• No results found

7.1 Dual service association role

7.1.1 Mirroring

Partícipes de uma classe social específica, possuidores de uma visão de mundo comum, as personagens de Luiz Ruffato deixam de existir à margem da História no momento em que começam a mover-se. A vida de Dusanjos e Donato acontece, principalmente, no beco de Zé Pinto (Cataguases). A história começa com uma imagem que lembra a escuridão, as linhas fundas, as sombras pronunciadas e o fumo industrial das gravuras de Osvaldo Goeldi177. As qualidades poéticas do “quadro” se desdobram tanto na

matéria narrada como na disposição aforística das orações:

172 Idem ibidem. 173 Op. Cit., p. 105. 174 Idem ibidem.

175 Além da responsabilidade de “saber”, o leitor de Ruffato tem a missão constante de preencher “brancos”,

de cooperar para completar.

176 Corresponde à história “O alemão e a puria”.

53

Um relâmpago rabiscou o quadro-negro da madrugada, o trovão estilhaçou o cristal de silêncio daquele dezembro suarento.

A luminosidade de um outro raio adivinhou cinco ou seis rapazes, passos apressados, outras tantas moças, sombrinhas na mão.

Minutos empós, em procissão, bicicletas tomaram as ruas, a caminho das fábricas.

Quando o apito soou às dez para as seis, os pingos inaugurais explodiram nas costas de uns que corriam, cuidando para não chegar atrasado178.

As indicações temporais (“minutos empós”, “dez para as seis”, “seis e cinco”, “seis e meia”, “quinze para as sete”) recriam a rotina de mais um dia: o operário sai para trabalhar, a esposa -ainda na cama- repara na ausência, acorda e dá uma olhada no berço, toma um austero café da manhã e organiza o que é para lavar e o que é para passar. Dusanjos trabalha de casa. Redirecionado, o olhar onisciente apresenta Marlindo: um pipoqueiro que segue a via da rodoviária. No trajeto, sem nada imaginar, encontra a bicicleta de Donato caída, na boca da Ponte Nova, sobre o Rio Pomba. Após um pensamento assinalado em itálico, encontra um colega da igreja. Diluído o encontro e com o tique-taque anunciando o almoço, dois novos figurantes são introduzidos em um diálogo sem travessões e com falas inseridas no parágrafo, destacadas em negrito. São Vanim (com a novidade de que Donato não apareceu na fábrica) e a esposa, Zazá179. As personagens são

vizinhas no beco e compartilham comidas, tragédias, notícias e rumores. Recém-assentada, a família sofre o baque da ausência do marido na nova moradia (eis o enredo). Nada do que segue na história será contado de maneira linear. Como quem assina um acordo ciente de todas as disposições, o leitor de Ruffato encontrar-se-á na obrigação de ir e voltar, reconstituir o texto, seu precedente e um bocadinho do que virá.

“O alemão e a puria” é uma narrativa episódica. Daí a necessidade de examinar cada uma das partes, divididas pelo silêncio das idas e vindas. Na segunda parte, uma personagem-chave é apresentada (Zé Pinto). Ou seja: apresentado em ação, rindo do estranho complemento (um homem branco e muito alto, uma mulher índia e baixa) do par que, recém-casado, procura o primeiro teto na cidade: “O senhorio ofertou um três- cômodos, ditou o valor do aluguel mais a pena-d’água, adiantou que exigia carteira assinada,

Pra evitar problemas mais tarde”180. Artifício elástico, os traços (físicos e psicológicos) destas personagens mostram-se maleáveis (o que não significa necessariamente acoplados

178 Op. Cit., p. 109.

179 Mais na frente, Vanim protagonizará uma das histórias (vide “A decisão”, em O mundo inimigo). 180 Op. Cit., p. 110.

54

às circunstâncias materiais). O alemão é descrito com o “céu nos olhos”, “imensas mãos caracachentas” e cabelo “louro-palha”. A índia é “baixinha”, tem “zoím-puxado”181

e “preto cabelo escorrido”. Mais do que uma caracterização, o escritor introduz no texto o motivo de uma reação.

