3.4 Actors
3.4.1 Service role management as a service role
A leitura dos documentos apresenta algumas regularidades. Na produção propiciada pelo currículo da ESCS, destaca-se o eixo orientador das mudanças da formação
Cultura: Escola, Currículo e Especialidade Médica Institucionalização/Construção
Social da Realidade
Teoria de Campo Médico
FIGURA 6 - Belaciano MI. Ampliação das bases teóricas para estudos de um currículo integrado de educação médica.
médica em quase toda a narrativa documental. É possível perceber a construção de hábitos de educação médica e a presença da SES-DF com sua matriz filiada ao
habitus médico. No recorte da realidade sobre a qual se debruça para a formação
médica, identifica-se sua significação para dentro da educação médica a partir do
habitus do campo médico. Os servidores da SES passam a exercer a docência,
tornando-se um ator legitimado para falar e agir com autoridade sobre a formação médica e não somente sobre a prática médica. A ESCS adota o contexto de uma rede de serviços de saúde na construção de seu papel, e nela insere o currículo como elemento pedagógico central, com ênfase para as metodologias ativas de aprendizagem em um contexto real de práticas médicas em diversos níveis assistenciais. Esse movimento permite a elaboração de práticas pedagógicas com vistas a suprir as deficiências pedagógicas detectadas na educação médica vigente, atrelando-lhe, inclusive, uma nova compreensão da avaliação da formação médica enquanto meio e não como um fim em si. A ESCS exerce, desde o início, importante papel de liderança naquilo que supõe corresponder a uma resposta à crise da educação médica, conjugada à crise da assistência médica e da saúde no Distrito Federal. Utilizando-se da integração ensino-serviços para desenvolver suas explicações, a escola procura estabelecer ‘medidas’ para adequar as práticas médicas.
O habitus propiciado pela ESCS foi fundado sob a égide de uma tradição da prática médica baseada na organização e na capacitação de um corpo de docentes a partir de ganhos crescentes de autoridade, participando da disputa pela hegemonia no campo médico mediante formalização do espaço de formação na escola médica enquanto papel de igualdade de condições no campo, cujos objetos se discute. Este
habitus coloca em cena temas de educação médica, e a ESCS reúne argumentos que
irão sustentar uma elaboração sobre a formação médica e, ao mesmo tempo, permite-lhe se posicionar, enquanto instituição especializada, frente a estes debates. Como um todo, a ESCS insere seus objetos de trabalho em redes conceituais que tematizam o ‘ensino superior público, a saúde e a sociedade brasileira’, de onde extrai uma base que contextualiza sua atuação educacional para o ensino médico dentro do
ensino superior e de onde também emerge uma nova compreensão de sua inserção na dinâmica social da produção e da transformação da escola médica brasileira bem como para a prática médica.
Fica evidente a emergência do seu reconhecimento como um novo ator no campo da educação médica. Seus docentes e seus estudantes emergem inclusive como liderança em fóruns de educação médica em todo o país, auxiliados nesta função pelas metodologias ativas de aprendizagem, que no processo pedagógico propicia que se tornem sujeitos pró-ativos. Eles entram em cena como atores que se constituem como fator importante e diferenciador no processo de debate em relação ao que vem sendo realizado habitualmente na educação convencional. É o momento de quem fala não são somente as ‘autoridades’ instituídas, mas também ‘outras autoridades’ que se fizeram no processo educacional e, mesmo como iniciantes nesses cenários, são comprovadamente reconhecidos, já que são detentores de um saber sobre um futuro que também lhes interessa diretamente.
Institucionalmente, a ESCS buscou também legitimar-se enquanto interlocutor qualificado não só para a formação médica, mas também para os serviços de saúde e sua gestão, sobre os sentidos que devem ser dados às políticas de saúde do Distrito Federal, porém não consegue. É o caso, por exemplo, quando busca formular o estabelecimento do Serviço de Verificação de Óbito − SVO, assim como posicionando − se com um olhar crítico sobre a gestão dos serviços da SES-DF, e sobre vários aspectos pedagógicos dos programas de residência médica próprios da SES. Apesar da vasta produção − parte da qual se encontra nos Anexos A e B − ela encontrou barreiras intransponíveis quando questionava a gestão estabelecida, a absurda inexistência de serviços de SVO em plena capital do país e a falta de clareza dos objetivos e das metodologias educacionais sobre aspectos estratégicos da formação médica especializada, que seguem um padrão simplista, comum aos programas de residência médica de todo o país. Nessas ocasiões, como em várias outras, era perceptível a tentativa de desqualificá-la como autoridade sobre os serviços de saúde. A tentativa de alinhavar seu objeto de trabalho − a educação − de forma a naturalizá- los com os serviços de saúde redundam em resistências de outros habitus
estabelecidos nos serviços de saúde da SES-DF. Mesmo desenvolvendo e consolidando a integração ensino-serviços como modelo de formação, esse tratamento evidencia dificuldades tanto culturais como institucionais na relação entre os campos da educação e da saúde. A SES procura dar-lhe um tratamento de mera utilizadora de espaços de estágio em seus serviços, o que é uma característica da superada IDA. Tais dificuldades exemplificam a forma inerente de lidar com os objetos de trabalho pelas próprias forças constitutivas do campo onde a ESCS está inserida. São emblemáticos os resultados empíricos trazidos pelo ENADE 2007, 2010 e 2013 expressos na Tabela 2 à página 113. Mesmo reconhecidos, debatidos e apresentados aos diferentes grupos dirigentes que iam se sucedendo na SES-DF, esses resultados, embora considerados excelentes, mostraram-se como elementos insuficientes para garantir, por si só, sua institucionalização. Instituir mudanças era algo mais complexo, requerendo renovar a própria compreensão do processo, do significado de sua constituição e da estratégia enquanto projeto de formação médica.
