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A repetição pode ser compreendida enquanto onipresença de uma constância ou de uma tensão elementar que ressurge como persistência; porém, no que diz respeito à nossa leitura psicanalítica, a repetição sugere a diferença que se estabelece retroativamente entre o dado presente e o passado. Ou seja, não há elemento contínuo, e sim descontinuidade nas reiteradas afirmações que nos expõem às marcas da repetição. Levamos em consideração uma lógica sobre o tempo que permite contemplar a constante característica da pulsão no inconsciente atemporal de Freud. Retroativamente e a partir do recorte sistêmico dos enunciados na imprensa, aproximamos o sujeito do efeito e o sujeito farmacotímico de um ato inaugural interpretativo derivado da leitura como em uma pulsação temporal, onde o prevenir e o porvir se equivalem por aquilo que insiste como um sintoma.
Lacan [ 1997] estabeleceu a noção de tempo lógico em seus Escritos, publicado em 1966. Através do que designou como um novo sofisma, lançou um problema concreto, envolvendo um fictício diretor de presídio e três prisioneiros, para que fosse decifrado logicamente. O diretor do presídio prometera a liberdade ao prisioneiro de justificasse de modo razoável a solução do problema que lhes propusera. Entre cinco discos [ dois pretos e três brancos] , fixou um nas costas de cada prisioneiro, permitindo que todos pudessem observar o dos companheiros de cela, porém, sem ver o próprio. A questão era descobrir a própria cor, baseado apenas no raciocínio lógico. Na situação fictícia, o diretor colocou nas costas dos prisioneiros apenas os discos brancos. Em se tratando de uma questão lógica, surge evidentemente uma equivalência inaugural entre as condições dos prisioneiros. Logo, de um primeiro momento equivalente e impessoal, os sujeitos passam para uma situação de interação e indefinida reciprocidade, até chegar a uma conclusão ou à asserção de certeza antecipada sobre si e os outros de que se trata.
O processo de decifração do problema, segundo Lacan, é transpassado por dois movimentos de suspensão que reproduzem os tempos lógicos necessários para sua resolução. Assim, define três modalidades de tempo separadas por escansões: instante de ver, tempo de compreender e momento de concluir. O instante de ver é marcado pelo fato de que, estando diante de dois pretos, sabe-se que é branco; o tempo de compreender passa pelo raciocínio lógico de que, se o sujeito fosse preto, os dois brancos que vê não tardariam a se reconhecer como sendo brancos; e o momento de concluir aponta para o sujeito que se apressa na afirmação de ser branco, para que os outros brancos não se antecipem. Na demonstração do sofisma, Lacan atribui o juízo de conclusão ao sujeito que consegue formar uma asserção de certeza sobre si, cuja característica essencial é a antecipação sobre o juízo dos outros, na pressa de concluir e resolver o
problema. A asserção de certeza antecipada apresenta sinonímia com relação à emergência do sujeito no inconsciente, cujo diferencial revela-se mediante os significantes do Outro.
O Eu [Je 83] , sujeito da asserção conclusiva, isola-se por uma pulsação de tempo lógico a respeito do outro, isto é, da relação de reciprocidade. Esse movimento de gênese lógica do Eu por uma decantação de seu tempo lógico próprio é bem paralelo a seu nascimento psicológico. Do mesmo modo que, para efetivamente recordá-lo, o Eu psicológico se desprende de um transitivismo especular indeterminado, pela contribuição de uma tendência despertada como ciúmes, o Eu de que se trata aqui se define pela subjetivação de uma concorrência com o outro na função do tempo lógico 84.
Os passos para a resolução lógica do problema são discutidos por Lacan à luz dos movimentos de suspensão, ou moções suspensas entre os prisioneiros. Elas revelam as passagens entre os três tempos lógicos apresentados, e é importante considerar que as chamadas escansões suspensivas de tempo na seqüência do raciocínio tornam-se significantes. Para Lacan, algo se dá através da sincronia do movimento dos prisioneiros que subjetiva os três tempos, modulando a disposição de cada um segundo a mobilização dos outros, o que para fins dessa articulação os homogeneíza e faz produzir apenas um sujeito de pura lógica. Toda subjetivação inerente ao instante de ver, tempo de compreender e momento de concluir, é correspondente a uma transformação, passagem da impessoalidade para a reciprocidade, culminando no ato da enunciação. Porge [ 1994] trabalha sobre o tempo lógico em Psicanálise e tempo, de 1989, e observa que esses tempos de subjetivação se intercalam mediante três modos de falta.