A moradia do casal pode ser lida como um movimento de avanço-retrocesso, oscilação familiar quando se considera a sua presença nas histórias do Inferno provisório, nos arranjos discursivos e agora nas decisões das personagens. A troca dos respectivos tetos originais (Donato pelos lados de Rodeiro, no sítio da família; Maria dos Anjos em um sítio entre Rodeiro e Ubá) pelo cômodo do beco, reflete o conflito da necessária expansão (uma família abrindo-se caminho) de cara com a urbanidade trunca (não mais xucra), sem planejamento e sem qualidade na infra-estrutura mas com um caseiro à frente dos deveres coletivos. A cotidianidade da manufatura também cobra vida: Donato começa desempregado, preenche uma ficha na Industrial e obtém carteira-assinada. Assim que receber “o primeiro ordenado”182, o pagamento do aluguel ficará em dia. Embora incertos,

salário, arrendamento e organização serão indícios de uma realidade diferente.

“Acontece” na página “um” espaçamento maior e em seguida uma aglomeração na rua. Zé Pinto declara a desaparição oficial do Alemão. O sumiço foi cedo (antes do turno na fábrica, depois de sair de casa). Marlindo entra no beco, lembra da bicicleta e cogita um cenário ruim. O clima da cozinha acolhe Dusanjos, Zulmira (mulher de Marlindo) e outros vizinhos. Quando a notícia da desaparição chega, o narrador relembra o cáustico recebimento que a vizinhança ofereceu ao casal: “o Alemão era motivo de chacota no beco. Moleirão, gato-sapato nas mãos da puria, retardado. Mais para a frente, marido exemplar, que não perde dia de serviço e ainda por cima faz hora-extra”183

. A força da convivência, porém, transmuta a antipatia em afeição. A função do desvio184 não é outra que corporificar

a personagem coletiva, tão verduga quanto vítima. As resoluções de rigor são acionadas: a polícia assume a busca, boatos vão boatos vêm, uma amiga de Dusanjos tenta serenar os ânimos e o sol se esconde sem novidades.

Uma digressão reconduz o texto às origens de Donato (conhecido como Alemão pela brancura, mas descendente de uma família de italianos). Filho mais velho desse galho dos Spinelli, trabalhador do campo e radioescuta de plantão (“A próxima música vai para

181 Olhinhos puxados. 182 Op. Cit., p. 111. 183 Op. Cit., p. 112.

184 Emprega-se a palavra “desvio” para assinalar a mudança de atitude

55

você, ouvinte anônimo na distância”185), o jovem leva uma vida simples. Espera-se que

acompanhe a lavoura do pai, mas não é o que acontece: por sorte as próprias escolhas não acarretam maiores dificuldades. É aceitando o convite de Zé (filho de Assunta e Orlando Spinelli) para um baile em Ubá, que Donato conhece Maria dos Anjos. A coincidência, porém, deve-se a um servidor das redondezas:

Uma charrete passou, o homem ofereceu carona. Boa tarde!

Tarde! Estão indo pro Diamante? É. Monta aí, sô. Obrigado. Vêm do Rodeiro? É. De que família? Spinelli. Dos Spinelli d’Os Gomes? É. Ô, meu deus, são de casa, então!, Vão praonde, que mal pergunte? Pra Ubá. Vão pegar o trem das cinco? É. Ele nunca passa às cinco... É? É, passa às cinco e meia, quinze pras seis... Vão fazer o quê, lá? Num baile. Baile?, Em Ubá?, Quê isso!, Nunca ouviram falar dos bailes daqui do Diamante não?, Baile é aqui, os de Ubá ficam no chinelo, aqui vem gente de tudo quanto é canto, Sobral Pinto, Astolfo Dutra, Dona Eusébia, até de Ubá, acreditam?, Aí, chegamos, Alá a estação!, Vocês não querem tomar um café lá em casa não?, A patroa faria muito gosto186.

