o verbo “pressupor”. O linguajar comum pode nos induzir a tomar a verdade como uma “premissa” da qual dispomos para argumentar em prol de certas conclusões, de modo que poderíamos a- bandoná-la caso nos demonstrassem a sua falsidade. Não pressupomos a verdade nesse sentido, pois não podemos deixar de experimentá-la, já que o desvelamento se impõe desde os fundamentos da nossa existência. Todavia, se determinamos a verdade também como preservação, devemos reorientar a interpretação dessa precedência ontológica do desvelamento conforme as nossas próprias indicações.

Reproponhamos, portanto, algumas passagens importantes da nossa investiga- ção, a fim de preparar um contexto adequado para tal reorientação. Como já apontamos, as coisas se presentam sempre para aqueles que coexistem essencialmente numa con- cordância em torno da facticidade de tal presentação. Essa reciprocidade, assim tão afi- nada quanto ao essencial na lida com tais coisas, deve remontar à preservação de uma referência concretamente comum. Já Schleiermacher nos encaminhou em direção à pre-

cedência de uma concordância em que “nos apoiamos uns nos outros” na partilha de

analogias, possibilitando o desenvolvimento mútuo da experiência de interpretação. Não por acaso, essas considerações se desenrolaram no contexto da questão a respeito da

verossimilhança. Conforme nos recomenda nossa reorientação da interpretação feno- menológica, a verdade, em sua precedência ontológica enquanto desvelamento preser- vador da presentação das coisas, se configura primariamente num ambiente de compre- ensibilidade. Somente assim podem se consolidar pressuposições em comum que orien-

tam previamente qualquer experiência de interpretação.

De fato, como Heidegger (ibid., p. 297) nos mostra, “a verdade possibilita pres- suposições”; porém, somente na medida em que o desvelamento preserva como pressu- posto o modo em que a coisa se presenta para um ambiente de compreensibilidade. Num linguajar mais apropriado a Heidegger, o Dasein existe, sobretudo, como Mitsein. A possibilidade de pressuposição em geral consiste em preservar uma determinação hermenêutica possível em que a estabilidade da estruturação fenomênica das coisas é assimilada numa experiência comum de mundo. A preservação da remissão à coisa na proposição nos encaminha, portanto, não apenas para um “comércio” impessoal entre discursos mas também para uma determinação positiva do ambiente de compreensibili- dade, condição da interpretação. Uma hermenêutica pretensamente originária não pode se determinar pela renúncia, ainda que momentânea, aos influxos provenientes da coe-

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xistência, na qual, por fim, se configura a própria fenomenização da verdade. O desco- brimento das próprias coisas devém de e retorna a uma experiência eminentemente co- mum, que caracterizamos preliminarmente como tradição.