É fundamental notar que a cada vez a subjetivação procede de uma falta: falta-a-ver, para o instante de ver, já que é a partir do fato de que os sujeitos não vêem dois pretos que eles podem subjetivar essa combinação num modo de tempo; falta-a-compreender, para o tempo de compreender, já que este é o tempo de compreender o outro, que se demarca pelo efeito produzido pela não-compreensão de supor um preto e um branco; falta-a-concluir, no momento de concluir, já que é o ato que antecipa a declaração da conclusão 85.
A função da falta está intrinsecamente ligada à falta-a-ser constitutiva do sujeito. Segundo Miller [ 2000] , o sujeito está subordinado à experiência temporal, e revela uma
83 O Eu [Je] é utilizado por Lacan como forma de definição do sujeito do inconsciente, para diferenciá-lo do
eu [moi] das identificações ou das relações especulares ou imaginárias primordiais.
84 LACAN, Jacques. “El tiempo lógico y el aserto de certidumbre anticipada. Un nuevo sofisma”. In: Escritos. Tomo I. México D.F.: Siglo Veintiuno, 1997, p. 197.
85 PORGE, Erik. Psicanálise e tempo. O tempo lógico de Lacan. Rio de Janeiro: Campo Matêmico, 1994, p.
inconsistência lógica em relação ao objeto causa do desejo, que se encontra na dimensão consistente do gozo. O sujeito se define na dimensão do tempo como um ser evasivo, fugaz, evanescente, assim como na experiência do presente. O sujeito encontra-se em relação aos significantes que o antecedem e sucedem, estabelecendo movimentos retroativos, sendo possível localizá-lo, porém, de maneira descontínua. É nisso que a particularidade do sujeito na teoria lacaniana encontra sentido na formulação do significante, onde ele se define como representado por um significante para outro significante, ou seja, absolutamente enlaçado à cadência cíclica da cadeia simbólica. Sua aparência difusa transparece através do ato ou do corte interpretativo, cuja reversão temporal permite situá-lo no intervalo dos significantes. Veiculado pelas sucessivas cadeias que movimentam metafórica e metonimicamente os significantes, o sujeito na dimensão do desejo inconsciente seria como uma fenda que se abre e fecha ao gozo da repetição, ganhando sentido na diferença sincrônica entre elementos discretos.
A reversão temporal, a que precipita incessantemente o presente no passado, é o próprio tecido da experiência corriqueira. A reversão temporal é constitutiva da experiência humana como experiência do tempo. O tempo vai simultaneamente em direção ao futuro e em direção ao passado. [ ...] O passado em questão é um passado definitivo, o mesmo passado de que se trata no sofisma do futuro contingente: é o instante do tempo que sempre deporta o possível em direção ao necessário, ou seja, o instante do tempo que faz advir a necessidade lógica sob a forma de um ‘estava escrito’. É exatamente aí que se insere a descrição do inconsciente atemporal, o inconsciente como necessidade lógica, já escrita, uma pura memória automática 86.
Afirma-se o sujeito na asserção antecipada, frente ao problema apresentado por Lacan em O tempo lógico, e entendemos que através de escansões significantes depura-se a função da pressa em que se faz reconhecer. No âmbito da situação espacial entre os prisioneiros, a problemática gira em torno de um saber sobre si que leva o outro em consideração, outro que toma o sujeito como objeto da própria indagação. Essa relação de reciprocidade, que caracteriza o tempo de compreender, no limite engendra uma diferença temporal na enunciação sobre si pela urgência do ato conclusivo. A pressa que fomenta a decisão em se pronunciar surge deflagrada pela percepção do atraso com relação aos outros na medida em que, na solução do problema, é preciso colocar-se na situação dos outros dois, ou seja, ver-se como objeto. Na hesitação em duas vezes dos movimentos de saída, é marcada a significância implícita às suspensões temporais e antecipada a conclusão. O ato constitui a posição do sujeito numa operação lógica com relação aos
outros; porém, como na resolução do problema se trata de um sujeito de pura lógica, o corte conclusivo revela um modo peculiar de identificação que está na ordem da coletividade.