Colocando o charreteiro no texto -seus movimentos e a sua fala-, Ruffato dá notoriedade a uma conversa de caminho, revela a cordialidade de um empregado corrente, assinala lugares próximos (reais) e recria (com o tipo de letra adotado, idêntico para perguntas e respostas) uma conversa entre semelhantes: “ser de casa” implica códigos comuns, proximidade física e cultural. É uma forma de mostrar a parte bonita, humana, da coletividade a que o romance se dedica. Um pequeno branco (indício de mudança temática) preenche o espaço da narrativa. No primeiro encontro ao som da música, Dusanjos repara em Donato e o convida a dançar. Resultado do convite do primo (Zé), a cena acontece no sítio Os Lopes, do Diamante (região recomendada pelo charreteiro), onde ela mora. O compasso desajeitado da primeira vez se converte rapidamente em namoro, o namoro em casamento e o casamento em um rebento de nome José Batista.

A arritmia temporal é esclarecida com indicações como “dia seguinte”, frequentes nas tramas centrais dos romances clássicos. Se em narrativas tradicionais são de freqüente aparição personagens principais e secundárias, nas de Ruffato as qualidades de principal ou secundária pertencem às histórias (sendo principal a que está em destaque e secundárias as passagens conexas que remetem a algum tipo de origem, de procedência). Nos casos em que o passado transborda as expectativas, pode-se pensar no desejo de resgate187.

185 Op. Cit., p. 113.

186 Op. Cit., p. 114.

56

O ponto de vista contribui para discernir personagens protagonistas de não- protagonistas. Os segundos nunca aparecem enunciados apenas pelo nome, pois a mera “legenda” neste contexto pode ser compreendida de formas inteiramente contrárias: ou como uma perda de prestígio histórico ou como a abertura a uma nova intriga. Dar este peso (nome, profundidade e função) a seres não-protagonistas denota comprometimento com a sociedade narrada e com a História sobre a qual se busca refletir. A personagem de Baiano -espécie de faz-tudo- confirma o que vem sendo discutido.

Em “O alemão e a puria”, Baiano chega ao lugar dos acontecimentos ainda com luz do ia, toma coragem com um gole de cachaça, examina a margem do Pomba, mergulha na correnteza seguindo o suposto corpo afundado e vai embora só à noite. O leitor terá passado pelo menos meio dia de “vida ficcional” em “companhia” do mergulhador solidário188. Frente a uma “personagem habitada” (o coletivo) ou a personagens individuais

cujas histórias se entrelaçam (família, vizinhos, conhecidos), conclui-se que um dos grandes eixos temáticos de Ruffato é a coletividade. O sociólogo brasileiro José de Souza Martin aborda a vereda (brasileira) da seguinte maneira:

Na urgência de acelerar a História para nos libertarmos de nosso atraso, de nossa pobreza e de nossas insuficiências, fizemos uma opção compreensível pelos grandes temas e pelos processos sociais decisivos da transformação social a qualquer preço. E o fizemos fechando os olhos e a inteligência ao reiterativo, como se fosse simples estorvo da História189.

Sim, o Inferno provisório insiste em uma tipologia de personagens que luzem reiterativos, até que a releitura adverte: “ouvido ao tambor!”. Refazer as suas existências provoca a mesma sensação de quem liga o rádio pela primeira em um país estrangeiro e escuta “a mesma batida” em todas as músicas. A diferença só começará a ser percebida, apreciada, após muito “escutar” uma vida e outra e outra.

A índia que Maria dos Anjos representa é o antônimo dos índios que povoam os mitos de fundação. De tudo acontece com ela que, aliás, prefere ficar longe da lavoura: depois do namoro, Dusanjos casa com Donato. Depois da tragédia, sobrevive a uma enchente, muda-se para um “dois-cômodos” no fundo do beco (com o bebê), se esforça por retomar a vida produtiva após a separação forçosa e (seguindo conselhos nos quais não acredita e tentando evadir a angústia que lhe produz não saber o acontecido) procura na jurisdição da fé a saída para seu extravio.

personagens que, embora valorizem o passado, também desejam estar longe da terra natal.