A partir de sua produção, a ESCS passa a limitar sua atuação exclusivamente ao campo da educação médica, buscando crescente legitimidade e disputando sua autoridade e reconhecimento junto ao campo educacional e a outras escolas médicas no espaço propiciado pelas atividades da ABEM. Tais debates, exercidos no contexto das escolas médicas brasileiras, concentram-se na conjuntura propiciada pelo MEC e pelo MS, versando sobre a discussão de como alcançar o perfil de formação que as escolas médicas do país educam. O desvelamento dessas amplas relações de poder em que a ESCS se viu envolvida, mesmo que limitadas e exercidas apenas no campo simbólico, permitiu-lhe ‘sobreviver’ com seu projeto pedagógico inovador em conjunturas institucionais distritais que lhe eram muito adversas.
Com sua rede explicativa, juntamente com a vivência e o estabelecimento de outras relações de poder que o currículo da ESCS propiciava diretamente nos serviços de saúde e na comunidade, permitiram-lhe sobreviver e superar o potencial do habitus educacional mecanicista predominante no campo educacional médico. A forma em que ocorreu o ganho simbólico de capital foi pela introdução de uma outra rede
explicativa sobre a formação médica, produtora de novos significados sobre o problema da formação médica. Seu modelo educacional conseguia expressar as novas categorias educacionais ofertadas. Era, portanto, um ganho de capital simbólico para a ESCS, e embora seu currículo fosse muito distinto do que era estabelecido como o ‘ideal da educação médica’ pela cultura hegemônica em todo o país, este capital simbólico lhe foi propiciado por uma inegável base conquistada por meio de uma inequívoca avaliação externa nacional, daí sua valoração como uma escola vista como ‘vanguarda’. Com isso, a ESCS passou a organizar sua produção com mais segurança e de maneira mais sistematizada, como pode ser averiguado na produção do material instrucional no Anexo A (p. 239 - 459) por parte de seus professores, refletindo diretamente na naturalização de seu ambiente. Porém, a questão do que vinha sendo instituído permanecia em suspenso, como uma questão a ser resolvida a posteriori.
Cruz4 chama atenção que é relevante observar que estas novas redes explicativas são produtoras de novos significados para o debate sobre a formação médica, pois
tanto o currículo quanto a gestão da escola, bem como outros temas debatidos, passam a ser entendidos como fruto de uma produção social desprovida de neutralidade, ou seja, que envolvia os agentes e o objeto. Assim, opera-se uma mudança no sentido de perceber como a realidade se constrói, produzindo uma outra proposta, caracterizada pela manifestação do desejo dos participantes. Dessa maneira, o novo desenho que se pretende da realidade é construído a partir do desejo de tecer uma outra realidade pautada na construção do novo”. (p. 311).
Mas retornando a Bourdieu80, que afirma que o habitus é um “sistema de disposições duráveis e estruturadas predispostas a funcionarem como estruturas do indivíduo, onde se incluem regras e valores oriundos dos processos de socialização” (p. 60), também percebemos, no caso da ESCS, como os agentes de um determinado campo possuem diferentes habitus que foram adaptados às exigências e às necessidades do campo em questão, funcionando como estruturas de seus docentes, com regras e valores. Parte muito importante da ESCS é o seu currículo, mas o currículo não se encontra contido apenas na ‘grade’ curricular. O objeto de estudo − o currículo − mostra uma multidimensionalidade que não se manifesta claramente no campo da educação médica hegemônica. Tendo o currículo como categoria explicativa e
fazendo a leitura teórica dos ‘produtos’ da ESCS, considerando o currículo da ESCS como campo, e a observação de suas propriedades de situação e de suas propriedades de posição na rede de relacionamentos − com seus atores exercendo regras e valores próprios − explicitaram-se relações que se manifestam a partir do modelo curricular adotado, tornando possível esclarecer os diversos sentidos de seu modelo educacional.
Conforme Bourdieu87, vimos que o mundo social é composto por campos de produção social organizados a partir de relações objetivas entre pessoas em torno de interesses em comum. Tais interesses, para conquistar legitimidade social, devem ser capazes de satisfazer determinadas necessidades humanas, um ‘valor de uso’ segundo Cruz4.
Não se tratando de uma institucionalização de uma escola como as demais do sistema educacional, mas de uma escola com as características da ESCS, inteiramente ambientada em uma rede de serviços de saúde, cabe indagar se o ‘valor de uso’ produzido pela ESCS é suficiente para lhe garantir sustentabilidade institucional, o que discutiremos a seguir.