O sujeito que se afirma, ao termo do tempo lógico, não é um sujeito coletivo da enunciação. Ele o faz de uma maneira ao mesmo tempo particular e universal: afirmando-se, ele cai sob o golpe da definição do sujeito representado por um significante para um outro significante. A unicidade do sujeito que se afirma e a multiplicidade de formas, ou modos de
subjetivação, que ele assume estão ligadas pela divisão. Essa multiplicidade é necessária à afirmação do sujeito da certeza. A identificação não é dada de saída; ela é antecipada por um ato que divide o sujeito entre ser e pensar. [ ...] Para efetuar a afirmação onde particular e universal se reúnem no ato, deve-se formular uma igualdade da divisão do sujeito com a multiplicidade de sujeitos. [ ...] Nesse sentido, o tempo lógico não é uma lógica do tempo, mas uma lógica do ato 87.
A representação gráfica da banda de Moebius 88 é apresentada por Lacan como paradigma topológico do sujeito em A lógica do fantasma, seminário inédito de 1966. Nessa ocasião, ele evoca o ato como fundador do sujeito, através da ilustração de um recorte pela linha central da banda de Moebius, cuja duplicação remete à divisão e à própria noção de repetição. No ato, o sujeito é equivalente ao significante que atualiza sua falta constitutiva na repetição e é representado por sua própria divisão. A banda de Moebius como superfície planificada apresenta a propriedade de ter apenas um único lado e uma única borda. Exatamente por ligar um lado com seu avesso, representa a relação das formações do inconsciente com os discursos no sistema percepção-consciência. I sso demonstra como as representações literalmente estruturadas no inconsciente transpassam, se enlaçam e emergem em qualquer ponto do discurso corrente.
Justamente, no aspecto que nos concerne, é peculiar que avaliemos tais pontuações temporais significantes ao longo da leitura das reportagens selecionadas sobre substâncias psicoativas. Nessa oportunidade, enfatizamos uma dupla acepção de sujeito, ou seja, sujeito do efeito e sujeito farmacotímico. Com a noção de repetição em Freud, e tomando os tempos lógicos de Lacan como perspectiva interpretativa, introduzimos uma diferença inerente à produção desses sujeitos. Para o sujeito do efeito, trata-se de dimensioná-lo sob o prisma do gozo sexual e das contingências perceptivas referidas à experiência psicoativa em si. Esse sujeito, tomado pela experiência do presente em uma dimensão pontual e evanescente, encontra-se necessariamente subordinado à linguagem; porém, na aleatoriedade que lhe é característica
87 PORGE, Psicanálise e tempo, op. cit., p. 194.
88 A banda de Moebius encontra-se ilustrada pelo holandês Maurits Cornelis Escher na ilustração F, que
encontra sua organização e sentido posteriormente ou aprés-coup na acepção de Lacan. Sua posição se dá pela fala, única via onde se produz um saber sobre a vivência em sua dimensão simbólica e imaginária. Já para o sujeito farmacotímico, trata-se de reconhecê-lo em sua aparição ou derivação a partir dos discursos e narrativas jornalísticas lançadas ao plano da coletividade. Ele está mais próximo dos imperativos de gozo no Super-eu, das ordenações disciplinares e das configurações políticas e sociais que compõem o senso comum.
Sob ponto de vista de Miller 89, se o sujeito do efeito diz de um presente pontual que procura atualizar ou reinscrever, o sujeito farmacotímico encontra-se na espessura dos tempos lógicos, cuja enunciação advém da perspectiva em demarcar seu lugar e objeto de satisfação em relação ao Outro, através dos discursos e significantes que o envolvem. Por esse motivo e para fins dessa análise, ao distinguir os sujeitos sublinhamos desde o início a dicotomia entre experiências psicoativas na particularidade do usuário e no âmbito dos discursos veiculado pelas mídias, o que é manifesto através da sistematização que se segue.
Tratamos especialmente de encontrar nas reportagens estudadas a delimitação significante que envolve o sujeito farmacotímico na sociedade brasileira. Uma vez que significante e gozo não se encontram dissociados, pela teorização que aludimos em relação ao gozo sexual fálico e repetição, não podemos deixar de observar que existem discursos contingentes para os modos integrados ou ameaçadores de consumo. As possíveis polarizações e reiterações que se apresentam em relação às substâncias, sujeitos e efeitos, podem assim se integrar à elasticidade do tempo que advém de uma leitura da imprensa que considera décadas de mediação.