188 A história de Baiano intitula-se “O profundo silêncio das manhãs de domingo”, in: Vista parcial da noite. 189 José de Souza Martins, A sociabilidade do homem simples, São Paulo, Contexto, 2008, p. 12.

57

Cortesia da Hilda, a primeira iniciativa é visitar o Centro Espírita Bezerra de Menezes, dirigido por um casal vizinho: “Sentaram, seu Antero colocou à sua frente um copo d’água, um lápis, papel e o Evangelho Segundo o Espiritismo. Apagou a luz. Vamos

orar, disse, de mãos dadas. Pegou o livro, abriu-o, capítulo XXV, ‘Buscai e Achareis”190.

Contrastante com a realidade, a “recomendação” do evangelho e o trecho que Antero lê na seqüência falam de uma incongruência. Dusanjos acredita no que acabou de ouvir e chega em casa confiante, mensagem psicografada na mão. Entre os discursos que cruzam o texto, encontra-se a “tradução” do rabisco do médium: “Às vezes nos revoltamos contra nosso fado, achamos injustos nossos infortúnios, mas todos os nossos percalços são degraus a serem vencidos em nossa caminhada rumo à perfeição”191

. A personalização exacerbada das angústias alheias por parte do pastor é uma grande ironia. Afinal, que outra saída -além de buscar e talvez achar- poderia ter a índia?

Uma pesquisa sobre o sentimento da “perda” -elaborada pelas psicólogas Isolina Maria Proença e Daniela Iaquinta Cipriano-, ajuda a entender a procura espiritual de “pessoas” como Dusanjos. Com a impotência que vive a moça, não é difícil imaginar como toda e qualquer tentativa ajuda a conter momentaneamente a sensação de vazio, de privação; como traduzem a necessidade de preencher, de superar um sumiço com traços de falecimento:

Quando perdemos subitamente alguém querido, ou somos surpreendidos por situações imprevisíveis, nossa mente automaticamente se nutre de interesses espirituais. A morte e a perda despertam necessidade de buscas espirituais, para a tranqüilização e a certeza de que não somos somente matéria e sim algo muito maior192.

Dois anos depois da visita a Antero e Arminda, Dusanjos vive uma estranha situação. A porta da sala se abre e ela pergunta se é o marido. Ninguém-nada responde. De manhã, a moça fala do acontecido com a amiga Bibica193: “Minha filha, o caso é sério,

vou conversar com a Sá-Ana, (...) tida e havida bruxa, velhíssima, pixaim branco (...),

poucos amigos, menos conversas, mas sempre pronta a benzer um mau-olhado”194

. Sá-Ana atende-as tomada pela Tia Joana e infunde esperanças à consultada (sem responder diretamente ao que a índia pergunta). A insônia não cede apesar de acreditar ter recebido boas notícias.

190 Ruffato, Op. Cit., p. 118.

191 Idem ibidem.

192 Cf. Sentimentos que causam stress, org. por Marilda Lipp, São Paulo: Papirus, 2009.

193 “A mancha”, “Jorge Pelado” e “Ciranda” (em O mundo inimigo) se detêm sobre o universo de Bibica. 194 Ruffato. Op. Cit., p. 119.

58

Um ano depois, sem conseguir a necessária distância das angústias, Dusanjos aceita o convite de Marlindo para pertencer à Cruzada Evangêlica: “No púlpito, microfone na mão, tornou-se exemplo. (...) Eu estava cega e surda, mas Cristo-Jesus me iluminou

(Aleluia, irmãos!), (...) Agora estou salva porque reencontrei o verdadeiro caminho (Graças a Deus!)”195

. Só então, quando por fim encontra coragem para sobreviver, quando atinge a cúspide de um projeto (o de ser pastora), uma vizinha entrevê o Alemão. Alguém avisa à esposa, o final fica literalmente suspenso, e o leitor torce para que o mistério de Donato seja retomado em outro momento do Inferno provisório.